Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
15. O príncipe dos meios de comunicação no deserto
15. O príncipe dos m eios de com unicação
no deserto
Exatam ente às 14 horas, num sábado — prim eiro dia da sem ana na Arábia Saudita —, o príncipe Al Waleed chega. Sua lendária pontualidade m e im pressiona. Há vários m inutos, um a perceptível agitação anunciava sua chegada. No elevador, as arm as dos guarda-costas eram visíveis debaixo da longa túnica branca. As recepcionistas, verdadeiras top m odels, sem véu nem burca, com calças ondulantes e saltos agulha, corriam para lá e para cá. O príncipe foi anunciado. “Aqui, nós não o cham am os de ‘príncipe’. Nós o cham am os de ‘chairm an’”, corrige Shadi Sanbar, seu colaborador m ais próxim o.
No m eio do im enso saguão, um enorm e logotipo da Rotana: um m apa-m úndi verde, a cor do Islã, atravessado por um a letra árabe estilizada. A m ensagem é clara. Estou no reino de Al Waleed, no 58º andar da Kingdom Tower, um dos sím bolos de Riad, capital da Arábia Saudita. Esta torre de vidro de 99 andares, de propriedade do príncipe, parece um horroroso abridor de garrafa: é a sede da Kingdom Holding Com pany, a m ultinacional financeira do príncipe. Al Waleed bin Talal bin Abdul Aziz Al Saud, seu nom e com pleto, é príncipe de sangue, m em bro da fam ília real da Arábia Saudita. Nascido em 1955, é um dos 37 netos do fundador da Arábia Saudita, o rei Abdul Aziz Al Saud, cuj o nom e herdou, com o quer a tradição. Tam bém é, portanto, sobrinho do rei atual, Abdallah, e, pela linhagem m aterna, neto do prim eiro chefe de governo do Líbano m oderno, país cuj a nacionalidade tam bém tem . Em presário e hom em de negócios, ele fez fortuna no m ercado financeiro internacional e nos investim entos im obiliários, e tam bém na construção civil, tornando-se um dos hom ens m ais ricos do m undo. Aplicou sua fortuna num a infinidade de em presas, tornando-se um dos acionistas de peso da News Corp, do City Bank, da AOL, da Apple, da Walt Disney, da eBay, da Pepsico e da EuroDisney. Al Waleed tam bém controla vários j ornais pan-árabes influentes na região, especialm ente o Al-Hayat. Além disso, é filantropo e estim ula os estudos islâm icos, com o na Universidade de Harvard, ou as artes islâm icas, com o no Museu do Louvre. Exatam ente um m ês depois do 11 de Setem bro, viaj ou a Nova York para hom enagear as vítim as do World Trade Center, com um presente em form a de cheque de dez m ilhões de dólares para o fundo de aj uda às vítim as dos atentados, e todas as televisões do m undo o m ostraram cam inhando pelos escom bros ao lado do prefeito de Nova York (m as um com unicado de im prensa no qual Al Waleed criticava a política am ericana em relação aos palestinos desagradou ao prefeito nova-iorquino, que finalm ente recusou ostensivam ente o cheque).
“Al Waleed é um hom em extraordinariam ente atípico, iconoclasta. Faz parte da elite, m as não é apenas um herdeiro: seu pai era m uito liberal e não suficientem ente rico, sendo conhecido com o o Príncipe Verm elho. Isto facultou contatos a Al Waleed, além de um a posição, m as ele construiu sua fortuna quase sozinho. Estudou nos Estados Unidos e hoj e em dia com anda seu business ‘à am ericana’. Mas coloca acim a de tudo a cultura dos beduínos. É um nôm ade nos negócios, e não um capitalista sedentário que acum ula. E m uitas vezes ainda lhe acontece de dorm ir no deserto, em sua tenda, com os beduínos, para recuperar a calm a, m editar antes de tom ar um a decisão im portante. O deserto não m ente. O deserto não engana”, esclarece seu braço direito, Shadi Sanbar, algo inflam ado.
Al Waleed é o ícone progressista do regim e. O rei Abdallah o protege, m as nunca se pensou em transform á-lo em seu herdeiro. No m áxim o ele teria autorizado o banco real, em 2008, a garantir suas dívidas, no auge da crise financeira m undial, quando Al Waleed teria perdido bilhões de dólares. Sim , isto m esm o: “bilhões” (cerca de 21 bilhões de perdas em 2008 segundo diferentes analistas, o que o fez cair do 5º para o 22º lugar entre os hom ens m ais ricos do m undo).
Em m eio a um a nuvem de assessores e guarda-costas, Al Waleed chega. Traj a a túnica branca tradicional da Arábia Saudita, tendo na cabeça o shm aik, espécie de keffieh de xadrez verm elho e branco. Bigodudo, com suas grossas lentes, m al disfarçando os tiques, ele não deixa de ter um a certa aura, decuplicada pelo cerim onial de que é cercado. Todo sábado, quando não viaj a ao exterior, ele chega por volta de m eio-dia à torre de sua propriedade, faz sua oração, preside às reuniões, trabalha com seus banqueiros, advogados e assessores financeiros até aproxim adam ente duas horas da m anhã, e em seguida dorm e a m anhã inteira — com o costum am fazer os príncipes de sangue sauditas. No 66º andar fica a sede da m ultinacional, a em presa-m ãe; no 58º, a Rotana. Por isto é que aos sábados, às 14 horas, o príncipe desce do seu andar para se dirigir, acom panhado de sua corte e dos guarda-costas, ao 58º andar, para presidir o conselho de adm inistração de seu grupo de m eios de com unicação, a Rotana. Ei-lo portanto que finalm ente chega. Eu o vej o sentar-se na cabeceira da m esa, m ais parecendo estar no trono do que realm ente presidindo, cercado de todos os diretores. Faz-se silêncio. Com eça a reunião.
A Rotana foi fundada em 1987. É o grupo de m ídia e entretenim ento de Al Waleed. “O príncipe possui 95% da m atriz, a Kingdom Holding Com pany, em presa em parte cotada na bolsa, m as a Rotana é integralm ente sua, trata-se de um a em presa privada, na qual está em patado seu dinheiro pessoal. O príncipe sem pre foi fascinado pelos m eios de com unicação”, explica-m e, no 66º andar da torre, Shadi Sanbar, diretor financeiro e autêntico núm ero dois da m ultinacional.
Al Waleed é o m agnata das m ídias árabes. E por sinal Murdoch, o bilionário australo-am ericano, acaba de investir dezenas de m ilhões de dólares na Rotana, concentrando em suas m ãos atualm ente 20% do capital do grupo saudita. “O príncipe investiu na News Corp através de sua Holding Com pany, e agora Murdoch investe na Rotana: são participações cruzadas inteligentes. Para nós, é um investim ento puram ente financeiro; m as para Murdoch é m ais estratégico e geopolítico. Isto lhe perm itirá atingir 350 m ilhões de árabes”, com enta Sanbar. Os am ericanos da Sony Corporation of Am erica tam bém acabam de assinar, em j unho de 2008, um contrato exclusivo com a Rotana para a distribuição dos film es da Sony, da Colum bia, da Metro-Goldwy n-May er e dos discos da Sony Music, da CBS, da Arista e da Epic em todo o m undo árabe.
A Rotana está estruturada em seis divisões. A direção geral e financeira do grupo fica em Riad, m as as atividades se dispersam por vários quartéis-generais: o ram o cinem a fica no Cairo, a m úsica e a gestão, em Beirute, as televisões e rádios transm item a partir do Golfo, ao passo que a divisão de Internet se reparte pela m aioria dos países árabes, do Marrocos à Síria. Assim espalhado pelo m undo árabe, o grupo é um vasto im pério e Al Waleed visa, com essa ferram enta, a reconquista do m undo m uçulm ano.
A Rotana tem estúdios de cinem a no Cairo e graças a isto seria detentora de 50% do catálogo cinem atográfico árabe. Na m úsica, a dom inação é ainda m aior, e cerca de 90% da m úsica m ainstream com ercializada no m undo árabe, do Marrocos à Síria, estariam nas m ãos da Rotana. “É verdade que tem os um m onopólio na m úsica”, confirm a Shadi Sanbar. Ao m esm o tem po produtora e agência de talentos, a Rotana especializou-se em dois setores paralelos que contribuem para esse m onopólio. Prim eiro, a Internet: o grupo investiu m ilhões de dólares em sites ultram odernos e na IPTV, a televisão por Internet. “Consideram os que a cultura e a inform ação, a m úsica, os film es, a televisão e os livros vão se tornar inteiram ente digitalizados. Tudo vai se transform ar com pletam ente. É o que eu cham o de ‘telecotainm ent’, a m istura das telecom unicações com o entretenim ento. Não haverá m ais discos, livros, j ornais, televisões, apenas telas ligadas à Internet. Para nós, não é um a am eaça, m as um a oportunidade. Nós vam os aproveitar todas essas oportunidades, dispom os de m eios para isso. Tem os direitos sobre todos os nossos conteúdos de entretenim ento e m ídia, todas as plataform as, para todos os países. E estam os preparando o futuro. Eu sou aqui o hom em da cultura árabe do futuro”, j ustifica Yussef Mugharbil (eu ficaria sabendo posteriorm ente que esse saudita, que usa um a gravata verde, e não a túnica tradicional, estudou engenharia na Universidade do Colorado e trabalhou durante trinta anos para o gigante am ericano das telecom unicações AT& T nos Estados Unidos).
Enfim , a televisão. A Rotana possui m ais de vinte canais, transm itidos basicam ente via satélite. Oficialm ente proibidos em vários países, entre eles a Arábia Saudita (apenas dois canais abertos públicos, Saudi 1 e Saudi 2, são autorizados por Riad), eles podem ser sintonizados através de pequenas antenas parabólicas baratas em todos os países árabes e no Irã. Trata-se basicam ente de canais de cinem a árabe e de canais m usicais, onde são apresentados perm anentem ente os artistas do plantel da Rotana. A prioridade é o divertim ento m ainstream : Al Waleed sabe que os principais program as de entretenim ento e os form atos de séries de sucesso nos países árabes são im portados dos Estados Unidos. A versão árabe de Quem quer ser um milionário?, por exem plo, apresentada por um a sex-sy m bol libanesa, tem um a gigantesca audiência pan-árabe, com a frase de efeito que ficou fam osa: “Jawaab nihaa’i?” (“É sua últim a palavra?”). Al Waleed quer rom per esse m onopólio am ericano. No Egito, ele logo fundou um canal de cinem a em j oint-venture com Rupert Murdoch para testar o m ercado e adoçar a língua do bilionário: basicam ente, a Fox Movie reproduz 24 horas por dia, em versão original legendada, os film es de seu estúdio holly woodiano, a 20th Century Fox. Segundo os próprios egípcios que com andam o canal em nom e da Rotana a partir do Cairo, onde os entrevistei, seu trabalho consiste essencialm ente em inserir anúncios publicitários “entre os film es enviados por Murdoch”. Mas este é apenas o início de um a estratégia pan-árabe e pan-m ídia excepcionalm ente am biciosa e com plexa. Desde então, o príncipe acrescentou várias j oias a sua coroa: além da Rotana, ele é dono, em caráter pessoal, do canal libanês por satélite LBC, especializado em talk-shows populares segundo o m odelo am ericano, e de um canal em inglês pouco conhecido, Al Reselah, voltado para os m uçulm anos do m undo inteiro. “Tam bém estam os trabalhando num proj eto de rede de inform ação contínua, m as é provável que o príncipe a financie com seu dinheiro pessoal, à m argem da Rotana”, acaba por m e confessar, depois de várias tentativas m inhas que ficaram sem resposta, Fahad Moham ed Ali, o diretor-geral da Rotana (foi o único hom em vestindo a túnica tradicional que encontrei no círculo m ais próxim o do príncipe em Riad).
“O negócio da Rotana é o entretenim ento”, esclarece Shadi Sanbar, o hom em de confiança de Al Waleed. “A Rotana tornou-se um grupo inteiram ente digitalizado, que se desenvolve e se internacionaliza. Para com eçar, no m undo árabe, e depois... ‘the sky is the lim it’ [o céu é o lim ite].” A Rotana é um grupo global, m undial. O novo m undo não tem fronteiras. “Deixe-m e repetir, para ficar bem claro”, prossegue ele. “A Rotana vai se desenvolver no m undo inteiro.” Fico surpreso com esse obj etivo para além do m undo árabe. Shadi Sanbar: “Nossa filosofia é defender os valores árabes. Nosso obj etivo é pan-árabe. O príncipe acredita na dem ografia, a chave no setor do entretenim ento. Os j ovens de m enos de 25 anos representam 60% da população na Arábia Saudita, e os de m enos de 15 anos, cerca de 40%. A m aioria dos países árabes tem estatísticas sem elhantes. Esses j ovens consom em — e consum irão — basicam ente entretenim ento, m ais que noticiário. Exatam ente o que faz a Rotana. Nós tem os o futuro diante de nós. No m undo árabe, m as tam bém além dele”, precisa Sanbar. E m ais não disse.
Mas algum a coisa não encaixa bem . Desde que cheguei à Arábia Saudita, um paradoxo m e cham a a atenção. Os sauditas são onipresentes nos m eios de com unicação, m as os m eios de com unicação estão ausentes da Arábia Saudita. Os grupos m ais im portantes do audiovisual árabe — Rotana, Orbit, ART, MBC — têm sede em Riad, ou seus capitais vêm de Riad, m as nenhum canal transm ite a partir da Arábia Saudita. O que m e lem bra as rádios “periféricas” francesas, RMC, Europe 1 ou RTL, que transm itiam de Mônaco, da Alem anha ou de Luxem burgo, pois o m onopólio estatal dos m eios de com unicação as im pedia de fazê-lo a partir do território francês. Mas aqui, as norm as de Estado são ainda m ais estendidas pela questão política, a religião e os costum es. E o paradoxo é considerável: na Rotana, em Riad, encontro-m e na sede de um dos m aiores grupos árabes de m ídia, especializado em cinem a, m úsica e televisão, m as não existem casas de show na Arábia Saudita, pois os film es, a m úsica não religiosa e as televisões não oficiais são proibidos. “É um reino ao m esm o tem po m edieval e pós-m oderno”, explica-m e o realizador Ahm ed Dakhilallah, em sua casa, debaixo de um a tenda, em Riad, e eu próprio fico espantado de estar, descalço sobre um tapete, com endo tâm aras na presença de um cineasta num país que não tem cinem a. “A Arábia Saudita tem a inteligência de recusar em dom icílio o que difunde em outros países”, diz-m e no dia seguinte, num a form ulação algo enigm ática, a realizadora m ais fam osa da televisão nacional saudita, Hiy am Kilani (um a m ulher não coberta de véu e não casada, que m e recebe em sua casa de j eans, na presença do irm ão). Mais prudente, seu irm ão, j ustam ente, Ahm ed H. M. Al Kilani, antigo representante de televisões ocidentais em Riad, sugere um a outra hipótese, num francês perfeito: “O risco, aqui, não é tanto um a volta atrás, na direção de canais retrógrados, m as um a evolução à am ericana: tele-evangelistas que tentem m odernizar as televisões árabes em nom e de Alá, a partir da Arábia Saudita”. Nesse sentido é que deveríam os interpretar o boato que circula atualm ente no Golfo, segundo o qual os sauditas pretenderiam reintegrar seus grupos de m ídia na Arábia Saudita, em vez de perm itir que passassem a transm itir a partir de Dubai ou Abu Dhabi? O obj etivo seria fazer com que as sedes da Rotana, da MBC e da ART, além de seus estúdios, em igrassem para a King Abdallah Econom ic City, um a nova cidade ao norte de Jeddah, no m ar Verm elho, onde tam bém acaba de ser inaugurada um a im portante Media City. Os sauditas deram a entender — o que longe está de ser provado — que a cidade seria, a exem plo de Dubai, um a zona franca, tanto no plano fiscal quanto em m atéria de “lifesty le”. Mas esta expressão, am bígua, é passível de debate.
Nesse país rigoroso, a Arábia Saudita, onde a peregrinação a Meca é a única form a de turism o autorizada e onde as loj as e escritórios fecham cinco vezes por dia para as orações, a religião é um a questão de Estado. E a “m utawa” está de olho. Essa polícia religiosa, ou polícia de costum es (oficialm ente cham ada “Departam ento para a Repressão do Vício e a Prom oção da Virtude”), é representada por nove m il guardas, basicam ente clérigos barbudos. Não arm ada, atua em todo o país em ações espetaculares com uso de m egafones, que estranham ente m e lem bram os m étodos usados nos Estados Unidos pela associação gay de luta contra a Aids, Act Up. Encontrei em Riad alguns desses guardas da m utawa, controlando as m ulheres, o tam anho de seus véus, im pedindo-as de dirigir autom óveis e verificando se estavam de fato acom panhadas dos m aridos ao sair de casa (o que elas raram ente fazem ). Segundo sou inform ado, a delação é o principal m eio de intervenção desses guardas dos costum es. “Mas a m utawa não entra na Rotana. O príncipe é liberal. Aqui é um oásis realm ente raro. As m eninas são todas uns aviões”, diz-m e, visivelm ente sensibilizado, m eu acom panhante e intérprete. Que tam bém m e m ostra, no 66º andar, a m esquita pessoal do príncipe.