Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 33 de 67

Páginas do PDF

Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

O roubo dos multiplexes da Warner

Mas em m atéria de atropelos na China ainda houve pior que os episódios envolvendo a Colum bia, a Sony e a Universal: o caso exem plar da Warner.

O roubo dos m ultiplexes da Warner

Conversando com Ellen Eliasoph, chego à conclusão de que a Warner despachou para a China sua m elhor “sino-j urista”. Sinóloga, falando m andarim e cantonês, advogada escolada, especialista em direitos autorais, Ellen Eliasoph vive na China há m ais de vinte anos. Dirige o escritório da Warner Bros. no país enquanto o m arido é um im portante diplom ata no Departam ento de Estado am ericano. Estam os no 23º andar de um a torre, num com plexo ultram oderno onde tam bém se encontra o célebre Grand Hotel Hy att de Beij ing, cuj a piscina zen e spa perm item àqueles que quiserem recuperar forças desfrutar de um am biente com “céu virtual” evocando a Via Láctea e m úsica subm arina dita “neotropical” (m as na verdade extraída, da m aneira m ais banal possível, com o costum a acontecer nos hotéis de luxo da Ásia, de um disco do DJ Stéphane Pom pougnac, Hôtel Costes).

Recuperar forças? “No início, a Tim e Warner estava m uito otim ista com o m ercado chinês”, explica Ellen Eliasoph. “Nossa estratégia consistia em investir nas salas, distribuir nossos film es, com ercializar m aciçam ente nossos DVDs e reinvestir os lucros em novos film es coproduzidos localm ente. A priori, era um a estratégia im placável.” O plano deveria ser seguido, naturalm ente, de um considerável proj eto de instalação de canais de televisão do grupo (CNN, HBO, os canais a cabo Turner) e, naturalm ente, da distribuição dos sucessos da m aj or do disco Warner, na época ainda de propriedade da Tim e Warner.

O ram o de produção local da Warner está sediado em Hong Kong e há cerca de dez anos produz aproxim adam ente um film e por ano, basicam ente em m andarim . “Não é possível produzir um film e chinês na China, é este o paradoxo; produzim os então em Hong Kong”, explica Hsia Mia, j ovem de Hong Kong que estudou na Cornell University nos Estados Unidos e atualm ente dirige a Warner em Hong Kong. Habilm ente, a Warner j oga em vários m ercados: o m ercado de Hong Kong, m oderno, ocidental, no caso de um film e de baixo orçam ento; o m ercado de Taiwan, se o proj eto é m ais internacional, visando um público m ais am plo, pan-asiático, a partir de Taiwan; e finalm ente o m ercado da China continental, quando a Warner dispõe de um orçam ento m aior, de um cineasta conhecido e de estrelas. “São três m ercados chineses, m uito diferentes. Atualm ente, a tendência é que se aproxim em , e o obj etivo da Warner, naturalm ente, é atingir os três ao m esm o tem po”, confirm a Hsia Mia durante um café da m anhã num restaurante trendy na base da torre HSBC de Hong Kong.

O m ais interessante, contudo, e tam bém o m ais perigoso, foi a estratégia de distribuição na China continental proj etada pela Warner. Em vez de ficar refém das redes de salas oficiais, a Tim e Warner teve em 1994, quando a China dá início ao processo de adesão à Organização Mundial do Com ércio e parece inexoravelm ente fadada a se abrir, a ideia lum inosa de investir diretam ente em m ultiplexes. Um acordo de parceria foi firm ado com o organism o oficial China Film para a construção de salas. Criou-se um a j oint-venture com repartição do capital e investim ento de 70% da parte dos am ericanos e 30% para os chineses. Mas seria tom ar os chineses por ingênuos.

Para com eçar, os funcionários de Beij ing explicaram à Warner que ela poderia construir m ultiplexes na China, m as não proj etar neles os seus film es. Seria necessário subm eter-se à censura e, naturalm ente, às cotas. Prim eira ducha fria.

Em seguida, m eses depois, a repartição do capital das salas construídas em regim e de 70-30 entre am ericanos e chineses foi revista, dim inuindo para 51-49 em benefício dos am ericanos. Em Los Angeles, os dirigentes da Warner acharam aquilo estranho. Entretanto, cegados pelas próprias ilusões, chegaram à conclusão de que era “cultural”, pois os contratos chineses eram m uito “vagos” e os am ericanos, m uito “específicos”; assim , continuaram construindo cinem as, chegando ao oitavo. De repente, as autoridades chinesas decidiram m udar a lei e considerar que um a em presa estrangeira não podia ser dona de salas de cinem a, e o percentual do capital foi retroativam ente invertido: 49-51, dessa vez em benefício do parceiro chinês.

“Na Warner Bros., em Los Angeles, o diretor-presidente ficou literalm ente ‘crushed’ (arrasado)”, confessa Ellen Eliasoph, que dirige os escritórios da Tim e Warner na China continental. No topo da torre de Beij ing onde conversam os há m ais de duas horas, instalou-se um silêncio pesado. Essa m ulher forte, calm a, bela, que im agino particularm ente tem ível nas negociações financeiras, tem lágrim as nos olhos. “Nós fizem os tudo: concebem os esses m ultiplexes, fizem os o proj eto, gastam os m ilhões de dólares, treinam os os chineses para dirigi-los e... eles m udaram a lei! Tudo aquilo para nada. Foi sim plesm ente um pesadelo. Os estúdios de Holly wood foram ingênuos dem ais com os chineses. Eles é que foram espertos, nos induziram a lhes oferecer tudo, a lhes dar tudo, e depois tom aram tudo. Foram m uito ‘sm art’. Atualm ente, não existe a m enor esperança de penetrar nesse m ercado.” Um pouco m ais calm a, ela acrescenta: “Você não está escrevendo um livro sobre o cinem a na China: o que é preciso escrever é um livro sobre a corrupção no partido com unista chinês.”

Não será construído um nono m ultiplex da Warner na China. Em Holly wood, a decisão é de sair com pletam ente da j ogada. As outras m aj ors am ericanas que acom panharam a aventura de perto ficam igualm ente consternadas. O exem plo lhes serve de lição. A MPAA, o lobby das m aj ors em Washington, transm ite a m ensagem ao Congresso. Não dem ora, e os Estados Unidos atacam a China na Organização Mundial do Com ércio por entrave ao m ercado internacional.