Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
A batalha dos formatos
BJ Song com eça a digitar num de seus com putadores Sam sung (estam os na Coreia). Seu sobrenom e realm ente faz sentido, pois ele é m úsico e assinou a trilha sonora de dezenas de séries de televisão e film es fam osos em toda a Ásia. Não tenho coragem de perguntar se é seu nom e verdadeiro ou um nom e “cover”. Depois de um a longa pausa, BJ Song prossegue: “Nossas séries devem estar perfeitam ente de acordo com os valores asiáticos. E o m otivo disso é o confucionism o, que é m uito forte na Coreia, não tanto com o religião, m as com o cultura. Isto quer dizer que a fam ília é o centro da sociedade, que a lei do sangue tem prim azia sobre as outras leis; na Coreia, os irm ãos e irm ãs são cruciais, e ninguém discute um pedido do pai ou do irm ão m ais velho. E há tam bém tudo que diz respeito ao casam ento: o am or é um a responsabilidade que com prom ete, cria vínculos; não podem os casar com alguém que nossa fam ília recusasse e devem os obedecer ao código coreano do ‘seon’, um a espécie de casam ento arranj ado pelos pais, sobretudo quando ainda não casam os aos 30 anos. Nossos dram as devem refletir essa m entalidade, definida com o um código de ética m uito rígido. Ao m esm o tem po, se respeitam os o código com o pano de fundo, m uitas coisas são perm itidas na tela”. O que, por exem plo? BJ Song: “Para com eço de conversa, há o riso”, prossegue ele. “Um dram a precisa ser divertido. Depois, devem os falar da realidade, pois um dram a coreano é m uito real, os atores interpretam seu papel norm alm ente, sem exagerar na representação, com o nas séries j aponesas, e é aí que a coisa se torna interessante. Não há sexo nas nossas séries, m as vem os beij os: não estam os em Bolly wood! E, com o na vida cotidiana, existem adultérios, prostituição e gay s. Pois bem , nós podem os falar tam bém desses tem as. E é o que fazem os.”
Um a coisa m e cham ou a atenção nos dram as coreanos: a onipresença de atores j ovens e belos. Por quê? “A beleza física é um critério essencial num dram a coreano, especialm ente a dos rapazes, pois o público das séries de televisão é essencialm ente de donas de casa e m ocinhas. Para se ter um a ideia, fizem os testes com quatrocentos atores para cada personagem de Boys Over Flowers na Coreia. Além disso, com o se destinam à exportação, nossas séries são dubladas: o que im porta m ais, portanto, não é a voz ou a dicção do ator, m as seu visual. E m uitas vezes, na Ásia, se considera que os j ovens coreanos são a quintessência da beleza asiática, o tipo do top m odel. E nós tam bém exportam os isso.”
A exportação dos dram as coreanos é um a indústria por si só. Na direção do canal MBC em Seul, Jung-Sook Huh confirm a a im portância desse m ercado. “Nós som os o m aior produtor de dram as coreanos. Nossos dram as são vendidos em toda a Ásia, m as nós tam bém vendem os ‘form atos’, o que é igualm ente im portante.” Protegido por copy rights, um form ato é m ais que um a ideia e m enos que um dram a: ao adquirir os direitos, um produtor pode refazer a série, retom ar sua intriga, os personagens, ao m esm o tem po que tem a liberdade, bem definida no contrato, de adaptá-la localm ente para torná-la com patível com os valores locais, com atores nacionais e que falem a língua do país.
A guerra do audiovisual na Ásia oriental, entre o Japão e a Coreia, entre a Coreia e Taiwan, entre Taiwan e a China, é na realidade um a batalha de form atos tanto quanto um a batalha de program as. E por sinal costum a-se falar de “form at trade”: o com ércio de form atos.
Seguindo o exem plo dos j aponeses, os coreanos tornaram -se poderosos exportadores de form atos de dram as. Sua língua é pouco falada na Ásia, e portanto eles têm interesse em com ercializar conceitos, m ais que produtos acabados. E é de fato o que acontece: a Coreia vende duas vezes m ais form atos que sérias prontas. E o fascinante é a globalização desses form atos e de seu m ercado.
A venda de séries ou form atos coreanos está em forte progressão na Ásia: inicialm ente, para o Japão, que constitui o principal m ercado, por razões financeiras. Depois, há tam bém Taiwan, Hong Kong, Cingapura, ou sej am , os m ercados “chineses”, estando na linha de m ira toda a problem ática da penetração na China continental. “A China é para nós um m ercado difícil de atacar diretam ente. Nós o atingim os sobretudo através da venda de form atos. Podem os participar de coproduções com o Shanghai Media Group e outras em presas públicas chinesas que nos servem de interm ediárias. Quando esse cam inho não funciona, privilegiam os a venda dos form atos a Taiwan ou Cingapura, que por sua vez cuidam da transferência para a China”, com enta Jung-Sook Huh. Em outras palavras, os coreanos estão com os olhos voltados para a China, e por sinal foi ao constatar a queda de produção de Hong Kong para as séries de televisão continentais que eles resolveram aproveitar a brecha. Mais um a vez, a censura chinesa tolera essas séries inofensivas de adolescentes, que não am eaçam sua soberania. Mas em caso de aum ento do sucesso, é possível que a censura intervenha por protecionism o econôm ico.
A estratégia da Coreia do Sul é então de se posicionar nos m ercados secundários, aqueles que interessam m enos aos am ericanos e aos j aponeses. A Tailândia, por exem plo, é um m ercado essencial para os coreanos, assim com o a Indonésia, em virtude de seus quase 250 m ilhões de habitantes. Todo o Sudeste asiático, as Filipinas, a Malásia e até o Vietnã, não obstante seu baixo poder aquisitivo, entram nessa categoria. E a estratégia dos coreanos consiste em inundar esses espaços econôm icos com séries baratas, ainda que correndo o risco de perder dinheiro, com o no Vietnã, para habituar os espectadores à cultura coreana e poder então extrair benefícios políticos e financeiros. Os dram as e o K-Pop são para a Coreia um a ferram enta do soft power.
Outro m ercado m uito em vista é o dos coreanos que vivem longe da Coreia do Sul, e prioritariam ente os 1,3 m ilhão de coreanos estabelecidos nos Estados Unidos. “Os coreanos-am ericanos são a chave do nosso sucesso na Am érica do Norte, graças especialm ente aos canais especializados da TV a cabo”, explica Jung-Sook Huh. Mas um outro m ercado é igualm ente sensível aqui, o dos norte-coreanos. No Sul, pensa-se constantem ente neles, sem falar a respeito. Aqui, a questão do dinheiro im porta pouco, o obj etivo é político. Na Coreia do Sul, todo m undo m e deu a entender que a difusão dos dram as ao norte da zona desm ilitarizada que serve de fronteira é um a prioridade não confessada. Com o a fronteira não pode ser atravessada, os coreanos do Sul têm um a estratégia para contorná-la, divulgando suas séries através do m ercado negro e da China continental. Nas cidades da fronteira entre a China e a Coreia do Norte, os dram as coreanos e o K-Pop são de acesso tanto m ais fácil na m edida em que essas províncias têm em sua população um grande contingente de chineses de origem coreana e as relações com erciais sino-norte-coreanas estão atualm ente em forte expansão. Os chineses revendem aos norte-coreanos seus aparelhos de CD ultrapassados e seus VCR vencidos, sem que a polícia norte-coreana, apesar de sua obsessão com o controle de produtos culturais am ericanos ou sul-coreanos, sej a capaz de conter esse m ovim ento. Pois o fato é que por trás da ditadura com unista de Kim Jong-il se esconde um m ercado negro generalizado que vem a ser um capitalism o exacerbado e subterrâneo (sendo a econom ia sul-coreana aproxim adam ente cinquenta vezes m ais rica que a do Norte, com um a população que é apenas o dobro). “Alguns anos atrás, ser apanhado com um disco sul-coreano levava qualquer um im ediatam ente para a prisão. Hoj e, os policiais da Coreia do Norte podem no m áxim o apreender os produtos culturais para seu próprio uso”, explica-m e, em Seul, um im portante profissional do com ércio com a China (que não quer ser citado para não pôr em risco sua em presa).
Resta ainda, em m atéria de exportação dos dram as coreanos, o m undo m uçulm ano. “Vendem os m uito os nossos dram as para o Oriente Médio, pois as m ulheres m uçulm anas se identificam com pletam ente com as heroínas coreanas”, confirm a Jung-Sook Huh na direção do canal MBC em Seul. “Nossas ideias sobre a fam ília, sobre a situação da m ulher, são perfeitam ente com patíveis. Nossa série Jewel in the Palace, em 54 episódios, por exem plo, teve um enorm e sucesso no Irã e no Afeganistão. O Golfo tam bém é um m ercado em forte crescim ento. Ao m esm o tem po, existe um a tensão difícil que precisa ser resolvida entre as expectativas m uito conservadoras do público dos países m uçulm anos, por exem plo, e da censura chinesa, que querem histórias m uito rom ânticas, fantasia, com heróis perfeitam ente identificáveis com o ‘bons’ e ‘m aus’, e as expectativas m uito m ais pós-m odernas, se assim posso dizer, do público j aponês ou dos coreanos-am ericanos, que querem histórias m ais atuais, m ais surpreendentes e m enos presas a códigos. Precisam os j ogar com esses m ercados, e é por isso que produzim os form atos diferentes. Por um lado, Jewel in the Palace, com a estrela m undial Lee Young-Ae fazendo o papel de um a j ovem pobre que se torna chef de cozinha, preparando as refeições de um rei, e cuj a história transcorre há quinhentos anos; por outro, Coffee Prince, m inissérie extrem am ente gay friendly na qual o herói não quer obedecer aos desej os da fam ília e abre um café num bairro hip de Seul, contratando exclusivam ente rapazes sexy com o garçons e se apaixonando por um travesti que acaba se revelando um a m ulher de verdade...” Realm ente, pós-m oderno.
Num subúrbio distante m as chique de Seul, encontro-m e com Kim Jong Sik, diretor-presidente da Pan Entertainm ent, im portante produtora de “dram as”. Ele está acom panhado de um a produtora de televisão, e, com o nenhum dos dois fala inglês e eu não disponho nesse dia de um a intérprete, ele convoca à últim a hora um dos m ais prom issores j ovens atores do seu plantel, Yoo Dong-hy uk, que é bilíngue. “Os dram as coreanos são m uito atípicos. Falam de desej o, paixão, de um grande e puro am or. Foi o que fez o sucesso em toda a Ásia de nossa série Sonata de inverno.” Kim Jong Sik insiste na questão da m úsica, im portante nos dram as e que contribui igualm ente para que os cantores do K-Pop se tornem conhecidos na Ásia. Com o acontece em Bolly wood, as duas indústrias estão ligadas um a à outra.
Kim Jong Sik detém -se e eu não entendo o que ele está tentando m e dizer. O j ovem Yoo Dong-hy uk tam pouco consegue traduzir. Kim Jong Sik lança m ão de um a m áquina de traduzir Sam sung e procura a palavra exata. Eis então o que diz a m áquina: “Confucionism o.” Pela segunda vez a palavra é pronunciada na m inha presença em Seul. Kim Jong Sik volta a falar: “A China com unista rej eitou o confucionism o, o Japão não o adotou, só os dram as coreanos preservaram o espírito de Confúcio, e é isso que explica o sucesso de nossas séries na Ásia. É o que os chineses esperam consciente e o que os j aponeses buscam inconscientem ente. Quanto aos coreanos, hoj e em dia na sua m aioria cristãos, nem por isso deixam de continuar profundam ente im buídos de confucionism o.” Não fico de todo convencido por essa análise pseudorreligiosa, m as guardo a ideia com igo.
Mais tarde, no café Starbucks da esquina, dou continuidade ao diálogo com Yoo Dong-hy uk, m eu intérprete im provisado. Top m odel, 26 anos, ele traj a um a cam isa branca, um a longa túnica negra, calças j eans de grife e traz os cabelos desalinhados, com o os atores de Boys Over Flowers. Pergunto-lhe com o é cham ado esse corte de cabelo tão frequente nos j ovens ídolos: “À coreana”, responde Yoo Dong-hy uk com sim plicidade. E acrescenta: “É esse corte que nos deixa sweet — e as m eninas adoram ”. Segundo m e inform a o diretor-presidente do grupo Pan Entertainm ent, que o tem sob contrato, o rapaz j á participou de seis dram as e é um a estrela entre os coreanos-am ericanos nos Estados Unidos. Por que fala tão bem o inglês? “Eu trabalhei na Am érica”, responde ele, “e sou fascinado pela cultura da televisão am ericana, a m aneira de representar dos atores de Friends, e tam bém , naturalm ente, por Wentworth Miller em Prison Break”. E ele acrescenta: “Eu gostaria de ser um a espécie de Yunj in Kim m asculino” (referência a um a atriz de Seul que participou do célebre film e coreano Shiri, sendo em seguida contratada para a série de televisão am ericana Lost). Com o é que alguém se transform a em estrela na Coreia? “É um a questão de sorte, de tim ing, e é preciso ser bonito, é isso que conta.” Pergunto ao ídolo sobre seu contrato, para saber se é assalariado ou trabalha por tarefa em sua produtora: “Não posso responder, você terá de fazer a pergunta ao m eu agente, é ele que cuida disso”.
O que m e cham a a atenção na Coreia e no Japão é a j uventude dos atores. Em Bolly wood e Hong Kong, as estrelas são atores m aduros que conquistaram a celebridade ao longo do tem po — Am itabh Bachchan, Shah Rukh Khan, Jackie Chan, Andy Lau. Na Coreia, a m aioria dos atores nasceu ontem e m uitas vezes nem com pletou ainda vinte anos. É um a exacerbação da cultura “teen-pop”: o que os adolescentes querem determ ina o que a população com o um todo vai consum ir. Fico pensando que o fenôm eno é um a inversão do que foi a cultura durante séculos na Europa, m as tam bém na Ásia, a cultura do Ram ay ana e do Mahabharata, de Akira Kurosawa, Kenzaburo Oe ou Yukio Mishim a. Em seu lugar, hoj e em dia, tem os as boy bands j aponesas, os j ovens atores de cabelos longos cortados “à coreana”, as estrelas do rap tailandês e as j ovens cantoras de Taiwan que dão o tom da cultura asiática globalizada.
Existe um a intensa polêm ica na Coreia sobre as pressões exercidas pelos am ericanos para liberalizar o audiovisual e o cinem a e com isso abrir o m ercado de conteúdos para os estúdios holly woodianos. Em acordo bilateral de livre com ércio assinado a 30 de j unho de 2007 em Washington, os coreanos aceitaram afrouxar suas cotas no cinem a. As organizações oficiais de defesa do cinem a coreano e os m ilitantes da Coalition for Cultural Diversity in Moving Im ages de Seul deram a entender em conversas com igo que os Estados Unidos teriam am eaçado retirar suas tropas da Coreia se fossem m antidas as cotas contra os film es am ericanos. A retirada do Exército am ericano da Coreia? Não vam os exagerar. Provavelm ente nunca houve sem elhante pressão, da qual os am ericanos, que não seriam capazes de trocar o hard power pelo soft power, seriam por sinal as prim eiras vítim as. Mas que os am ericanos j ogaram com a relação de forças e fizeram de tudo para acabar com as cotas, é evidente.
Na em baixada dos Estados Unidos em Seul, superprotegida pelos fuzileiros navais am ericanos, sou recebido pelo m inistro-conselheiro, um diplom ata calej ado que exerce a função de conselheiro com ercial (e que eu não posso citar nom inalm ente). Ele nega firm em ente qualquer pressão. “A Coreia é um m ercado-chave para os am ericanos nas indústrias de conteúdo, j untam ente com o Japão, um dos principais para nós na Ásia. É um fato inegável. Mas foram os próprios coreanos que aceitaram abaixar as cotas em m atéria de cinem a, pois tinham em j ogo outros interesses econôm icos, m ais im portantes para eles. Isso nunca foi um a precondição, com o chegaram a afirm ar. Posso lhe garantir, pois fui eu que negociei esse acordo. E francam ente, se tivesse havido algum a precondição de nossa parte, não teria sido a respeito do cinem a. Os coreanos tam bém tinham m uitas exigências, especialm ente em questões agrícolas, e portanto foi realm ente um a negociação. Um a negociação difícil, m as um a negociação exatam ente igual à que conduzim os em m uitos países para a assinatura de acordos com erciais bilaterais. Os coreanos queriam absolutam ente assinar esse acordo, essencial para sua eletrônica, sua agricultura, e para isso aceitaram sacrificar o cinem a. Optaram pela Sam sung em detrim ento dos film es. Foi um a escolha dos coreanos.”
O sistem a de cotas coreano é original. Durante certo núm ero de dias do ano, o cinem a nacional deve ser o único proj etado nos cinem as, tendo cada sala a liberdade de escolher os dias em que é proibida a proj eção de film es estrangeiros. Até 2007, 146 dias do ano eram reservados ao cinem a coreano, o equivalente a aproxim adam ente 40%; a cota baixou para 73 dias após o acordo coreano-am ericano, ou sej a, 20%. O resultado não se fez esperar. O cinem a am ericano representava 40% das bilheterias coreanas antes do acordo com ercial bilateral de 2007 (60% para o cinem a coreano), e desde então subiu para 50% (e o cinem a coreano caiu para 49%). “A dim inuição das cotas não é a única explicação desse recuo do cinem a coreano, em bora tenha contribuído para isso”, corrige Mark Siegm und, da Seoul Film Com m ission. “O problem a é que nossa indústria produz m enos film es, e cada vez m enos film es para um público m ainstream . Nosso cinem a continua se com portando bem nos festivais na Europa, m as não atrai m ais os j ovens coreanos. É esse o nosso problem a, e não apenas a questão das cotas.” Se no Korean Film Council, o braço governam ental de proteção da indústria do cinem a, o sistem a de cotas é firm em ente defendido, a m aioria de m eus interlocutores na indústria cinem atográfica em Seul — e sobretudo entre os exibidores — j á não se m ostra tão convencida. Há inclusive aqueles que j ulgam o sistem a contraproducente, tendendo a m ilitar por sua elim inação: “Essas cotas enfraqueceram as salas de cinem a. Com o os j ovens coreanos querem m aciçam ente ver film es am ericanos, as cotas os afastaram das salas, levando-os a com prar DVDs ou piratear os film es na Internet. Além disso, é um sistem a indiferenciado, que sanciona tanto o cinem a j aponês, taiwanês ou francês quanto o cinem a am ericano. E todo m undo sabe que há m uito tem po as cotas não eram m ais respeitadas pelos próprios exibidores. Na verdade, em vez desse sistem a arcaico, o que precisam os é de um a produção forte, de qualidade e voltada para o grande público. É aí, e só aí, que está a solução”, explica o diretor de um a rede de m ultiplexes (desej ando não ser citado nom inalm ente por m edo das reações do m eio profissional). “Na realidade, é preciso notar que, com o aconteceu no México, a MPA com bateu ferozm ente o sistem a coreano de cotas, concentrando sua pressão nos exibidores locais. Os próprios exibidores, convencidos de que os blockbusters holly woodianos eram desej ados pelo público e sobretudo pela j uventude coreana, é que foram os m aiores aliados dos am ericanos na exigência do fim das cotas, esperando assim que seus lucros aum entassem ”, com enta Alej andro Ram írez Magaña, o célebre dono da rede de salas m exicanas Cinépolis, que investe pesado na Ásia (e que entrevistei na Cidade do México). Para os exibidores, contudo, o resultado não foi tão concludente.
Mas o fato é que, com ou sem cotas, a Coreia do Sul m ais ou m enos se apresenta, desde a Guerra da Coreia, com o 51º estado am ericano. Considerando-se a fronteira herm eticam ente fechada com a Coreia do Norte, o país é um a ilha, além de um autêntico navio m ilitar am ericano. Nas ruas de Itaewon, não longe de um a base am ericana, vem os patrulhas de fuzileiros am ericanos, e à noite os bares e cabarés duvidosos são frequentados por soldados. Os Estados Unidos são o país onde vive o m aior núm ero de coreanos fora da Coreia. Tudo isso tem um peso nas trocas culturais entre os dois países.
Mas nessa relação singular com os Estados Unidos tam bém interfere um problem a m ais com plexo para os coreanos, m isturado a um a necessidade de reconhecim ento e à busca de um a identidade. Ao contrário do Japão, desej oso de preservar sua singularidade, ou de Cingapura, que não tem essa pretensão, a Coreia tenta encontrar um a identidade própria. Um a identidade com plexa perdida com a guerra da Coreia e a separação do Norte. Existe ódio em relação à Coreia do Norte, m as tam bém um certo fascínio algo invej oso pela pureza nacionalista “coreana” que ela continua encarnando, ao passo que a Coreia do Sul está globalizada. Existe um a relação com plexa com os am ericanos, que aceitaram m orrer por um a Coreia do Sul livre, m as que se m ostram m ilitarm ente onipresentes e pesados na Coreia. Finalm ente, um certo sentim ento de insularidade parece com prim ir a Coreia do Sul entre o Japão, colonizador de ontem , e a China, que j á agora am eaça econom icam ente e talvez tam bém m ilitarm ente. Não é fácil ser sul-coreano hoj e em dia.