Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 26 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Deixe-a ir e vir

 

O mais importante a se entender a respeito da eudaimonia — esse encontro arrebatador entre um ser humano e a inspiração criativa divina — é que não se pode esperar que ela esteja disponível o tempo todo.

Ela vem e vai, e você precisa deixá-la ir e vir.

Sei disso pessoalmente, pois meu gênio — de onde quer que venha — não tem hora para aparecer, não segue horários humanos e certamente não organiza sua programação de acordo com minha disponibilidade. Às vezes suspeito que esteja fazendo bico por fora como gênio de outra pessoa, talvez até trabalhando para vários artistas diferentes, como uma espécie de prestador de serviços criativos autônomo. Há momentos em que tateio no escuro, buscando desesperadamente algum estímulo criativo mágico, mas nada me vem.

Então, de repente — vapt! —, a inspiração chega do nada.

E, com a mesma rapidez que chegou — vupt! —, volta a desaparecer.

Certa vez, tirei um cochilo no trem no caminho do trabalho e, enquanto dormia, sonhei com um conto inteiro, absolutamente intacto. Acordei do sonho, peguei uma caneta e escrevi toda a história em um surto febril de inspiração. Foi o mais próximo que cheguei de ter um puro “momento Ruth Stone”. Algum canal se abriu dentro de mim e as palavras verteram sobre as páginas sem nenhum esforço.

Ao revisar aquele conto, mal precisei mexer em uma palavra. Parecia perfeito do jeito que estava. Parecia perfeito e, ao mesmo tempo, estranho; não era sequer o tipo de coisa sobre a qual eu escreveria normalmente. Vários críticos observaram mais tarde como aquele conto era diferente do resto da coleção. (Um deles chegou a descrever o estilo como “realismo mágico ianque”. ) Era uma história de encantamento, escrita sob o efeito de um encantamento, e até um estranho podia sentir ali a presença do pó de pirlimpimpim. Eu nunca tinha escrito e jamais voltei a escrever nada como aquilo. Ainda penso nesse conto como a joia escondida mais extraordinária que já desenterrei de mim.

Aquilo foi, sem dúvida, a Grande Magia em ação.

Mas foi também há 22 anos e nunca mais aconteceu. (E pode acreditar, nesse meio-tempo já tirei muitos cochilos em muitos trens. ) Desde então, tive momentos de maravilhosa comunhão criativa, mas nada tão puro e emocionante quanto aquele encontro fantástico.

Ela veio e se foi.

O que estou tentando dizer é: se meu plano for car sentada, esperando por outra inspiração criativa ardorosa e imaculada como aquela, pode ser que precise esperar por muito, muito tempo. Então não co parada, esperando para escrever quando meu gênio decidir me fazer uma visita. Na verdade, acredito que é meu gênio quem passa um bom tempo esperando por mim, para ver se levo mesmo esse trabalho a sério. Às vezes sinto que ele está sentado no canto, me observando trabalhar, dia após dia, semana após semana, mês após mês, só para se certi car de que não estou de brincadeira, de que estou realmente empenhada de corpo e alma naquele esforço criativo. Quando meu gênio está convencido de que não estou embromando, às vezes aparece para oferecer ajuda. Em alguns casos, essa ajuda só chega quando já estou trabalhando há dois anos em um projeto; certas vezes, não chega a durar mais de dez minutos.

Quando a ajuda chega — aquela sensação da esteira rolante sob meus pés, da esteira rolante sob minhas palavras —, co feliz da vida e pego carona. Nesses casos, escrevo como se não fosse exatamente eu. Perco a noção do tempo, do espaço e de mim. Enquanto acontece, agradeço ao mistério pela ajuda. E, quando vai embora, deixo-o ir e continuo trabalhando com a nco assim mesmo, esperando que algum dia meu gênio reapareça.

Trabalho de um jeito ou de outro, entende? Com ou sem ajuda. Pois é isso que precisamos fazer para viver uma vida criativa plena. Trabalho de maneira constante e sempre agradeço ao processo. Quer seja tocada pela graça, quer não, agradeço à criatividade por me permitir ao menos interagir com ela.

Porque, de um jeito ou de outro, é tudo incrível: o que temos a oportunidade de fazer, a oportunidade de tentar; aquilo com que, às vezes, temos a oportunidade de comungar.

Gratidão, sempre.

Sempre gratidão.

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