Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
Londres e Paris, capitais da world music africana
Londres e Paris, capitais da world m usic africana Para ter um a ideia do
atrativo que a cultura europeia continua exercendo e entender por que os fluxos m usicais ainda transitam por Londres e Paris, um a viagem à África revela-se instrutiva.
Estou no carro de Étienne Sonkeng, prefeito de Dschang, cidade do noroeste de Cam arões. De repente, ele pede ao m otorista que pare. Um habitante de Dschang está construindo um a casa sem alvará: o prefeito desce do carro oficial, o repreende e am eaça m andar dem olir a construção im provisada. “E olhe ali, tam bém , os espaguetes”, diz-m e ele ao voltar ao carro. Esses m esm os “espaguetes” eram visíveis com frequência em m inhas visitas ao Cairo, Xangai, Mum bai, Dam asco ou aos cam pos palestinos de Gaza e Belém : são os incontáveis fios que ligam as casas um as às outras. “Não são para a eletricidade nem para o telefone”, esclarece Étienne Sonkeng, “m as para a televisão por satélite, e tam bém são ilegais, alim entando bairros inteiros a partir de um a única parabólica. É um a indústria pirata próspera na África, verdadeiro ‘hom e cinem a’ em escala de um a cidade inteira”. Fico observando esses “espaguetes”, m al aj am brados e m al dissim ulados, passando de um a casa a outra. Basta um assinante, e m il fam ílias são atendidas. Os africanos inventaram o cabo aéreo, no lugar do cabo subterrâneo. “Aqui, em Cam arões, falam os quase duzentos línguas nacionais, e portanto o francês e o inglês são nossas línguas com uns. E em bora os pessoas vivam em casas im provisadas, todo m undo pode ter cinquenta canais de televisão franceses, ingleses e am ericanos sem pagar nada”, extasia-se o prefeito, que nunca pensou em sancionar os responsáveis. Não se pode construir um a casa sem autorização em Dschang — m as se pode livrem ente piratear todas as televisões do m undo.
No dia seguinte, estou em Yaoundé, capital de Cam arões. Nos m ercados, ao longo das avenidas dessa grande cidade da África central, encontram os inúm eros CDs e livros vendidos no m ercado negro. Film es da Disney em DVD m as em versão francesa, com a capa xerocada em cores; m uitas com édias m usicais am ericanas, rap de Tupac Shakur e ainda m uitos cassetes de áudio. Os produtos culturais não são com ercializados em loj as de discos, em livrarias ou outros revendedores: são vendidos por “salvadores”, com o são conhecidos em Cam arões os vendedores am bulantes. Mas o fato é que, aqui, ninguém “se salva”. O m ercado negro é a norm a, e não a exceção, e a polícia, apesar do excesso de efetivos, não se interessa m uito pelos “salvadores”.
A cultura da rua é central na África: é nela que é feito o com ércio. Até os livros são vendidos no m ercado negro, com base em exem plares xerocados, e o m otivo são os preços: um livro novo custa 15 m il francos CFA, ao passo que um livro xerocado vale 4.500 francos CFA. Basta fazer a conta. Em tais condições, fica difícil conseguir algum a estatística confiável sobre os gêneros m usicais da m oda ou as m elhores vendas de film es ou livros.
Mal: é seu prenom e autêntico (o sobrenom e será om itido, por m otivos óbvios). Em Yaoundé, Mal m e explica o m ercado negro de discos. “A pirataria de produtos culturais é um a indústria em si m esm a”, diz ele. “Mobiliza centenas de pessoas, da produção à distribuição e à revenda.” Milhões de álbuns estão em j ogo, e esse ecossistem a, autêntica m iniatura da indústria cultural legal, tam bém é globalizado. Os CDs e os DVDs são fabricados na China e gravados em oficinas ilegais em Cotonou (Benin), Douala (Cam arões), Abidj an (Costa do Marfim ) ou Lom é (Togo) — sem pre portos m arítim os. Mal se abastece em Douala, o grande porto de Cam arões, e todos os dias da sem ana, inclusive dom ingos, revende os CDs nas ruas de Yaoundé. “Noventa e nove por cento dos CDs vendidos em Cam arões são pirateados”, afirm a Mal, sem nenhum a prova do que afirm a, em bora tudo leve a crer que a estatística sej a plausível.
Os CDs são pirateados em Yaoundé? Marily n Douala Bell, filha de um dos principais chefes da etnia bam iléké, em Douala, a m aior cidade de Cam arões, m e explica longam ente que na África toda a vida cultural é organizada em circuitos paralelos. Criam -se, por exem plo, “videoclubes”, m ais ou m enos com o cineclubes privados organizados nas residências particulares dotadas da aparelhagem necessária, sendo um com partim ento isolado da luz: os habitantes do bairro são convidados para sessões pagas. Essa rede paralela com pensa a raridade das salas de cinem a nas cidades da África subsaariana.
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Se os produtos culturais vendidos nas ruas da África são pirateados e m uitas vezes am ericanizados, a Europa continua sendo um ponto de passagem obrigatório nos fluxos de conteúdos interafricanos. Na m ais pura tradição colonial, Londres e Paris, sobretudo, desem penham um papel central nas trocas culturais, respectivam ente na África anglófona e na África francófona. Mais ou m enos com o Miam i para a Am érica Latina, Hong Kong e Taiwan para a China e Beirute e o Cairo para o Oriente Médio, Londres e Paris são as capitais exógenas da África.
Em Cam arões, encontro-m e num restaurante de Yaoundé com Éric de Rosny, padre j esuíta que se tornou escritor: “Na m úsica, aqui, há os que se inspiram na tradição e os que im itam o Ocidente, ou sej a, Paris. A linha divisória na cultura popular se situa aí, entre a tradição e a Europa. Mas eu observo que cada vez m ais os cantores de Cam arões acrescentam palavras inglesas a suas canções em francês, para um efeito hip. É um a m udança e tanto”.
Há m uito tem po Londres e Paris conferem a chancela de legitim ação a artistas africanos, que assim obtêm um selo “internacional” necessário para o reconhecim ento. “Quando um artista fica fam oso em seu país, precisa ir a Paris, para ganhar credibilidade e atingir todo o continente africano. Salif Keita, do Mali, Mory Kanté, da Guiné, Youssou N’Dour, do Senegal, Manu Dibango, de Cam arões, Ray Lem a, do Congo, o grupo senegalês Touré Kunda, todos esses artistas ficaram fam osos na França”, explica Christian Mousset, diretor do festival francês Musiques Métisses, que entrevistei m eses depois no Wom ex, em Copenhague, o grande encontro da “world m usic”.
Com o explicar esse papel determ inante da Europa na África? Seria duradouro? “Em Paris e Londres, existem estúdios de qualidade que não estão disponíveis na África, em bora existam bons estúdios em Bam ako, no Mali, em Abij an, na Costa do Marfim , em Kinshasa, no Congo, ou em Dakar, no Senegal. Tam bém existem inúm eros selos, tão raros na África. Em Londres, existem festivais com o o Wom ad, os BBC Awards no caso da World Music, o agentes, produtores e realizadores”, explica Sam ba Sene, um senegalês de Dakar que vive em Edim burgo e com o qual tam bém m e encontro em Copenhague. A situação política e as tensões diplom áticas entre países não facilitam as trocas: m uitas vezes é im possível organizar um a turnê pela África, pois os artistas não conseguem vistos, por exem plo, sim plesm ente para ir de Yaoundé a Dakar. Frequentem ente as alfândegas proíbem o transporte de instrum entos e outros m ateriais. E a guerra civil na Costa do Marfim e na República Dem ocrática do Congo, para não falar de Ruanda, não m elhora as coisas. “A partir de Paris é possível alcançar toda a África, ao passo que não é possível sequer dialogar de um país a outro, com o vizinho m ais próxim o, quando se está na África”, desola-se Luc May itoukou, diretor do Zhu Culture em Dakar (entrevistado em Copenhague). Na Europa, há tam bém os m eios de com unicação. “A partir de Paris, alcançam os todas as m inorias africanas da França e todos os países da África, graças à RFI e à play list da France Inter e da Radio Nova, e os ingleses fazem o m esm o com a BBC”, confirm a Claudy Siar, principal apresentador de m úsica africana na RFI e diretor da Tropiques FM, entrevistado em Paris. E além do m ais há a diversidade africana: Londres e Paris congregam m inorias de toda a África, um a diversidade exógena que não existe em lugar algum do continente negro. E finalm ente, claro, há o dinheiro. “Um único concerto pago em euros ou libras na Europa rende m ais que todos concertos em francos CFA durante um ano na África”, constata tristem ente Sam ba Sene.
Na África, a m úsica durante m uito tem po se pareceu com a aviação. A com panhia aérea Air Afrique, que perm itia viaj ar entre os países africanos, faliu. Com isso, m uitas vezes era necessário passar por Paris ou Londres para ir de um a capital africana a outra. Durante m uito tem po, foi o m esm o no caso da m úsica.
A repartição geográfica herdada do colonialism o era im utável: grosso m odo, o Senegal, Cam arões, a Costa do Marfim , o Congo-Kinshasa, o Mali e a África Ocidental voltavam -se para Paris (ou Bruxelas, no caso da República Dem ocrática do Congo), ao passo que a Nigéria, a Etiópia, Gana, Uganda, a África oriental, a África austral e naturalm ente a África do Sul estavam voltadas para Londres. Alguns poucos países lusófonos, Moçam bique, Angola, Cabo Verde e Guiné Bissau, voltavam -se m ais para Lisboa. A circulação de produtos culturais na África acom panhava caricaturalm ente as línguas e a história colonial.
Mas esses fluxos fixados no tem po estão se m exendo. E o que aconteceu à Espanha na Am érica Latina, ou sej a, o lento apagar de sua presença da cartografia dos m eios de com unicação e das indústrias criativas, com a ascensão de poderosos grupos com o o m exicano Televisa e o brasileiro TV Globo, está acontecendo com a França e o Reino Unido na África. Em vista da com pleta transferência da m úsica para o digital, que facilita a produção e a difusão local, graças ao sucesso do rap africano em todo o continente e em vista da rarefação das concessões de vistos para a Europa, os africanos com eçam a se organizar entre eles, sem precisar — ou sem poder — passar por Londres e Paris. Às trocas Norte-Sul seguem -se as trocas Sul-Sul.
A Internet faz com que tudo com ece do zero novam ente. Na África, todo m úsico j á tem sua página My Space, e os grupos não precisam m ais dos europeus para difundir seu rap. “Basta, para eles, participar dos Hip-Hop Awards em Dakar, do festival de rap Assalam alekoum na Mauritânia, do Waga Hip Hop em Burquina Faso”, explica Philippe Conrath, diretor do festival Africolor, entrevistado em Paris. A Internet revoluciona o m apa das trocas de conteúdos na África, oferecendo novas oportunidades de distribuição, o que o rap, m úsica do “do it y ourself” por excelência, m ultiplica por dez. Especialm ente quando a globalização hum ana é freada pelas em baixadas europeias: “Os franceses têm um a política de vistos inadequada aos tem pos da globalização, baseada no desprezo e na condescendência. Ela sanciona duram ente os artistas africanos e os leva a viaj ar não m ais a Paris, m as para Dakar ou Lagos, para o Brasil, os Estados Unidos ou a África do Sul”, lam enta Claudy Siar.
Nos últim os anos, dois países se im puseram com o as novas portas giratórias da África, favorecendo sobretudo a ascensão do inglês no continente: a Nigéria e a África do Sul. “As novas capitais culturais da África são anglófonas, é este o problem a para Paris”, com enta Luc May itoukou, diretor do Zhu Culture no Senegal.
A Nigéria, para com eçar, é um gigante da África subsaariana: é o país m ais populoso do continente africano, com seus 150 m ilhões de habitantes, e um dos m ais ricos, com um a econom ia dinâm ica, em virtude de suas reservas de petróleo no delta do Níger. Em bora m etade da população viva abaixo do lim iar de pobreza e a corrupção j urídica e a insegurança física sej am grandes, a Nigéria possui indústrias criativas influentes. Contração das palavras Nigéria e Holly wood, a fam osa Nolly wood produz desde a década de 1990 m ais de m il film es por ano. Seria, assim , o terceiro m aior produtor de cinem a do m undo, depois da Índia e dos Estados Unidos. Mas a com paração para por aí: a quase totalidade dessa produção, m uito adequadam ente batizada no país de “hom e video”, é feita sem película nem salas de cinem a. Trata-se quase inteiram ente de vídeos de pequeno orçam ento, com enredos rudim entares e atores im provisados, para não falar das falhas técnicas, que j á ficaram fam osas. Esses “hom e videos” são rodados em poucos dias, com orçam entos de m enos de m il euros, e reservados ao consum o em dom icílio, em virtude da insegurança noturna e da ausência de um a rede de salas de cinem a. O preço baixo acelera a difusão e freia a pirataria. Assim , contando com atrizes sensuais, roteiros cheios de bruxaria e sexo, africanos ricos em burguesados e m alvados ainda m ais cruéis que na realidade (o que não é pouca coisa, nesse país), os film es de Nolly wood fazem sucesso m ainstream na Nigéria e em toda África ocidental. “Os film es nigerianos são um verdadeiro fenôm eno na África negra. Se os produtores tivessem a iniciativa de legendá-los em francês, logo eles se tornariam dom inantes até m esm o na África francófona”, garante Rém i Sagna, diretor da Organização Internacional da Francofonia, entrevistado em Cam arões. Para aum entar as exportações e as com pras de direitos para a televisão, Nolly wood privilegia por enquanto as produções em inglês, visando os m ercados da África anglófona, especialm ente a África oriental, e, claro, a África do Sul.
Pois a África do Sul tornou-se um m odelo a ser im itado e o país para o qual se voltam os olhos africanos, convencidos de um a nova onda favorável Sul-Sul. “Atualm ente, um artista africano dispõe de tudo de que precisa em Joanesburgo: estúdios, selos, dinheiro, um a legislação protetora em m atéria de direitos autorais. Estam os nos tornando a capital da cultura, do entretenim ento e dos m eios de com unicação na África”, afirm a Dam on Forbes, diretor do selo Sheer Sound, pertencente ao grupo Sheer, im portante m aj or m usical sul-africana (entrevistado em Copenhague, Forbes é originário do Zim bábue e vive atualm ente na África do Sul).
Com 49 m ilhões de habitantes e um PIB em forte crescim ento, que equivale sozinho a um quarto do PIB de todo o continente, a África do Sul é hoj e um país em ergente, o único que pode invocar essa condição na África. Matérias-prim as valiosas, especialm ente m etais, contribuem para esse excepcional dinam ism o. Afetado pela crise de 2008, o país espera que a Copa do Mundo de futebol de 2010 volte a dinam izar sua econom ia.
Na área do cinem a, a África do Sul pós-apartheid passou a ter crescente influência, com o recente sucesso de film es com o Distrito 9, Desonra e Infância roubada. Esse cinem a nacional em pleno desenvolvim ento na verdade é em grande m edida sustentado artística, técnica e financeiram ente pelos estúdios holly woodianos, que identificaram na África do Sul um país determ inante para o futuro de suas produções locais e de sua bilheteria m undial. Na m úsica, o sucesso é ainda m ais evidente. Por exem plo, o Moshito, fórum da indústria m usical da África do Sul, tornou-se um influente ponto de convergência e um m ercado determ inante para a m úsica africana. Os europeus com eçam a se dar conta dessa redistribuição de cartas, da qual podem ser as prim eiras vítim as. Em j aneiro de 2010, assim , a África do Sul foi a convidada de honra do MIDEM em Cannes.
Finalm ente, se há um setor em que essa redistribuição de cartas m ais cham a a atenção, é o da batalha pelos direitos da televisão esportiva. Se tom arm os o exem plo da prim eira liga inglesa de futebol, cuj os direitos estão entre os m ais caros e decisivos para o desenvolvim ento de um a oferta de televisão paga, a África foi dividida em três: o m ercado árabe, incluído o Magreb, no qual a Abou Dhabi TV abiscoitou os direitos por 330 m ilhões de dólares, levando a m elhor sobre a Al Jazeera; a Nigéria, um m ercado em si m esm a, cuj os direitos estão agora nas m ãos do gigante nigeriano Hi-TV; e finalm ente a África do Sul e o resto da África subsaariana, onde os direitos couberam à Multichoice, do grupo sul-africano Naspers. Um a repartição significativa.
“Nosso problem a é que ainda nos falta m assa crítica. O m ercado interno sul-africano é insuficiente, ainda m ais por ser fragm entado, num país que tem 13 línguas oficiais. Precisam os, assim , voltar-nos decisivam ente para a exportação. Para a África? As vendas no continente são fracas, em decorrência da pirataria, e nossa influência fica lim itada à África francófona ou lusófona. Para se tornar a capital cultural do continente, a África do Sul ainda tem m uito cam inho a percorrer. Restam -nos o m ercado europeu e sobretudo o norte-am ericano. Tem os m uitos trunfos, e nossos artistas são bem recebidos nos Estados Unidos. E há tam bém o Sul. E estam os entrando no novo diálogo Sul-Sul”, com enta Dam on Forbes, diretor do selo Sheer Sound em Joanesburgo.
Para os europeus, portanto, a concorrência não se lim ita à África do Sul, à Nigéria e aos Estados Unidos: surge fora do continente africano um a nova e feroz concorrência Sul-Sul. Existe para com eçar a ascensão do Brasil na África, o que se explica historicam ente, pelos vínculos com a África lusófona e, m ais recentem ente, pelo desej o do Brasil, cuj a população é em parte negra, de se tornar um a capital exógena da África. Um a cidade brasileira e negra com o Salvador da Bahia pretende hoj e ser a capital da m úsica africana.
Os chineses não ficam para trás. E investiram m aciçam ente no que passou a ser conhecido com o “Chináfrica”. Sua presença ainda é basicam ente industrial, nas infraestruturas, m atérias-prim as e nos transportes. Nesses setores, que j á haveria atualm ente m il em presas chinesas em solo africano e quinhentos m il chineses trabalhando. Mas à m edida que aum enta o com ércio bilateral entre a China e a África, Beij ing tam bém vai discretam ente equipando a África de redes sem fio e fibras óticas, utilizando sobretudo cabos aéreos, um a alternativa aos cabos subterrâneos, m ais onerosos. Em Brazzaville, um a em presa chinesa está construindo a nova sede da televisão nacional do Congo; o m esm o acontece na Guiné. É apenas um com eço. Depois do “hard” virá o “soft”. E à m edida que a produção cinem atográfica chinesa e de m úsica pop em m andarim aum entarem , é possível que se sigam tam bém as exportações de conteúdos. A África seria então inundada de produtos culturais chineses, baratos, acessíveis e, segundo m e dizem funcionários em Beij ing, “desej ados, porque os valores asiáticos são m ais com patíveis com os valores africanos do que os ocidentais”. Virá tam bém a vez de inform ação. E por sinal os chineses acabam de lançar, em 2009, um a im portante revista de inform ação, Afrique. Suas redes internacionais em inglês são transm itidas no continente negro e se fala de um a rede de inform ação chinesa que tam bém estaria sendo im plantada. Esse plano m e foi descrito com precisão por Fu Wenxia, diretor do SMEG (Shanghai Media and Entertainm ent Group), um dos principais grupos públicos de m ídia chineses a investir no cam po internacional: segundo esse funcionário, entrevistado em Xangai, os chineses pretendem aum entar consideravelm ente seus investim entos em tecnologia, audiovisual e inform ação na África nos próxim os dez anos.
“O risco é que venha a ocorrer, no setor da cultura africana, a substituição da França e da Inglaterra pelo Brasil e a China, em virtude do novo diálogo Sul-Sul. Para os europeus, seria um problem a. Mas para os africanos, isso abriria novas perspectivas e novos m ercados”, explica Marc Benaïche, o prom otor da Mondom ix, um a plataform a francesa especializada nas m úsicas do m undo. Depois da m úsica, o cinem a? A televisão? A inform ação? Por enquanto, ainda não existem m uitos conteúdos chineses na África, e a questão da língua provavelm ente continuará sendo um problem a. Mas até quando?
Últim o exem plo dessa autêntica revolução geopolítica de conteúdos: o caso da Naspers. Esse gigante sul-africano da m ídia, inicialm ente centrado na im prensa e na televisão, diversificou-se a partir da década de 1980 no setor da televisão, e, na década de 2000, na Internet, nas redes sociais e nas m ensagens instantâneas via celulares (um a alternativa aos SMS nos países de padrão de vida baixo). Com o conhecem bem a África, os dirigentes da Naspers sabem que nela o acesso à Internet ainda ocorre o m ais das vezes em contexto coletivo, com o acontece na m aioria dos países em desenvolvim ento, basicam ente no local de trabalho ou nos cibercafés: assim , apostam ao m esm o tem po na televisão por satélite e no telefone celular para a difusão de seus conteúdos, m ais que na Internet. Paralelam ente, a Naspers investiu internacionalm ente: desde a década de 1990, o grupo tom ou várias iniciativas de participação em m ídias da África subsaariana e do sudeste asiático, e a partir de 2000 voltou-se para os países em ergentes, prioritariam ente a Rússia, o Brasil e a China. Estabelecendo vínculos com a Ásia e a Am érica lusófona, assim , o grupo sul-africano espera tornar-se um dos grupos de m ídia em blem áticos dos países em ergentes e favorecer as trocas de conteúdos Sul-Sul.