Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
A diversidade cultural
No prédio principal, visito tam bém a Troj an Vision, um a autêntica estação de televisão que funciona no cam pus, sendo vista pelos 29 m il alunos e os 18 m il em pregados da universidade (a “Troj an”, referência aos troianos, é a m ascote da universidade). A cinem ateca da USC, um pouco adiante, com seis salas de cinem a, conta com m ilhares de film es em 35 e 16 m m e um cineclube perm anente adm inistrado pelos alunos, que program am os film es e organizam festivais.
Passei vários dias no cam pus da USC e sem anas visitando cerca de cinquenta cam pi através dos Estados Unidos. O que m ais m e im pressionou, além da riqueza dessas universidades, de seu profissionalism o e dos vínculos perm anentes que m antêm com a indústria e o m undo profissional reais, foi a diversidade dos estudantes. Essa diversidade étnica e cultural, ao m esm o tem po nacional, pela abertura voluntarista às m inorias asiáticas, latinas e negras, e internacional, por um a excepcional capacidade de atração de estudantes do m undo inteiro, é sem dúvida um dos elem entos centrais, não raro subestim ados, do m odelo cultural am ericano.
A diversidade cultural A Whistling Woods International School, parte do
com plexo da Film City, fica a um a hora de estrada a nordeste de Mum bai, na Índia. Para chegar a ela, é preciso atravessar dezenas de m ercados e favelas, perguntar várias vezes o cam inho até encontrar a Film City Road, de tal m aneira o acesso é m al sinalizado. Errando o cam inho, estam os em plena selva, perto dos lagos do im enso parque nacional Sanj ay Gandhi, com os chim panzés que vêm recepcionar e pulam em cim a do táxi, com o m e aconteceu. Um a vez no cam pus, encontram os equipam entos m odernos, contando os 24 prédios do com plexo com estúdios e salas de m ontagem de nível profissional. São trezentos alunos nessa escola de cinem a, em sua m aioria indianos, todos vestindo a m esm a cam iseta negra com o nom e da faculdade, segundo o m odelo dos cam pi am ericanos, e m uitos levando debaixo do braço um com putador portátil MacBook Pro com o program a de m ontagem Final Cut Studio e um iPhone. No restaurante (onde com o com as m ãos, com o todo m undo), m eu interlocutor, Som nath Sen, professor de cinem a na escola, traz consigo a revista Wired, e na m esa vizinha um a aluna lê a Variety.
“A m aioria dos estudantes aqui tem um sonho: ir estudar nos Estados Unidos”, explica-m e John J. Lee, diretor do estabelecim ento. John é am ericano e deixou seu país para dirigir essa escola de cinem a, entre as m ais prestigiadas da Ásia. Hom em de Holly wood, ele foi produtor de cerca de trinta film es de estúdios, tendo publicado um livro sobre o tem a, The Producer’s Business Handbook (vendido no cam pus). “Nós nos concentram os nos m ercados em ergentes e globalizados. Com isso, 76% de nossos alunos encontram em prego ao deixar a faculdade. Mas, apesar disso, a atração pelos Estados Unidos continua sendo irresistível.”
Um pouco m ais tarde nesse m esm o dia, encontro-m e com Ravi Gupta, o presidente da escola de cinem a. Ele é indiano, m as igualm ente fascinado pelos Estados Unidos. “Todos os nossos cursos são em inglês. É a única língua realm ente com um aos indianos. Além disso, querem os preparar nossos alunos para serem com petitivos nos m ercados asiáticos, em Cingapura, Hong Kong, no Japão e na China — e a língua com um é o inglês. Mas se continuam os tão centrados no inglês é sobretudo porque as técnicas de cinem a, o vocabulário, os program as de inform ática, as ferram entas digitais, tudo isso é am ericano.”
É na Índia, na China, na Coreia, em Taiwan que entendem os por que a atração dos Estados Unidos é tão forte nos setores das indústrias criativas em geral, e no cinem a em particular. E basta visitar o departam ento de cinem a e televisão da Universidade de Pequim ou o de “indústrias culturais” (sic) da Academ ia de Ciências Sociais em Xangai para entender por que os m elhores estudantes chineses querem — quando podem — estudar nos Estados Unidos. A pobreza de recursos não é nada em com paração com a lentidão gerada pelo m edo da m udança e da inovação. Para não falar da perm anente vigilância para im pedir os j ovens profissionais de criar com toda liberdade. Quando visitei esses diferentes departam entos, eu sequer pude m e com unicar com os estudantes (o “responsável pelas relações internacionais” tratava de im pedir qualquer diálogo). Quanto aos principais apresentadores dos j ornais das estações chinesas de televisão, vêm da fam osa Universidade de Com unicações da China — um a escola estatal centralizada onde se ensina durante quatro anos propaganda e rigidez.
“A gente pensava que a cultura era um m eio de conter o êxodo rural”, explica-m e por sua vez Germ ain Dj el, diretor do centro cultural Boulevard des Arts, entrevistado em Yaoundé, nos Cam arões. “Mas na verdade a coisa se volta contra nós. A cultura e sobretudo o entretenim ento contribuem para o êxodo. Quando se revelam brilhantes e têm algum sucesso, os j ovens africanos querem partir para novos m undos. Querem antes de m ais nada ir para as capitais, Douala e Yaoundé, e depois Dacar, Paris ou Londres. E no fundo, naturalm ente, estão sem pre visando os Estados Unidos.”
Em outras regiões, no Sudeste asiático, na Am érica Latina ou na Europa central e oriental, a pressão política atualm ente é m enos forte, m as a atração continua viva. E os Estados Unidos aproveitam essa dem anda para renovar seu plantel de criadores e tirar partido das inovações im aginadas pelos estudantes m ais brilhantes dos países em ergentes. E no coração do sistem a am ericano vam os encontrar, m ais um a vez, as universidades e sua diversidade cultural.
Os Estados Unidos têm 45 m ilhões de hispânicos legais (entre os quais 29 m ilhões de m exicanos), 37 m ilhões de negros e 12 m ilhões de asiáticos (entre eles 3 m ilhões de chineses, 2,6 m ilhões de indianos, 2,4 m ilhões de filipinos, 1,5 m ilhão de vietnam itas, 1,3 m ilhão de coreanos e 800 m il j aponeses). Nos cam pi das escolas de cinem a, sej a na USC, na UCLA ou na NYU, eles são bem visíveis e num erosos, sej am estrangeiros que vieram estudar nos Estados Unidos ou am ericanos descendentes de im igrantes. Estim a-se em 3,3 m ilhões o núm ero de estudantes hispânicos nos Estados Unidos e em 1,3 m ilhão o de estudantes asiáticos.
“Holly wood é um a indústria globalizada, e nós devem os ser um a escola globalizada”, confirm a Elizabeth Daley, a presidente da USC. “Som os m uito ativos no recrutam ento de estudantes am ericanos os m ais diversos possíveis, de todas as m inorias, e tam bém buscam os em todo o m undo os m elhores estudantes ou profissionais estrangeiros.” Entre os estudantes recebidos pela USC estão j ustam ente os alunos da Whistling Woods International School que eu visitei em Mum bai.
É graças à diversidade cultural interna e externa que os Estados Unidos conseguem se renovar. A partir do m om ento em que são adm itidos por um a universidade, os estudantes estrangeiros têm apressada a concessão de um visto de entrada. É o que explica o elevado percentual de estudantes internacionais em solo am ericano, da ordem de 3,4% dos contingentes escolarizados (o equivalente a 573 m il estudantes, dos quais 356 m il provenientes da Ásia). Esse percentual aum enta fortem ente se contabilizarm os os estudantes am ericanos nascidos no exterior (10% nos dois prim eiros ciclos, 18% no terceiro no ciclo). A proporção sobe ainda m ais se levarm os em conta os estudantes nascidos no exterior ou cuj os pais nasceram no exterior (22% nos prim eiros ciclos, 27% no terceiro ciclo). São dados sem equivalente no resto do m undo.
Mas não se trata apenas de estatísticas. A diversidade cultural am ericana é visível tam bém nos film es de Holly wood, onde j á se perdeu a conta dos realizadores e atores negros, latinos e asiáticos. Ficou longe a época da com édia Adivinhe quem vem para jantar, na qual um a am ericana “caucasiana” levava o noivo negro (Sidney Poitier) à casa dos pais ricos e brancos (Spencer Tracy e Katherine Hepburn), deixando-os chocados (na época do lançam ento do film e, em 1967, os casam entos inter-raciais ainda eram proibidos em 17 estados am ericanos). Hoj e, os atores de cor são frequentes, inclusive nos blockbusters e nas séries de televisão. Quanto aos cineastas de Holly wood, vêm do m undo inteiro, do canadense Jam es Cam eron ao taiwanês Ang Lee. Onde quer que sej a, essa diversidade é um form idável estím ulo à prom oção e à identificação com o cinem a am ericano.
E o que se aplica a Holly wood tam bém se aplica à indústria da m úsica, da edição e do teatro com ercial. Nos últim os anos, os autores m ais prem iados da Broadway foram o dram aturgo negro August Wilson (duas vezes vencedor do prêm io Pulitzer), o j udeu gay am ericano Tony Kushner (19 prêm ios Tony com Angels in America e Caroline or Change e o prêm io Pulitzer), o sino-am ericano David Henry Hwang (prêm io Tony por M. Butterfly) e o cubano-am ericano Nilo Cruz (prêm io Pulitzer por Anna in the Tropics). E na Broadway foi Denzel Washington que interpretou recentem ente o papel de Brutus em Júlio César.
Quanto aos artistas estrangeiros recebidos nos Estados Unidos, são inúm eros, às vezes tendo chegado ilegalm ente, m as frequentem ente recebidos com procedim entos acelerados de concessão do visto. Todo ano, com efeito, o governo am ericano reserva aos profissionais da cultura e do entretenim ento 44 m il vistos especiais cham ados “O-1” (visto sem efeito para a im igração e lim itado a três anos), concedidos em função da repercussão na im prensa, dos prêm ios internacionais, dos contatos e contratos no setor das indústrias criativas. Os técnicos dessas indústrias podem se beneficiar de um visto “H-1B” e os investidores nesses setores, de um visto “E-1” ou “E-2”. Mas essa real abertura para os artistas estrangeiros é acom panhada de um forte protecionism o do m ercado de trabalho, que torna o sucesso raro e ainda m ais aleatório para os candidatos ao exílio. Todo o sistem a cultural dos Estados Unidos, com efeito, é construído sobre a proteção dos em pregos am ericanos, em particular através da filiação a sindicatos de atores e sociedades de realizadores e roteiristas. São necessários, assim , m uita perseverança e m uito talento para ter êxito em solo am ericano.
Filantropia am ericana? Na verdade, essa capacidade de receber talentos estrangeiros representa para Holly wood um a vantagem excepcional frente à concorrência. “Nossos atores e realizadores são contratados nos Estados Unidos. É um a sorte para eles, m as isso seca com pletam ente a criatividade aqui. Desse m odo, os blockbusters holly woodianos vão bem na Am érica Latina, m as os cinem as nacionais, privados de seus m elhores atores e cineastas, logo ficam fragilizados, quando não desaparecem com pletam ente”, lam enta Alej andro Ram írez Magaña, diretor-geral da principal rede de salas m exicanas, Cinépolis, entrevistado na Cidade do México.
“Os heróis de Terra de um sonho distante, o film e de Elia Kazan, hoj e em dia seriam asiáticos ou latinos; e chegariam a Los Angeles, e não a Nova York”, diz-m e Mark Valdez, anim ador cultural do espaço com unitário Cornerstone, em Los Angeles. Ao encontrá-lo na sede da associação, em Downtown-LA, eu estou no centro da cidade que não tem centro. Trata-se tam bém de um a cidade cham ada de “m inority -m aj ority city ”: nela, as m inorias são a m aioria da população.
Na zona Oeste estão as loj as de discos de J-Pop do bairro j aponês de Little Toky o; a leste, o bairro da m úsica reggaetón de Boy le Heights, ao redor da avenida César Chávez (antigam ente um bairro j udeu, hoj e 95% hispânico); m ais adiante ainda na direção leste, East Los Angeles, o bairro m exicano onde se pode encontrar qualquer DVD das telenovelas da Televisa, e Diam ond Bar, o bairro indiano onde podem os com prar qualquer film e de Bolly wood por 2 dólares; a Norte, as dezenas de galerias de arte e óperas populares em m andarim e cantonês de Chung King Road, o bairro chinês “hip” de downtown-LA; a sudoeste, Korea Town e suas loj as de CDs e DVDs vendendo K-Pop e os “dram as” coreanos; e no Sul tem início South Central Avenue, conduzindo aos estúdios hip-hop do bairro negro de South Central e às centenas de associações com unitárias de Watts, outrora m aj oritariam ente negras e hoj e cada vez m ais hispânicas.
Se Los Angeles atualm ente supera Nova York com o principal ponto de entrada de im igrantes nos Estados Unidos, e se a cidade é um exem plo vivo de diversidade artística, no fundo não passa de m ais um exem plo entre outros de um a diversidade cultural em andam ento que eu pude ver em toda parte, tanto nos bairros de Houston quanto em Des Moines, Jackson ou Denver, em Albuquerque com o em Fort Apache. Hoj e, Los Angeles é a m aior cidade coreana do m undo depois de Seul, a m aior cidade iraniana depois de Teerã, a m aior cidade polonesa depois de Varsóvia, um a das m aiores cidades vietnam itas ou tailandesas do m undo etc. Outras capitais regionais am ericanas ostentam núm eros equivalentes. Chicago é um a das m aiores cidades gregas do m undo e Newark, um a das m aiores cidades portuguesas; Miam i, um a capital haitiana; Minneapolis, um a im portante cidade som aliana e o Colorado, a região onde há m aior núm ero de m ongóis no m undo, depois da Mongólia. Em com pensação, os árabes são pouco num erosos nos Estados Unidos e os m uçulm anos constituem apenas 0,55% da população am ericana; são originários sobretudo do sul da Ásia e do Irã.
Os Estados Unidos não são apenas um país, nem m esm o um continente: são o m undo, ou pelo m enos o m undo em m iniatura. Nenhum país tem tam anha diversidade e nenhum —nem m esm o a Europa dos 27 — pode de tal m aneira arvorar-se a representar um a nação universal. Esse dado é decisivo na explicação do crescente dom ínio das indústrias criativas am ericanas no m undo, arte e entretenim ento, m ainstream e nichos ao m esm o tem po.
A am ericanização cultural do m undo traduziu-se na segunda m etade do século XX nesse crescente m onopólio sobre as im agens e os sonhos. Ela enfrenta atualm ente a concorrência e a contestação de novos países em ergentes — a China, a Índia, o Brasil, os países árabes —, m as tam bém de “velhos países” com o o Japão e a “velha Europa”, que tam bém querem defender suas culturas e talvez até lutar em condições iguais com os Estados Unidos. Toda um a nova geopolítica de conteúdos está surgindo diante de nossos olhos. E o que se anuncia é o início das guerras culturais.