Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
A guerra das imagens
Al Arabiy a, ou quando os sauditas entram no j ogo A um a dezena de
quilôm etros de Dubai, na estrada para Abu Dhabi, a Dubai Media City parece um a m iragem no deserto. Cinco anos atrás, a cidade dos m eios de com unicação do em irado árabe não existia. Hoj e, um cartaz anuncia, orgulhoso: “The largest m edia production zone in the world” (a m aior zona de produção de m ídia do m undo). Rodovias gigantes levam até lá, m as param no deserto, com o se tivessem sido cobertas de areia e não levassem m ais a lugar nenhum ; 1.300 em presas de audiovisual, im prensa e Internet brotaram com o cogum elos (com o se os cogum elos brotassem no deserto); um a centena de arranha-céus se proj etam para as estrelas, m as foram paralisados, com suas gigantescas gruas estáticas, pela crise im obiliária de 2008 e a quase falência do outono de 2009; ao longe, duas torres gêm eas parecem o Em pire State Building, em fotocópia. E em Dubai, em irado de um a exuberância perversa, o espetáculo preferido da população são as corridas de cam elos, com um robô no lugar do cavaleiro (as crianças foram proibidas de participar, para não prej udicar sua coluna vertebral). “Não são cam elos”, corrige Mazen Hay ek, “m as drom edários. Aqui, não tem os cam elos”.
Na sede do grupo MBC, no coração da Dubai Media City, onde a rede Al Arabiy a tem seu quartel-general, sou recebido por Mazen Hay ek. Ele é o porta-voz do grupo, e eu j á conheço desde Paris esse libanês caloroso, que m e recebe falando francês. “Nós som os um grupo saudita baseado nos Em irados”, vai esclarecendo Hay ek logo de entrada, para evitar qualquer confusão. Com o a Al Jazeera, a rede do Catar vizinho e concorrente odiada, a MBC iniciou sua program ação em Londres em 1991, voltada para os árabes expatriados. Desde 2002, o grupo está instalado em Dubai. “Ao contrário da Al Jazeera, nós tem os um a lógica com ercial. Som os a única em presa lucrativa entre os grupos árabes de m ídia. Querem os defender a m odernidade, privilegiam os o edutainm ent e som os m uito ligados aos valores árabes”, resum e Hay ek. A expressão “edutainm ent” é um a palavra que ouvi com frequência ao investigar a indústria da televisão árabe. Mistura de ensino e entretenim ento, poderia ser traduzida com o educação através do divertim ento. “Trata-se de divertim ento inteligente”, explica Mazen Hay ek. Para ele, com o para m eus outros interlocutores árabes, trata-se de um a palavra que na verdade tem função política côm oda, perm itindo estabelecer um a distinção entre o edutainm ent árabe e o entretenim ento am ericano, considerado em botante e pouco de acordo com os valores do islã. E é tam bém um a precaução linguística frente aos religiosos. O que Mazen reconhece: “Nós som os odiados pelos islâm icos radicais, os talibãs, a al-Qaida, os religiosos iranianos, o Hezbolah: eles rej eitam qualquer tipo de entretenim ento, pois não há lugar para o divertim ento no islam ism o radical. O inim igo do entretenim ento são os islâm icos”. Várias séries de televisão árabes baseadas em form atos ocidentais (Loft Story em Bahrein, Star Academy no Kuwait, no Líbano e na Arábia Saudita, Super Star no Líbano e na Síria) provocaram fatwas da parte dos religiosos ou m anifestações de hostilidade, investindo contra a “Satan Academ y ”.
O público do grupo? “Nós visam os os 350 m ilhões de árabes do m undo e os 1,5 bilhão de m uçulm anos. Mas se som os capazes de falar aos árabes, falar aos m uçulm anos é m uito m ais difícil: os iranianos, os indianos, os indonésios talvez sej am m uçulm anos com o nós, m as m uitas vezes têm valores m uito distantes dos nossos e, naturalm ente, não falam árabe.”
Mofeed Alnowaisir é o responsável pelas novas m ídias na MBC. Vou ao seu encontro no escritório que tem na sede do grupo em Riad, e fico surpreso com sua j uventude e seu dinam ism o. Ele traj a a longa túnica tradicional saudita branca, m as tam bém vej o um paletó FCUK pendurado no encosto de sua cadeira. Caberia talvez im aginar que ele só vista a túnica para o trabalho, e as roupas ocidentais para passear nos shopping-m alls com seus am igos de Riad. Não tenho coragem de lhe fazer a pergunta. O j ovem príncipe m e explica a estratégia de seu grupo na Internet. “Nossa estratégia consiste em atingir todo m undo na zona árabe, ao contrário da Al Jazeera, que foca num nicho, ou da Rotana, que só se interessa pelo m ercado j ovem . Nosso m odelo e nosso business plan são diferentes. E nós vam os alcançar nossos obj etivos graças ao digital.” Com seu vocabulário de em presário, ele m e lem bra um dono de start-up trintão no Silicon Valley. Ele tam bém se refere aos m uçulm anos, especialm ente os iranianos e os indonésios. Dá a entender que, com a Internet, será possível alcançar m ais gente. Em “off”, um outro dirigente da MBC na Arábia m e diz que um dos obj etivos do grupo é transm itir seus program as para o Irã; m as, com o é proibido fazer transm issões em persa de Riy ad ou Dubai, a MBC contorna a norm a transm itindo seus program as para o Irã em árabe, com legendas em persa.
Por que transm itir para o Irã a partir de Dubai? Em prim eiro lugar, por causa dos fortes vínculos entre o Irã e Dubai, onde vivem dezenas de m ilhares de iranianos — talvez cem m il —, particularm ente trabalhadores im igrantes que vão e vêm e exilados que fugiram do regim e islâm ico desde 1979, m uitas vezes artistas, intelectuais ou com erciantes do m ercado de Teerã. Depois, por m otivos dem ográficos: com o a população iraniana é particularm ente j ovem , o entretenim ento vai crescer no país. Existem portanto perspectivas com erciais ilim itadas nessa zona em que a dem anda é grande e a oferta, censurada. Por m otivos políticos, finalm ente: os países do Golfo, especialm ente a Arábia Saudita, estão em guerra fria com o Irã, e, buscando “conter” o regim e, valem -se dos m eios de com unicação nessa batalha de ideias e im agens. Tudo concorre para que Dubai se transform e na plataform a com ercial estratégica para a transm issão dos fluxos de inform ação e conteúdos culturais entre o Irã e o resto do m undo. A Voice of Am erica e a BBC persa, as redes m usicais iranianas, com o o Persian Music Channel, estão instaladas em Dubai, fazendo a ligação entre o Irã e o Ocidente. Essas redes instaladas no Golfo m uitas vezes se escoram na im portante com unidade iraniana de Los Angeles, que faz a ligação com os Estados Unidos. Hoj e em dia, assim , Dubai é um a capital das indústrias de conteúdo, um a espécie de Hong Kong, de Miam i e de Cingapura para o m undo árabe em geral e para o m undo persa iraniano em particular.
Visitando as instalações da Al Arabiy a em Dubai, percorrendo os estúdios de gravação, vendo os program as, fico im pressionado com a liberdade das m ulheres, quase nunca cobertas de véu, e o diálogo descontraído entre os sexos. Se o grupo MBC instalou sua rede Al Arabiy a na Dubai Media City, concentrando ali a m aioria de seus m eios de produção em televisão, é porque essa “free zone” é livre, em todos os sentidos da palavra. Trata-se, naturalm ente, de um a zona franca no terreno econôm ico, onde as em presas não pagam im postos nem direitos alfandegários. Tam bém prevalece, com o na Suíça, um segredo bancário que facilita as transferências de divisas do Irã, os m ovim entos de capital entre países inim igos e certam ente a lavagem de dinheiro. Mais im portante ainda, Dubai é um m ercado publicitário em que as agências de com unicação com pram espaços publicitários para todo o m undo árabe. Se a televisão árabe é m uito com petitiva, com m ais de quinhentas redes atualm ente, o setor da publicidade é extrem am ente concentrado: “cinquenta por cento da publicidade nas televisões por satélite gratuitas estão nas m ãos de um a dezena de redes”, reconhece Dania Ism ail, diretora de estratégia da MBC. Com a crise de 2009, Dubai estaria am eaçada? Dania Ism ail: “Sabe com o é, nós costum am os dizer que o m ercado publicitário oscila entre Beirute e o Golfo. Toda vez que há um a crise em Dubai, os anunciantes vão para Beirute. Mas toda vez que há um a guerra em Beirute, ou que o Hezbolah entra para o governo no Líbano, eles voltam para Dubai. Quando eles se vão, nós esperam os que voltem ”.
Enfim , Dubai é um a zona livre no que diz respeito aos m eios de com unicação, à Internet e aos costum es. “Não existe qualquer censura aqui, nenhum controle”, regozij a-se Mazen Hay ek, porta-voz da MBC. Mas ele acrescenta: “Em nossos talk-shows, tem os toda liberdade, falam os de tudo, das m ulheres que se recusam a usar o véu, dos gay s. Mas ao m esm o tem po não estam os aqui para ‘disjoncter’ a sociedade árabe (ele em prega a palavra em francês). Todos os nossos talk-shows são gravados aqui, e, se necessário, editados. Tem os regras m uito precisas: por exem plo, não é perm itido falar palavrões. Nunca há im provisação, nenhum acidente. Quando ocorrem , cortam os”. A estrela Loj ain Ahm ed Om ran, um a sedutora saudita, que apresenta a program ação m atinal da MBC 1, dirigindo-se a m ilhões de árabes diariam ente, confirm a: “Estam os sem pre m ais ou m enos nos equilibrando. Eu não uso o véu nos program as, o que é raro para um a m ulher saudita, m as o substituo por um lenço, para não provocar. O que fazem os sobretudo é edutainm ent. Eu falo de tudo, m as devo educar e ser diplom ata. Se estim ulasse as m ulheres a serem lésbicas, eles im ediatam ente fechariam o canal!”. Em term os de liberdades, outro dos m eus interlocutores na MBC, que prefere m anter-se anônim o por m otivos óbvios, afirm a no entanto que “a liberdade é m uito relativa em Dubai: não se pode beber, não se pode xingar, m ostrar um a m oça desnuda ou de roupa de banho, e até as m anifestações de afeto entre hom ens e m ulheres devem ser m uito reduzidas. Não é exatam ente com o na Arábia Saudita, m as não deixa de ser um ‘islã do deserto’, o islã dos beduínos, no fundo m ais tolerante m as tam bém m ais arcaico”. A film agem de um a versão árabe da série Sex and the City, que deveria ser realizada em Dubai, foi recusada pelo em irado, que apesar de tudo está subm etido à lei corânica. Com isso, os estúdios são utilizados quase exclusivam ente pelos países árabes e às vezes por Bolly wood. Nunca pelos ocidentais. Na verdade, os program as m ais “liberais” da MBC não são rodados em Dubai, m as em Beirute, no Cairo e talvez em breve em Abu Dhabi.
Durante m uito tem po, nos Em irados Árabes Unidos, prevalecia um a repartição tácita no setor audiovisual: Abu Dhabi financiava e Dubai produzia. A prim eira capital tinha os bancos, a segunda, os estúdios. Recentem ente, Abu Dhabi criou sua própria Media City, e, diante dos erros financeiros e especulativos da capital do em irado vizinho, pretende agora aproveitar sua própria riqueza para atrair um pouco do buzz do entretenim ento árabe. À m ania de grandeza de Dubai sucede a loucura dos banqueiros de Abu Dhabi, perfeitam ente decididos a im por um a tutela ao em irado arruinado e recuperar um pouco do seu glam our. Resta no entanto o fato de que os cânones m orais de Abu Dhabi parecem ainda m ais rígidos que os de Dubai. Sobretudo, os dois em irados têm em com um infraestruturas e recursos im portantes m as poucos conteúdos: pouco populosos e sem classes criativas, precisam sem pre recorrer aos artistas, realizadores, técnicos especializados e roteiristas do Líbano, do Egito ou da Síria, o que freia o seu desenvolvim ento. O futuro dirá se essas duas cidades irm ãs serão capazes de se m anter de m aneira duradoura com o capitais do entretenim ento árabe. Ou se não terão passado de um a m iragem no deserto.
Resta ainda um últim o tem a quando se fala da Al Arabiy a com o concorrente frontal da Al Jazeera: o papel dos am ericanos em seu surgim ento. Vários de m eus interlocutores na Palestina, na Síria, no Catar ou em Dubai insinuaram que a Al Arabiy a estava nas m ãos dos am ericanos. É um a hipótese plausível, m as pouco em basada. Questiono a esse respeito Abdul Rahm an al-Rashed, o diretor-presidente da Al Arabiy a, que naturalm ente nega qualquer vínculo, categoricam ente. Segundo ele, os sauditas da MBC de qualquer m aneira não precisam de dinheiro am ericano, “pois os recursos financeiros realm ente não são o problem a da Al Arabiy a”. Com isto, Rahm an al-Rashed m e fornece duas inform ações essenciais e em princípio confidenciais, a saber, que o orçam ento da Al Arabiy a seria de “em torno de 120 m ilhões por ano, o equivalente a 50% do orçam ento da Al Jazeera em árabe” (naturalm ente, não é possível confirm ar esses dois dados fundam entais). Saud Al Arifi, especialista em m ídias sauditas, entrevistado em Riad, não tem tanta certeza: “Será que eles recebem dinheiro am ericano por vias transversas? Através da CIA? Talvez. Talvez não. Tenho m inhas dúvidas”. Os especialistas entrevistados tam bém confirm am a ausência de vínculos estruturais ou m esm o de trocas financeiras entre os Estados Unidos e a rede saudita, m as frisam a possibilidade de um a “convergência de interesses”. Um deles m e esclarece, com a condição de não ser identificado: “Os am ericanos, com o os sauditas, têm interesse na existência de um concorrente sério da Al Jazeera, é nisto que se resum e o vínculo”. Um diplom ata ocidental em Riad confirm a, por sua vez: “A Al Arabiy a quer ser a voz do m undo árabe, antes de ser a voz do m undo m uçulm ano — no fundo, o inverso da Al Jazeera. A MBC, proprietária da rede, é um grupo de fachada que reflete a posição do regim e saudita, com o a Al Jazeera reflete a do Catar. Em certos tem as, com o o Irã, o Hezbolah ou a Síria, a rede pode se aproxim ar dos interesses am ericanos, m as um vínculo com os Estados Unidos é m uito im provável. O rei Abdallah da Arábia Saudita, que entrou num a lógica de guerra fria com os xiitas, conduz sua própria diplom acia da m ídia”. Mas o fato é que são num erosas as parcerias com erciais com os am ericanos, tendo a MBC, por exem plo, assinado recentem ente um acordo exclusivo de três anos com a Param ount para alim entar suas redes de cinem a com film es holly woodianos. Existem outros acordos com a Disney e a Warner, segundo m e confirm aram vários interlocutores em Los Angeles.