Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 48 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

L. A., Latin America.

(Talvez, m as ao m e lem brar de que o costureiro Gianni Versace, que vivia em Ocean Drive, em Miam i, foi assassinado por um gigolô serial-killer na praia de South Beach, não tenho tanta certeza assim de que Miam i tenha todas as qualidades e os países da Am érica do Sul, todos os defeitos; trata-se tam bém de preconceitos que rem etem ao passado da Am érica Latina e não necessariam ente a seu presente — com exceção da Venezuela —, quando o México e o Brasil são países em ergentes poderosos e a Colôm bia se m ostra perfeitam ente capaz de garantir o funcionam ento de seus bancos.) Jorge Fonseca, representante da Sony em Miam i, acrescenta um elem ento segundo ele determ inante, o da diversidade étnica: “Miam i é a Am érica Latina em m iniatura. Só em Miam i encontram os um a tal m istura étnica. Em nenhum a capital, nem em Buenos Aires, na Cidade do México, no Rio ou em São Paulo, existe tam anha diversidade. Até os negros estão m uito bem integrados aqui. Além disso, Miam i é um a capital gay assum ida, visível, fator determ inante para que os artistas se sintam bem . Miam i tornou-se a capital da Am érica Latina na m úsica, pois é a cidade da diversidade latino globalizada”.

Se acrescentarm os a esse ecossistem a particular os grupos de publicidade e m arketing — todas as grandes agências têm um a sucursal em Miam i —, o núm ero im pressionante de clubes, discotecas e sobretudo lugarezinhos onde grupos m enores podem se apresentar, por exem plo os fundos de um restaurante da Washington Avenue em South Beach, vam os entender o interesse que qualquer artista pode ter em se estabelecer em Miam i. E há tam bém as rádios. “As rádios é que transform aram Miam i num lugar incontornável para a m úsica latino, inclusive com m uitas rádios ilegais de baixa frequência”, explica Bo Crane, presidente do selo independente latino Pandisc. Miam i tem a m assa crítica de um continente, concentrada num a única cidade.

L.A., Latin Am erica Visto da Am érica Latina, esse dom ínio de Miam i causa

incredulidade, ressentim ento e invej a. Vários dirigentes da indústria m usical entrevistados em Buenos Aires, Cidade do México, Caracas, Porto Alegre ou Rio criticam a pretensão dos “gringos” de Miam i em se arvorar em capital exógena da Am érica Latina. Mas todos reconhecem o dom ínio de Lincoln e, através dessa rua fam osa de Miam i Beach, dos “EE.UU” ou “EUA”.

Na Argentina, os dirigentes da indústria da m úsica frisam com razão o bom nível de vendas dos gêneros locais, com o a salsa e o tango (no Brasil, eles falam do sam ba e da bossa nova, um a m úsica m ais negra). Todos são obrigados a reconhecer que apesar de tudo, quando se fala de pop transnacional, com um aos diferentes países da Am érica Latina, as pessoas só se lem bram dos nom es dos latinos am ericanizados ou “m iam izados”.

Para m uitos j ovens sul-am ericanos, a m úsica pop “latino” se cham a Juanes, Shakira ou Gloria Estefan, às vezes Jennifer Lopez ou Ricky Martin. São as m aiores estrelas da Am érica Latina globalizada, e atualm ente são todas am ericanas ou am ericanizadas.

Juanes é colom biano, e em bora continue a cantar em espanhol (podendo até usar nos Estados Unidos sua célebre cam iseta “se habla español”, por pura m ilitância), o fato é que é contratado da Universal em Miam i, onde tem um a casa. Orgulhoso de suas origens, ele disfarça sua am ericanização. Em sentido inverso, Shakira, estrela líbano-colom biana que cantava em espanhol, optou por aprender o inglês com determ inação e com eçar a cantar em am ericano; ela j á era conhecida na Colôm bia, m as foi o inglês que lhe perm itiu alcançar celebridade internacional, ao ser produzida em Miam i (e tornar-se loura). Hoj e, ela lança álbuns nas duas línguas, um a versão “US” e outra “latina”. Juanes e Shakira são letristas-com positores-intérpretes, o que lhes perm itiu m anter-se m ais tem po em cartaz.

Com sete prêm ios Gram m y e 90 m ilhões de álbuns vendidos no m undo inteiro, um quarto deles nos Estados Unidos, Gloria Estefan é a m aior estrela cubana do entretenim ento latino contem porâneo. Sua fam ília exilou-se em Miam i durante a revolução cubana, pois o pai de Estefan era um dos guarda-costas do presidente Batista. Aos 25 anos, sua carreira tem início no grupo Miam i Sound Machine. Fazendo o percurso inverso de Shakira e orientada pelo m arido, o produtor cubano-am ericano de origem libanesa Em ilio Estefan (em presário de am bas), ela com eçou a cantar em inglês, para só então voltar às origens e gravar em espanhol. Vive em Miam i Beach.

As carreiras de Jennifer Lopez e Ricky Martin — am bos contratados pela Sony Music Entertainm ent — são ainda m ais am ericanas. A prim eira é um a “Nuy orican” (neologism o para designar os nova-iorquinos de origem porto-riquenha): nasceu num a fam ília da com unidade porto-riquenha do Bronx, em bora m uitas vezes sej a criticada por não falar corretam ente o espanhol (o que ela quis corrigir, sem chegar realm ente a convencer, com “Una Noche Más”, versão latina de sua célebre “Waiting for Tonight”). O segundo nasceu em Porto Rico, território dos Estados Unidos. Os dois integraram os ritm os do reggaetón a suas canções para parecerem m ais “latinos”. Mas se Jennifer Lopez canta em inglês, Ricky Martin seguiu a m esm a traj etória que Shakira: com eçou a carreira num a boy band latina, para em seguida lançar álbuns solos em espanhol e m ais adiante passar ao inglês (o célebre Livin’ la Vida Loca, com título espanhol m as letras em inglês, que assinala a transição). A estratégia de Ricky Martin consistia então em sair do “nicho” da m úsica latina, passar pelos diferentes hit-parades e, atingindo um público m ais am plo nos Estados Unidos, tornar-se m ainstream . E funcionou, tanto para Jennifer Lopez quanto para Ricky Martin: ao acentuar sua am ericanização, os dois artistas tornaram -se estrelas globalizadas. Reverso da m edalha, foram criticados na Am érica Latina por terem abandonado as raízes, m as suas vendas continuam fortes m esm o na Am érica do Sul. Atualm ente, os sucessos de todos esses cantores, à exceção de Juanes, constam das paradas “pop”, e não m ais das “latin”, pois cantam em inglês. Talvez se tenham tornado m ainstream , m as deixaram para trás a m úsica hispânica.

*

A trinta m inutos de estrada do Rio de Janeiro, num parque tropical de árvores centenárias, j unto à lagoa da Tij uca, entre as colinas e o oceano, visito a sede da Universal Music Brasil. Afável, sorridente, José Antonio Eboli, o diretor-presidente da Universal, recebe-m e de j eans e cam iseta no segundo andar de um enorm e prédio neo-le-corbusiano nesse cenário paradisíaco. Sobre a coffee-table, ele tem toda a coleção da revista Billboard, que parece ter decorado. Nas paredes, cartazes de Mariah Carey, Em inem e Caetano Veloso — o grande artista da Universal Brasil. “Aqui são coordenadas as atividades da Universal para todo o Brasil, e eu estou subordinado ao diretor-presidente da Universal Latin Am erica, sediada em Miam i”, explica José Eboli logo de entrada. A estratégia de m arketing para a fabricação de um a estrela “latino” na Universal é perfeitam ente linear. Eboli a descreve sem rodeios: “Para com eçar, é preciso ‘break y our own m arket first’, fazer sucesso localm ente. Dispor dessa base local é a chave, na Colôm bia no caso de Juanes ou m esm o de Shakira, em Porto Rico no de Daddy Yankee ou m esm o Ricky Martin. É preciso ter feito sucesso na própria com unidade e ter um a popularidade a transm itir, um a história de sucesso a contar. Depois, ‘y ou have to get the US latino m arket’”. José Eboli insiste nessa expressão em inglês. E, j ustam ente, com o conquistar o m ercado dos latinos nos Estados Unidos? “Só é possível em Los Angeles ou Miam i”, prossegue Eboli.

É lá que o artista se torna “latino”. A colom biana Shakira transform ou-se

em cantora m undial em Miam i, conhecida até no Japão; o m esm o no caso

de Juanes. Eles j am ais poderiam ter atingido o Japão sem passar por Miam i.

A partir de Miam i, com sorte, é possível atingir inicialm ente o m ercado

latino nos Estados Unidos, um m ercado com plexo e com partim entado em

nichos. Em Miam i, os latinos se consideram ao m esm o tem po hispânicos e

am ericanos; sua ascensão social depende em grande m edida da negação de

sua cultura original, sobretudo a partir da segunda geração. Trata-se portanto

de um público com plicado, que m uitas vezes prefere Madonna a Ivete

Sangalo.

José Eboli prossegue: Depois, enfrenta-se o m ercado m exicano, o m ais im portante quantitativam ente e o m ais difícil de atingir; em seguida, se o plano funcionar, vem o resto da Am érica Latina. Tudo sem pre acontece m ais ou m enos nessa ordem . É som ente a partir daí que um artista pode atravessar fronteiras, tornando-se hot na Am érica Latina e depois no resto do m undo. Mas a passagem obrigatória nessa estratégia é Miam i.

Resta o Brasil. José Eboli hesita antes de responder: Quase sem pre é um m ercado à parte, com o se não estivéssem os na Am érica Latina. O Brasil é um a ilha, e por causa do português os hispânicos penetram com m ais dificuldade aqui. Juanes, por exem plo, que é um artista Universal e um a im ensa estrela entre os latinos, nunca foi m uito fam oso no Brasil. Tentam os prom ovê-lo associando-o a m úsicos brasileiros. Pensam os em fazê-lo cantar em português, m as os brasileiros não gostam de estrelas que cantam em português de m aneira artificial. Seria m elhor até que ele cantasse em inglês! De m odo que a m elhor m aneira de se tornar ‘big’ aqui é participar de um a novela da TV Globo.

Eu gosto particularm ente dos álbuns de Juanes, e de todos esses artistas ele m e parece o m ais autêntico, tendo perm anecido radicalm ente colom biano. Com o esses cantores poderiam existir na Europa? José Eboli: A passagem obrigatória no caso é Madri, ou Ibiza no verão. Lisboa desem penha um pouco o m esm o papel no caso da m úsica brasileira, m as é m uito m ais m arginal. Em qualquer dos casos, a circulação da m úsica é em geral em sentido único, da Am érica Latina para a Europa, e não m ais o inverso. Durante m uito tem po, as capitais da Am érica Latina eram Madri e Lisboa, m as atualm ente elas foram suplantadas por Miam i. A influência de Portugal no Brasil e da Espanha nos países hispânicos hoj e em dia é quase com pletam ente m arginal — o que tam bém se explica pelo tam anho dos países, pela diferença econôm ica e sobretudo pela população.

O Brasil, por exem plo, tem hoj e um a população vinte vezes m aior que a de Portugal; é m em bro do G20, com um PIB quase cinco vezes superior ao de Portugal. “O Brasil tornou-se um gigante, e Portugal, um anão”, conclui José Eboli.

E afinal, com o um artista brasileiro pode tornar-se “global”? Nem José Eboli nem a produtora brasileira Leninha Brandão, com quem conversei pouco depois, quiseram reconhecer que o fato de ter um contrato localm ente com um a grande m aj or quase nunca conduz a um sucesso m undial. O escritório da Universal no Rio, por exem plo, j am ais levará um artista brasileiro a se tornar “global”. Ele adm inistra apenas um m ercado nacional, com poucas latitudes ou influências no m ercado internacional. E por sinal, nos raros casos em que artistas locais são suficientem ente m ainstream para serem exportados, geralm ente são recuperados pela direção da m aj or em Miam i ou Los Angeles.

Por toda parte na Am érica Latina, senti um j ustificado ressentim ento com o hold-up m usical que os Estados Unidos conseguiram ao gerar a m úsica “latino”. Mas m eus interlocutores m ais lúcidos perceberam que o problem a era m ais grave: se existem m úsicas nacionais ricas e poderosas, e gêneros tipicam ente sul-am ericanos que atravessam fronteiras sem precisar de Miam i — da salsa à bossa nova, passando pelo tango e a cúm bia, entre dezenas de outros —, não existe m ais um a cultura pop com um aos diferentes países da Am érica Latina, exceto a cultura m ainstream norte-am ericana.

“Os Estados Unidos se im põem culturalm ente na Am érica Latina por causa da divisão dos países latinos”, explica José Zim erm an, um dos diretores da TV Brasil, a televisão pública brasileira. E o que se aplica à m úsica se aplica tam bém ao cinem a, com o confirm a subj etivam ente Steve Solot, um am ericano entrevistado no Rio e que trabalha para os estúdios holly woodianos: “A Am érica Latina é um agregado de países m uito nacionalistas que rej eitam os vizinhos. Tendo sozinhos o equivalente ao poder econôm ico de toda a Am érica Latina, os brasileiros estão voltados para a Ásia e a África, num a lógica Sul-Sul, e não para a Am érica do Sul; voltados para a Europa, os argentinos olham os brasileiros com desprezo; o México, a Colôm bia e o Chile voltam -se m ais para os Estados Unidos do que para os outros países latinos; os venezuelanos se isolam e criticam todo m undo. Essa guerra fratricida é que explica o fato de não haver um a cultura com um , nem cinem a ‘latino’: os film es brasileiros não têm público no México; os film es argentinos são fracassos no Brasil. O único lugar onde praticam ente todas as cinem atografias latino-am ericanas são m ostradas e apreciadas são, paradoxalm ente, os Estados Unidos. Na Am érica Latina, nós, am ericanos, tem os assim pista livre para exportar nossos blockbusters. Os film es am ericanos são o único cinem a com um a todos os latinos”. Steve Solot esquece o sucesso de film es com o Diários de motocicleta (sobre Che Guevara) do brasileiro Walter Salles, com atores m exicanos e roteiro escrito com um argentino, e o film e m exicano E sua mãe também, m as é bem verdade que se trata de exceções (este últim o film e foi lançado nos Estados Unidos em três cinem as de arte de Nova York e cinquenta salas latinas de Los Angeles, com um m arketing hábil com binando a elite artística e o público latino, em seguida sendo distribuído em toda a Am érica Latina).

Os am ericanos sabem recuperar e explorar a sensibilidade “latina” quando é possível: “A força de Juanes, Shakira, Ricky Martin e Jennifer Lopez está no fato de serem artistas am ericanos com um spanish flavor, um perfum e latino”, explica o crítico Diego Lerer, do im portante diário Clarín, em Buenos Aires. “Esse pop latinizado e am ericanizado reduziu o espaço ‘latino’”, lam enta, por sua vez, o produtor Daniel Grinbank, ao se encontrar com igo na sede da em presa, no bairro de Palerm o, em Buenos Aires. Grinbank é atualm ente um dos principais prom otores na Am érica Latina: organizou o concerto gratuito dos Rolling Stones em Copacabana, no Rio, assim com o as 11 apresentações de Madonna na Am érica do Sul. Prossegue ele: “Os artistas são colom bianos, cubanos ou m exicanos, m as vivem nos Estados Unidos. As transm issões ‘latino’ são feitas a partir de Miam i, e o público por sua vez as recebe no México ou no Brasil. É isso hoj e em dia a m úsica ‘latino’, e ela é am ericana.”

A nostalgia de um a época em que os países da Am érica Latina dialogavam entre si revela-se ainda m ais forte em André Midani, um veterano da bossa nova, e que aos 78 anos m e recebe perfeitam ente alerta em sua casa toda de m adeira e vidro, proeza arquitetônica nas colinas do Rio de Janeiro. “Cada país da Am érica Latina tem sua própria guerrinha de independência cultural e m usical. Cada um luta contra os outros com o um reizinho feudal”, suspira Midani. “Com isso, a m úsica ‘latino’ não funciona entre os países da Am érica Latina, exatam ente com o o Mercosul!” (Midani refere-se ao fracasso do Mercosul, o m ercado com um criado em 1991 pelo Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai). E o célebre produtor da bossa nova prossegue: “Os únicos que têm público em toda parte são os am ericanos, especialm ente cantores com o Ricky Martin e Jennifer Lopez, pois assum em suas origens”. Ele observa que há toureiros e dançarinas de flam enco, do gênero Carm en, nos clipes em inglês de Jennifer Lopez (por exem plo, em seu hit “Ain’t It Funny ”). “Talvez sej am clichês latinos, m as atingem um m ercado de 50 m ilhões de pessoas nos Estados Unidos”, prossegue André Midani.

No caso do Brasil, o problem a é ainda m aior, pois não tem os um a

verdadeira com unidade brasileira nos Estados Unidos. Desse m odo, os

am ericanos não nos conhecem , porque não nos veem . E nossa m úsica não

vende nos Estados Unidos, exceto em nichos m uito localizados. Por que um

cubano de Miam i, um m exicano de Albuquerque ou um porto-riquenho de

Nova York haveriam de ouvir um artista brasileiro que sequer fala espanhol?

Miam i talvez sej a a capital exógena para Cuba ou o México, m as não para o

Brasil.

(Cerca de 346 m il brasileiros vivem nos Estados Unidos, o equivalente a apenas 0,1% da população am ericana, o que é m uito pouco em relação aos 29 de m ilhões de m exicanos-am ericanos, em bora exista um a ativa com unidade brasileira em Miam i.) Meses antes, depois de um concerto em Juan-les-Pins, onde se apresentou cheio de energia e hum or aos 67 anos, entrevistei Gilberto Gil, o célebre cantor de bossa nova e depois do tropicalism o, que na época era m inistro da Cultura do Brasil, no governo Lula (ele desem penhou a função de 2003 a 2008). “A política do presidente Lula tenta restabelecer vínculos com a m aioria dos países da Am érica Latina, m ais ou m enos com o o Japão voltando a se integrar à Ásia”, diz-m e calm am ente Gilberto Gil, em francês, sentado em seu cam arim . E ele prossegue: “Nossa prioridade é construir indústrias de conteúdo fortes. Eu acredito na cultura com o um a arte, m as tam bém com o um a indústria. E para os j ovens das nossas favelas, acredito no desenvolvim ento econôm ico através da cultura. A vida inteira acreditei nisso”. Em seu cam arim , Gil fala com calm a. Conta-m e com o foi que, em 1967, quando com eçou a usar guitarras elétricas num festival em São Paulo, foi vaiado e acusado de ser um agente do im perialism o am ericano tentando im por influências ocidentais na m úsica brasileira pura. “As pessoas só gostavam do rock anglo-saxônico e da cultura pop”, exclam a Gilberto Gil. Ele foi preso e se exilou.

Gilberto Gil ousa um a com paração entre essa batalha hom érica pelo rock e a que hoj e ocorre na esfera da Internet. O m úsico que existe nele defende o direito autoral, m as o m inistro fez questão de prom over um a livre difusão da m úsica — diz-m e, por exem plo, que ele próprio é um “hacker” —, especialm ente através das licenças “creative com m ons”. Ele pensa no j ovem negro que foi, crescendo num Brasil pobre, e se sente investido de um a m issão j unto aos j ovens das favelas, querendo aj udá-los a se com unicar através dos recursos digitais. Na noite de nossa entrevista, Gilberto Gil cantou “Pela Internet”, com os seguintes versos: “Eu quero entrar na rede Promover um debate Juntar via Internet Um grupo de tietes de Connecticut Eu quero entrar na rede para contatar / Os lares do Nepal, os bares do Gabão”.

Ao longo de m inha investigação, ouvi várias pessoas citarem a frase de George W. Bush, na época presidente dos Estados Unidos, ao chegar à Am érica Latina e se desculpar num com ício: “Sorry, I don’t speak latin” (m e desculpem , m as não falo latim ). Autêntica ou não, a frase é engraçada, m as o essencial não é isso: os latinos tam pouco falam “latin”. E está aí o problem a.

Ao contrário do que eu supunha, não existe m uito um a cultura com um que transcenda a de todos os países hispânicos e lusófonos. O sonho de Sim ón Bolívar, de um a Am érica Latina unida, é um a m iragem em m atéria cultural, especialm ente no entretenim ento. É verdade que existe um m ercado de 350 a 450 m ilhões de pessoas de grande hom ogeneidade linguística — o espanhol —, m as só as m aj ors am ericanas do cinem a e da m úsica conseguem atingi-lo. Essa “diversidade padronizada” é profundam ente perturbadora. Só um a cultura globalizada, em grande m edida form atada nos Estados Unidos, é capaz hoj e em dia de congregar os povos da Am érica Latina, especialm ente através dos cantores superstars, de um pop “latino” híbrido, dos blockbusters do cinem a, dos form atos de talk-shows de televisão e dos best-sellers literários — a com eçar por Paulo Coelho, autor do rom ance planetário O alquimista, inicialm ente publicado por um a pequena editora brasileira e hoj e distribuído nos Estados Unidos pela HarperCollins, a editora de propriedade da News Corp de Rupert Murdoch, e em todo o m undo por um a agência sediada na Espanha. Longe ficou o tem po em que escritores com o Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Octavio Paz, Gabriel García Márquez ou Mario Vargas Llosa eram considerados em baixadores culturais de seus países e da Am érica Latina. Hoj e, o soft power é m edido antes pelo entretenim ento que pela cultura da elite. Só as telenovelas escapam a essa uniform ização, m as elas próprias são produto de um a com ercialização desenfreada e de um a concorrência selvagem entre os países da Am érica Latina e as televisões norte-am ericanas.

Hoj e, a separação entre a Am érica do Norte e a Am érica do Sul se atenua e confunde com a globalização. Em certa m edida, à exceção das novelas, m uitas vezes é a cultura pop am ericana ou am ericanizada que assum e o papel de um a cultura com um na Am érica Latina na esfera do entretenim ento m ainstream .

Desde que dei início a m inha investigação, a crise econôm ica m odificou a paisagem de Miam i. A MTV Latin Am erica m anteve a sede principal em Miam i, m as “regionalizou” m ais seus escritórios do México e de Buenos Aires, para estar m ais próxim a de seu público, beneficiar-se com a taxa de câm bio favorável entre o dólar e o peso e fazer concorrência na Argentina à Much Music TV. Em m atéria de televisão, a Disney, por sua vez, am pliou seu escritório de Buenos Aires e fechou o de Miam i; a CNN Español continua baseada em Atlanta. A HBO, em com pensação, reforçou a HBO Latin Am erica em Miam i. No caso do cinem a e do audiovisual, Miam i sofre o im pacto da concorrência de Los Angeles, Buenos Aires, Rio ou México; no da m úsica, em com pensação, Miam i m antém sua vantagem .

“Toda vez que há um a crise econôm ica nos Estados Unidos, a indústria do disco deixa Miam i; m as toda vez que há um a crise política séria na Am érica Latina, todas as equipes são m andadas de volta para Miam i. Ficam os esperando a próxim a crise para fazer a bagagem . Talvez sej a a abertura de Cuba, e nesse caso Miam i vai se tornar absolutam ente incontornável”, resum e Rafael Artero.

Resta a dem ografia — com o sem pre, um a das chaves do sucesso ou do fracasso das indústrias criativas em todo o m undo. E para com eço de conversa nos Estados Unidos, coração desse m ercado: “A principal am eaça com que se defronta o m ercado latino na Am érica do Norte, a longo prazo, é a assim ilação. Hoj e tem os Mom e Dad vendo telenovelas na sala de estar e ouvindo m úsica ‘latino’, enquanto os filhos no quarto assistem a um a série de televisão am ericana e ouvem hip-hop”, explica um diretor de rede de televisão entrevistado em Los Angeles. Por sua vez, Mariano Kon, da produtora Cuatro Cabezas em Buenos Aires, m ostra-se ainda m ais crítico: “A certa altura, chegou-se a acreditar que o ‘latino’ existia, m as se trata na verdade de um elefante branco. É a ilusão de que os hispânicos são todos m ais ou m enos iguais. É um a visão de am ericanos. Os estúdios holly woodianos sonham com um ‘m ercado latino’: é extrem am ente artificial. E Miam i é de fato a capital desse m undo artificial”. Luiz Claudio Latgé, um dos diretores do grupo TV Globo, é m ais explícito ainda: “Os próprios am ericanos sabem que não podem m ais dirigir a Am érica Latina a partir de Miam i”.

Outros m ostram -se m ais otim istas, considerando que a Am érica Latina pode despertar: “O Brasil tornou-se um gigante econôm ico, m as na Europa ainda é visto através das favelas, da m iséria, da violência. E os am ericanos nem sabem que existim os e que falam os português. Eles nos confundem com a Venezuela! Quando se derem conta do seu erro, serem os um a potência com a qual terão de lidar, inclusive no entretenim ento”, com enta José Zim erm an, um dos diretores da TV Brasil, a televisão pública brasileira.

José Tillan, vice-presidente da MTV Latin Am erica, tam bém enfatiza que as previsões de am ericanização dos hispano-am ericanos são equivocadas: “Nós não som os com o os húngaros ou os italianos, cuj a aculturação tornou-se absoluta e total, à m edida que se foram am ericanizando. Os latinos continuarão sendo latinos nos Estados Unidos, por sua quantidade, por causa dos m eios de com unicação m odernos, pela proxim idade geográfica e sobretudo porque vam os m udar profundam ente os Estados Unidos”. E Tillan conclui: “Estam os prom ovendo a ‘latino-am ericanização’ da cultura dos Estados Unidos”.