Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
4. A nova Hollywood
“Suba no golf cart”, diz-m e o diretor de relações públicas, incum bido de m e m ostrar os estúdios da Colum bia Pictures em Los Angeles. Estam os em Culver City, bairro do sul de Holly wood, entre a Santa Monica Freeway 10, que atravessa a cidade de leste a oeste, e a San Diego Freeway 405, a m arginal oeste de Los Angeles.
Os “golf carts”, os carrinhos usados nos cam pos de golfe, tornaram -se um a atração à parte nos estúdios holly woodianos. Na Colum bia Pictures, vi centenas deles percorrendo as alam edas e ruas. “O golf cart não faz m uito barulho, é elétrico, oferece pouco perigo e perm ite rápido deslocam ento nas áreas de film agem dos m aiores estúdios de Holly wood”, explica o guia.
Um a m ulher longilínea envolta na bandeira am ericana e segurando um a tocha na direção do céu: o logotipo da Colum bia Pictures, tantas vezes visto no início dos film es, é célebre m as não pode ser visto com m uita frequência em Culver City. Apesar da ausência do sím bolo, os estúdios im pressionam pelo tam anho. De am bos os lados da “Main Street”, com seus lum inosos de neon e seus “billboards”, suas “m arquees” e seus “vertical blades” (os frontões e m arquises característicos das antigas salas de cinem a), são 22 estúdios principais, cada um com o nom e de um a estrela que m arcou a história da Colum bia: Poitier, Kelly, Astaire, Capra, Garbo, Garland, Hepburn, Gable... Mais adiante, vem os estúdios de pós-produção e prédios adm inistrativos, com gram ados im pecáveis e bucólicos espaços arborizados. Há tam bém todo um aparato logístico, da rede de cabines telefônicas gratuitas, ligadas à central interna, aos restaurantes, passando por m édicos, bancos, clubes esportivos, um a agência de correio, várias loj as de suvenires, um a agência de viagem e até um cinem a Loews.
Se o nom e Colum bia não pode ser visto em lugar nenhum , é porque o estúdio foi com prado pela Sony em 1989 (a Colum bia fora independente durante m uito tem po, até ser com prada pela Coca-Cola em 1982). Há um a Sony Police, um Sony Mail Departm ent, um Sony Fam ily Center e um quartel de bom beiros, o Sony Fire. Não estou na Colum bia, m as na Sony.
“Os estúdios são os bancos”
“Aqui, tem os os estúdios históricos da Colum bia. Mas agora tudo isto pertence à Sony. O conj unto é cham ado Sony Lot, com o existe um Universal Lot e um Param ount Lot.” France Seghers, vice-presidente da Sony Pictures, recebe-m e com café italiano e bolinhos num prédio luxuoso do cam pus, o Jim m y Stewart Building. Conversam os dem oradam ente e sou autorizado a visitar os estúdios e m e encontrar com outros dirigentes da Sony, com a condição de não citá-los nom inalm ente (existe na Sony um a regra segundo a qual não se pode falar publicam ente sobre as questões internas).
A Sony é um a em presa internacional m uito descentralizada. A sede do grupo fica em Tóquio. Os conteúdos culturais, sej am do ram o cinem a ou do ram o m usical, estão reunidos na Sony Corporation of Am erica, em presa j uridicam ente am ericana cotada na bolsa de Nova York, que tem com o acionista única a j aponesa Sony Corporation. A Sony Pictures Entertainm ent é baseada em Los Angeles, e produz a m aioria dos blockbusters lançados com as m arcas Sony Pictures, Colum bia Pictures ou TriStar Pictures. A Sony tem até um estúdio dito “independente”, que, naturalm ente, só tem de independente o nom e, o Sony Pictures Classics.
“Aqui nós tem os estúdios, m as nossos film es não são necessariam ente film ados neles; assim , quando nossas equipes estão tecnicam ente paradas, nós alugam os esses estúdios às outras m aj ors, a Param ount, a Warner ou a 20th Centry Fox. Muitas vezes nosso papel se lim ita à locação dos estúdios, ao papel de banco e à ‘green light’ dos proj etos”, explica-m e um dos dirigentes da Sony Pictures.
“Green light” é um a expressão fundam ental em Holly wood. O “sinal verde” é dado pelo estúdio a um proj eto que lhe tenha sido proposto, em form a de “pitch”, ou roteiro. Ele autoriza o início do “desenvolvim ento” do film e e sua entrada em produção. “O sinal verde é o ponto cardeal de toda a indústria, o m om ento em que o estúdio afirm a seu poder m ais claram ente”, confirm a France Seghers. Na realidade, não há apenas um sinal verde, m as vários, nas diferentes etapas do proj eto: quando um a ideia é proposta e testada, quando o script é aceito e passa a ser desenvolvido ou ainda no início da produção. Às vezes, um film e que foi desenvolvido durante longos m eses não recebe o sinal verde e o titular dos direitos, m uitas vezes o produtor, pode propô-lo a um outro estúdio (Shakespeare apaixonado, por exem plo, foi desenvolvido durante três anos pela Universal Pictures, m as não conseguiu o sinal verde; quem afinal o produziu foi a Miram ax, ganhando com ele sete Oscars).
Mas o principal não é isso. Na com plexa negociação que pode dar origem a um film e, não estão frente a frente apenas o estúdio e o produtor: na nova Holly wood, são inúm eros, na verdade, os interlocutores e protagonistas do sistem a.
Na época de ouro dos estúdios, na década de 1920 e até o fim da década de 1940, Holly wood era um sistem a centralizado e verticalizado. Os estúdios organizavam todo o processo de produção de um film e, desde a redação do roteiro até a distribuição nas salas de cinem a. Os produtores m as tam bém os roteiristas, os técnicos, os realizadores e a m aioria dos atores eram assalariados, com contratos de longo prazo. De certa form a, todos trabalhavam num a linha de m ontagem , pois o cinem a era antes de m ais nada um a indústria. Com o desm oronam ento que sobreveio em 1948, quando a Suprem a Corte dos Estados Unidos proibiu a concentração, os estúdios perderam o m onopólio, suas salas de cinem a (obrigatoriam ente vendidas), e foram obrigados a lim itar-se à produção. A partir de m eados da década de 1950, o sistem a industrial e centralizado de Holly wood desapareceu, evoluindo para um m odelo m ais fluido.
Hoj e, na nova Holly wood, um film e é financiado por um estúdio que lhe dá o “green light” (que o endossa), m as não m ais o faz. O produto é entregue, sob perm anente controle de agências de talentos rem uneradas com um percentual sobre todas as transações, a m ilhares de produtoras, start-ups técnicas, pequenas e m édias em presas especializadas em escolha de elenco, pós-produção, efeitos especiais e criação de “trailers” prom ocionais. O film e é terceirizado a em presas especializadas na Ásia, artesãos de Los Angeles, agências de com unicação globalizadas e com panhias especializadas na distribuição de film es em determ inados países. Todos são independentes, m as ligados por contrato, num sistem a infinitam ente m ais com plexo que os estúdios de outros tem pos. Estim a-se que 115 m il em presas, em sua m aioria pequenas e m édias, com m enos de dez pessoas, participam hoj e da econom ia am ericana do cinem a e da televisão, e que a estas estão diretam ente ligados 770 m il assalariados e, indiretam ente, 1,7 m ilhão de em pregos. A nova Holly wood, onde todo m undo é independente, é o oposto da velha Holly wood, onde todo m undo era dependente.
Cada film e, portanto, é um em preendim ento autônom o. Para adm inistrar o processo em seu conj unto, geralm ente é criada um a produtora efêm era, entidade j urídica própria. Ela é dirigida por um produtor recrutado pelo estúdio para um só film e. Diz-se que o produtor “works for hire” (m uitas vezes se escreve “WFH”), expressão fundam ental nos Estados Unidos para caracterizar a natureza do contrato de trabalho típico de Holly wood: por um lado, o contrato estabelece que a pessoa não é assalariada em caráter perm anente, com o na época de ouro dos estúdios, m as para um único proj eto; ao m esm o tem po, o contrato WFH tam bém estipula, com o antes de 1948, a cessão dos direitos autorais da obra, do produtor ao estúdio.
A produtora e o próprio produtor, às vezes cham ado “line producer”, assina então novos contratos, sem pre de acordo com o esquem a “work for hire”, com o diretor, os atores e centenas de pessoas e em presas que contribuirão para a realização do film e — que por sua vez tam bém cedem os copy rights ao estúdio. A conta da produtora é então abastecida pela produtora-m ãe a que pertence o estúdio. “Grosso m odo, nós som os um banco”, resum e France Seghers.
Na verdade, o papel do estúdio é ao m esm o tem po um pouco m enor e um pouco m aior que o de um sim ples banco. Com o no caso das instituições financeiras, um a parte considerável do dinheiro de que o estúdio dispõe sequer lhe pertence. É constituída pelos valores depositados antecipadam ente por dezenas de produtores, pelas pré-vendas de direitos para a televisão, pelos acordos com fabricantes de vídeo gam es, os acertos antecipados com as com panhias de aviação e cadeias de hotel, no caso dos film es que vão exibir, para não falar das subvenções oficiais dos estados para beneficiar as film agens em território am ericano (e elas existem em todos os estados, som ando-se ainda os volum osos créditos e reduções fiscais que constituem as form as de subvenção pública m ais frequentes no setor cinem atográfico am ericano). Os estúdios tam bém usam os fluxos de caixa liberados por investidores próprios, especialm ente os hedge funds, os “equity partners”, em préstim os bancários e outras form as diversificadas de investim entos, além dos aportes financeiros de indivíduos ricos, os fam osos “civilians”. Os “civilians”, filantropos am ericanos, bilionários indianos ou ricos príncipes árabes, atuam na com issão de econom ia e finanças do film e, m enos para investir do que para se m isturar um pouco no glam our holly woodiano: são convidados às film agens, assistem às pré-estreias, j antam com os atores. Quando sua contribuição é de peso, seu nom e aparece nos créditos, e sobretudo eles podem deduzir esse “investim ento” do im posto de renda (não raro graças a abatim entos fiscais no exterior).
Mas os estúdios tam bém são m ais que um banco. Além do seu aporte financeiro, detêm e controlam o copy right do film e, capital não raro inestim ável. Vendas internacionais, direitos derivados, adaptação para a televisão: tudo isso representa um a parte considerável do trabalho do estúdio, que portanto tam bém pode ser considerado um banco de produtos sob copy right. O estúdio tam bém cuida das regulam entações, negociando por exem plo com a MPAA para evitar um “rating” desfavorável ao film e, e, naturalm ente, coordena a distribuição nacional e internacional. “De m aneira geral, todas as questões internacionais são acom panhadas de perto pelo estúdio, considerando-se que m ais de 50% da bilheteria de um film e m uitas vezes vêm do exterior”, confirm a France Seghers. A título de exem plo, o film e Homem-Aranha 3, da Sony, que custou 380 m ilhões, rendeu 890 m ilhões de dólares no m undo inteiro, dos quais 336 m ilhões no m ercado interno am ericano (incluído o Canadá) e 554 m ilhões internacionalm ente, em 105 países, em 2007. “Estam os hoj e em dia num negócio internacional”, prossegue France Seghers. “Cada vez m ais nos conscientizam os de que, ao fazer um film e, nós o fazem os para o m undo inteiro. O que tem m uitas consequências. Por exem plo, o film e todo é construído, desde a concepção, em função dos m ercados internacionais que tem os em vista. Nossos produtos precisam ser desej ados no m undo inteiro, e esse desej o é preparado, é um a profissão.” France Seghers percebe intuitivam ente que estou algo espantado com o profissionalism o por ela descrito. Reforça então a argum entação: “É um a indústria, e quem não perceber a escala de que estam os falando não vai entender Holly wood. Não se trata de artesanato. Vocês, franceses, são artesãos. Querem ter sucesso no m undo inteiro, m as j ogam pequeno. Desconfiam dos estúdios, do dinheiro, do público, tem endo que venham a com prom eter sua arte. Acham o sucesso suspeito e duvidam da sinceridade do público. Já nós am am os o público loucam ente, nós o am am os tanto que querem os seduzi-lo em m assa, onde quer que estej a, em qualquer parte do m undo. É isto o cinem a.” E ela conclui com um a célebre frase de efeito do m agnata de Holly wood Sam uel Goldwy n: “O nom e dessa indústria não é show-art. O nom e da indústria é show business”.