Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Tom Waits intervém
Anos atrás, entrevistei o músico Tom Waits para um per l na revista gq. Já falei sobre essa entrevista antes e provavelmente falarei sobre ela para sempre, pois nunca encontrei ninguém que se expressasse de maneira tão articulada e sábia a respeito da vivência criativa.
Durante a entrevista, Waits se lançou em um discurso extravagante e exaltado sobre todas as diferentes formas que as ideias para novas músicas assumem quando estão tentando nascer. Algumas músicas, a rmou, lhe vêm com uma facilidade quase absurda, “como beber sonhos de canudo”. Outras, porém, requerem um esforço muito maior de sua parte, “como cavar batatas da terra”. Há músicas que são grudentas e esquisitas, “como chiclete grudado debaixo de uma mesa velha”, enquanto outras são como pássaros selvagens, dos quais é preciso se aproximar pela lateral, com discrição e delicadeza, para não assustá-los.
As músicas mais difíceis e petulantes, no entanto, só respondem a uma mão rme e uma voz autoritária. Há músicas, a rma Waits, que simplesmente não se permitem nascer e empacam a gravação de todo um álbum. Em momentos como esse, Waits pede que todos os outros músicos e técnicos deixem o estúdio para que ele possa ter uma conversa séria com a música teimosa. Anda de um lado para outro sozinho no estúdio, dizendo em voz alta: “Escuta aqui! Nós vamos todos fazer um passeio juntos! A família toda já está na van! Você tem cinco minutos para entrar, senão este álbum vai partir sem você!”.
Às vezes funciona.
Às vezes não.
Às vezes é preciso deixar para lá. Algumas músicas simplesmente ainda não estão seriamente querendo nascer, disse Waits. Só querem perturbá-lo, tomar seu tempo e monopolizar sua atenção — talvez estejam esperando que outro artista apareça. Ele assume uma atitude losó ca a respeito dessas coisas. Costumava sofrer e se angustiar quando perdia uma música, contou-me, mas agora con a. Se uma música quer mesmo nascer, Waits con a que virá até ele da maneira certa e no momento certo. Caso contrário, a manda embora, sem ressentimentos.
“Vá perturbar outra pessoa”, diz à música irritante que não quer ser música. “Vá perturbar Leonard Cohen.”
Com o passar dos anos, Tom Waits nalmente começou a se permitir lidar com a criatividade de maneira mais leve: sem tanto drama, sem tanto medo. Muito dessa leveza, diz ele, veio de observar os lhos crescerem e de ver sua total liberdade de expressão criativa. Notou que eles se sentiam plenamente no direito de criar músicas o tempo todo e, quando as terminavam, as jogavam fora “como pecinhas de origami ou aviões de papel”. Então cantavam a próxima música que chegava até eles pelo canal da inspiração. Nunca pareciam se preocupar com a possibilidade de que o uxo de ideias pudesse ser interrompido. Nunca se estressavam a respeito de sua criatividade e nunca competiam contra si mesmos; apenas viviam confortavelmente em sua inspiração, sem questioná-la.
Waits tinha sido o oposto disso como criador. Contou-me que lutou profundamente com a criatividade durante a juventude, pois — como muitos jovens sérios — queria ser visto como importante, signi cativo, denso. Queria que seu trabalho fosse melhor do que o de outras pessoas. Queria ser complexo e intenso. Houve angústias, tormentos, bebedeiras, noites escuras da alma. Estava perdido no culto do sofrimento artístico, mas dava a esse sofrimento outro nome: dedicação.
Contudo, observando os lhos criarem de maneira tão livre, Waits teve uma epifania: na verdade, nada daquilo era assim tão importante. “Percebi que, como compositor”, disse-me, “a única coisa que faço, na verdade, é criar joias para enfeitar a mente dos outros.” A música nada mais é do que decoração para a imaginação. E só. Essa conclusão, a rmou Waits, pareceu lhe abrir as portas. Compor tornou-se menos doloroso depois disso.
Criação de joias mentais! Que trabalho legal!
Isso é basicamente o que todos nós fazemos — todos nós que passamos os dias produzindo coisas interessantes sem nenhuma razão lógica especí ca. Como criador, você pode produzir o tipo de joia que quiser para a mente das pessoas (ou simplesmente para a própria mente). Pode criar obras provocativas, agressivas, sagradas, ousadas, tradicionais, honestas, devastadoras, divertidas, brutais, fantásticas... mas, no m das contas, não passa de criação de joias mentais. É só decoração. E isso é glorioso! Mas, sem dúvida, não é nada pelo qual valha a pena sofrer, está bem?
Então relaxe um pouco, é o que estou sugerindo.
Tente relaxar.
Caso contrário, de que adianta ter todos esses sentidos maravilhosos?
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