Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 38 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

11. Lost in translation

No 52º andar do Park Hy att Hotel no bairro de Shinj uku, em Tóquio, com ecei m inha investigação sobre os fluxos m usicais na Ásia esperando um a noite inteira um produtor de “J-Pop” que não apareceu. Felizm ente, o lugar é espetacular, com um a das vistas m ais im pressionantes de Tóquio. Depois de m e inform ar, fiquei sabendo que m eu entrevistado m e esperava num outro café, no 38º andar. Prêm io de consolação: o New York Bar do 52º andar é o lugar onde Bill Murray e Scarlett Johansson se encontram no film e Lost in Translation. Acontece que a questão da tradução está j ustam ente no cerne da circulação de conteúdos na Ásia.

A m úsica j aponesa contem porânea é conhecida hoj e com o “J-Pop” (de Japan Pop). Fala-se tam bém de “K-Pop” no caso do pop sul-coreano, de “canto-pop”, tratando-se do pop chinês produzido em Hong Kong, e às vezes de “m andarin-pop” (ou pop continental), o pop cantado em m andarim , m as m uitas vezes produzido em Taiwan. Esses fluxos culturais “pop” na Ásia são com plexos: desenham um a nova cartografia das indústrias criativas asiáticas, sendo interessante decifrá-la entre Tóquio e Beij ing, Xangai e Seul, Bangcoc e Jacarta. Decidi assim acom panhar o J-Pop, o K-Pop e o “canto-pop” em um a dezena de países da Ásia, para saber se existe um a cultura asiática com um . Mas o fato é que a m úsica não funciona com o o cinem a: apesar de perm anecer no m esm o continente, estou diante de trocas culturais m uito diferentes.

“Existem dois tipos de m ercados internacionais para o J-Pop”, explica-m e, em Tóquio, Ichiro Asatsum a, presidente da Music Publishers Association of Japan, na sede desse im portante lobby da m úsica. “Existe um m ercado m ais asiático, para o qual o J-Pop pode ser exportado com o m úsica; e existe um m ercado europeu e am ericano para o qual o J-Pop é exportado com o produto de acom panham ento dos desenhos anim ados, dos film es de anim ação, dos vídeo gam es e das séries de televisão. São dois m ercados distintos.”

Na Ásia, o J-Pop tem força na Coreia do Sul, nos países reunidos na sigla “SEA” (South-East Asia, ou Sudeste asiático), m as sim plesm ente não existe na Índia, pois o subcontinente indiano tem um a fronteira quase herm ética para as trocas de conteúdos culturais com a Ásia oriental. Resta a China: “O J-Pop penetra na China, m as por vias transversas”, explica Masaru Kom ai, presidente da Fuj i Pacific Music, entrevistado em Tóquio. “Vias transversas”: a explicação parece algo enigm ática.

Depois de dois m eses num a dezena de países da Ásia, para realizar essa investigação, eu entendi o que significavam essas “vias transversas”. Em prim eiro lugar, são naturalm ente um a referência à pirataria, m uito dissem inada na Ásia, e que no caso da China pode chegar, tratando-se de m úsica e cinem a, a 95% (inform ação, é claro, im possível de tirar a lim po, que no entanto foi fornecida pela m aioria de m eus interlocutores no Japão, na Coreia, no Sudeste asiático e na própria China). Mas esse “desvio” por vias transversas pode significar algo m ais sutil: contornar através das “cover-songs”. O J-Pop é m ais fascinante do que parece. Com o tantas vezes acontece no m undo do entretenim ento, as estratégias, o m arketing e a difusão dos produtos culturais são m ais interessantes que os conteúdos propriam ente ditos.