Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
Tina Brown ou o novo jornalismo cultural
Com o o escritor Norm an Mailer, a intelectual Susan Sontag, o crítico literário Dwight Macdonald e tantos outros, Pauline Kael foi um a das figuras sim bólicas dessa grande ruptura. Desde então, j á se foi m uito m ais longe que ela na dessacralização da “alta” cultura e na m istura de gêneros: Pauline Kael e depois Tina Brown e, naturalm ente, Oprah Winfrey anunciam o futuro de um a vida cultural sem a figura do intelectual. E até, daqui a pouco, um a vida cultural sem a figura do crítico.
Tina Brown ou o novo j ornalism o cultural O Junior’s é um restaurante
em blem ático de Nova York. Tipicam ente j udeu até a década de 1970, é um a espécie de “diner” que se tornou essencialm ente negro desde então, sendo conhecido em toda a região por seu World’s Most Fabulous Cheesecake. Na Tim es Square, na 45th Street de Nova York, é onde eu tenho encontro m arcado com Tina Brown.
Aos 56 anos, Tina Brown é um a m ulher sedutora, e se torna ainda m ais irresistível por sua elegância absolutam ente britânica (ela nasceu em Londres) e seu carism a discreto. Conversando com ela, sou envolvido por seu charm e e fico pensando que ela deriva seu otim ism o da Am érica e seu hum anism o da Europa. E sobretudo eu entendo, ao vê-la, com o foi que seduziu alguns dos m ais célebres atores, j ornalistas e escritores ingleses na década de 1970 — o que contribuiu para seu perfil lendário. Tam bém foi am iga íntim a de Diana, princesa de Gales, à qual dedicou um a biografia recente que se transform ou em best-seller m undial.
Tina Brown pede a um garçom do Junior’s que nos sirva café am ericano (intragável, de “refill”, m uitas vezes servido à vontade) e aproveita para pedir panquecas, ao m esm o tem po que com eça a m e contar sua vida. Foi para acom panhar o m arido, o influente hom em de im prensa inglês Harold Evans, que foi diretor do Sunday Times e do Times em Londres, que ela veio para os Estados Unidos, logo sendo contratada com o j ornalista na Vanity Fair. Ela e o m arido, j á então prom ovido a presidente da editora Random House, form am um dos casais m ais visados da Nova York m idiática.
As coisas se aceleram . Em 1984, graças a sua rede de relações, a seu talento e seu charm e, ela se torna redatora-chefe da Vanity Fair. Reestrutura a revista am ericana, dando-lhe um caráter “hip” ao optar por tem as alternadam ente populares e intelectuais. Por um lado, ela ousa m atérias de capa do gênero people — m uitas vezes com fotografias de Helm ut Newton —, cria páginas de inform ações gerais e se m ostra generosa na quantidade de entrevistas com estrelas. Por outro, encom enda artigos sérios de política externa a intelectuais renom ados, convida um escritor célebre a descrever m inuciosam ente sua depressão e contrata autores de qualidade com o cronistas.
Editada pelo grupo Condé Nast, a Vanity Fair sob sua direção passa de duzentos m il exem plares vendidos por m ês a um m ilhão. Em 1992, o diretor-presidente da Condé Nast a convida a assum ir a direção da New Yorker, outra revista do grupo. Sua chegada a esse tem plo da cultura am ericana representa um choque para m uitos. Tina Brown m antém -se fiel a seu estilo diferente, m eio people, m eio intelectual. Está então com 38 anos.
“Na New Yorker, eu quis apenas fazer j ornalism o de um a form a m oderna: investigação, entretenim ento, estrelas. O ponto de vista do j ornalista-editorialista dá lugar à inform ação, às ideias, nós quebram os a hierarquia cultural m as o fazem os de m aneira inteligente, aceitando com prom issos, m as com prom issos inteligentes”, explica-m e Tina Brown no Junior’s, com seu discreto sotaque britânico. Cultura e entretenim ento, separados antes da sua chegada, são m isturados. Os tem as da m oda, até então m antidos a boa distância, passam a form atar a nova grade de leitura da revista. A lentidão, valor até então cultivado, dá lugar à velocidade. O sensacional, até então alusivo, passa a ser obj eto de análise. O m edo do com ércio, um a religião da antiga New Yorker, é esquecido: Tina Brown pede a sua equipe que decifre a Am érica corporativa.
“Eu criei um a crônica intitulada ‘Os anais da com unicação’ para acom panhar os principais avanços dos estúdios, da televisão e particularm ente das indústrias de entretenim ento”, conta-m e Tina Brown. No lugar da arte europeia e dos livros de literatura da elite, tem os então, estendendo-se por um a dezena de páginas, perfis de Rupert Murdoch, da News Corp, de Michael Eisner, da Disney, de Bill Gates, da Microsoft, ou de Ted Turner, da CNN. Com sua nova prioridade “arte, m ídia e entretenim ento”, Tina Brown tam bém inventa na New Yorker a biografia de em presas: conta, assim , a vida da operadora de cabo Com cast, do estúdio Param ount e do conglom erado Viacom . O tom é severo, as investigações, irretocáveis, m as os leitores habituados a um j ornalism o refinado ficam um pouco contrariados de ler vinte páginas sobre a fusão Tim e Warner-AOL, o gangsta rap ou a regulam entação do setor audiovisual am ericano. Ainda vá lá que a New Yorker analise, com o fazia até então, os poem as escritos por Allen Ginsberg sob influência de drogas; m as a análise de videoclipes da MTV chega perto do intolerável. “Mas o fato é que as vendas da New Yorker explodiram ”, m e diz tranquilam ente Tina Brown.
Ela vai m ais longe. E não se lim ita a falar de estrelas, fala tam bém dos “star’s people”, as pessoas que fazem as estrelas, os “m iddlem en” entre o criador e o processo com ercial, incum bidos, j untam ente com os agentes, os m anagers e os “PR people”, de fabricar o zum -zum . “A New Yorker tinha de falar do que as pessoas com entavam ”, acrescenta Tina, com o se estivesse dizendo o óbvio, com o se tivesse inventado o Escalator que torna as pessoas fam osas.
“Eu tam bém m udei o estilo da revista. E com o era inglesa, não podia ser criticada em nom e da pureza da língua”, prossegue Tina Brown. Os palavrões, até então vigiados de perto nessa publicação pudica e protestante (cabe lem brar que o escritor Norm an Mailer não quis contribuir para a New Yorker por não ter liberdade de usar a palavra “shit” em seu texto), tornam -se um a m aneira com o outra qualquer de escrever. Com isso, 79 j ornalistas vão em bora e chegam 50 outros. Pela prim eira vez, a fotografia entra na austera New Yorker pela porta da frente: Richard Avedon, vindo da Vogue e da Life e especializado na fotografia de m oda e de rock, é contratado em tem po integral. Cronistas m ais polêm icos que recatados são recrutados para analisar, não m ais as obras de Hannah Arendt ou Woody Allen, m as o “hip”, o “cool” e a “pop culture” (a New Yorker tem um a página regular intitulada “Departm ent of Popular Culture”). A publicação passa a levar m uito a sério o m ais recente blockbuster ou o novo best-seller literário. A estratégia de Tina Brown, herdada de Pauline Kael, consiste em tratar com seriedade a cultura popular e escrever em estilo grande público sobre a “alta cultura”. “Eu fui m uito m arcada por Pauline Kael, m uito influenciada por seus anos na New Yorker. E queria que escrevessem sobre Holly wood com o se fosse um a história. A narração tornou-se essencial”, confirm a Tina Brown, a quem se atribui em geral a invenção do “celebrity j ournalism ” nos Estados Unidos.
Os antecessores de Tina Brown à frente da New Yorker tinham um a m issão: fazer frente aos “bárbaros” e m anter a linha, a fronteira que separa o bom gosto da m ediocridade, a elite das m assas, o “high” do “low”. Mas o que eu constato é que Tina Brown é um a “bárbara”. Nesse restaurante j udeu que se tornou negro — o que j á basta para assustar em geral a elite e os intelectuais nova-iorquinos —, ela m e fala de Philippe de Montebello (o m uito elitista diretor de origem francesa do Metropolitan Museum de Nova York) e de Guerra nas estrelas nos m ultiplexes, de Shakespeare e do Monty Py thon, do escritor John Updike, que m anteve em seu posto na New Yorker, e dos perfis que encom endou sobre Madonna e Tom Cruise. E m e diz que acha essa m istura “cool”.
De outra feita, na cafeteria do New Yorker, esplendidam ente proj etada pelo arquiteto Frank Gehry e onde Mery l Streep alm oça no film e O diabo veste Prada, volto a encontrar o elegante Henri Finder, redator-chefe da revista.
Do alto de seus 52 andares, a sede do grupo Condé Nast, no núm ero 4 de Tim es Square, dom ina a Broadway. Vogue, Glamour, GQ, Architectural Design, Wired, Vanity Fair, a New Yorker e tam bém a revista Bon Appétit são editadas ali — o que m e deixa tranquilo quanto à qualidade da refeição. De tanto m e encontrar com Henri Finder nessa cafeteria, entra ano, sai ano, aprendi a conhecê-lo. Sem pre um pouco afobado e “insecure”, de um a gentileza e de um a discrição transform adas em verdadeira arte de viver, Henri pede com o sem pre um prato vegetariano, sem entrada nem sobrem esa, e um a Coca Light. Sentam o-nos na sala retrô e “kitschy ” do restaurante da em presa, que dá a im pressão de que estam os dentro de um aquário.
Henri foi contratado por Tina Brown em 1994, inicialm ente com o redator-chefe adj unto, depois com o responsável pelas críticas de livros e finalm ente, desde 1997, com o um dos redatores-chefes — cargo que continua ocupando. “Tina Brown é ao m esm o tem po um a espécie de intelectualoide de Oxford, por sua sofisticação intelectual, e um a autêntica em presária cultural am ericana, sem m uita paciência com a pretensão intelectual. Exatam ente com o os estudantes m ais originais de sua geração, com o ela vindos de Oxford e Cam bridge, Tina com eçou a perder a paciência com a m entalidade tacanha da ‘pequena Inglaterra’, seu refinam ento, sua distinção, a linguagem castiça, o m edo da vulgaridade, e aos poucos deixou-se seduzir pela am bição am ericana. Tina desconfiava das hierarquias culturais europeias”, analisa Henri Finder. “Am bição am ericana”: gostei da expressão, que diz tudo.
Henri Finder frisa igualm ente que Tina Brown trouxe para a revista a cobertura da atualidade que lhe faltava. E lem bra, relativizando um pouco os novos ares trazidos por ela, que essa m istura de gêneros j á era um a assinatura da New Yorker, quando, por exem plo, encom endava um perfil de Marlon Brando a Trum an Capote, e, claro, através dos artigos de Pauline Kael.
Sem anas depois, volto a encontrar Tina Brown e seu m arido, num a noitada m undana em sua suntuosa casa da East 57th Street em Manhattan. De repente, entre duas taças de cham panhe, Tina m e diz, falando com a convicção da experiência: “Em Nova York ninguém faz am igos, faz contatos”. Nessa recepção no Upper East Side, encontro no m agnífico j ardim privado os editores conhecidos de Nova York, os diretores das principais revistas e até Henry Kissinger, o secretário de Estado de Nixon, visivelm ente em seu elem ento. Tenho assim um a noção ao vivo e em cores daquilo em que se transform ou a New Yorker no reinado de Tina Brown.
Ao contrário do que se costum a supor na Europa, a New Yorker não é m ais a publicação de elite nova-iorquina que não tem vergonha da própria pretensão. É na verdade a publicação de elite que se envergonha dela. As palavras “Europa”, “esnobism o” e “aristocracia”, m uitas vezes sinônim as, só podem ser usadas com ironia.
O im portante, agora, não é a hierarquia cultural, m as o “cool”. E a New Yorker se propõe j ustam ente a ser o barôm etro do “cool” e um “trendsetter”, a revista que dita a m oda. Sem pre com ideias novas, Tina Brown lançou as fam osas edições especiais da New Yorker batizadas de “Next Issue”, um a espécie de previsão m eteorológica das m odas futuras e horóscopo do “cool”, prevendo o que será “hip” am anhã. Tina Brown tem um raro instinto para identificar “the next big thing”, o que todo m undo vai com entar.
O papel do crítico de cultura tam bém m uda, na New Yorker e nos Estados Unidos em geral. O novo árbitro tem por m issão avaliar a cultura, j á agora não só em função da qualidade — valor subj etivo —, m as igualm ente em função da popularidade — valor m ais quantificável. Ele não j ulga, passa a “conversar” com seu público, com o m e diz Tina Brown, sem se dar conta de que está repetindo um a expressão de Pauline Kael. Arte, sexo, estrelas, m oda, produtos, film es, com ércio, políticos (“eles tam bém são celebridades”, diz-m e Tina), m arketing, a grande literatura, as novas tecnologias, tudo agora é m ais ou m enos m isturado na revista, ao passo que antes tudo era bem hierarquizado, distinto e com partim entado. E se subsiste um a hierarquia cultural, ela não vai m ais do popular à elite, m as do m uito “hot” ao m uito “square” (o que j á era, o inverso do cool). Tina Brown inventa a hierarquia da “hotness”.