Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
A cauda do tigre
Uma das melhores explicações que já ouvi a respeito desse fenômeno — isto é, sobre a maneira como as ideias penetram e abandonam a seu bel-prazer a consciência humana — veio da maravilhosa poetisa americana Ruth Stone.
Nós nos conhecemos quando Ruth já tinha quase noventa anos, e ela me regalou com histórias sobre seu extraordinário processo criativo. Contou-me que, durante a infância em uma fazenda na Virgínia, às vezes estava trabalhando no campo quando de repente ouvia um poema vindo em sua direção — ouvia-o atravessar a paisagem, veloz como um cavalo a galope. Sempre que isso acontecia, sabia exatamente o que precisava fazer: “corria como o diabo” para casa, tentando se manter à frente do poema, esperando conseguir chegar a um papel e um lápis rápido o su ciente para poder agarrá-lo. Assim, quando o poema passasse por ela, poderia pegá-lo e anotá-lo, deixando que as palavras vertessem sobre a página. Às vezes, contudo, não era rápida o bastante e não conseguia chegar ao papel e ao lápis a tempo. Quando isso ocorria, sentia o poema atravessar seu corpo. Ele permanecia dentro dela por um instante, em busca de uma reação, então ia embora antes que ela pudesse agarrá-lo — “galopando pela terra”, nas palavras de Ruth, “à procura de outro poeta”.
No entanto, às vezes (e essa é a parte mais louca) ela quase perdia o poema. Conseguia segurá-lo, explicou, “pela cauda”. Como se agarrasse um tigre. Então praticamente puxava o poema de volta com uma das mãos enquanto o anotava com a outra. Nesses casos, o poema aparecia na página da última palavra para a primeira, de trás para a frente, porém intacto.
Isso, meus amigos, é mais um exemplo da Grande Magia, no melhor estilo macumba de raiz, de deixar o cabelo em pé.
Mas eu acredito.
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