Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 32 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Perto da praça Tian’anmen, no coração da censura chinesa

“‘Location, Location, Location’ e ‘Cheap, Cheap, Cheap’: são nossos lem as para produzir film es aqui”, explica Barbara Robinson: as m elhores locações e os m elhores preços. E a coisa funciona. A Sony produz cerca de quatro film es por ano em Hong Kong, em língua chinesa (sobretudo m andarim ) e para um público essencialm ente chinês. Acim a de sua m esa, vej o o cartaz do film e O tigre e o dragão, de Ang Lee, cuj o sucesso internacional em 2000 corroborou a estratégia da Sony, que tam bém com eçou então a sonhar com o m ercado potencial dos film es chineses. “Para o pessoal da Sony em Holly wood, o principal m otivo de nossa presença aqui é perm itir a distribuição dos film es da Sony na China. É com isso que estão preocupadas as pessoas na Sony. Mas por enquanto não é possível. E então, a gente espera. Todo m undo sabe que a China vai se abrir: ‘Open Up’ é a expressão que todos nós tem os em m ente. Mas por enquanto ela ainda não está aberta. E então vam os ficando por aqui. Esperam os.”

Tam pouco aqui o m ercado chinês se m ostra m uito acolhedor, nem m esm o para os film es feitos localm ente. Em bora produza seus film es na China, em chinês, com atores chineses, o sim ples fato de a Sony, um a m aj or estrangeira, estar sediada em Hong Kong lhe veda o acesso a um a distribuição norm al na China. Com o sem pre, o film e entra nas cotas. Para contornar esse obstáculo (conseguindo um percentual das receitas da ordem de 40%, m uito superior ao que é autorizado a film es estrangeiros), a Sony criou parcerias com em presas privadas chinesas de Beij ing habilitadas a produzir film es. O obj etivo dessas coproduções não é obter verbas para fechar o orçam ento (não é esse o problem a da Sony ), m as contornar a censura e as cotas. Tam bém aqui, o cam inho está cheio de arm adilhas. Dessa vez, o censor se cham a China Film Coproduction Corporation, etapa obrigatória para toda coprodução na China. Decido então observar m ais de perto seus funcionários.

Num bunker protegido pelo exército “do povo” em Beij ing, um pouco a oeste da praça Tian’anm en, tenho encontro m arcado com Zhang Xun, a presidente da China Film Coproduction Corporation. Faz um frio glacial, que aum enta ainda m ais com o vento terrível, no m om ento em que entro no “com pound” oficial da censura cinem atográfica chinesa. Recebo um passe e sou entregue aos cuidados de um guarda im passível. Nós passam os por carros oficiais de vidros escurecidos, alguns com faróis giratórios no teto — o que m e parece estranho, tratando-se de um escritório de cinem a. Dezenas de prédios sediam num erosos canais de televisão, entre eles a fam osa Central China Television (CCTV), m ais oficial que todas as estações oficiais, e ainda tem os de cam inhar longos m inutos para chegar ao nosso destino. Um a superpopulação de burocratas vegeta em escritórios m ortíferos; alguns guardas estão literalm ente adorm ecidos, outros m e olham com o se eu viesse de outro planeta.

Na im ensa sala de reunião à qual sou levado com m inha tradutora, foram içadas um a bandeira da China e um a bandeira da França, ao lado de um horrendo buquê de flores de plástico. Instintivam ente, sento-m e do lado francês. É possível que Zhang Xun esperasse encontrar o cônsul da França.

Ela não dem ora a chegar. A presidenta da instituição internacional que controla todas as coproduções da China e negocia com os estúdios do m undo inteiro não fala um a palavra de inglês (e m uito m enos de francês). Ela se expressa longam ente, m e diz o quanto a China é favorável às coproduções, o quanto o sistem a cinem atográfico chinês é produtivo, com “m ais de quatrocentos film es por ano” (o núm ero real, com o j á disse, é inferior a cinquenta), que é um a indústria m ais influente ainda que Bolly wood na Índia (o que não é verdade, nem pela produção, nem pela difusão nacional, nem pelas exportações), que a bilheteria dobrou em 2008 (o que ela não diz é que chega a apenas 50% da bilheteria da Coreia do Sul, país infinitam ente m enos populoso), que o presidente da República Popular da China, Hu Jintao, acredita no cinem a, e eu j á estou esperando a lengalenga habitual sobre “a cooperação m útua, a am izade e o respeito entre a França e a China”, o que finalm ente acaba m esm o por chegar. Eu m e belisco para ver se estou acordado.

Será que Zhang Xun acredita m esm o no que está m e dizendo? Todas essas frases são vazias, os núm eros são falsos, será que ela sabe? Ela é o rosto suave, quase sincero, da censura. Fala com segurança e tato, assessorada com brilhantism o por um a tradutora eficiente (só que m inha própria tradutora diria, depois da entrevista, que ela constantem ente m elhorava o discurso em perfeito “burocratês” da m inha interlocutora). Enquanto ela fala das “coproduções” do j eito que as im agina, dou-m e conta de que o uso do prefixo “co” é totalm ente inadequado: ela fala de produções autorizadas pelo regim e, e que portanto se tornam chinesas, e de m aneira algum a de “co-”produções, que seriam por definição binacionais. Pergunto-lhe então com o ela faz para determ inar a nacionalidade de um film e, considerando-se os frequentes investim entos cruzados feitos por diversos produtores internacionais. Sua resposta m e deixa perplexo: ela se baseia no IMDb, o banco de dados cinem atográficos am ericano! Entendo então que todo o sistem a não está organizado realm ente para defender valores nem para proteger as fam ílias chinesas: trata-se antes de m ais nada de um poderoso m ecanism o de protecionism o. Arrisco então um a tím ida e banal pergunta sobre a censura, em plena sede por excelência da censura chinesa. “Cada país tem sua censura”, responde Zhang Xun com a m aior delicadeza, sem a m ais leve som bra de hesitação. “Nos Estados Unidos existe um a censura m uito forte, m ais dura ainda que na China. Nós tem os o direito de proteger nossas crianças da violência e da pornografia.”

*

Nessa m esm a noite, estou no hotel Konlun de Beij ing, palácio cuj o café giratório no 29º andar, com sua vista espetacular da capital chinesa, é por si só um a atração. Peter Loehr está à m inha espera; é o diretor de CAA para a China. A Creative Artist Agency é um a das principais agências de talentos am ericanas com a m issão de contratar atores de cinem a, m as tam bém cineastas, roteiristas, cantores ou escritores, todos chineses. Sinólogo, Peter Loehr vive na Ásia há vinte anos e j á passou treze anos em Beij ing. E por sinal esse am ericano verdadeiram ente apaixonado pela China se casou com um a chinesa.

A estratégia da CAA é diferente da estratégia dos estúdios para os quais trabalha, na m edida em que ela se concentra nos hom ens, e não no m ercado chinês. Peter Loehr está ali para assinar contratos com o m áxim o de talentos chineses, e nesse terreno teve total êxito, com o seus colegas da William Morris, a outra agência am ericana, sediada em Xangai. Ao contrário dos estúdios, que tentaram resistir ao sistem a de produção chinês e depois à distribuição, deparando-se com um m uro, as agências de talentos fazem “deals” com talentos locais. Elas contornam a censura e as cotas concentrando-se nos indivíduos que aceitam assinar contratos de exclusividade, na esperança de um a carreira m ais internacional e de contratos m ais polpudos (o célebre m étodo de “packaging” da CAA perm ite a um ator receber um percentual sobre todos os produtos derivados de um film e). Em troca, a agência em bolsa em m édia 10% dos contratos do artista. Num m ercado de que os europeus, os indianos e os j aponeses estão ausentes, os am ericanos contrataram ano após ano a m aioria dos artistas im portantes da China. “Honestam ente, não é m uito com plicado trabalhar aqui”, com enta Peter Loehr com ar j ovial (e não m ais falaria “on the record”, não querendo que eu o cite). Na China, as raras agências que em presariam artistas m uitas vezes estão ligadas a estúdios ou produtoras de discos, o que gera consideráveis conflitos de interesses, dos quais os artistas são as prim eiras vítim as. É este um dos m otivos pelos quais os “talentos” chineses tendem a contratar os serviços de um a agência am ericana.

O trabalho da CAA e da William Morris, trabalho de form iga, é terrivelm ente eficaz, pois seus agentes estão constantem ente trabalhando o terreno e preparando o m ercado para o dia em que a China se abrir. Onde estão os europeus? Não vi nenhum .

Resta portanto a produção local. Belíssim a taiwanesa criada na Indonésia, Felice Bee, protegida do frio glacial que invadiu Beij ing por um longo sobretudo negro, m olha os lábios com um chá refinado no coffee shop onde m arcou encontro com igo. Por que se transferiu para a China ao deixar Taiwan? “Porque é aqui que está o m ercado”, responde Felice Bee sem hesitação. “A China é um sistem a cultural novo, nada está congelado, tudo se m exe, tudo é possível. É aqui que está o futuro.” Nós conversam os sobre a estratégia da Disney na China, pois ela trabalhou durante m uito tem po para a Buena Vista International, o ram o de distribuição da Disney, m as é sobretudo sobre a produção local que quero ouvi-la, pois ela passou a trabalhar com um dos principais produtores privados, o grupo Huay i Brothers Pictures. A priori, j á que se trata de um grupo chinês sediado em Beij ing, não prevalecem m ais as cotas reservadas aos estrangeiros. “Não”, corrige Felice Bee, “o controle político continua sendo exercido em todas as etapas do film e, m esm o quando é produzido por um a em presa chinesa: é necessário conseguir um visto j á na etapa do roteiro e renová-lo a cada m odificação, naturalm ente acom panhado de tantas autorizações quantas forem as cidades onde o film e tiver de ser rodado”. Até então, m eus interlocutores am ericanos haviam dado a entender que os produtores chineses, desde que tivessem bons contatos com os burocratas de Beij ing, podiam fazer o que bem entendessem no sistem a neocapitalista chinês. Mas agora eu m e dou conta de que toda a indústria cinem atográfica é controlada, pois foi transform ada em setor estratégico pelo departam ento de propaganda. E o controle, por definição, é exercido sobre o argum ento. “No script”, prossegue Felice Bee, “é preciso tom ar cuidado para que o policial sej a sem pre bom e o bandido sem pre m au. O policial nunca pode ser um m au pai de fam ília e está fora de cogitação que o bandido sej a um bom pai. Além disso, com o não existe um ‘rating sy stem ’, com o nos Estados Unidos, parte-se do princípio de que todos os film es se dirigem ao grande público, o que é do interesse da censura chinesa, perm itindo-lhe proibir toda form a de sexualidade ou violência”.

Seria possível assum ir riscos controlados em m atéria de produção local? Foi o que pensaram a Universal e os irm ãos Weinstein. Os Weinstein, depois de seus gloriosos anos na Miram ax, investiram num escritório em Hong Kong para coproduzir film es localm ente e sobretudo com prar direitos de film es prom issores. Quem dirige o escritório da Weinstein Com pany na Ásia é Bey Logan. Divertido, fanfarrão e caricaturalm ente am ericano — em bora fale cantonês —, ele se encontra com igo em baixo de seu escritório, no café Lavande, no belíssim o bairro Prince Terrace de Hong Kong. “Harvey Weinstein sem pre teve um verdadeiro caso de am or com a Ásia”, diz-m e Bey Logan. A partir do sucesso nos Estados Unidos de film es com o O tigre e o dragão, de Ang Lee, Conflitos internos, de Andrew Lau e Alan Mak, e Herói e O clã das adagas voadoras, de Zhang Yim ou, a estratégia dos irm ãos Weinstein consistiu em adquirir os direitos internacionais de m uitos film es chineses, e para financiar as aquisições eles criaram um fundo “Ásia”, gerido pelo banco Goldm an Sachs. Com base nesse catálogo considerável, eles optam , em função do público visado, por lançar os film es nos Estados Unidos ou se lim itar ao m ercado regional, onde contam com um a bela rede de distribuição pan-asiática.

Na frente da produção local, os irm ãos Weinstein tiveram m enos sorte. “O dinheiro não é problem a na China e em Hong Kong. O problem a é encontrar roteiros bons e capazes de atingir um grande público, contratar estrelas de grande potencial, encontrar o coprodutor local certo e no fim conseguir trabalhar com a censura de Beij ing”, suspira Bey Logan. Por enquanto, os Weinstein lim itaram -se a produzir o film e Xangai, cuj o orçam ento é de 45 m ilhões de dólares, com direção e distribuição inteiram ente chinesas, e que deveria ser rodado em Xangai. Mas então entrou em cena a censura, que à últim a hora recusou o certificado de coprodução e determ inou que a equipe de film agem , que j á se encontrava em preparativos locais, deixasse a China. As film agens foram então transferidas para Bangcoc, num cenário im provisado tentando evocar a Xangai da década de 1940. “Harvey ficou chocado com o com portam ento dos chineses, louco de raiva”, confirm a Bey Logan. “Perdem os 3,4 m ilhões de dólares nessa história.” O representante dos irm ãos Weinstein não parece ressentido. Está pronto para se lançar em novos proj etos. “Todos os estúdios am ericanos, sej am grandes ou pequenos, vêm à China para tentar abocanhar um a parte do im enso m ercado chinês, com estratégias que fazem sentido no papel, com o a guerra no Vietnã ou no Iraque. Mas a situação in loco é m uito m ais com plexa. De qualquer m aneira, o m ercado é tão vasto e tão estratégico que vam os continuar tentando, tentando e tentando.”

Outra pretendente, a Universal, teve ainda m enos sorte. O estúdio lançou-se na produção do film e Desejo e perigo, do cineasta taiwanês Ang Lee, através de seu braço “independente” Focus Features. No início, os funcionários chineses viram com bons olhos o retorno à Ásia de um cineasta estrela em Holly wood, prem iado com Ursos de Ouro e Oscars por Banquete de casamento, O tigre e o dragão e m ais recentem ente O segredo de Brokeback Mountain. As autorizações de film agem foram concedidas pelo departam ento de censura, que se m ostrou tanto m enos preocupado com o roteiro na m edida em que os chineses se orgulhavam do sucesso m undial de O tigre e o dragão. E por sinal o risco era lim itado para a Universal, j á que um renom ado produtor local fora escolhido por Ang Lee e sabia com o adm inistrar os funcionários. Nas altas esferas, contudo, as coisas não foram assim tão sim ples. Mal havia sido autorizado, e o film e foi brutalm ente proibido por causa da sexualidade dem asiado explícita e das alusões consideradas “sensíveis” aos j aponeses. A atriz principal foi proibida de dar entrevistas e o film e, censurado. O que deveria ter sido a consagração de um filho de Taiwan de volta à China acabou se transform ando, debaixo das vaias da com unidade internacional, num a ilustração da pior censura. E provocou, da parte das autoridades, um revide cuj o preço ainda hoj e está sendo pago pelos cineastas independentes. “Foi um a verdadeira Tian’anm en para a indústria cinem atográfica”, conclui, fatalista, Felice Bee.