Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 57 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Música no Líbano, televisão em Dubai, cinema no Cairo

Ao deixar o reino de Al Waleed, dou um a espiada, j ustam ente em frente à m esquita, no escritório de Shadi Sanbar. Ele m e agradece pela visita e m e oferece presentes num a bela bolsa de couro verde, a cor do Islã, com a m arca Rotana.

No térreo da torre do príncipe Al Waleed, num café Starbucks, abro a bolsa de couro. Encontro um coffee-m ug Rotana, um a caneta Rotana, um Annual Report do grupo, a biografia em árabe de Al Waleed assinada pelo j ornalista Riz Khan e sobretudo dezenas de exem plares de revistas am ericanas com o Time, Newsweek, Vanity Fair e Forbes, com capas m anipuladas. Nessas fotos, Al Waleed traj a terno ou cam isa, e não a túnica tradicional. Nessas capas fabricadas em Photoshop, vem os o príncipe a bordo de seu iate particular de 86 m etros, no volante de um de seus trezentos carros ou a bordo de seu Boeing 747 transform ado em j ato privado (em 2010, ele receberá o Airbus A380 que encom endou). A m egalom ania do príncipe é de fato digna de nota. De repente, na bolsa de couro verde, encontro um a carteira de docum entos m enor, tam bém de couro verde, um a espécie de pochete de luxo. Em pleno Starbucks, abro finalm ente o porta-docum entos, que se desdobra em várias partes. E m e dou conta, estupefato, de que se trata na verdade de um esplêndido tapete portátil para as orações corânicas.

Música no Líbano, televisão em Dubai, cinem a no Cairo O Rotana Café de

Dam asco fica nas instalações do Four Seasons, um dos com plexos hoteleiros m ais luxuosos da Síria. E por sinal não se trata de um sim ples hotel, m as de um verdadeiro “resort”, um lugar de vilegiatura de luxo e turism o internacional de elite, oferecendo, em 18 andares, dezenas de bares da m oda, restaurantes “up-scale”, piscinas e spas, para não falar das galerias com erciais ostentatórias e m uitas loj as de m oda. O hotel pertence ao príncipe Al Waleed (um dos m aiores acionistas do Four Seasons e proprietário do George V de Paris), e ele naturalm ente abriu em suas instalações um Rotana Café.

Em três níveis, o Rotana Café de Dam asco tem um a loj a de discos ao estilo Virgin Megastore para ricos no térreo, um café-restaurante com dezenas de telas oferecendo perm anentem ente clipes da Rotana TV, no prim eiro andar, e finalm ente um im enso lounge com vista para as m esquitas, os parques e a cidade velha de Dam asco no terraço. Fum a-se o narguilé, m as o álcool é proibido. Vários coquetéis de frutas, batizados de Mocktails, estão entretanto à disposição, entre eles o fam oso Noj ito (um “Nonalcoholic Moj ito” em que o rum é substituído por Schweppes — intragável). Todas as estrelas da Rotana estão ali, física ou virtualm ente. O príncipe convida suas estrelas com frequência a se hospedar em seus hotéis e participar de noitadas nos Rotana Cafés, para encontrar os fãs. Tam bém é possível com prar os CDs e os vídeos do grande astro egípcio Am r Diab, de Angham ou Sherin, duas cantoras sexy tam bém egípcias, do iraquiano Maj id, do sírio George Wassuf, dos sauditas Abu Baker Salim e Moham ed Abdo (no encarte dos CDs que eu com pro, am bos usam um keffieh na cabeça), ou ainda da tunisina Latifa, da síria Assalah e da líbia Elissa. Todos esses artistas são grandes estrelas no m undo árabe. Em sua m aioria, seus discos foram gravados no Líbano.

Em Beirute, o Rotana Café fica na Praça da Estrela, no bairro cristão, no térreo de um prédio m oderno. Quatro andares acim a estão os escritórios da Rotana: “Foi aqui em Beirute que a Rotana instalou seu ram o de m úsica”, confirm a Tony Sem aan, o diretor de A& R da Rotana Music, que m e recebe em seu escritório num a m anhã de sábado. Aos 32 anos, Seem an é, segundo m e dizem , um dos m ais talentosos descobridores de estrelas do m ercado da m úsica árabe. Enquanto um garçom nos traz chá num coffee-m ug com a m arca da Rotana e Tony Sem aan conclui um a conversa pelo telefone com um agente artístico no Egito, eu observo o seu escritório. Bem à vista, num a estante, está a biografia am ericana de Al Waleed, com o título Businessman Billionaire Prince.

“A Rotana é um grupo m ainstream . Nosso obj etivo é a popularidade. Com a Rotana, Al Waleed pretende criar um gigante do entretenim ento pan-árabe em todo o m undo, e pretende fazê-lo qualquer que sej a o preço. O m odelo econôm ico é im portante, m as não tanto quanto o obj etivo político”, com enta Tony Sem aan em francês. Para alcançar esse obj etivo, o grupo saudita instalou seu quartel-general m usical em Beirute, o cinem atográfico no Cairo e as em issoras de televisão em Dubai. “Beirute é a capital da m úsica árabe. Todos os veículos de com unicação árabes têm escritórios aqui, e em m atéria de produção m usical, estúdios de gravação e film agem de videoclipes, som os os líderes na região”, com enta Sem aan. A estratégia é sim ples, resum ida por m eu interlocutor: com o em todo o m undo a m úsica árabe é im aginada com m ulheres cobertas de véus e hom ens com keffieh, a Rotana produz vídeos em que as m oças são j ovens, sexy e vestidas com pouca roupa, com o na MTV. E, naturalm ente, com o não é perm itido film á-las em Riad, Beirute foi escolhida para sediar o braço m usical do grupo.

A fam ília Rotana conta com cerca de 130 estrelas da m úsica árabe. O m odelo econôm ico é sim ples: cada artista recebe um a “flat fee”, um valor fixo por álbum , m as raram ente percentual sobre as vendas. Em seguida, o grupo distribui essa m úsica pré-adquirida em diferentes versões e todas as plataform as: CDs, DVDs, vídeos, program as de televisão, Internet, produtos derivados, contratos publicitários e até coffee-m ugs. A Rotana tam bém cuida do gerenciam ento dos artistas e, naturalm ente, dos shows, segundo a estratégia cham ada de “360°” (Tony Sem aan m e dá a entender que é a m arca registrada da Rotana, em bora na verdade sej a atualm ente a estratégia da m aioria das produtoras de discos do m undo, depois de ter sido adotada pelas agências de publicidade).

Os cantores são provenientes de todo o m undo árabe, do Magreb ao Iraque, m as não além disso. Para ser aproveitado, um artista deve ter um “forte potencial pan-árabe”, o que significa que deve ser capaz de atrair público em vários países. Na organização dessa estratégia “crossover”, a Rotana pede a suas estrelas que cantem com sotaque egípcio. “É o sotaque egípcio que é entendido em todo o m undo árabe. É um sotaque fácil de adquirir, e dam os um j eito para que os cantores sírios, libaneses ou do Golfo cantem com sotaque egípcio para atingir todo m undo”, explica Tony Sem aan.

Por enquanto, a Rotana ainda não ganhou realm ente sua aposta m undial. As estrelas do grupo não vendem m uito na Ásia, praticam ente nada na Am érica Latina e na África subsaariana, pouco nos Estados Unidos. Mas o grupo de Al Waleed teve êxito além de todas as suas expectativas no alvo principal: a zona batizada, na própria Rotana, de “MENA Region” (Middle East North Africa). Nela, os resultados são im pressionantes. Segundo dados fornecidos pelo grupo, de verificação im possível, as 130 estrelas da Rotana seriam responsáveis por 85% da m úsica vendida em todo o m undo árabe. Os resultados estão igualm ente em forte avanço no Magreb, graças a estrelas com o a tunisina Latifa, a m arroquina Laila Ghofran, a argelina Am el Bouchoucha e ainda Thekra, um a tunisina estabelecida na Líbia e depois no Egito, e recentem ente assassinada em circunstâncias suspeitas. “Nosso obj etivo atualm ente é o m ercado m agrebino na Europa, especialm ente na Itália, na Espanha e na França. Estam os construindo concretam ente, no terreno m usical, a União para o Mediterrâneo proposta pelo presidente Sarkozy ”, diz-m e Tony Sem aan com um sorriso.

E não é tudo. Na era da pirataria em m assa, com o as vendas de álbuns não são um obj etivo im portante da Rotana e o CD passou a ser apenas um a ferram enta prom ocional, a prioridade agora é a televisão. Com seus diferentes canais m usicais, a Rotana lidera nos países árabes. E o grupo inventou, seguindo o m odelo da MTV, o videoclipe árabe de três m inutos e m eio. “Antes, as televisões árabes difundiam canções egípcias que podiam durar trinta ou quarenta m inutos. Eram longos poem as sem fim ”, explica Sem aan. “Com base no m odelo da MTV e do clipe, retom ado pela Rotana, houve um a adaptação ao form ato de três m inutos e m eio”. Mas o sucesso do grupo saudita não se deve exclusivam ente a essa form atação: a beleza das j ovens nos clipes, a liberdade com que se vestem em relação aos costum es do m undo m uçulm ano e a sensualidade de sua linguagem são em grande parte responsáveis pela revolução que a Rotana operou no entretenim ento árabe. Resultado: quatro dos canais da Rotana estão no Top 10 das redes m ais vistas da zona árabe. E no terreno m usical a am ericana MTV deixou de existir face ao gigante saudita.

No Monte Líbano, no bairro de Naccache, um subúrbio na região norte de Beirute, a sede da MTV é faraônica. Um a dezena de prédios novinhos em folha, 16 estúdios de televisão, cafés e um serviço de segurança fora do com um . Na recepção, cinco m oças no estilo top m odel atendem ao telefone e conduzem os convidados ao estúdio. Mas o logotipo da MTV —, azul e verm elho —, não dá m argem a qualquer dúvida. O nom e da rede não tem qualquer relação com sua hom ônim a am ericana: a Murr Television (m ais conhecida no Líbano com o MTV) é um a das principais redes generalistas dos cristãos libaneses. “Ela não tem qualquer vínculo com o grupo Viacom , proprietário da Music Television (MTV) nos Estados Unidos”, confirm a Michel Murr, o diretor-presidente do grupo.

Visivelm ente feliz por encontrar um francês e acom panhado de sua m ulher, Pussy, Michel Murr m e recebe num a tarde de sábado na sede de seu grupo, tranquilo e caloroso. Durante nossa longa conversa, ele resolve problem as por telefone com um m inistro (sua fam ília está no coração do poder cristão libanês, seu tio, hom ônim o perfeito seu, era m inistro do Interior e um dos braços direitos do ex-prim eiro-m inistro Rafik Hariri, assassinado). Michel Murr, o sobrinho, não quer falar m uito de política. Repete várias vezes que sua rede é “neutra”, m as eu sei que ele é um “cristão sunita”, gracej o m uito frequente em Beirute para se referir à m inoria cristã que se dividiu em 2009 entre “cristãos sunitas”, antissírios, e “cristãos xiitas”, pró-Hezbolah. No Líbano, cada rede de televisão está ligada a um partido político, o que relativiza m uito essa neutralidade.

“Tem os aqui um dos m ais im portantes com plexos de produção audiovisual do Oriente Médio”, diz-m e Michel Murr. “O Líbano representa a fronteira do m undo árabe, seu lim ite, e por isso é que são rodados aqui os program as de televisão m ais m odernos da região. As m ulheres são livres, os recursos técnicos são m uito avançados em relação aos outros países árabes. O entretenim ento é o nosso negócio.”

Acom panhado de Pussy Murr, visito os estúdios do grupo, batizados de Studiovision, com o obj etivo de assistir à gravação de Rotana Café, o principal program a cultural do Rotana Moussica, um dos canais da Rotana. O cenário do talk-show é fam oso em todo o m undo árabe: um balcão de café e um a falsa biblioteca cheia de livros e garrafas Rotana, im itando a Coca-Cola. O program a é “live”, consistindo em deixar que um grupo de j ovens apresentadores discutam entre eles, livrem ente, sobre o m undo m usical, a televisão, o entretenim ento e tudo que constitui o buzz do m om ento.

Muitas vezes, as declarações dos j ovens apresentadores causam rebuliço no Golfo, no Egito ou na Arábia Saudita. Em 2009, o talk-show Linha vermelha, da rede libanesa vizinha, LBC, da qual o príncipe Al Waleed passou a ser acionista principal, provocou forte polêm ica: nele, um j ovem saudita, Mazen Abdel Jawad, relatava com o usava o seu Bluetooth para paquerar m oças sauditas cobertas de véu nos shopping-m alls, j á que não podia conversar com elas diretam ente (ele recebeu um a pena de cinco anos de prisão e m il chibatadas por “com portam ento im oral”, enquanto a LBC era am eaçada de proibição na Arábia Saudita).

“É nesses talk-shows gravados em Beirute pelas redes de televisão Rotana, MTV, LBC e MBC que há m aior liberdade. No m undo árabe, o que esses j ovens pensam e nos dizem é absolutam ente incrível. A pretexto de conversar entre eles, de passar em revista os com entários e fofocas da televisão, de descrever sua vida cotidiana, eles falam de questões com o drogas, prostituição, gay s, venda de m ulheres iraquianas, lésbicas, transexuais. Para um hom em da m inha geração, é absolutam ente incrível ouvir essas coisas. São eles, esses apresentadores de talk-shows com m enos de 25 anos, que vão contribuir para a abertura dos países árabes”, afirm a o produtor de séries de televisão Makram Hannoush, um libanês entrevistado em Dam asco. Esses talk-shows libaneses, catarenses e com m enor frequência dos Em irados vão m uito além de sim ples divertim entos, de fato abalando as próprias bases do m undo árabe. São m otivo de grave preocupação para Riad, Teerã e Trípoli, causa de perturbação social para as fam ílias patriarcais. Pois o fato é que tocam na ordem fam iliar, afetam a separação dos sexos, perturbam a divisão do trabalho, questionam o código de honra. Levando à tela não apenas m ulheres sem véu m as m ulheres sim plesm ente, os talk-shows da Al Jazeera e da LBC, as séries da MBC, os clipes da Rotana rom pem com a tradição que confina a m ulher ao espaço privado e reserva o espaço público exclusivam ente ao hom em . Essa revolução em m archa é um fato capital.

“O Warren Buffett árabe” é com o a revista Time se refere ao príncipe Al Waleed. “O príncipe Al Waleed quer m esm o é se tornar o Murdoch do Oriente Médio”, corrige Frédéric Sichler. “O m odelo é m enos Warren Buffett do que Murdoch. E por sinal o príncipe é o segundo m aior acionista da News Corp, o grupo m ultim ídia de Murdoch.” No hotel Four Seasons do bairro de Garden City, no Cairo, esplêndido palácio à beira do Nilo, encontra-se o escritório perm anente de Frédéric Sichler. Antigo diretor do Studio Canal, o braço de produção cinem atográfica do francês Canal +, Sichler foi recrutado pelo príncipe saudita para presidir a Rotana Film s, o braço de cinem a da Rotana. “A Rotana é um grupo que surgiu da m úsica árabe, evoluiu para a televisão e atualm ente se volta para o cinem a”, esclarece Sichler.

No Golfo, o problem a não é dinheiro, m as talento. No Egito, é o contrário. Os países do Golfo têm os bancos, os capitais, as redes de satélite, m as lhes falta criatividade. Para alim entar as inúm eras redes que consom em grandes quantidades de program as em Dubai, Abu Dhabi e no Catar, é necessária a produção de conteúdos em fluxo perm anente. Assim é que os príncipes do Golfo e seus estados-m aiores se abastecem de film es no Cairo. Coproduções, com pras antecipadas de film es para as televisões do Golfo, j oint-ventures, produções próprias, todas as técnicas existem para produzir esses conteúdos audiovisuais no Egito.

“A Rotana é um a em presa pan-árabe. Nós nos interessam os por todas as cinem atografias árabes. Pois assim com o a m úsica é um m ercado regional, pan-árabe, facilm ente atravessando fronteiras, o cinem a é sem pre fortem ente nacional”, prossegue Frédéric Sichler. O m otivo? “No cinem a, ao contrário do que acontece na m úsica, a com ercialização é feita país a país, e em todos os países árabes há sem pre regulam entações m uito específicas que requerem autorizações locais de com ercialização.” Com o os dem ais grupos de m ídia do Oriente Médio, portanto, a Rotana tenta ao m esm o tem po atuar no m ercado árabe global em m atéria de produção e trabalhar em m ercados nacionais na esfera da distribuição. “Na produção cinem atográfica, o Egito continua sendo a porta giratória”, prossegue Sichler. “É o único país árabe onde existe um a indústria de cinem a, m uito adiante dos três outros produtores árabes, a Síria, o Líbano e os países do Golfo.” E ele acrescenta: “No Egito, tem os um a forte cultura cinem atográfica popular e 20-30 m ilhões de entradas vendidas anualm ente, quando no Marrocos são m enos de 2 m ilhões. Os egípcios sem pre fizeram entretenim ento e com édias: é esse cinem a que funciona no m undo árabe, e não o cinem a de autor m arroquino. E é por isso que a Rotana instalou seu quartel-general de cinem a aqui no Cairo”.

Existem outros m otivos pelos quais o Cairo é a porta giratória cinem atográfica do m undo árabe. No Egito, existe um a rica criatividade, graças a um a longa tradição audiovisual, a um am plo viveiro de roteiristas, atores e cineastas e a um a cultura artística, literária e de divertim ento que é antiga. “O Cairo é a Holly wood do m undo árabe, em m atéria de cinem a e televisão”, confirm a Moham ed Mouneer, diretor de m arketing do grupo Rotana no Cairo. O Egito tam bém é o único gigante árabe: um a população de quase 75 m ilhões de habitantes que form a o m aior m ercado árabe do planeta (17 m ilhões dos quais no Cairo, que é ao m esm o tem po a m aior cidade árabe do m undo e a cidade m ais populosa da África). O país tem um a grande diversidade étnica e m uita im igração proveniente de todos os países árabes. “O Egito é um a sociedade diversificada e m ultiétnica, com o os Estados Unidos”, afirm a Hala Hashish, diretora do Egy pt New Channel, entrevistada no Cairo. “É o único país árabe em que é possível encontrar sírios, m arroquinos, libaneses e líbios. Um a sociedade cosm opolita, m ais aberta e diversificada, por ser tam bém um Estado pacífico. Além disso, aqui é possível rodar um film e ou um a novela com um a m ulher sem véu, o que seria im possível em Riad ou Teerã.” Paralelam ente, estão presentes no Cairo todas as redes de televisão m undiais e equipes técnicas diversificadas, havendo ainda a proteção dos sindicatos, um a censura oficial lim itada aos costum es (em com paração com o resto do m undo árabe) e um a língua falada em vários países árabes e entendida em quase todos. “Dois árabes de nacionalidades diferentes que queiram se entender precisam recorrer ao dialeto e ao sotaque egípcios”, explica Yussef Osm an, que dirige a produção da Media City perto do Cairo. “É um círculo virtuoso”, confirm a Hala Hashish: “Os film es árabes são feitos em egípcio, os cantores adquirem o sotaque egípcio, nossos m eios de com unicação são m ais poderosos no m undo árabe e isso fortalece a m úsica e o cinem a egípcios”.

Finalm ente, para entender o papel determ inante do Cairo nas indústrias criativas, ao lado de Dubai, Abu Dhabi e Beirute, devem os acrescentar o papel dos bancos e da m oeda, relativam ente seguros. E afinal, o Egito m antém relações diplom áticas com a m aioria dos países árabes, os Estados Unidos, a Europa e Israel, e este ponto tem sua im portância em m atéria de circulação de produtos culturais: com erciando com Israel, o Egito facilita a difusão de seus conteúdos na Palestina e na Jordânia.

A estratégia m ultim ídia e pan-árabe do grupo Rotana, instalado em Riad, Dubai, Beirute e no Cairo, parece infalível, e o sucesso dá as caras. Vários interlocutores m eus, contudo, não com partilham desse entusiasm o. É o caso do produtor da Star Academ y árabe, Nagi Baz, entrevistado em Beirute, e que põe em dúvida a viabilidade da em preitada: “A Rotana não é um a em presa com o outra qualquer: é a dançarina de Al Waleed. O business m odel não im porta: seu obj etivo é exclusivam ente político e identitário árabe”. Outros apontam a m egalom ania do príncipe: “Todo ano, Al Waleed convida os artistas da Rotana que acabam de receber seus cachês para se hospedarem num hotel Four Seasons e se apresentarem em sua hom enagem . Recentem ente, presenteou a m aioria deles com um a BMW — todos agradeceram ... e im ediatam ente venderam o autom óvel de luxo por dinheiro vivo”. Pascal Gaillot, diretor-presidente da EMI Oriente Médio, concorrente direta da Rotana, entrevistado em Dubai, cham a a atenção, por sua vez, para a am bição m onopolística do príncipe: “A Rotana m atou o m ercado árabe de m úsica ao derrubar os preços. Trata-se de concorrência desleal. O obj etivo do príncipe não é econôm ico, m as tornar conhecida a m úsica árabe. Ele tem prazer com a Rotana, j á nós, fazem os negócios.” Outros m ostram -se ainda m enos positivos: a Rotana estaria obrigando as estações de rádio e televisão a divulgar os cantores do grupo e im pondo cláusulas irregulares nos contratos com os artistas, que ficam “de m ãos e pés atados, em total desprezo das práticas internacionais habituais em m atéria de direitos autorais”, segundo Maxim e Dupa, que coordena o escritório de exportação de m úsica no Ministério da Cultura do Líbano. As críticas são ainda m ais virulentas no que diz respeito à qualidade m usical prom ovida pela Rotana: “um pop am ericanizado em árabe”; “estandardização árabe”; “um a MTV piorada”; “na m úsica, são sem pre os m esm os ritm os, e nos clipes, sem pre a m esm a história, de um casal que se encontra, se distancia e se reencontra”; “a Rotana não está prom ovendo a m úsica árabe, e sim m atando-a”. Enfim , Al Waleed é criticado por ter escolhido Beirute para a m úsica e o Cairo no caso do cinem a, o que daria m ostra de sua hipocrisia: “O saudita Al Waleed sabe perfeitam ente que não teria com o fazer seus film es ou gravar seus álbuns em Riad. Ele pode m ostrar m ulheres sem véu em Beirute ou no Cairo, m as não na Arábia Saudita nem no Golfo. É um a clara ilustração da hipocrisia dos regim es sunitas puritanos que fazem um a interpretação radical do Corão e proíbem em casa o que estim ulam fora de casa”. Outro dirigente do setor audiovisual acrescenta, entrevistado na Media City de Dubai: “A Arábia Saudita é o país da m aior hipocrisia: o álcool é proibido e as m ulheres estão sem pre cobertas, m as, por baixo do pano, é o país onde se pode conseguir tudo, facilm ente, em qualquer lugar — álcool, drogas, prostitutas, transexuais e tudo m ais. As bacanais da elite saudita são realm ente extravagantes. E Al Waleed, que pertence a essa elite, tendo-se divorciado três vezes, é o sím bolo da contradição desse país”. Com m ais hum or, um dirigente da Rotana com enta com igo: “É verdade, alguns dos nossos cantores são ‘pop’ o ano inteiro, m as no Ram adã eles se transform am em cantores islâm icos. É um dos paradoxos do m undo árabe”.

Em favor da Rotana e de Al Waleed, podem os levantar um a outra hipótese: a estratégia do grupo talvez consista em favorecer a m odernização do m undo árabe em geral e da Arábia Saudita em particular. O fato de o príncipe defender os direitos das m ulheres e criticar reiteradam ente a ala m ais retrógrada do reino aponta nessa direção. Seria ele um cavalo de Troia do regim e em suas pretensões de “m odernização”? Talvez. Ou talvez a encarnação de sua ala liberal? É o que consideram vários especialistas consultados. Seria pró-am ericano? Certam ente, m as tam bém fortem ente solidário da causa palestina. Pró-libanês e particularm ente favorável aos sunitas libaneses? Com certeza, no m ínim o, por suas origens fam iliares. Estaria em conflito declarado com a ala dura do regim e? Difícil de saber. Para corroborar a tese “m odernista”, cabe lem brar que Al Waleed foi alvo de um a fatwa “preventiva” em setem bro de 2008, da parte do xeque saudita radical Saleh al-Lihedan, autorizando seu assassinato se continuasse a contribuir para a difusão de program as de televisão “corrom pidos” e “ím pios”. Mas o xeque foi dem itido pelo rei.

Os grupos de m ídia pan-árabes, com o a Rotana m as tam bém a AMC ou a MBC, seriam capazes de alcançar êxito em sua estratégia com ercial cultural e de m ídia num a época de globalização? Difícil dizer. O certo é que esses poderosos grupos j á dom inam o entretenim ento e as m ídias árabes. Mas seriam capazes de ir ainda m ais longe, enfrentando os am ericanos e os europeus em m ercados não árabes? É precisam ente aqui que a questão dos valores e da censura, que faz a força desses grupos na zona árabe, contribui tam bém para sua fraqueza nos outros m ercados internacionais. Foi no Egito, apesar de ser um país relativam ente “aberto” em relação ao resto do m undo m uçulm ano, que eu m elhor entendi os lim ites da estratégia árabe de tentar alcançar o estatuto de m ainstream em todas as partes do m undo.