Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Aprendizado
O curioso é que de fato mantive esses votos durante anos. Ainda os mantenho. Quebrei muitas promessas na vida (inclusive os votos de meu primeiro casamento) , mas nunca aquela.
Mantive esses votos mesmo durante o caos de meus vinte e poucos anos, uma época de minha vida em que fui vergonhosamente irresponsável em todos os outros sentidos imagináveis. No entanto, apesar de toda a minha imaturidade, imprudência e irresponsabilidade, ainda honrei meus votos à escrita com a delidade de um peregrino religioso.
Escrevi todos os dias naquela época. Durante um tempo, tive um namorado que era músico e que praticava todos os dias. Ele tocava escalas; eu escrevia pequenas cenas ccionais. A ideia era a mesma: nos manter ocupados com nossas respectivas artes, permanecer perto delas. Nos dias ruins, quando não sentia absolutamente nenhuma inspiração, marcava trinta minutos no timer da cozinha e me forçava a sentar e escrever alguma coisa, qualquer coisa. Tinha lido uma entrevista com John Updike na qual ele dizia que alguns dos melhores romances já produzidos haviam sido escritos em uma hora por dia. Calculei que poderia sempre arranjar pelo menos trinta minutos diários para me dedicar à escrita, independentemente do que mais estivesse acontecendo ou de quão mal eu achasse que o trabalho estava indo.
E, de modo geral, o trabalho de fato ia mal. Eu realmente não sabia o que estava fazendo. Às vezes sentia que estava tentando tricotar usando luvas de forno. Tudo levava uma eternidade. Eu não tinha técnica, habilidade. Às vezes levava um ano inteiro só para terminar um conto minúsculo. Na maior parte do tempo, de qualquer forma, tudo o que fazia era imitar meus autores preferidos. Passei por uma fase de Hemingway (quem não passa?), mas também por uma fase bastante séria de Annie Proulx e por outra um tanto quanto constrangedora de Cormac McCarthy. Mas é isso que você precisa fazer no começo; todo mundo imita antes de poder inovar.
Por algum tempo, tentei escrever como uma romancista gótica sulista, porque achava que aquela era uma voz muito mais exótica do que minha própria perspectiva ianque. Não era uma escritora sulista particularmente convincente, claro, mas isso porque nunca tinha vivido um dia sequer de minha vida no Sul. ( Uma amiga, que é de fato sulista, me disse, irritada, depois de ler uma de minhas histórias: “Você põe todos esses homens sentados na varanda, comendo amendoim, e você mesma nunca na vida cou sentada numa varanda, comendo amendoim! É muita cara de pau, menina!”. Bem, fazer o quê? A gente tenta.) Nada daquilo era fácil, mas essa não era a questão. Eu nunca esperei que escrever fosse fácil; somente que fosse interessante. E, para mim, sempre foi. Mesmo quando eu não conseguia acertar, ainda era interessante para mim. Ainda é. Nada jamais me interessou tanto. Aquele profundo sentimento de interesse me manteve trabalhando, mesmo quando eu não tinha nenhum sucesso palpável.
E, lentamente, fui melhorando.
A vida tem uma regra simples e generosa: você melhorará em tudo aquilo que praticar. Por exemplo, se tivesse passado anos jogando basquete, fazendo massas de confeitaria ou estudando mecânica automotiva todos os dias, a esta altura provavelmente seria craque em arremessos de lance livre, no preparo de tortas ou no conserto de caixas de câmbio.
Em vez disso, aprendi a escrever.
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