Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 85 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Faça outra coisa

 

Então como é que você se livra do fracasso e da vergonha para seguir levando uma vida criativa?

Em primeiro lugar, perdoe-se. Se fez alguma coisa que não deu certo, deixe para lá. Lembre-se de que você é apenas um principiante, ainda que esteja trabalhando em sua arte há cinquenta anos. Aqui, somos todos principiantes e morreremos todos principiantes. Então deixe para lá. Esqueça o último projeto e vá procurar o próximo de coração aberto. Quando eu escrevia para a revista gq, meu editor-chefe, Art Cooper, certa vez pegou para ler um artigo no qual eu vinha trabalhando havia cinco meses (um relato aprofundado de uma viagem à Sérvia, que lidava com questões políticas e que, aliás, custou uma pequena fortuna à revista ). Uma hora depois, ele voltou e me disse o seguinte: “Isto não está nada bom e nunca vai car. Parece que você não tem capacidade para escrever esta história. Não quero que perca nem mais um minuto nisso. Passe imediatamente ao próximo projeto”.

O que foi bastante abrupto e chocante, mas — minha nossa! — que e ciência!

Obediente, segui adiante.

Adiante, adiante, adiante — sempre adiante.

Não pare, siga em frente.

O que quer que você faça, tente não car pensando muito em seus fracassos. Você não precisa realizar autópsias em seus desastres. Não precisa saber o que tudo aquilo signi ca. Lembre-se de que os deuses da criatividade não são obrigados a nos dar explicações para nada. Aceite sua decepção, reconheça-a pelo que é e siga em frente. Faça picadinho do fracasso e use-o como isca para tentar sgar outro projeto. Pode ser que um dia tudo passe a fazer sentido — porque você precisou passar por toda essa bagunça para chegar a um lugar melhor. Ou talvez nunca venha a fazer sentido.

Que seja.

Siga em frente assim mesmo.

O que quer que aconteça, mantenha-se ocupado. (Sempre sigo este sábio conselho de Robert Burton, estudioso do século XVII, a respeito de como sobreviver à melancolia: “Não que isolado, não que parado”.) Encontre algo para fazer — qualquer coisa, mesmo que seja um tipo completamente diferente de trabalho criativo —, só para esquecer a angústia e a pressão. Certa vez, quando estava tendo di culdades com um livro, me matriculei em um curso de desenho só para abrir algum outro tipo de canal criativo em minha mente. Não sei desenhar muito bem, mas isso não importava; a única coisa que importava era que eu estava me mantendo em comunicação com o trabalho artístico de alguma forma. Estava futucando meus próprios botões, tentando alcançar a inspiração de qualquer maneira possível. Finalmente, após ter desenhado o su ciente, a escrita recomeçou a uir.

Einstein chamava essa tática de “jogo combinatório”: a exploração de um canal mental para abrir outro. É por isso que ele costumava tocar violino quando estava tendo di culdades para resolver um problema matemático; após algumas horas de sonatas, normalmente conseguia encontrar a resposta que procurava.

Creio que parte da estratégia do jogo combinatório está em diminuir os riscos para, assim, acalmar o ego e os medos. Tive um amigo que, quando jovem, foi um talentoso jogador de beisebol, mas acabou não aguentando a pressão e baixou seu rendimento em campo. Então abandonou o beisebol e começou a jogar futebol. Não era um grande jogador, mas gostava do esporte e, quando fracassava, não cava tão arrasado, pois seu ego podia se tranquilizar, dizendo a si mesmo que aquele não era seu jogo. Tudo o que importava era o fato de estar fazendo alguma atividade física, algo que o trouxesse de volta à sua própria pele, que o zesse parar de se preocupar e lhe permitisse recuperar uma sensação de desenvoltura corporal. En m, foi divertido. Após um ano jogando futebol só por diversão, voltou ao beisebol e, de repente, se deu conta de que ainda conseguia jogar — melhor e com mais leveza do que nunca.

Em outras palavras, se você não conseguir fazer o que quer, vá fazer alguma outra coisa.

Vá passear com o cachorro, catar todo o lixo que encontrar na rua em frente a sua casa, vá passear de novo com o cachorro, fazer uma torta de pêssego, pintar umas pedrinhas com esmalte colorido e colocá-las em uma pilha. Você pode achar que isso é procrastinação, mas, com a intenção certa, não é; é movimento. E qualquer movimento é melhor do que a inércia, pois a inspiração sempre será atraída para o movimento.

Então acene os braços. Faça alguma coisa. Produza alguma coisa. Qualquer coisa.

Chame atenção para si com algum tipo de ação criativa e — acima de tudo — con e em que, se criar uma comoção gloriosa o bastante, mais cedo ou mais tarde a inspiração voltará a encontrá-lo.

 

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