Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 77 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Uma boa jogada de malandro

 

 

Sou amiga de Brené Brown, autora de A coragem de ser imperfeito e de outras obras sobre a vulnerabilidade humana. Brené escreve livros maravilhosos, mas eles não lhe vêm com facilidade. Ela sua, luta e sofre durante todo o processo de escrita, e sempre foi assim. Contudo, recentemente, apresentei a Brené essa ideia de que a criatividade é para os malandros, não para os mártires. Era uma ideia da qual ela nunca tinha ouvido falar. (Como explica Brené: “Olhe, venho de um ambiente acadêmico, que é profundamente arraigado no martírio. A loso a é: ‘ Você precisa ralar e sofrer durante anos em solidão para produzir trabalhos que só quatro pessoas vão ler’”.) Mas quando Brené entendeu essa ideia da malandragem, começou a prestar mais atenção nos próprios hábitos e percebeu que suas criações vinham de um lugar demasiadamente escuro e carregado dentro de si. Já havia escrito vários livros de sucesso, mas todos tinham sido para ela como uma estrada de provações medieval: nada além de medo e angústia durante todo o processo. Nunca questionara toda aquela angústia, pois acreditava ser perfeitamente normal. A nal, artistas sérios só podem provar seu mérito através da dor profunda, certo? Assim como muitos outros criadores, Brené aprendera a con ar na dor acima de tudo.

No entanto, quando se sintonizou com a possibilidade de escrever usando a energia da malandragem, sua vida mudou. Percebeu que o ato de escrever em si era de fato difícil... mas que contar histórias não era. Brené é uma contadora de histórias cativante e ama falar em público. É uma texana de quarta geração com um dom para tecer contos como poucos. Sabia que, quando dizia suas ideias em voz alta, elas uíam como um rio. Porém, quando tentava escrevê-las, elas se estagnavam completamente.

Então Brené descobriu como burlar o processo.

Para seu mais recente livro, tentou algo novo: uma astuciosa jogada de malandro de altíssimo nível. Convocou duas de suas amigas mais queridas para se juntarem a ela em uma casa de praia em Galveston a m de ajudá-la a terminar o livro, cujo prazo de entrega estava chegando.

Pediu a elas que cassem lá sentadas no sofá e tomassem notas detalhadas enquanto ela lhes contava histórias sobre o assunto do livro. Após cada história, pegava as anotações das amigas, corria para o quarto, trancava a porta e escrevia exatamente o que tinha acabado de lhes contar, enquanto esperavam pacientemente na sala. Assim, Brené conseguiu reproduzir no papel o tom natural da própria voz, do mesmo modo que a poetisa Ruth Stone encontrou uma maneira de reproduzir os poemas enquanto eles a atravessavam. Brené então voltava correndo para a sala e lia em voz alta o que acabara de escrever. As amigas a ajudavam a destrinchar ainda mais a narrativa, pedindo que se explicasse com novas anedotas e histórias, e, mais uma vez, tomavam notas. Brené então pegava essas anotações e voltava para o quarto para transcrever as histórias.

Preparando uma armadilha de malandro para a própria narrativa, Brené encontrou uma maneira de apanhar o tigre pela cauda.

O processo envolveu muitas risadas e besteiras. A nal de contas, eram três amigas sozinhas em uma casa de praia. Saíam para comprar tortilhas, cerveja e para visitar o golfo. Divertiram-se à beça. Esse é o exato oposto da imagem estereotipada do artista atormentado se debatendo sozinho em seu estúdio no sótão, mas, como me disse Brené, “não quero saber mais daquilo. Nunca mais

carei sofrendo isolada para escrever sobre o tema da conexão humana”. E seu

novo truque funcionou às mil maravilhas. Nunca antes havia escrito tão rápido, tão bem e com tanta con ança.

Veja bem, ela não estava escrevendo um livro de comédia. Um processo leve não precisa necessariamente resultar em um produto leve. A nal de contas, Brené é uma socióloga de renome que estuda a vergonha. Aquele era um livro sobre vulnerabilidade, fracasso, ansiedade, desespero e exibilidade emocional conquistada a duras penas. O resultado em suas páginas foi tão profundo e sério quanto precisava ser. A única diferença é que ela se divertiu enquanto o escrevia, pois nalmente entendeu como driblar o sistema. E, ao fazê-lo,

nalmente acessou a própria fonte abundante da Grande Magia.

É assim que um malandro faz o trabalho.

Com leveza.

Sempre com leveza.

 

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