Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 31 de 67

Páginas do PDF

Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

II. A guerra cultural mundial

II. A guerra cultural m undial

9. Kung Fu Panda: a China diante de Holly wood Estou no “Vale”,

perto de Holly wood, Los Angeles, no escritório do vice-presidente de um dos principais estúdios. Meu interlocutor tenta falar algum as palavras em francês, m as não quer ser citado. A entrevista segue tranquila, m as banal. Conversam os sobre m ercados internacionais de cinem a, a nova estratégia global dos estúdios e a globalização do cinem a am ericano. Não aprendo nada que j á não tenha lido dezenas de vezes na im prensa especializada. Mas um a coisa m e intriga. Na m esa desse chefão de Holly wood vej o três relógios: “Japan Tim e”, “China Tim e” e “India Tim e”. Os estúdios am ericanos estão de olhos colados no tem po da Ásia: um a nova fronteira para Holly wood?

Li Chow é a diretora da Sony e da Colum bia na China. Marquei encontro com ela no BookWorm , um a livraria-café am ericana no bairro de Chao Yang, em Beij ing (nova transliteração de Pequim , palavra a palavra). De origem taiwanesa, filha de diplom ata, Li falava um inglês perfeito — o que é raro na China. A Sony Pictures abriu um escritório em Beij ing em 1996, com o obj etivo de facilitar a distribuição dos film es da m aj or nipo-am ericana no país. Mas em seguida a am bição aum entou, e ela passou à produção. No papel, a estratégia chinesa da Sony era perfeita. “O negócio era fazer tudo ao m esm o tem po, tudo que fosse possível”, esclarece Li Chow. Mas a realidade se revelou m ais difícil.

Mercado em ergente num país em ergente, o potencial da indústria cinem atográfica chinesa parece à prim eira vista inesgotável, com 1,3 bilhão de habitantes. Na últim a década, sobretudo, paralelam ente a um crescim ento econôm ico excepcional (8-9% por ano em 2008 e 2009 ), as bilheterias avançam dois dígitos por ano, e atualm ente um a nova tela de m ultiplex é construída todo dia na China. Com o a produção nacional real é insuficiente, com cerca de cinquenta film es por ano, m uito atrás das estatísticas da propaganda oficial chinesa (cerca de quatrocentos), os am ericanos não dem oraram a enxergar a oportunidade. Na verdade, verdadeiros sonhos delirantes: 1,3 bilhão de chineses à espera de cartões de crédito Bank of Am erica, de carros General Motors, de iPods e iPhones, de program as Windows e, naturalm ente, 2,6 bilhões de m ãos prontas para aplaudir film es de Holly wood. Ao se voltar para oeste, e não m ais para leste, a Am érica se conscientizou de que era acim a de tudo um a nação do Pacífico. Para as m aj ors, contudo, a penetração nesse m ercado haveria de se revelar arriscada.

O prim eiro obstáculo, que não é dos m enores, é a censura. Para entender o sistem a que os am ericanos tentariam conquistar, devem os ter em m ente que, desde a chegada ao poder em 1949, o partido com unista chinês estabeleceu um controle férreo sobre o conj unto dos m eios de com unicação. A “revolução cultural” aum entou ainda m ais a censura, transform ando o cinem a em obj eto de pura propaganda. Cada palavra publicada, cada inform ação transm itida na im prensa, no rádio ou na televisão, cada livro editado, cada texto representado no teatro, cada palavra de um a canção num disco é alvo de controle drástico. Essa vigilância a priori é possibilitada por um a inacreditável rede labiríntica de dezenas de m ilhares de censores, agentes e policiais indiretam ente subordinados ao Ministério da Propaganda, que por sua vez não é subordinado ao poder executivo, com o os outros m inistérios, m as, estranham ente, ao partido com unista chinês. O cinem a, considerado setor “estratégico”, não é exceção — m uito pelo contrário. E o que j á é difícil para um produtor chinês torna-se ainda m ais com plexo para um estrangeiro.

Para distribuir um film e na China, um estúdio internacional precisa obter várias autorizações das autoridades chinesas, no caso, de diferentes agências do departam ento de censura, outra dependência do Ministério da Propaganda. O film e é apresentado, j á com legendas, para receber o visto de distribuição. A censura é um a m istura com plexa de controle político, controle pequeno-burguês de tipo vitoriano e protecionism o. A sexualidade, a violência, a política, o islã, as “distorções” da história chinesa e, naturalm ente, qualquer referência aos acontecim entos da praça Tian’anm en, ao Dalai Lam a, ao Tibete, à independência de Taiwan, à seita Falun Gong, à hom ossexualidade e de m aneira geral aos direitos hum anos constituem tem as tabus que podem levar à im ediata proibição do film e. Foi o que pôde constatar a Disney, por exem plo, ao produzir o film e Kundun, de Martin Scorsese, hom enageando a luta não violenta do Dalai Lam a: o estúdio quase teve todo o seu catálogo proibido para distribuição na China e enfrentrou o adiam ento em vários anos de seu proj eto de um parque tem ático em Xangai. Fora de cogitação, igualm ente, criticar um aliado da China: a Rússia, a Venezuela, Cuba ou certas ditaduras africanas. Ou fazer apologia de um a potência pouco apreciada, com o o Japão ou a Índia.

No fim das contas, considerando-se o am plo espectro de tem as proibidos, m uitos film es podem conter algum a cena que gere problem a. “Na realidade, não existem realm ente regras de censura”, explica Li Chow. “Um film e foi censurado porque m ostrava tatuagens e um ator com um piercing, um outro, porque a pobreza era m ostrada m uito explicitam ente, um terceiro, por causa de seu caráter ‘niilista’, outro ainda, por ter m uito suspense. E m uitas vezes, a censura sequer fornece explicações.” Fala-se tam bém de casos de film es proibidos pela censura e depois liberados ao serem apresentados com outro título. Isabelle Glachant, produtora independente com quem tive contato em Beij ing, é ainda m ais severa: A censura é paranoica e a autocensura, perm anente. Para as autoridades chinesas, na verdade, as questões políticas são secundárias: im porta apenas o patriotism o econôm ico. O governo está preocupado apenas em fazer com que as bilheterias dos film es chineses continuem superiores às dos am ericanos. Para isso, está disposto a tudo: censurar film es que não precisariam sê-lo, instituir períodos de “black-out” total ou, com frequência ainda m aior, m entir sobre as estatísticas.

Outras pessoas entrevistadas na China dão inform ações m ais nuançadas sobre a censura. Em Xangai, por exem plo, Chen Sheng Lai, ex-presidente da rádio (oficial) da cidade, defende a ideia de que a China tem o direito de estabelecer cotas, com o tantos outros países. Para ele, não resta dúvida de que a China deve proteger sua cultura nacional. Várias outras pessoas entrevistadas em Beij ing e Xangai com partilham esse ponto de vista. E aquilo que os ocidentais cham am de “censura” seria na verdade um sim ples sistem a de regras de proteção dos valores chineses, diferentes dos ocidentais, m as igualm ente aceitáveis. “Os valores do Ocidente podem ser bons, m as não são universais”, com enta Hua Jian, professor universitário e diretor do Cultural Industry Research Center, integrante da Academ y of Social Science de Xangai, instituição das m ais oficiais. “A liberdade de associação, a liberdade de im prensa, a liberdade de opinião e de religião não são necessariam ente universais”, prossegue Hua Jian. Além disso, conclui ele, com habilidade, “a qualidade artística dos film es m uitas vezes surge desse conflito com a censura. A tensão entre a repressão e a liberdade, tal com o acontecia no sistem a dos estúdios am ericanos na década de 1920, gera um a grande criatividade na China e um certo ‘glam our’ nasce dessa tensão”.

A censura oficial é apenas um dos m uitos obstáculos criados pelos chineses para se proteger do cinem a estrangeiro. Quando o film e é liberado, ainda precisa ser distribuído nas salas. Com o todos os cinem as pertencem ao Estado, o m onopólio da distribuição está nas m ãos da China Film , o escritório cinem atográfico que tam bém é diretam ente ligado ao Ministério da Propaganda. Acontece que a China Film só autoriza a circulação de cerca de vinte film es por ano, m ediante um com plexo sistem a de cotas. Na verdade, os blockbusters holly woodianos representam ainda 50% dos film es distribuídos, pois o sistem a de cotas sofre do paradoxo de favorecer os film es m ainstream m ais voltados para o grande público.

Tem os aqui um bom resum o do capitalism o de Estado chinês, capitalism o autoritário tam bém conhecido — num a form ulação fam osa, herdada dos anos Deng Xiaoping — com o “econom ia socialista de m ercado”. Trata-se de um a m istura original de verdadeira econom ia de m ercado, dinâm ica e m esm o selvagem , pequenas em presas bastante autônom as e voltadas para o consum o interno e um sistem a de com ando ainda leninista, no topo, garantindo um controle político total — contribuindo todo esse conj unto para algo que não podem os deixar de cham ar afinal de m ilagre econôm ico chinês.

Com a condição de não ser citado pelo nom e, um dirigente de um estúdio am ericano na China explicou-m e por sinal que as m aj ors holly woodianas fazem um a repartição dos blockbusters antes de subm etê-los à censura, ao arrepio das leis m ais elem entares da concorrência — leis, precisam ente, que elas pretendem im por aos chineses na OMC. Esse acerto ilegal é feito em Washington sob o patrocínio da MPAA, o lobby de Holly wood, e cada estúdio escolhe anualm ente dois film es que em geral são validados pelas autoridades chinesas.

Por que será que os chineses, perfeitam ente inform ados das intenções e dos m étodos cartelizantes dos am ericanos, aceitam o j ogo? “Porque só os blockbusters am ericanos dão lucro m aciço e assim eles podem encher suas salas de cinem a”, explica-m e um diretor da Disney na China, igualm ente com a condição do anonim ato. Desse m odo, é m uito difícil para um film e am ericano que não sej a dos grandes estúdios ou para um film e europeu entrar nessas cotas. Quando se veem apanhadas em sua própria arm adilha por terem j ogado dem ais com o capitalism o j unto aos estúdios, especialm ente quando a bilheteria am ericana am eaça superar a bilheteria chinesa, as autoridades chinesas decretam períodos de black-out total, proibindo film es estrangeiros nas salas do país. Nesses casos, nas férias de Natal, no ano-novo chinês ou no feriado de 1º de m aio, resta apenas ver film es nacionais épicos e de época. Mas, apesar disso, os blockbusters am ericanos, com apenas um a dezena de film es autorizados por ano, de Homem de ferro a Piratas do Caribe, passando pelo sucesso da franquia Harry Potter ou m ais recentem ente de Transformers 2, 2012 e Avatar (em bora Batman — O cavaleiro das trevas tenha sido proibido), alcançam cerca de 50% da bilheteria chinesa todo ano. Um a cifra astronôm ica, levando-se em conta as cotas e a censura.

E restam ainda a censura financeira e as cópias piratas. Quando um film e é liberado e distribuído — o que em geral só acontece com os blockbusters m ais inofensivos para a fam ília —, o produtor estrangeiro recebe na m elhor das hipóteses cerca de 13% da bilheteria, valor ridiculam ente irrisório. Foi o que pôde constatar o estúdio Dream Works Anim ation com Kung Fu Panda: inicialm ente o film e foi recebido com frieza pelas autoridades e os críticos na China, que acusaram o estúdio am ericano de lhes ter roubado ao m esm o tem po o tesouro nacional chinês, o panda, e seu esporte favorito, o kung-fu. Apesar da polêm ica, o público aprovou a história do panda com excesso de peso que quer se transform ar em m estre de kung-fu, e o film e foi um sucesso. Mas o fato é que o estúdio am ericano de Jeffrey Katzenberg não pôde recolher os frutos da bilheteria, estando lim itado aos 13% que cabem aos produtores estrangeiros. Entretanto, por reduzida que sej a em dólares, a parte do m ercado que cabe aos am ericanos na China está em acentuado crescim ento, levando-se em conta o avanço da bilheteria chinesa, que dobra de tam anho de três em três anos.

Quanto à pirataria, é tão generalizada e visível que fica difícil entender por que as autoridades chinesas, apesar dos com prom issos assum idos j unto à Organização Mundial do Com ércio, não conseguem sancioná-la. Cassetes de áudio piratas ainda ontem , DVDs piratas hoj e e tam bém m uito download ilegal na Internet (apesar da rapidez de conexão ainda m edíocre na China), vale tudo para tornar o cinem a e a m úsica gratuitos e ao alcance de todos. Essa generalização da falsificação é tanto m ais vasta na m edida em que a oferta cinem atográfica é m uito insuficiente, tanto em núm ero de film es distribuídos com o em quantidade de cinem as, para não falar da censura, que, naturalm ente, contribui para decuplicar a dem anda por DVDs piratas. “No lançam ento de Casino Royale”, conta-m e Li Chow na Sony em Beij ing, “ficam os perplexos com o fato de os chineses conhecerem o personagem e a m úsica do film e de cor, em bora fosse o prim eiro Jam es Bond liberado na China. Todo m undo o tinha visto em DVDs piratas, o que facilitou m uito o nosso m arketing. Pela prim eira vez, eu gostei da falsificação”.

Para ter um a ideia desse m ercado negro à luz do dia, pedi a m eus interlocutores chineses que m e dessem o endereço de um a fábrica ilegal onde são produzidos esses CDs e DVDs piratas, para poder visitá-la. Explicaram -m e inicialm ente que eu teria de ir à região de Cantão, no sul da China, m as que seria com plicado e talvez até arriscado. Meus contatos nos estúdios am ericanos disseram -m e que tentaram durante m uito tem po entender os segredos desse m ercado negro que prej udica fortem ente seus interesses no cinem a e na m úsica. Sem conseguir um endereço, com ecei a percorrer algum as das m ilhares de loj as de CDs e DVDs de Beij ing, Xangai e Hong Kong. Finalm ente, conversando com um com erciante de CDs e DVDs de Xangai, entendi por que os DVDs falsificados se parecem tanto com os autênticos: “Não sej a burro”, disse o vendedor (com a condição de não ser citado nom inalm ente e traduzido por m inha intérprete). “É claro que são as m esm as fábricas que produzem os DVDs legais e os ilegais. Exatam ente com o acontece com as canetas Montblanc e os relógios Rolex.” Na loj a, ele m e m ostrou os DVDs “autênticos” m isturados aos “falsos” — e vice-versa. Os am ericanos tam bém entenderam o ardil, e acharam m uito m enos divertido que eu. Constataram inclusive, m ediante pequeno exercício de espionagem , m odificando certas im agens de um film e-teste, que os longas-m etragens que subm etiam à censura chinesa iam parar no m ercado negro m esm o quando eram proibidos — inacreditável operação de desvio que diz tudo sobre a corrupção na China com unista. Com isso, decidiram atacar a China na OMC por descum prim ento das leis internacionais de copy right e laxism o em m atéria de pirataria selvagem . (Vários de m eus interlocutores tam bém levantam a hipótese de que os am ericanos deliberadam ente distribuem seus film es no m ercado negro para acostum ar os chineses aos blockbusters, j á que não os podem distribuir legalm ente.) “Não é possível im pedir a pirataria”, relativiza em Hong Kong, no entanto, Gary Chan Chi Kwong, dono da East Asia Media, um a das m ais im portantes produtoras de discos da Ásia. “É a m esm a fábrica que produz os CDs legais e os outros. Todo m undo sabe disso. O que se faz é ficar com um olho aberto e o outro fechado: tenta-se com bater, m as tam bém se finge não ver. Pois é absolutam ente im possível im pedir a falsificação.”

Perto da praça Tian’anm en, no coração da censura chinesa “Aqui é o Wild Wild East.” Com esta referência à Califórnia, durante m uito tem po considerada o Wild Wild West, Barbara Robinson resum e o desafio que representa para os am ericanos fazer cinem a na China. Do 32º andar da célebre torre do Bank of China, proj etada pelo arquiteto I. M. Pei, Barbara contem pla as colinas de Hong Kong, que lhe lem bram as de Holly wood. Essa am ericana dirige a Colum bia Pictures Film Production Asia, igualm ente pertencente à Sony. Se a distribuição dos film es é adm inistrada de Beij ing, a capital, onde ficam a censura e o poder político, foi em Hong Kong que a Sony instalou seu braço de produção cinem atográfica e suas redes audiovisuais. Longe do poder chinês, longe da censura.