Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
O monopólio dos sindicatos.
Globalm ente, a estratégia de m arketing e Internet dos estúdios consiste em apagar a linha de separação entre a publicidade e a inform ação, para que a intrusão publicitária sej a m ais facilm ente tolerada e talvez até desej ada. No fundo, é isto o buzz: o boca a boca transform ado em m arketing.
O m onopólio dos sindicatos
No núm ero 7.920 da Sunset Boulevard, em pleno coração de Holly wood, tenho encontro m arcado dias depois com os dirigentes da Directors Guild of Am erica (DGA), o todo-poderoso sindicato dos diretores de cinem a. Tam bém aqui, a Internet vem causando sérios problem as. Sucessivas greves ocorreram nos últim os anos para obrigar os estúdios a prever nos contratos com pensações relativas às novas m ídias. “Na Directors Guild of Am erica, nós consideram os que o diretor é um ‘autor’, no sentido francês da palavra. Estam os aqui para proteger seus direitos com o criador, inclusive na Internet. Por isto, não som os um sindicato propriam ente dito, m as um a ‘guild’, um a espécie de sociedade de autores”, corrige Kathy Garm ezy, diretora da DGA. Os sindicatos e as “guilds” são protagonistas fundam entais em Holly wood. E por surpreendente que possa parecer num país com o os Estados Unidos, considerado ultracapitalista, Holly wood é um a indústria totalm ente regulam entada e na qual os sindicatos têm o m onopólio das contratações.
De John Ford, um de seus seus fundadores, a Steven Spielberg, passando por Martin Scorsese e Steven Soderbergh, os realizadores de cinem a e televisão am ericanos são em sua m aioria (com raras exceções, com o George Lucas e Quentin Tarantino) associados à “Guild”. O m ais fam oso deles é Alan Sm ithee: “É um pseudônim o oficial, inventado na DGA, para os cineastas que não estiverem satisfeitos com o film e, discordando com o estúdio ou o produtor a respeito do ‘final cut’. Nesse caso, o m em bro da DGA pede que sej a identificado nos créditos com o Alan Sm ithee”, sorri Kathy Garm ezy. Perfeitam ente reais, por sua vez, m ais de 900 realizadores estrangeiros que film aram para a televisão ou o cinem a am ericano tam bém são m em bros da DGA, e Kathy Garm ezy insiste nesse ponto: “O futuro de Holly wood está no resto do m undo”. (Mas ela nada com enta a respeito dos direitos de trabalho, os quais, sob a pressão dos sindicatos, tornam na realidade difícil para os estrangeiros trabalhar em Holly wood, num autêntico sistem a protecionista disfarçado.) Em relação aos m em bros, a DGA cuida das questões econôm icas e sociais da profissão, especialm ente salários m ínim os, cobertura m édica, condições de trabalho e aposentadoria, negociando essas regras coletivas com os estúdios e a MPAA regularm ente e, quando necessário, com com batividade. “Nesse sentido, não fazem os em absoluto o trabalho dos agentes ou gerentes: cuidam os de todo o setor de m aneira coletiva, m utualista, m as não dos contratos individuais. Definim os os padrões da profissão, obrigatoriam ente aplicados a todos os contratos, e é a partir dessas bases sindicais que os advogados e agentes negociam os contratos individuais”, explica Kathy Garm ezy.
Nenhum contrato de um profissional trabalhando para um film e de estúdio ou para a m aioria dos film es independentes escapa às regras sociais e salariais negociadas pelos sindicatos e as sociedades de autores. Um a das particularidades de Holly wood é ser ao m esm o tem po um m odelo inteiram ente com ercial e um sistem a totalm ente sindicalizado. Pois o fato é que a DGA tem na prática um m onopólio sobre os contratos dos realizadores. Os estúdios não podem dispensá-la, com o não podem passar por cim a da poderosíssim a Screen Actor Guild (SAG, presidida em certa época por Ronald Reagan) para contratar um ator, da Producers Guild of Am erica (PGA), no caso dos produtores, ou ainda da Writers Guild of Am erica (WGA), quando se trata de contratar um roteirista. O m esm o acontece no que diz respeito aos ilum inadores, técnicos de som , diretores de elenco, cabeleireiros e m aquiadores, todos sindicalizados. “Holly wood é provavelm ente o setor m ais sindicalizado dos Estados Unidos”, confirm a Chuck Stocum , diretor da Writers Guild of Am erica, que reúne a quase totalidade dos roteiristas de cinem a e televisão dos Estados Unidos. “Esse m onopólio das contratações foi sendo construído ao longo do tem po graças a um duplo m ecanism o m uito eficiente que nós inventam os. Por um lado, obrigam os todos os nossos m em bros a trabalhar apenas para os estúdios ou produtores que tenham assinado um acordo geral conosco; por outro, nossos contratos estabelecem , através de um a cláusula obrigatória, que os estúdios só podem contratar nossos roteiristas”, conta Chuck Stocum . Através desse duplo m ecanism o, os estúdios foram aos poucos sendo obrigados a contratar exclusivam ente m em bros da WGA, segundo as condições sociais e salariais m ínim as estabelecidas pela “guild”. O m esm o acontece no conj unto das indústrias de cinem a e televisão nos Estados Unidos. “Com o está tudo ligado, o estúdio não poderia m ais contratar um ator ou um realizador se contratasse um a única pessoa fora desse sistem a. Assim é que o m onopólio foi construído”, conclui Stocum . Dezenas de sindicatos participam dessas negociações, com o confirm a em conversa com igo, em Nova York, Alain Eisenberg, o célebre chefe do sindicato dos atores: O cinem a, a televisão e o teatro são os três setores totalm ente sindicalizados nos Estados Unidos, pois todo m undo foi algum a vez ‘fodido’ por um produtor; assim , a lealdade dos nossos m em bros é absoluta. Por sinal, geralm ente um ator é m em bro de três sindicatos: o de atores em Holly wood, o da rádio-televisão em Los Angeles e aqui conosco na Actor’s Equity na Broadway, em Nova York.
Tam bém aqui as regras são m uitas e incrivelm ente com plexas, m as o sindicato dos atores tem o m onopólio das contratações em todos os Estados Unidos para os teatros da Broadway (salas com m ais de 499 lugares) e as da Off-Broadway (salas entre 100 e 499 lugares); tam bém se m ostra m uito influente, sem ter o m onopólio, nos teatros Off-Off-Broadway (salas com m enos de 99 assentos). Mas isso tem um preço. Todo aquele que se filia ao sindicato ou um a sociedade de autores paga um a taxa inicial elevada, um a cota anual e um percentual sobre seus cachês (2,25% no caso dos atores da SAG e da Actor’s Equity ).
“Realm ente é caro, m as é obrigatório, se o profissional quiser trabalhar em Holly wood ou na televisão nos Estados Unidos. É o preço a pagar para ser defendido pelo sindicato nas negociações, sem pre m uito duras”, acrescenta Chuck Stocum .
É a diplom acia em três frentes. O profissional se associa às sociedades de
realizadores, aos sindicatos de atores e às agências de talentos contra os
estúdios; m as os realizadores são enfrentados em defesa dos roteiristas; e
finalm ente tratam os de controlar as agências de talentos — por exem plo,
fom os nós que lim itam os seus cachês a 10% dos contratos, para proteger
nossos m em bros.
Stocum conclui: “Nessa indústria, todo m undo está com todo m undo; m as todo m undo tam bém está contra todo m undo. Nesse sentido é que todos os envolvidos estão ligados aos estúdios e todos são igualm ente independentes”. A equação m e causa im pressão. Com eço a entender que na nova Holly wood o lugar dos independentes tornou-se central.