Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Do drive-in ao multiplex

Para decifrar o entertainm ent e a cultura de m assa nos Estados Unidos — ou sej a, no m undo tam bém —, devem os acom panhar as etapas-chave dessa fundam ental virada: de que m aneira o cinem a passou do drive-in ao m ultiplex, do “suburb” à “exurb”, da pipoca à Coca-Cola. Todas essas palavras são em inglês. Não por acaso. Foi aqui, no coração da Am érica m ainstream , que tudo com eçou.

Do drive-in ao m ultiplex Quando partim os em busca dos m ultiplexes nos

Estados Unidos — e eu visitei m ais de um a centena em 35 estados —, com eçam os por encontrar o “drive-in”. Fazer cinem a num estacionam ento: era um a invenção genial. E um a ideia que colou.

Já não restam hoj e m uitos drive-ins nos Estados Unidos. Pude visitar alguns deles, desativados, transform ados em m ercados de pulgas aos dom ingos ou lim itados ao período de verão em San Francisco, Los Angeles ou no Arizona. O prim eiro foi inaugurado em 1933 em Nova Jersey ; em 1945, havia m enos de cem deles no país; m as dez anos depois, j á eram quatro m il. Na década de 1980, tinham praticam ente desaparecido. O que aconteceu? É o que precisam os descobrir, de tal m aneira o drive-in representou um a das m atrizes da cultura de m assa am ericana do pós-guerra.

Scottsdale, Arizona. Nesse subúrbio de Phoenix, o Scottsdale Drive-In se apresenta ainda hoj e com o um drive-in de seis telas ao ar livre. Construído em 1977 no deserto, seu nom e inicialm ente era “Desert Drive-In”. Hoj e, estam os ali em plena cidade, e eu chego ao local por um a am pla rodovia de quatro pistas especialm ente construída para o drive-in. As seis “salas” estão voltadas um as para as outras num terreno que durante o dia parece abandonado, m as à noite adquire vida, ilum inado por centenas de autom óveis. O drive-in abre 365 dias por ano, “rain or shine” (chova ou faça sol), inform a-m e Ann Mari, que trabalha no Scottsdale Drive-In. O lugar pode abrigar até 1.800 carros. “O im portante é chegar num carro confortável, pois a pessoa fica sentada em seu autom óvel”, esclarece Ann Mari. “E é preciso tam bém um bom rádio no carro, pois o som é transm itido através de um a rádio AM ouvida no próprio autom óvel. E tam bém é im portante um a boa refrigeração.”

Os drive-ins ainda existentes à beira das rodovias am ericanas preservam um certo clim a de outros tem pos. Tem os, para com eçar, os lum inosos de neon de cores berrantes que podem ser vistos à distância: o Rodeo-Drive de Tucson, no Arizona, com um a cow-girl lum inosa girando seu laço no ar; o New Moon Drive em Lake Charles, Louisiana, com um a lua florescente no céu; o Cam pus Drive em San Diego, com um a espetacular líder de torcida.

Em 1956, existem portanto m ais de quatro m il drive-ins na Am érica, e neles são vendidas m ais entradas que nos cinem as tradicionais. O drive-in é um fenôm eno j ovem e sazonal. O custo da entrada é baixo: 2 dólares por carro, qualquer que sej a o núm ero de pessoas em seu interior; m ais tarde, a cobrança seria feita por cabeça (havia quem se escondesse na m ala, que logo passou a ser inspecionada tam bém ).

Essa entrada dá direito a dois longas-m etragens. A qualidade da im agem não é boa, m as não faz m al: belas m ulheres desfilam pela tela, e, na ausência dos pais, dá para beij ar a nam orada no carro. Surge em inglês a expressão “to ball” — um pouco m ais que um sim ples beij o. O drive-in desem penhou um papel im portante nas prim eiras experiências sexuais dos adolescentes am ericanos.

Se os drive-ins se m ultiplicaram tão rapidam ente, foi por serem extrem am ente rentáveis. Não tanto pela entrada, m as graças às concessões e ao que passou a ser conhecido com o “pop & corn” (as bolhas da Coca-Cola e o corn, ou m ilho). Foi nos estacionam entos dos drive-ins que os am ericanos com eçaram a se acostum ar a com er no cinem a. Não dem orou, e o carro da fam ília se transform ou num verdadeiro fast-food am bulante.

Estabelece-se o hábito de ir ao cinem a de j eans, ninguém m ais se veste para sair. É tudo inform al, livre, sem com plicação. Por toda parte encontram -se j uke box cintilantes, belas garçonetes de patins vestidas de rosa-shocking ou azul-turquesa, e no fim da noite um pouco de fogos de artifício — a felicidade na Am érica do pós-guerra.

Hoj e, nas rodovias norte-am ericanas, não entendo m uito bem com o é que o sonho de cinem a para as classes m édias foi se transferindo das grandes salas da década de 1930, im ensos palácios de m árm ore e deslum brantes tapetes verm elhos, para as proj eções num m uro de concreto, no m eio de um estacionam ento e dentro do próprio carro. Mas o fato é que basta abrir os olhos. Os j ovens, as fam ílias, as novas classes m édias não se afastaram dos estacionam entos. Atualm ente, basta olhar na direção dos novos shopping-m alls para perceber que os am ericanos continuam indo ao cinem a em estacionam entos. O nom e disso é m ultiplex.

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Om aha, Nebraska. Um m ultiplex acaba de ser inaugurado no m eio de um a plantação de m ilho a cerca de trinta quilôm etros do centro da cidade. Onde é que poderia estar com a cabeça o em presário am ericano que construiu esse m ultiplex? “Não é nenhum a loucura, é puro negócio”, explica-m e Colby S., o gerente do Village Point Cinem a.

O cinem a ainda aguarda os retoques finais em pleno coração de um im enso shopping-m all, batizado, j ustam ente, de Village Point Mall, por sua vez tam bém ainda em acabam ento. Estou num a zona rural que não tem realm ente um nom e: sem anas antes, ela sequer existia, apenas vacas pastavam por ali. As pessoas dizem sim plesm ente West Om aha. Com o costum a acontecer nos subúrbios am ericanos, os centros urbanos são identificados em função dos pontos cardeais, do nom e da rodovia que lhes dá acesso ou, no m ais das vezes, pelo nom e do principal shopping-m all.

Os em preiteiros im obiliários decidiram criar o Village Point Mall nesse lugar afastado e “no fim da cidade” por saberem por experiência própria que Om aha está se estendendo para o oeste. As rodovias sequer estão concluídas e os sinais lum inosos ainda não foram instalados, e eles j á sabem que centenas de m ilhares de pessoas logo estarão vivendo na região. Com seus proj etores, o m ultiplex dom ina o centro com ercial. É o cinem a que dá o “toque urbano”: ele confere um clim a “cultural” ao conj unto. O m ultiplex é a cidade chegando.

O clim a nesse m ultiplex grandioso é tranquilo e os espectadores são orientados na direção das salas de cinem a por linhas no piso, m ais ou m enos com o nos aeroportos. “A prioridade”, explica Colby, “são os banheiros, especialm ente para as fam ílias e os idosos.” Encontram -se portanto banheiros am plos e num erosos, com o em todos os m ultiplexes, em quantidade cuidadosam ente calculada em função de regras precisas: “É necessário em m édia um banheiro para cada 45 m ulheres presentes no cinem a”, explica o gerente. Belas escadas rolantes conduzem os espectadores às salas de cim a, e no fim da noite o gerente tem a inteligente lem brança de inverter o sentido das escadas para encam inhar todo m undo tranquilam ente até a saída.

Com o praticam ente em qualquer lugar dos Estados Unidos, as salas são construídas pelo m odelo cham ado “stadium ”, m uito inclinado, cada assento m ais elevado que o da frente, para perm itir visão perfeita de qualquer lugar. As poltronas são espaçosas, os vãos entre as fileiras, largos. O m ultiplex tem 16 salas de 88 a trezentos lugares.

Por que a m ultiplicação de salas num m esm o espaço? Para perm itir um a program ação m ais diversificada, contem plando ao m esm o tem po blockbusters e film es de nichos especializados? Colby : “Não, absolutam ente. É para não desperdiçar nenhum adolescente”. Os blockbusters são proj etados em várias salas ao m esm o tem po, com um a seção a cada 15 m inutos “em horário de pico”, para que ninguém precise consultar os horários antes de sair de casa. A um a m édia de 1.300 pessoas por sessão, tem os quase sete m il pessoas por dia, todas abrigadas das intem péries e, tam bém aqui, num am biente seguro. Na entrada do m ultiplex, vej o um aviso lem brando que é proibido o porte de arm as no interior.

A program ação desse m ultiplex em Om aha é m ainstream — Homem-Aranha 3, Shrek 2, Os Incríveis ou Eu, Robô —, e os film es “rated”, proibidos para m enores de 13 ou 17 anos, não são m uito valorizados. Não há sessão depois das 22 horas, nem m esm o aos sábados. As fam ílias representam um a parte im portante do público, e os aposentados, cerca de 30%. Film es estrangeiros legendados, assim , são evitados: “Se é necessário ler legendas, é com o se lhe estivessem pedindo para fazer um esforço. O público vem para se divertir, e não para voltar à escola”, explica-m e o gerente. O raciocínio parece lógico.

Por que será que o m ultiplex instalado em pleno shopping-m all se transform ou no sím bolo por excelência da experiência cinem atográfica nos Estados Unidos e daqui a pouco tam bém em qualquer lugar do m undo? Os exibidores e distribuidores am ericanos foram os prim eiros a entender: é porque o shopping se transform ou no centro da cidade nos subúrbios am ericanos. Ele passou a ocupar o lugar da fam osa “m ain street” das cidades pequenas e do “downtown” das cidades grandes. Em 1945, havia nos Estados Unidos oito “shopping centers”, com o ainda eram cham ados, e eles seriam 3.000 em 1958, m ais de sete m il em 1963, 22 m il em 1980 e quase 45 m il atualm ente.

Ao se darem conta, na década de 1970, de que um novo m all era inaugurado de quatro em quatro dias, em m édia, nos Estados Unidos, os chefões da General Cinem a, Am erican Multi-Cinem a e logo tam bém do Cineplex-Odeon — os três inventores do m ultiplex — perceberam que precisavam abrir seus cinem as nos subúrbios, e não m ais nos bairros tradicionais das cidades. O m ultiplex é ao m esm o tem po um deslocam ento geográfico e um a m udança de escala. O prim eiro cinem a com duas salas gêm eas data de 1963 (o Parkway Twin, num shopping-m all de Kansas City, construído pela General Cinem a). Em 1966, são quatro as salas do Metro Plaza Com plex (ainda em Kansas City, por iniciativa do concorrente Am erican Multi-Cinem a, conhecido com o AMC). Em 1969, nasce o “sixplex”, desta vez em Om aha; vem depois o prim eiro “eightplex” em Atlanta, em 1974. Multiplicando as salas num m esm o cinem a de subúrbio, os inventores do m ultiplex na verdade não dão m ostra de grande im aginação: estão retom ando um a receita j á bastante explorada, a dos shopping-m alls, logo ali ao lado, que m ultiplicam o núm ero de loj as e fast-foods de diferentes redes para atender a todos os gostos. Não dem ora, e a AMC, j á dona de 160 telas em 1972, com eça a inform ar o núm ero de salas no próprio nom e do cinem a, prática atualm ente generalizada (Em pire 4, Midland 3 e Bry wood 6). No fim da década de 1970, o grupo am plia ainda m ais o conceito, abrindo com plexos de 10, 12 e até 14 salas, não raro subterrâneas e separadas apenas por paredes de com pensado (o que perm ite, por exem plo, acom panhar os diálogos de Noivo neurótico, noiva nervosa tendo com o trilha sonora a m úsica de Guerra nas estrelas). O m ultiplex é m oderno, eficiente, próxim o do lugar onde os am ericanos vivem e, fato interessante, sem pre foi valorizado nos Estados Unidos, inclusive pela im prensa e por Holly wood, que viram nele um aliado, e não um inim igo do cinem a. O que contrasta com as reações não raro críticas dos europeus em relação ao conform ism o dos subúrbios e à desculturação que seria gerada pelos m ultiplexes nos shopping-m alls. Mas esse sucesso popular ainda precisava encontrar seu m odelo econôm ico.

Quando a pipoca se transform a em m odelo econôm ico No núm ero 401 da

South Avenue, em Bloom ington, 18 quilôm etros ao sul de Minneapolis, encontram os o AMC Mall of Am erica 14. Inaugurado em 1992, o Mall of Am erica é, com suas 520 loj as, seus cinquenta restaurantes e suas 12 m il vagas de lugares no estacionam ento, um dos m aiores centros com erciais do m undo. O que lhe valeu o apelido de “m egam all” (e tam bém de “m egam ess”, ou “m egabagunça”, por causa dos atrasos no início do funcionam ento). É um enorm e retângulo de três andares, m uito feio, tendo no m eio um parque de atrações totalm ente coberto, com direito a carrosséis e roda gigante. Quarenta m ilhões de pessoas o visitam anualm ente, clientes e consum idores, é claro, m as tam bém turistas que o procuram por causa do tam anho e da im portância histórica, com o se visita o Louvre ou as pirâm ides.