Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
De
De Toy Story ao Rei Leão Superstar do business am ericano, nascido sob boa
estrela, Michael Eisner conseguiu durante m uito tem po dirigir a Disney com o num conto de fadas em que as abóboras se transform assem em opção de com pra de ações. Mas logo as coisas com eçam a se com plicar, a com eçar pela Pixar.
O estúdio de desenvolvim ento tecnológico que ainda é um a espécie de filhote adolescente do gênio criador de Guerra nas estrelas, George Lucas, perde m uito dinheiro e seu inventor com eça a perder o interesse. Não dem ora, e Roy E. Disney, sobrinho de Walt, habilm ente trazido de volta por Eisner, tom a a frente dos estúdios de anim ação, com tudo que seu nom e significa para a em presa, e identifica na Pixar um centro de inovação essencial e um possível concorrente para a Disney. Ele sabe perfeitam ente que o desenho anim ado está perdendo força na Disney e olha para o futuro. Acontece que o futuro se cham a Pixar. Roy Disney encontra-se discretam ente com os am igos de George Lucas, visita as instalações e fica encantado com a capacidade de reinvenção do cinem a de anim ação através do digital e do 3D, ao passo que a Disney continua realizando seus desenhos anim ados à m ão. Inform ado de que Lucas precisa de dinheiro e está disposto a vender sua participação na Pixar, Roy Disney m ilita por um a aquisição por parte da Disney. Mas Eisner recusa categoricam ente: “Nós não som os um a em presa de R & D”, teria declarado Eisner, querendo dizer que a experim entação, a Pesquisa e Desenvolvim ento não eram seu obj etivo. Com isso, ele perde um a oportunidade histórica em 1985, quando poderia ter com prado a Pixar a preço baixo. Pouco depois, Steve Jobs, que acaba de deixar a presidência da Apple com um a bolada, com pra o estúdio.
Aos 60 anos, cabeça raspada (eu deveria escrever careca), óculos, roupas de grife, Jeffrey Katzenberg é um a das figuras-chave de Holly wood. Muito em pertigado num sofá branco, à beira-m ar, ele gosta de falar. Em nosso encontro, a im pressão que m e causa corresponde bem à im agem tão frequentem ente descrita. Ele é sofisticado, divertido, exato em suas respostas, pertinaz, valendo-se da m entira com o da verdade, transform ando sua própria vida num rom ance, querendo reduzir o interlocutor e às vezes j ogando com ele, e tam bém com os fatos.
Katzenberg aceitou um a entrevista para m e falar de seu novo film e, Shrek 3, das novas tecnologias e da inovação em Holly wood, e logo de entrada vai dizendo que não quer falar da Pixar (que passou a ser um concorrente) nem da Disney (que ele deixou espetacularm ente, depois de um processo rum oroso). Diz-m e que não leu o livro Disney War, um best-seller recente, tratando do seu afastam ento da Disney, e nesse exato m om ento eu sei que ele está m entindo. É o que lhe digo. Ele ri. “Para m im , a Disney é um a história antiga. O que m e interessa é o futuro, e não o passado”, afirm a Katzenberg. Para ele, o futuro é o estúdio que fundou, a Dream Works SKG. Para se vingar da dem issão na Disney ? Katzenberg sorri m ais um a vez. E não responde.
Jeffrey Katzenberg foi o artesão da recuperação da Disney e da aproxim ação com a Miram ax e a Pixar. À frente dos estúdios Disney de 1984 a 1994, ele supervisionou todos os film es que perm itiram à em presa transform ar-se num a das principais m aj ors de Holly wood. “Eu sem pre estive no coração do cinem a m ainstream , fosse na Param ount, depois, durante dez anos, na Disney, e agora à frente da Dream Works. Faço film es para todos os públicos e todas as gerações; film es para percorrerem facilm ente o m undo todo. Hoj e, nós os produzim os em geral em 28 línguas, fazendo de tudo para que sej am ‘big-event m ovies’ nos Estados Unidos e no exterior. Eu diria inclusive que nós os concebem os e fabricam os para ser ‘global big-event m ovies’. Fico com a im pressão de que a vida inteira trabalhei para o grande público. Para causar im pacto nos espectadores. Eu trabalho para o público. Para m im , é m otivo de orgulho. E diria que o público é um bom guia, um bom patrão. Sej a com o for, é ele o m eu patrão.”
O verdadeiro patrão de Jeffrey Katzenberg na Disney era Michael Eisner. Durante um a dezena de anos, eles trabalharam j untos, Eisner pilotando a m ultinacional e Katzenberg, os estúdios Disney.
Com o Roy Disney, Katzenberg entendeu que a Pixar se havia adiantado no cinem a de anim ação e, hom em de diálogo, estabeleceu relações com John Lasseter, que se transform ou na principal figura artística da inovadora start-up de San Francisco. A função exata de Lasseter na Pixar é Chief Creative Officer.
Entre seus proj etos em desenvolvim ento, Lasseter tem um film e que visa j ustam ente dar vida a brinquedos: Toy Story. Ele fala a respeito a Katzenberg, que acha a ideia genial, com a ressalva de que o script, sem um a narrativa coerente nem um verdadeiro story telling, parece-lhe um a “m ess”, segundo sua expressão (um a zona). Ele propõe a Lasseter que a história sej a retom ada inspirando-se nos “classic buddy m ovies”, diz, rem etendo ao gênero de film es que conta a história de dois am igos. “E foi assim que Toy Story se tornou a prim eira colaboração entre a Disney e a Pixar”, conta-m e Thom as Schum acher, ex-presidente dos estúdios de anim ação da Disney, que havia sido incum bido por Eisner e Katzenberg de ser o agente de ligação entre a Disney e a Pixar.
Realizado por John Lasseter, produzido pela Pixar, financiado e distribuído pela Disney, Toy Story bate todos os recordes de bilheteria na sem ana de lançam ento em 1995, arrecadando 191 m ilhões de dólares nos Estados Unidos e 356 m ilhões no resto do m undo. Lasseter ganha um Oscar. Com Toy Story, o cinem a de anim ação torna-se não só um dos setores m ais rentáveis de Holly wood, m as tam bém um dos m ais criativos. Com seus produtos derivados, o film e — que tem o brinquedo com o seu próprio conceito — é particularm ente rentável. Um a das explicações do sucesso de Toy Story, além das inovações tecnológicas e do roteiro estim ulante, centrado, com o pretendia Katzenberg, na história de dois am igos, é a escolha dos atores que dublam os “brinquedos”. Tom Hanks é a voz de Woody na Toy Story da Pixar, assim com o Eddie Murphy, Justin Tim berlake e Rupert Everett serão as vozes na franquia Shrek da Dream Works. O m odelo: um cinem a que fale às crianças e, m ais ainda, com o se fosse um outro film e, às crianças que dorm em em cada um dos pais. A j uventude não é m ais um a idade, m as um a atitude. Pois Walt Disney não gostava de dizer que fazia film es para todos, porque “todo m undo um dia foi criança, e em cada um de nós perm anece um a coisa dessa criança”?
Dessa vez, Michael Eisner entendeu a lição. Mas j á é tarde dem ais para com prar a Pixar. Apesar disso, ele determ ina a Schum acher, o chefe do estúdio de anim ação, que renegocie o contrato com a Pixar, dessa vez a longo prazo, para fazer sete film es, com os lucros a serem divididos m eio a m eio e a Disney controlando inteiram ente os produtos derivados e as franquias. Não dem ora, e a parte da Pixar nas rendas do estúdio de anim ação da Disney chega a 97%, graças a esse contrato. Mas a relação entre a m aj or e o estúdio “independente” pouco a pouco se torna disfuncional. Aum entam as tensões em torno da questão da liberdade de criação, especialm ente em decorrência dos vetos im postos por Eisner a vários proj etos da Pixar. O clim a se degrada, e apesar dos esforços do presidente dos estúdios de anim ação, Tom Schum acher, a Disney e a Pixar se afastam .
No terceiro andar do núm ero 1.450 da Broadway, no escritório da Disney em Manhattan, encontro Thom as Schum acher. Há algum tem po, ele j á não cuida dos desenhos anim ados, m as das com édias m usicais, à frente da Disney Theatrical em Nova York. É o nosso terceiro encontro, e Tom , contrariando a regra de discrição im posta pela Disney a seus dirigentes, fala livrem ente (ele tam bém m e fornece vários contatos, facilitando encontros com dirigentes da Disney em Burbank).
Sobre sua m esa, duas estatuetas representam Bernardo e Bianca. “Foi o prim eiro film e que eu fiz para a Disney ”, j ustifica Schum acher. Vej o tam bém m arionetes, cartazes de film es e, com grande destaque, um a fotografia na qual ele aparece com Bill Clinton (Schum acher é um im portante fundraiser dem ocrata, e foi um dos artesãos das coletas de fundos para a cam panha de Barack Obam a no m eio cinem atográfico em 2008). Vej o ainda um cenário em m iniatura do Rei Leão, e não consigo evitar procurar com os olhos o logotipo da Burger King, pois ainda tenho na lem brança a m em orável cam panha nacional do Rei Leão com as loj as Toy s R’Us, que criaram duzentos novos brinquedos inspirados no film e e um a floresta especial em suas loj as para exibi-los, no m esm o m om ento em que o Rei Leão era transform ado em cam panha prom ocional m aciça para a Burger King — não dava para deixar passar.
A ideia de entrar na Broadway surgiu em 1991, após o sucesso do film e de anim ação A bela e a fera. Quando o principal crítico de teatro do New York Times, Frank Rich, elogia o film e, com parando-o às com édias m usicais da Broadway, Jeffrey Katzenberg, que dirige os estúdios de cinem a, tem um a revelação: por que não um a adaptação para a Broadway ? A ideia é original, em bora ninguém perceba então que representa um a ruptura em relação à tradição da cultura de m assa am ericana: antigam ente, as com édias m usicais de sucesso da Broadway eram adaptadas para Holly wood; agora, os film es de sucesso de Holly wood são adaptados para a Broadway. É um a reviravolta histórica.
Mas falta ainda convencer Michael Eisner, que resiste: “Não precisam os ficar afagando nosso ego, posando de produtores da Broadway ”, reage ele, im pulsivam ente. Com o não é um criativo, o diretor-presidente da Disney cercou-se de gerentes e diretores financeiros que tentam controlar os criadores e lim itar os custos. Entrar na Broadway seria um a loucura, acham eles. Mas rapidam ente Michael Eisner volta a considerar a proposta. E Thom as Schum acher é enviado a Nova York para criar a divisão “teatro” da Disney.
De repente, ouço o grito de Tarzã. Thom as Schum acher continua a falar, im perturbável. O som é em itido de hora em hora em seu escritório pela m arionete de Tarzã. A adaptação de Tarzã pela Disney foi um fracasso na Broadway em 2006.
“Por que Tarzã foi um fracasso e O Rei Leão, um sucesso, não sei dizer”, confessa Tom Schum acher. “Estam os num a indústria criativa, o sucesso nunca é garantido. Os grandes sucessos são raros e os fracassos, frequentes.” Enquanto ele fala, m eu olhar está fixado num a trepadeira de Tarzã no chão do escritório.
Na origem da versão com édia m usical do Rei Leão está o sucesso do film e, que em três anos de distribuição nas salas, em hom e video e produtos derivados, rendeu quase um bilhão de dólares. “Eisner sabia que as indústrias criativas precisam estar constantem ente se renovando. Ele não queria que a Disney se transform asse num m useu, de m odo que era preciso se reinventar a cada dia. Por isso é que, com o eu tinha feito o film e para a Disney, ele finalm ente m e deu sinal verde para levar o Rei Leão para a Broadway ”, explica Schum acher. Ele entra então na aventura com os recursos financeiros que podem os im aginar. Para testar o proj eto, a Disney im ediatam ente libera 34 m ilhões de dólares. Segunda etapa: a com pra de um célebre teatro da 42nd Street, o Am sterdam , um a j oia art nouveau construída em 1903, com suas pinturas m urais alegóricas, as frisas e os m osaicos, aos poucos caída no esquecim ento, à m edida que as sex-shops e a prostituição, as drogas e as gangues invadiam a rua.
Im ediatam ente, Schum acher pressentiu o problem a: com o atrair as fam ílias, entre o film e pornô Garganta profunda e os vendedores de crack? Terceira etapa: sanear o bairro. A Disney se alia ao prefeito republicano de Nova York, fam oso pelo conceito de “tolerância zero”, para revitalizar a Broadway com interferência policial, econôm ica e de entretenim ento para a fam ília. Todas as sex-shops são fechadas por decreto m unicipal, grandes loj as turísticas são abertas com a aj uda de subvenções públicas (entre elas a m aior Virgin Megastore do m undo, um a loj a Gap e um im enso hotel Marriott) e tam bém são recebidas sedes de grandes m ultinacionais de entretenim ento e de redes de televisão, em troca de deduções fiscais. Com isso, a Disney transform a-se no m ascote da operação, com tudo que seu sim ples nom e pode representar a bem da causa da fam ília e da higienização program ada da nova Tim es Square. Um a Disney Store é inaugurada no cruzam ento estratégico da Broadway com a 42nd Street.
A produção do Rei Leão é m inuciosam ente preparada. E é então que Tom Schum acher, pessoalm ente envolvido na produção da com édia m usical, tem a ideia de entregar a direção a Julie Tay m or.
“Eu sou um a artista que diverte”, diz-m e Julie Tay m or, grande dam a do teatro experim ental de Nova York, quando a entrevisto em sua suíte de hotel. “O artista com ‘A’ m aiúsculo não entende o entretenim ento, se satisfaz com um público lim itado para não conspurcar sua arte com o com ércio. É um a atitude elitista, m eio esnobe. Quanto a m im , m e considero na linhagem de um Aaron Copland, de um Leonard Bernstein. Gosto de m isturar os gêneros.” Na década de 1970, Julie Tay m or se form ou em contato com a trupe radical do Bread and Puppet, prom ovendo a greve dos aluguéis, lutando contra a guerra do Vietnã e defendendo a gratuidade dos espetáculos. Na década de 1980, depois de um a longa estada na Índia, ela aos poucos se interessou pelas form as originais de divertim ento para o grande público e pelas m arionetes, ao m esm o tem po em que continuava a fazer arte — recentem ente, a encenação de A flauta mágica na Metropolitan Opera de Nova York.
Mas nem por isso Tay m or tem a m enor ideia do que Schum acher, o chefe da Disney na Broadway, pretende ao entrar em contato com ela. Ele a convida a pensar num a adaptação do Rei Leão. Com o não vira o film e, ela com pra o DVD e, em novo encontro com Schum acher, na Flórida, sugere-lhe que use m arionetes e m áscaras africanas, para que os personagens do film e de anim ação possam ser interpretados por atores. O espetáculo seria dom inado pela m úsica. “O que era tão visual na tela deve ser substituído pela m úsica africana”, sugere ela. De sua parte, Jeffrey Katzenberg, tendo liberado algum as dezenas de m ilhões a m ais para a confecção de cenários espetaculares, tem um a revelação em seu escritório na Team Disney em Los Angeles: o roteiro do Rei Leão deve evocar Hamlet...
A genialidade do espetáculo de Julie Tay m or para a Disney está nisso: essa m istura de gêneros, ao m esm o tem po m ainstream e sofisticados, ao m esm o tem po “high” e “ low”, arte pop e cultura m isturadas. “Há m om entos m uito populares no Rei Leão”, confirm a Julie Tay m or. “E as m arionetes não estão ali para as crianças, m as para os adultos. E tam bém há m uita elegância, sofisticação. Não é arte pura nem apenas divertim ento — eu não m e identifico com pletam ente nem com um a nem com outro. Estou em outra.”
O espetáculo criado por ela em 1998 é m agnífico. A beleza feérica, as m arionetes gigantes e as m áscaras m aravilhosas, os pássaros anim ados atravessando o céu e os antílopes saltando às dezenas, com o querendo salvar a própria vida, a m úsica africana inebriante, o am biente da savana — tudo isso é um verdadeiro encantam ento. Esta com édia m usical tem algo da ingenuidade e da generosidade do j ovem Walt Disney no início da carreira. A repercussão é excepcional, a crítica, unânim e, falando da m ais bela com édia m usical “de todos os tem pos”. O m eio profissional a recom pensa com seis prêm ios Tony — a principal prem iação da Broadway. Porém há m ais: o sucesso do Rei Leão no coração de um a Tim es Square revitalizada rende m ilhões de dólares à Disney. “Quando funciona, com o no caso do Rei Leão, um a com édia m usical é realm ente m uito rentável do ponto de vista econôm ico. Proporcionalm ente, o teatro tem um a m argem de lucro m uito m aior, em com paração com o cinem a”, explica-m e Tom Schum acher em seu escritório. (O custo de produção do Rei Leão não foi divulgado, e Schum acher se recusa a m e inform ar; m as provavelm ente supera 20 m ilhões de dólares, o que faria dele o espetáculo m ais caro j am ais produzido na Broadway.) O sucesso nova-iorquino não é nada em com paração com o que viria depois: há 12 anos o espetáculo percorre os Estados Unidos e o m undo, perm anecendo em cartaz durante anos em vários países, m uitas vezes com casas cheias, apesar das entradas a cem dólares (sem desconto para crianças). Mais de 50 m ilhões de pessoas j á viram O Rei Leão, que rendeu m ais de um bilhão de dólares em todo o m undo. “Esta noite estão em cena 12 m ontagens de O Rei Leão em todo o m undo”, conta-m e Schum acher. E no entanto, trata-se de um espetáculo para países ricos: O Rei Leão não chegou à África, à Am érica Latina nem ao Oriente Médio. “O espetáculo é caro dem ais para ser produzido fora dos países desenvolvidos”, explica Schum acher, acrescentando, sem ironia: “Nesses países, tam bém seria certam ente um sucesso, m as não necessariam ente ‘good business’”.