Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 64 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

A bela fera

 

 

Então como podemos interpretar essa história?

A interpretação cínica seria: “Isso é uma prova inequívoca de que o mundo é profundamente injusto”.

Pois vejamos os fatos: Lois Rosenthal não quis publicar “Conversa de alce” quando o recebeu de uma autora desconhecida, mas decidiu publicá-lo quando o recebeu de uma famosa agente literária. Portanto, o importante não é o que você conhece, mas quem conhece. O talento não signi ca nada, o que importa são os contatos, e o mundo da criatividade — aliás, o mundo de modo geral — é cruel e injusto.

Se quiser enxergar as coisas dessa forma, vá em frente.

Contudo, não foi assim que enxerguei. Pelo contrário, para mim aquilo foi mais um exemplo da Grande Magia — e, mais uma vez, um exemplo brilhante. A meus olhos, aquela era uma prova de que nunca devemos nos entregar, de que nem sempre não signi ca não e de que reviravoltas milagrosas do destino podem acontecer com aqueles que persistem.

Além disso, tente imaginar quantos contos por dia Lois Rosenthal estava lendo na década de 1990. ( Já vi pilhas de manuscritos não lidos em redações de revistas; imagine uma torre de envelopes pardos amontoados até o teto.) Todos gostaríamos de acreditar que nosso trabalho é original e inesquecível, mas, sem dúvida, em determinado ponto, tudo deve se misturar — até as histórias com temas de animais. Além do mais, não sei em que estado de espírito Lois estava quando leu “Conversa de alce” na primeira vez. Talvez o tenha lido no m de um longo dia de trabalho, após uma discussão com um colega ou pouco antes de precisar ir ao aeroporto apanhar um parente que não estava muito ansiosa para ver. Também não sei como estava seu estado de espírito na segunda vez que leu o conto. Talvez tivesse acabado de voltar de uma revigorante viagem de férias. Ou pode ser que tivesse acabado de receber uma ótima notícia: de que um ente querido não estava com câncer, a nal de contas. Quem sabe? Tudo o que sei é que, quando Lois Rosenthal leu meu conto pela segunda vez, ele ecoou e repercutiu em sua consciência. Mas esse eco só estava em sua mente porque eu o havia plantado ali, muitos anos antes, quando lhe enviei o conto pela primeira vez. E também porque tinha permanecido no jogo, mesmo após a recusa inicial.

Esse incidente também me ensinou que essas pessoas — os guardiões dos portões de nossos sonhos — não são robôs. São apenas pessoas como nós. São imprevisíveis e peculiares, um pouco diferentes a cada dia, assim como você e eu. Não existe nenhum modelo preciso que possa prever o que cativará a imaginação de um indivíduo ou quando isso ocorrerá; é preciso alcançá-lo no momento certo. Mas, como não temos como saber o momento certo, é necessário maximizar nossas chances. Arriscar-nos. Precisamos nos pôr em evidência com ânimo obstinado e continuar persistindo.

O esforço compensa, pois quando a conexão nalmente se estabelece, a sensação é indescritível, de outro mundo. Porque é isto que signi ca ser el à vida criativa: você tenta, tenta e tenta e nada funciona. Mesmo assim, você continua tentando, continua buscando, e, às vezes, no lugar e no momento mais inesperados, nalmente acontece. Você estabelece a conexão. De repente, tudo se encaixa. Às vezes, fazer arte é como participar de uma sessão espírita ou vagar pela noite, tentando atrair um animal selvagem. Temos a sensação de estar fazendo algo impossível e até tolo, até que ouvimos o estrondo dos cascos e uma bela fera irrompe na clareira, nos procurando com a mesma urgência com que a procurávamos.

Então é preciso continuar tentando. É preciso continuar vagando pela

oresta escura, tentando atrair a Grande Magia. É preciso seguir buscando de

maneira el e incansável, torcendo para um dia conseguir experimentar aquela divina colisão de comunhão criativa — seja mais uma vez ou pela primeira vez.

Porque, quando tudo se encaixa, é incrível. Quando tudo se encaixa, a única coisa que podemos fazer é nos curvar em sinal de gratidão, como se nos tivesse sido concedida uma audiência com o divino.

Pois foi isso que de fato aconteceu.

 

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