Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
13. Miami, capital pop da América Latina
13. Miam i, capital pop da Am érica Latina Lincoln Road, em
Miam i Beach, é um a pequena artéria que atravessa a península de oeste a leste. Na extrem idade, à beira do Atlântico, um a praia célebre, sobre a qual se debruça o hotel Ritz-Carlton, oferece a quintessência daquilo que South Beach, o sul de Miam i Beach, que com eça ali, representa para o im aginário am ericano. Sol o ano todo, arquitetura art déco, Shakira, charutos La Gloria Cubana, o espanhol com o língua oficiosa, a residência de veraneio de Madonna, Miami Vice, a diversidade étnica e sobretudo a m úsica “latino”.
“Na Am érica Latina não existem latinos. Os latinos estão aqui”, solta, provocador, José Tillan, o vice-presidente da MTV Latin Am erica, quando o encontro no núm ero 1.111 da Lincoln Road em Miam i Beach. “Todas as m aj ors do disco, as agências de talentos, as redes de televisão m usical e seus shows especializados, as rádios ‘latino’, as em presas de direitos autorais, as publicações m usicais, com o a Billboard, ou as do m undo do entretenim ento, com o a Variety, têm escritório na Lincoln Road ou nas ruas próxim as. A tal ponto que esses poucos quarteirões ficaram conhecidos com o “Silicon Beach” ou “Holly wood Latin Am erica”.
José Tillan é cubano, com o m uitas pessoas que vim a encontrar na indústria do disco em Miam i. Mas seus colegas da MTV Latin Am erica (às vezes tam bém cham ada de MTV Latin ou sim plesm ente MTV Latino) são espanhóis, argentinos, venezuelanos, colom bianos e sobretudo m exicanos.
Tillan resum e assim : Aqui é o quartel-general da MTV para toda a
Am érica Latina. Tem os em pregados de todas as origens hispânicas.
Historicam ente, Miam i sem pre foi m uito cubana. Aos poucos, tornou-se
um a cidade m ais variada, com hispânicos de todas as nacionalidades e todas
as raças. E tam bém é um a cidade m uito m ista, na qual as m inorias vivem
m enos em guetos do que no resto dos Estados Unidos. É um condensado da
Am érica Latina. Mas nosso principal m ercado hoj e em dia é o México.
O escritório regional da MTV em Miam i é especializado na m úsica latina, assim com o o de Nashville se concentra na m úsica country. “Tam bém cuidam os do m ercado ‘latino’ para os Estados Unidos, que está em forte expansão”, esclarece Tillan.
Desde o fim da década de 1990, a MTV não é m ais hom ogênea: o canal se adapta a cada país, em sua língua, com program as locais. “É o que está resum ido no nosso slogan: ‘I want m y MTV’. Tem os transm issões diferentes na Am érica Latina: há um canal para os latinos que vivem nos Estados Unidos, outro para o México, um canal para a Argentina e a MTV Brasil, que tem sua própria transm issão em português.” Ouvindo José Tillan, fico pensando no m etrô de Miam i, onde os anúncios e cartazes são inteiram ente reproduzidos em três línguas: inglês, espanhol e português.
No dia seguinte, tenho encontro m arcado com Gabriela Martinez, vice-presidente da Warner Music Latin Am erica, na sede do grupo na Washington Street, rua perpendicular à Lincoln Road, em Miam i Beach. Com o a MTV, a Warner instalou seu quartel-general “latino” em Miam i, antena regional de que depende um a dezena de escritórios nos Estados Unidos e na Am érica Latina. No total, cerca de 250 em pregados da Warner cuidam da m úsica “latino”, prova, se necessário fosse, de que se trata de um a prioridade para a m aj or de Nova York. Gabriela Martinez é m exicana e, com o todo m undo em Miam i, está constantem ente indo e vindo entre Miam i, o México e a Am érica Latina. “Nós tínham os sede em Nova York há alguns anos, m as em 2001 transferim os nosso quartel-general latino aqui para Miam i, a capital da Am érica Latina nos Estados Unidos”, explica Martinez. “A Flórida não é o m ercado m ais im portante, m as Miam i é o sím bolo desse m ercado, e tam bém a cidade m ais diversificada, além daquela que, geograficam ente, perm ite m ais fácil deslocam ento para qualquer parte”, acrescenta ela. A partir de Miam i, toda a Am érica Latina pode ser alcançada de avião.
Jorge Fonseca é diretor artístico da Sony Norte, o selo “latin” da Sony em Miam i: “Estou constantem ente em cam po”, explica ele. “Vou ao México para ouvir grupos em estúdio, a Porto Rico para assistir a concertos, a Miam i para participar das noitadas ‘open-m ic’ da Universidade de Miam i. Encontro ao m esm o tem po letristas e cantores, com positores e m úsicos. E a m elhor visão de conj unto desse m ercado está em Miam i.”
“Viva Havana, viva Cuba, viva os Estados Unidos, viva Miam i, viva Nova York e viva Washington.” Foi com estas palavras em espanhol que o cantor Juanes, procedente de Miam i, concluiu seu concerto em setem bro de 2009 na Praça da República, em Havana, diante de um m ilhão de pessoas — público realm ente incrível.
Miam i é tam bém a capital exógena de Cuba. A m úsica cubana vendida no m undo inteiro m uitas vezes é produzida e difundida por cubanos de Miam i, com o m e explica Rafael Artero, vice-presidente da BMG Music Publishing em Miam i (a BMG é o braço m usical “publishing” do gigante alem ão Bertelsm ann, j á agora autônom o em relação à Sony ). “Os europeus, que gostam tanto de m úsica cubana, não sabem , m as a m úsica cubana que ouvem m uitas vezes é feita nos Estados Unidos. É um a m úsica de cubanos de Miam i. A verdadeira m úsica cubana não vende m uito no exterior: não é suficientem ente aberta aos novos estilos para obter am plo sucesso com ercial no resto do m undo. Ela não é m ainstream . Ao m esm o tem po, tam bém é m ais pura.” Outros dirigentes ouvidos em Miam i explicam , em com pensação, que de fato trabalham com Cuba, “por baixo do pano”, segundo a expressão de Ivan Alvarez, vice-presidente da Universal Music Publishing em Miam i. Prossegue ele: “Nós tem os relações com Cuba, faz parte da profissão. Tem os m uita m úsica cubana em nosso catálogo, em bora de fato ainda sej a um a m úsica em evolução, datada, um pouco à m argem das tendências atuais. Mas ao m esm o tem po tam bém é o que faz o seu sucesso, esse lado vintage. E sobretudo, estam os preparados para o dia em que Cuba se tornar livre”. Enquanto isso, Ivan Alvarez está m enos atento a Cuba que a Porto Rico. Pois foi lá que nasceu o novo gênero m usical de que todo m undo fala em Miam i: o “reggaetón”.