Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Nossos anjos amigos
Quero deixar algo perfeitamente claro: não nego a realidade do sofrimento — nem o seu, nem o meu, nem o da humanidade em geral. Apenas me recuso a fetichizá-lo. Sem dúvida, me recuso a buscar deliberadamente o sofrimento em nome da autenticidade artística. Como advertiu Wendell Berry, “atribuir à Musa uma predileção pela dor é chegar perto demais de desejar e cultivar a dor”.
Claro, o artista atormentado às vezes é uma pessoa real. Sem dúvida, há muitas almas criativas por aí que sofrem de sérios distúrbios mentais. ( Por outro lado, há também centenas de milhares de almas com sérios distúrbios mentais que não possuem nenhum talento artístico extraordinário, de modo que associar automaticamente loucura e genialidade me parece uma falácia.) Contudo, precisamos estar alertas para a sedução do artista atormentado, pois às vezes não passa de uma persona, um papel que as pessoas se acostumam a desempenhar. Um papel que pode exercer uma atração pitoresca, com certo glamour sombrio e romântico. Além disso, costuma trazer consigo um benefício colateral extremamente útil: a justi cativa para comportamentos terríveis.
Se você é o artista atormentado, a nal, tem uma desculpa para maltratar seus parceiros românticos, para se maltratar, para maltratar seus lhos, para maltratar todo mundo. Você tem direito a ser exigente, arrogante, grosso, cruel, antissocial, afetado, explosivo, mal-humorado, manipulador, irresponsável e/ou egoísta. Pode beber o dia inteiro e brigar a noite toda. Se você fosse zelador ou farmacêutico e se comportasse assim, as pessoas o chamariam de babaca, e com razão. Mas, como artista atormentado, você tem passe livre, pois é especial. Porque você é sensível e criativo. Porque às vezes faz coisas bonitas.
Não acredito em nada disso. Acredito que é possível levar uma vida criativa e, ainda assim, fazer um esforço para ser uma pessoa decente. Nesse ponto, concordo com o psicanalista britânico Adam Phillips, que argumenta que “se a arte legitima a crueldade, acho que a arte não vale a pena”.
Nunca me senti atraída pelo ícone do artista atormentado, nem durante a adolescência, quando aquela gura pode parecer especialmente sexy e sedutora a meninas românticas como eu. Não me atraía na época e até hoje não me atrai. Já vi muita dor na vida, obrigada, e não levantarei a mão para pedir mais. Também já convivi o su ciente com pessoas com distúrbios mentais para saber que a loucura não é algo a ser romantizado. Além disso, já passei por uma série de períodos de depressão, ansiedade e vergonha em minha vida para entender que esse tipo de experiência não é particularmente produtivo para mim. Não tenho grande amor por meus demônios pessoais nem sinto que lhes devo qualquer tipo de lealdade, pois nunca me foram úteis. Durante meus períodos de sofrimento e instabilidade, percebo que meu espírito criativo ca limitado e sufocado. Descobri que tenho muita di culdade para escrever quando estou triste e que de nitivamente não consigo escrever cção quando estou infeliz. ( Em outras palavras, posso viver um drama ou posso inventar um drama, mas não tenho a capacidade para fazer ambos ao mesmo tempo. ) A dor emocional faz de mim o oposto de uma pessoa profunda; deixa minha vida estreita, super cial e isolada. O sofrimento pega todo esse universo gigantesco e empolgante e o reduz ao tamanho de minha cabecinha triste. Quando meus demônios pessoais assumem o controle, sinto meus anjos criativos se afastarem. Assistem à luta de uma distância segura, mas cam apreensivos. Além disso, vão cando cada vez mais impacientes. É quase como se dissessem: “Moça, por favor, recomponha-se! Ainda temos muito trabalho a fazer!”.
Meu desejo de trabalhar, de colaborar com a criatividade da maneira mais íntima e livre possível, é meu maior incentivo pessoal para lutar contra a dor e levar a vida mais saudável e estável que puder.
Mas isso é apenas graças àquilo em que decidi con ar: o amor.
O amor acima do sofrimento, sempre.
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