Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 89 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Divindade

 

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Graça acidental

Minha última história vem de Bali, de uma cultura que encara a criatividade de uma maneira muito diferente da nossa, aqui no Ocidente. Quem me contou essa história foi meu velho amigo e professor Ketut Liyer, um curandeiro que, anos atrás, aceitou me ter como pupila e compartilhar comigo suas consideráveis sabedoria e graça.

Como me explicou Ketut, a dança balinesa é uma das maiores expressões artísticas do mundo. É belíssima, complexa e muito antiga. É também sagrada. Há séculos as danças são executadas ritualmente nos templos sob a tutela dos sacerdotes. A coreogra a é protegida com zelo e passada de geração para geração. Essas danças têm como nalidade nada menos que manter o universo intacto. Ninguém pode a rmar que os balineses não levam sua dança a sério.

Na década de 1960, o turismo em massa chegou a Bali pela primeira vez. Os turistas estrangeiros caram imediatamente fascinados pelas danças

sagradas. Os balineses, que não se acanham em exibir sua arte, recebiam de braços abertos os turistas nos templos para assistir às danças. Cobravam uma pequena taxa por esse privilégio, os turistas pagavam e todos cavam felizes.

No entanto, à medida que o interesse dos turistas por essa antiga forma de arte foi aumentando, os templos começaram a car lotados de espectadores. A situação foi cando um pouco caótica. Além disso, os templos não eram particularmente confortáveis, e os turistas precisavam se sentar no chão, com as aranhas, a umidade etc. Então alguma brilhante alma balinesa teve a fantástica ideia de levar os dançarinos até os turistas. Não seria mais agradável e confortável para os australianos queimados de sol se pudessem assistir às danças, digamos, em volta da piscina de um resort em vez de dentro de um templo úmido e escuro? E os turistas poderiam ao mesmo tempo desfrutar de um coquetel e realmente aproveitar o show! E os dançarinos também ganhariam mais dinheiro, pois haveria espaço para públicos maiores.

Então os balineses começaram a apresentar suas danças sagradas nos resorts para melhor acomodar os turistas pagantes, e todos caram felizes.

Bem, na verdade, nem todos caram felizes.

Os visitantes ocidentais mais escrupulosos estavam escandalizados. Aquilo era uma profanação do sublime! Aquelas eram danças sagradas! Era uma arte sagrada! Não se pode fazer uma dança sagrada no ambiente profano de um resort de praia — e por dinheiro, ainda por cima! Era uma abominação! Prostituição espiritual, artística e cultural! Sacrilégio!

Esses ocidentais escrupulosos compartilharam seus receios com os sacerdotes balineses, que os escutaram educadamente, ainda que a noção dura e impiedosa de “sacrilégio” não se traduza com facilidade para o pensamento balinês. Da mesma forma, as distinções entre “sagrado” e “profano” não são tão inequívocas quanto no Ocidente. Os sacerdotes balineses não entendiam ao certo por que aqueles ocidentais escrupulosos enxergavam os resorts de praia como lugares profanos. (A nal, a divindade não estava presente ali como em qualquer outro lugar na Terra?) Também não entendiam muito bem por que os simpáticos turistas australianos, com suas roupas de banho grudentas, não podiam assistir às danças sagradas enquanto bebiam seus Mai Tais. (Será que aquelas pessoas, que pareciam ser tão boas e amáveis, não mereciam testemunhar a beleza?) Mas os ocidentais escrupulosos estavam claramente incomodados com a situação, e os balineses, que não gostam de contrariar seus visitantes, decidiram resolver o problema.

Os sacerdotes e os mestres da dança se reuniram e tiveram uma ideia inspirada — uma ideia inspirada em uma maravilhosa ética de leveza e con ança. Decidiram que criariam novas danças que não fossem sagradas e que somente essas danças com “certi cado de laicidade” seriam apresentadas para os turistas nos resorts. As danças sagradas seriam devolvidas aos templos e reservadas apenas às cerimônias religiosas.

E foi exatamente o que zeram. E o zeram com facilidade, sem nenhum drama nem trauma. Adaptando gestos e passos das antigas danças sagradas, elaboraram novas danças que eram basicamente uma grande baboseira, e começaram a apresentar esses movimentos sem sentido nos resorts turísticos em troca de dinheiro. E todos caram felizes, pois os dançarinos estavam dançando, os turistas, se divertindo, e os sacerdotes, ganhando dinheiro para os templos. E o melhor de tudo era que os ocidentais escrupulosos agora podiam relaxar, pois a distinção entre o sagrado e o profano fora restabelecida.

Tudo estava em seu devido lugar — na mais perfeita ordem e de nitivamente resolvido.

Acontece que não existe ordem perfeita nem nada é de nitivo.

No decorrer dos anos seguintes, aquelas novas danças bobas e sem signi cado foram se tornando cada vez mais re nadas. Os jovens dançarinos foram se aperfeiçoando nelas e, trabalhando com um novo senso de liberdade e inovação, aos poucos transformaram as apresentações em algo realmente magní co. Na verdade, as danças estavam cando cada vez mais sublimes. Em mais um exemplo de uma sessão espírita inesperada, apesar de todos os seus esforços para se afastar da espiritualidade, aqueles dançarinos balineses pareciam estar de alguma forma atraindo a Grande Magia dos céus, ainda que sem querer. Bem ali, à beira da piscina. Tudo o que pretendiam fazer no início era divertir os turistas e se divertir, mas agora estavam esbarrando em Deus todas as noites, e todo mundo podia ver. Podia-se argumentar que as novas danças haviam se tornado ainda mais sublimes do que as velhas e batidas danças sagradas.

Os sacerdotes balineses, percebendo esse fenômeno, tiveram uma ideia maravilhosa: por que não pegar emprestadas as novas danças inventadas, levá-las para os templos, incorporá-las às antigas cerimônias religiosas e usá-las como uma forma de oração?

Aliás, por que não substituir algumas daquelas velhas e batidas danças sagradas por essas novas danças inventadas?

E assim zeram.

Foi então que as danças sem signi cado se tornaram danças sagradas, porque as danças sagradas tinham perdido seu signi cado.

E todos caram felizes — exceto aqueles ocidentais escrupulosos, que agora estavam totalmente confusos, pois não sabiam mais o que era sagrado e o que era profano. Tudo havia se misturado. Os limites entre superior e inferior, leve e pesado, certo e errado, nós e eles, Deus e a Terra já não eram tão claros... e todo esse paradoxo os deixava em pânico.

Não consigo deixar de imaginar que esse era o plano dos sacerdotes malandros desde o início.

 

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