Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Canários em uma mina de carvão
Acha que estou errada? Você é uma daquelas pessoas que acredita que a arte é a coisa mais séria e importante do mundo?
Se esse for o caso, meu amigo, você e eu precisamos seguir caminhos diferentes.
Ofereço minha própria vida como prova irrefutável de que a arte não importa tanto quanto às vezes nos levamos a acreditar. Porque, sejamos honestos, você teria di culdade em encontrar um trabalho que não fosse objetivamente mais valioso para a sociedade do que o meu. Diga uma pro ssão, qualquer pro ssão: professor, médico, bombeiro, zelador, reparador de telhados, rancheiro, segurança, lobista político, pro ssional do sexo, até consultor, que nunca quer dizer nada de especí co — todos são in nitamente mais essenciais ao bom funcionamento da comunidade humana do que qualquer romancista jamais foi ou jamais será.
Há um diálogo da série de TV 30 Rock que resume perfeitamente essa ideia. Jack Donaghy está zombando de Liz Lemon, a rmando que, como uma mera escritora, ela é totalmente inútil para a sociedade. Liz, por sua vez, tenta defender sua fundamental importância social.
Jack: “Em um mundo pós-apocalíptico, que função a sociedade teria para você?”.
Liz: “Bardo viajante!”.
Jack, desdenhoso: “Canário em mina de carvão”.
Acho que Jack Donaghy estava certo, mas não considero que essa seja uma verdade desanimadora. Pelo contrário, para mim é empolgante. O fato de que posso passar a vida fazendo coisas objetivamente inúteis signi ca que não vivo em uma distopia pós-apocalíptica. Signi ca que não estou exclusivamente presa à labuta da mera sobrevivência. Signi ca que ainda temos espaço su ciente em nossa civilização para os luxos da imaginação, da beleza e da emoção — e até da completa frivolidade.
A criatividade pura é magní ca precisamente porque é o oposto de tudo na vida que é essencial ou inevitável ( comida, abrigo, remédios, estado de direito, ordem social, responsabilidades comunitárias e familiares, doença, perda, morte, impostos etc. ). A criatividade pura é mais que uma necessidade; é uma dádiva. É a cobertura do bolo. Nossa criatividade é um bônus extravagante e inesperado do universo. É como se todos os deuses e anjos tivessem se reunido e dito: “Sabemos que não é fácil viver aí embaixo como um ser humano. Aqui, tomem alguns prazeres”.
Em outras palavras, não me desanima nem um pouco saber que o trabalho que venho fazendo durante toda a vida é — pode-se argumentar — inútil.
Isso só me faz querer brincar.
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