Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 24 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Trabalho duro × pó de pirlimpimpim

 

 

Acredito nisso porque creio que somos todos capazes de esbarrar de vez em quando em nossas vidas com uma sensação de mistério e inspiração. Talvez não possamos ser todos puros canais divinos como Ruth Stone, vertendo criações imaculadas todos os dias sem nenhum obstáculo ou dúvida... mas podemos chegar mais perto dessa fonte do que imaginamos.

A maior parte de minha vida como escritora, para falar a verdade, não tem essa Grande Magia no estilo macumba de raiz. A maior parte dessa minha vida consiste meramente em trabalhar duro, com muita disciplina e sem nenhum glamour. Sento diante da escrivaninha e trabalho feito uma condenada. E é assim que funciona. A maior parte não tem nada de encantamento de pozinho mágico.

Mas às vezes esse encantamento acontece. Às vezes, enquanto escrevo, sinto como se estivesse em uma daquelas esteiras rolantes de aeroportos; preciso percorrer um longo caminho até o portão de embarque e minha bagagem ainda está pesada, mas é como se estivesse sendo delicadamente impulsionada por uma força exterior. Há algo me carregando — algo poderoso e generoso —, e esse algo de nitivamente não sou eu.

Talvez você conheça essa sensação. É a sensação que temos quando fazemos ou produzimos algo maravilhoso e mais tarde, ao re etirmos sobre aquela obra, pensamos: “Nem sei de onde veio isso”.

Você não consegue repetir aquilo; não consegue explicar. Mas a impressão que tem é a de que estava sendo guiado.

Isso só me ocorre raramente, mas, quando ocorre, é a sensação mais magní ca que se pode imaginar. Acho que não existe na vida felicidade mais perfeita do que esse estado, exceto, talvez, a sensação de se apaixonar. Na Grécia antiga, o termo usado para de nir o mais alto grau de felicidade humana era eudaimonia, que basicamente signi ca “ser habitado por um bom daimon”, ou seja, ter uma espécie de guia espiritual criativo divino tomando conta de você. (Observadores modernos, talvez por não se sentirem confortáveis com essa noção de mistério divino, chamam-no simplesmente de “estado de uxo”.) No entanto, tanto os gregos quanto os romanos acreditavam na ideia de um daimon criativo — uma espécie de elfo doméstico, por assim dizer, que vivia na casa das pessoas e às vezes as ajudava em seus trabalhos. Os romanos tinham um termo especí co para esse prestativo elfo doméstico. Para eles, esse era o gênio de cada um: nossa deidade guardiã, o canal de nossa inspiração. Ou seja, os romanos não acreditavam que uma pessoa com dons excepcionais era um gênio, e sim que tinha um gênio.

É uma distinção sutil, porém importante (ser × ter), e, na minha opinião, um construto psicológico. A ideia de um gênio exterior ajuda a manter o ego do artista sob controle, distanciando-o de certa forma do fardo de receber todos os créditos ou toda a culpa pelo resultado de seu trabalho. Em outras palavras, se o trabalho for bem-sucedido, você é obrigado a agradecer a seu gênio exterior pela ajuda e não se deixar levar pelo narcisismo completo. Por outro lado, se o trabalho fracassar, a culpa não é totalmente sua. Você pode dizer: “Ei, não olhe para mim. Meu gênio não apareceu hoje!”.

De uma forma ou de outra, o vulnerável ego humano ca protegido.

Protegido da in uência corruptiva dos elogios.

Protegido dos efeitos corrosivos da humilhação.

 

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