Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
O sucesso enganador do vídeo game europeu
Isolado, cada um dos países europeus não pesa m uito nos fluxos de conteúdos internacionais, em bora o Reino Unido, a Alem anha e a França deles participem . Mas a Europa dos 27 é forte, ocupando o segundo lugar, depois dos Estados Unidos, nas exportações de conteúdos. Sobretudo, os europeus trocam produtos e inform ação entre si, e de m aneira significativa, conferindo real consistência ao m ercado interno do entretenim ento europeu. Mas o sucesso para por aí. As im portações de conteúdos da Europa, sobretudo provenientes dos Estados Unidos, superam suas exportações, o que torna a balança de pagam entos europeia m uito deficitária em m atéria de cultura e inform ação (ao passo que é am plam ente superavitária para os am ericanos). E as estatísticas m ostram um constante declínio das exportações de m úsica, program as de televisão e film es europeus (o livro resiste m elhor) há cerca de dez anos, a um ritm o de -8% por ano. Em face da Europa dos 27, os cinquenta estados am ericanos protagonizaram nesses m esm os setores um avanço de cerca de 10% ao ano. Grosso m odo, a Europa que vê declinar sua difusão tornou-se o m aior im portador de conteúdos do m undo, ao passo que os Estados Unidos, cuj a difusão explode, são atualm ente, de longe, os m aiores exportadores de im agens e som — e essas exportações têm com o destino sobretudo a Europa. Com o chegam os a esse ponto? É essa pergunta que este capítulo tenta responder.
O sucesso enganador do vídeo gam e europeu Zhabei. Quando eu procurei
saber onde eram desenvolvidos os j ogos O tigre e o dragão e Brothers in Arms do estúdio francês Ubisoft, fui encam inhado nessa direção. Inicialm ente, achei estranho esse nom e, Zhabei. Em qual distrito de Paris ou em qual cidade do interior da França ficaria Zhabei?
A Ubisoft é um dos gigantes do vídeo gam e, e é europeia. Seus rendim entos estão em forte crescim ento, com o os dos concorrentes, a am ericana Electronic Arts e os estúdios Blizzard e Activision (estes dois pertencendo agora ao gigante francês Vivendi). Esse sucesso econôm ico dos j ogos de vídeo gam e é explicado sobretudo pela ascensão dos j ogos na Internet, das assinaturas de produtos m ultij ogos e da conexão total dos consoles de nova geração com a Internet. O Xbox 360 (da am ericana Microsoft), o Play Station 3 (da j aponesa Sony ) e o Wii (da j aponesa Nintendo) são autênticos produtos m ultim ídia. Face ao sucesso dos j ogos da Ubisoft e da Vivendi Gam es, eu tentei entender o segredo do “French touch” no ram o, no qual as em presas francesas são atualm ente as líderes m undiais. E foi assim que descobri Zhabei.
Zhabei é um subúrbio do norte de Xangai, um a zona industrial high tech conhecida com o Shanghai Multim edia Valley. Um a Silicon Valley em m iniatura, que estaria preparando o futuro de um país m astodonte? Não, um a ilustração concreta da transferência das indústrias criativas europeias para a China.
Tendo ao lado Marsupilam i, o tigre-m acaco de pelúcia, e o cão am arelo Martin Matin, Zhang Ian Xiao é o presidente da Fantasia Anim ation, em presa privada de produção de film es de anim ação, desenhos anim ados e vídeo gam es na qual vou parar m eio por engano, pouco antes de visitar a Ubisoft. Ex-diretor da superoficial Shanghai Television, a paixão de Ian Xiao sem pre foi a anim ação e o “esporte eletrônico” (entenda-se: os video gam es). “O nom e da m inha em presa é um a m istura da palavra ‘fantasia’ com a palavra ‘Ásia’”, explica Zhang Ian Xiao em seu escritório de Xangai. A Fantasia Anim ation realiza desenhos anim ados e j ogos encom endados por num erosos produtores e editores europeus.
A um a centena de m etros da Fantasia Anim ation encontram -se o Magic Motion Digital Entertainm ent, um dos m aiores estúdios de anim ação em 3D da China, a Gam e Center, um a das principais em presas de video gam es da região, e, um pouco m ais adiante — finalm ente —, a extensão “offshore” da francesa Ubisoft. Nela são desenvolvidos vídeo gam es com o O tigre e o dragão e Brothers in Arms.
“Os em pregados são m uito bem pagos aqui, m elhor que em outros lugares de Xangai”, explica um dos dirigentes do estúdio. Eles ganham entre 1.500 e dez m il iuanes RMB por m ês (entre 150 e 950 euros). É o dobro de um salário norm al para esse tipo de trabalho em Xangai. Em euros, no entanto, é m enos que o salário m ínim o na França ou nos Estados Unidos, e sem encargos sociais. (Questionados longe do patrão, vários em pregados m e dizem que o salário m édio é inferior a quatro m il iuanes RMB, o equivalente a quatrocentos euros por m ês.) O sucesso com ercial da Fantasia Anim ation, da Magic Motion, da Gam e Center e da extensão chinesa da Ubisoft se explica por essa m ão de obra ao m esm o tem po altam ente qualificada e incrivelm ente barata, o que encanta os europeus. Com o ainda é necessário m uito “tem po/hom em ” para produzir um film e de anim ação ou um video gam e, m esm o na época digital, as em presas ocidentais que m antêm o controle dos roteiros e do m arketing, no início e no fim do processo, terceirizam inteiram ente o resto, ou sej a, toda a produção de seus film es e j ogos, entregado-a a em presas chinesas com o estas que estou visitando em Zhabei.
Percorrendo as instalações da Ubisoft e da Fantasia, encontro centenas de j ovens chineses am ontoados em antigos depósitos que parecem ao m esm o tem po largados, a j ulgar pelo estado geral dos prédios, e ultram odernos, levando-se em conta o núm ero e a qualidade dos com putadores. Em cada sala, em cada andar, engenheiros, técnicos, roteiristas, desenhistas, criadores de im agens desenham , colorem , criam . Parecem apaixonados, entusiastas. De j eans e tênis Nike, têm todos m enos de 30 anos. Cada um em seu “cubicle”, ao m esm o tem po com os outros em “open space” e em sua própria bolha, ouvindo rap am ericano ou pop em m andarim num iPod, um a Coca Zero sobre a m inúscula m esa de trabalho lum inosa.
Na Fantasia Anim ation, sou levado a visitar um escritório conhecido com o “zona”, onde os chefes de proj etos entram em contato com seus clientes europeus, consultando-os para que aprovem , em inglês, as produções, à m edida que avançam : o telefone é usado bem cedo pela m anhã ou tarde da noite, para levar em conta a diferença de fuso. Na Ubisoft, esse diálogo internacional tam bém existe, m as m e surpreendo ao constatar que ele não se direciona para oeste e para a Europa, m as na direção leste, sobre o Pacífico: os chefes de proj etos recebem suas ordens em am ericano, e encom endas chegam regularm ente dos Estados Unidos pela Fedex Worldwide. Todo m undo trabalha “à am ericana”. Acabo de descobrir que os clientes da Ubisoft, um estúdio francês, não estão localizados em Paris, m as na Am érica do Norte (em Vancouver, Montreal e Quebec, no Canadá, assim com o no Texas e na Carolina do Norte, nos Estados Unidos). E por sinal, os recentes sucessos da Ubisoft são caricaturalm ente am ericanos: Assassin’s Creed 2, Avatar, para não falar das adaptações dos rom ances de Tom Clancy para video gam e. Quanto a Prince of Persia, j ogo baseado nos contos das Mil e uma noites, será levado ao cinem a em 2010 pela Disney.
O “french touch” nos vídeo gam es é portanto m uito relativo. Com o na relação da Bertelsm ann com a editora Random House ou da Sony com a m aj or Colum bia, os franceses talvez tenham os m ais im portantes estúdios de vídeo gam es, o que no entanto não é suficiente para transform á-los em j ogos franceses. E o que se aplica à Ubisoft vale ainda m ais no caso da m aj or francesa Vivendi Gam es, que com prou em 2007 o gigante am ericano Activision e o estúdio californiano Blizzard (editor do célebre j ogo “m aciçam ente m ultij ogos” World of Warcraft). Desde então, a Vivendi é a líder m undial dos vídeo gam es. Mas será que seus conteúdos são franceses ou pelo m enos europeus? “Nossos j ogos são im aginados, desenvolvidos e com ercializados nos Estados Unidos”, confirm a um diretor da Blizzard entrevistado em Irvine, perto de Los Angeles. “O fato de pertencerm os a um a m ultinacional francesa não tem qualquer repercussão nos produtos que elaboram os. Na m elhor das hipóteses, os j ogos têm um a certa sensibilidade asiática, pois m uitos j ogos são produzidos na Ásia, m as em caso algum se poderia dizer que têm um a sensibilidade europeia. E de qualquer m aneira, eu não sei o que isso poderia dizer.” O Blizzard tinha um estúdio na França antes de ser com prado pela Vivendi, m as desde então o fechou.
Mais tarde nesse m esm o dia, em Zhabei, sou convidado a alm oçar com as equipes da Fantasia, da Magic Motion e da Ubisoft. Tento com preender a situação j urídica dessas em presas offshore, que m e foge ao entendim ento. No início da refeição, explicam -m e que se trata de em presas “privadas”: grosso m odo, a “econom ia socialista de m ercado” chinesa seria antes de m ais nada um a form a de capitalism o. Aos poucos, entendo que essas em presas “tam bém ” estão ligadas ao Shanghai Media Group, im enso conglom erado público reunindo dezenas de televisões e rádios oficiais e estúdios de cinem a de propriedade da cidade de Xangai. A “econom ia socialista de m ercado” chinesa tam bém é, portanto, um centralism o autoritário socialista. Privadas? Públicas? Eu insisto, para entender os vínculos entre essas sociedades e de que m aneira podem ocorrer transações financeiras com a Europa e os Estados Unidos, que suponho substanciais. Na China, é preciso saber esperar e voltar a fazer a m esm a pergunta periodicam ente, em todas as etapas de um a entrevista, sem insistir, m as sem nunca desistir, até finalm ente obter a resposta. No fim do alm oço, m eus interlocutores explicam que de fato cada um a dessas em presas irm ãs funciona com firm as “passarelas” sediadas em Hong Kong, que se incum bem das transações financeiras. “Para prom over a entrada de dinheiro, a em presa e o banco de Xangai funcionam bem ; m as quando precisam os fazer com que ele saia, para com prar m aterial, investir ou fazer coproduções, dependem os da em presa de Hong Kong.” Eu não conseguiria m ais detalhes sobre os vínculos entre as em presas públicas chinesas e suas firm as de fachada em Hong Kong. Mas entendo que, para m anter os fundos seguros, evitar os lim ites sobre m ovim entos de capitais internacionais estabelecidos por Beij ing e efetuar transferências im portantes de capitais internacionalm ente, Hong Kong é incontornável.