Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 51 de 67

Páginas do PDF

Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Um formato News & Entertainment

O segredo da Al Jazeera é sua grade de program as. Graças a um a program ação diversificada, ela tem um talk-show a oferecer a todos os gostos no m undo árabe. Para os liberais, há o program a político Mais de uma opinião, gravado em Londres, tendo com o apresentador Sam i Haddad. E tam bém Apenas para as mulheres, program a de noventa m inutos sobre questões fem ininas conduzido pela síria Luna Shebel, que provoca ódio ou adoração em todos os árabes que entrevistei nessa investigação (m as o program a foi suspenso recentem ente). Os nacionalistas tam bém têm seu program a, A opinião contrária, inspirado no m odelo do Crossfire da CNN e apresentado em Doha por um druso sírio, Fay çal al-Qazem , que não hesita em debater tem as tabus, “desiconizar os ícones”, segundo sua própria expressão, e criticar os governos. O program a político Nas entrelinhas, de Moham ed Krichen, tam bém atrai esse público fiel ao nacionalism o pan-árabe, m ais que os islam itas. Quanto aos islam itas sunitas, j ustam ente, têm por sua vez Sem fronteiras, apresentado no Cairo pelo fleum ático Ahm ed Mansur (um egípcio considerado próxim o da Irm andade Muçulm ana). E têm sobretudo A charia e a vida, transm itido todo dom ingo, de Doha, às 21h05 (hora de Meca). É desse program a que participa regularm ente, não com o apresentador, m as com o convidado, a superestrela da telepregação islâm ica, o xeque Yussef al-Qardaui (um exilado egípcio tam bém sabidam ente próxim o da Irm andade Muçulm ana).

Nesse program a, o “xeque do satélite” (assim cham ado porque esse líder religioso m uçulm ano faz sua pregação via satélite) responde a perguntas concretas que os m uçulm anos se fazem para viver na m odernidade ao m esm o tem po sendo bons fiéis. Milhões de pessoas são influenciadas por suas opiniões e suas fatwas. Grande defensor dos palestinos que com etem atentados suicidas, inim igo dos Estados Unidos por causa da invasão do Iraque, m as crítico da al-Qaida, que ele denuncia pelas atentados “contraproducentes” do 11 de Setem bro, o xeque Yussef al-Qardaui seria no fim das contas, segundo seus adeptos, um intérprete do islã progressista, especialm ente no que diz respeito às m ulheres. Outros o criticam por ter exortado a um j ihad contra a França, que proibiu o uso do véu islâm ico nas escolas públicas. Quando um telespectador lhe pergunta se o Corão autoriza que um hom em se film e fazendo am or com a m ulher, o tele-evangelista responde: “Sim ”. E sua defesa da felação com o algo com patível com os valores do islã é sem dúvida um a das intervenções m ais polêm icas de toda a história da televisão árabe.

“Um talk-show com o A opinião contrária é que perm itiu à Al Jazeera tornar-se m ainstream . É provavelm ente hoj e o program a m ais fam oso do m undo árabe, e Fay çal al-Qazem é um a estrela internacional. O que fez seu sucesso foi a liberdade de tom , o fato de as pessoas discutirem de m aneira brilhante e m esm o violenta. Com o o m undo árabe é m uito dividido, esse tipo de program a sem pre acaba sendo equilibrado, e o público acom panha. Não foram tanto as notícias, m as os news-shows e o entretenim ento que nos perm itiram ser aquilo que som os”, confirm a Labib Fahm y, o diretor da sucursal de Bruxelas.

Inicialm ente, o form ato da Al Jazeera devia ser “news & entertainm ent” — tam bém conhecido com o “infotainm ent” —, m as depois de ver os “pilotos” o em ir do Catar resolveu privilegiar a inform ação o tem po todo. O entretenim ento, porém continuou bastante presente na grade de program ação, tendo inclusive se acentuado, através da proliferação de form atos de talk-shows (que às vezes são tecnicam ente news-shows, m as com um forte com ponente de entretenim ento). “No início, os talk-shows duravam um a hora e m eia, e pouco a pouco foram sendo reduzidos a cinquenta m inutos”, explica Moham ed Krichen. “Foram nossos talk-shows que contribuíram para a m odernização do m undo árabe. No início, eles eram chocantes, incríveis, para m uitos telespectadores. Mas desde então, nos acostum am os a nossa própria audácia, e o público evoluiu conosco.”

A dim ensão interativa, é claro, tam bém acom panhou: atualm ente, m uitos program as valorizam o telespectador, ouvindo suas perguntas por telefone no ar, contem plando a participação do público no estúdio ou utilizando a Internet para recolher perguntas e reações da rua. A Al Jazeera dá a palavra ao povo, o que nenhum a outra m ídia árabe fizera anteriorm ente. “Cada vez m ais som os cham ados a ‘personificar’ o debate, a contar histórias, encenar ‘histórias palpáveis’, testem unhas e histórias reais”, confirm a Labib Fahm y em Bruxelas.

Em novem bro de 2006, é lançada a versão inglesa da Al Jazeera. A nova decisão do em ir do Catar tinha vários obj etivos. Em prim eiro lugar, transform ar a Al Jazeera num grupo de m ídia global: canais esportivos e im portantes websites são inaugurados nesse período (um canal infantil, Al Jazeera Children, tam bém é lançado pela m ulher do em ir, sem ter no entanto qualquer vínculo estrutural com o grupo Al Jazeera). Para aum entar sua influência, a Al Jazeera precisa em seguida saber falar ao Ocidente: “Para inverter os fluxos de inform ação que vão do Ocidente para o Oriente e do Norte para o Sul, querem os fazer reportagens nos países árabes para o Ocidente. Com nossas próprias im agens, podem os inverter o sentido dos fluxos audiovisuais. Nós nos tornam os m ainstream m ostrando im agens autênticas da guerra no Iraque, no Afeganistão ou em Gaza, e todo m undo com eçou a ver nossas im agens, até quem não entendia o árabe. Precisávam os portanto com eçar a falar inglês”, diz-m e Atef Dalgam uni, j ordaniano de nacionalidade am ericana e tam bém um dos fundadores da Al Jazeera English, entrevistado na sede da rede em Doha. Assim é que a Al Jazeera contrata, a preço alto, j ornalistas, “hosts” e “anchors” (de acordo com o m odelo am ericano, não se fala de apresentador ou locutor na Al Jazeera, m as de “anchor”) da CNN, da ABC ou ainda, com o acontece desde sua criação, da BBC. Claro que a rede catarense não conseguiu as verdadeiras estrelas da CNN — os Larry King, Anderson Cooper, Wolf Blitzer, Lou Dobbs, Christiane Am anpour ou Fareed Zakaria —, que no entanto continuam sendo seus m odelos, m uito im itados em Doha.

A Al Jazeera em árabe e sua irm ãzinha a Al Jazeera English são entidades diferentes, e os j ornalistas daquela só eventualm ente trabalham nesta. “A rede internacional tom a m ais precauções, quer passar um a boa im agem do m undo árabe”, com enta o diretor de um dos escritórios da Al Jazeera.

Essa nova estratégia em língua inglesa tam bém tem por obj etivo aum entar a audiência da Al Jazeera, alcançando os m uçulm anos que não falam árabe, com o na Indonésia, na Índia, no Paquistão, no Irã, na África de língua inglesa, assim com o as j ovens gerações árabes da Europa. Em Jacarta, capital da Indonésia, encontro-m e com Stephanie Vaessen, correspondente da Al Jazeera English. Ela é loura, holandesa, não tem exatam ente o perfil da j ornalista da Al Jazeera que eu esperava encontrar no m aior país m uçulm ano do m undo. “A sucursal da Al Jazeera em Jacarta está subordinada ao escritório regional de Kuala Lum pur, na Malásia, quartel-general do grupo em sua estratégia para atingir a Ásia m uçulm ana”, diz-m e ela. Os correspondentes da Al Jazeera na China, na Índia, na Tailândia e nas Filipinas tam bém estão ligados a esse escritório. De acordo com diferentes fontes locais, a Al Jazeera não tem grande im pacto na Indonésia. A Ásia é um m ercado em ergente para a Al Jazeera, contudo, e o grupo m obiliza na região consideráveis recursos, produzindo por exem plo um program a asiático especial: One on One East (rem etendo ao form ato de Asian Uncut, da Star World em Hong Kong, que por sua vez retom a o form ato do talk-show Jimmy Kimmel Live! da ABC nos Estados Unidos).

Hoj e, o grupo Al Jazeera vai de vento em popa. E a dim ensão do divertim ento m ainstream surge com o sua nova prioridade, ao lado da inform ação. Em 2009, o grupo com pra por 650 m ilhões de dólares várias redes esportivas por satélite do grupo saudita vizinho, ART, com os direitos esportivos acoplados. Com essa decisiva tacada, a Al Jazeera Sports Channel (JSC) se assenhoreia de todos os j ogos de futebol das ligas argelina, m arroquina, síria, j ordaniana e egípcia, assim com o dos direitos de inúm eros outros program as esportivos, com o os Jogos Olím picos e sobretudo a Copa do Mundo de futebol em 2010 e 2014. A Al Jazeera passa a ter um quase m onopólio dos esportes no m undo árabe, m uito em bora sua concorrente, a Abu Dhabi Television, tenha passado à frente na aquisição dos direitos da liga inglesa, por 330 m ilhões de dólares. Aos poucos, com o o esporte está no cerne de seu investim ento em m atéria de entretenim ento, a Al Jazeera vai se tornando um grupo de m ídia global, um dos m ais im portantes do m undo árabe. E por sinal, com binando televisões gratuitas e pagas em sutil dosagem : as redes gratuitas de inform ação servem para atrair o público para as redes pagas. O grupo possui atualm ente duas redes de inform ação contínua em árabe e inglês, um a dúzia de redes esportivas, sete gratuitas e cinco pagas, um a rede gratuita de docum entários, um program a em persa, um a rede para crianças (independente) e vários proj etos em desenvolvim ento. “Depois da inform ação, o esporte é o principal vetor da Al Jazeera”, confirm a Madj id Botam ine, o apresentador do program a Jornal dos esportes na Al Jazeera, entrevistado na newsroom da rede em Doha. O grupo entra então m aciçam ente no entretenim ento para o grande público. “Nosso desej o é antes de m ais nada alcançar os árabes, depois os m uçulm anos, e em seguida o m undo inteiro”, explica-m e, em Doha, um dos hom ens-chave da Al Jazeera, o j ordaniano-am ericano Atef Dalgam uni. E com o fazer para alcançar o Oriente e o Ocidente? “Aqui na Al Jazeera, não falam os de Oriente e Ocidente. Falam os de Norte e Sul. E vam os atingir todo o m undo, através da inform ação e do entretenim ento. Querem os ser um grupo m ainstream . A Al Jazeera olha do Sul para o Norte”, conclui Dalgam uni.

Existem atualm ente m ais de quinhentas redes de televisão no m undo árabe, o que enfraquece a audiência e o m ercado publicitário que a Al Jazeera pode visar. Estranham ente, contudo, isso em nada alterou a singularidade da rede catarense e sua influência com o m odelo no m undo árabe e além dele. Entre as m ais influentes dessas redes, tem os a Nile News TV, a rede de inform ação egípcia próxim a do presidente Hosni Mubarak; a Abu Dhabi TV, que transm ite do Golfo; a Arab News Network, baseada em Londres, pertencente ao sobrinho do presidente Bachar al-Assad e, naturalm ente, próxim a dos interesses sírios; a Al-Aqsa TV, a rede palestina do Ham as; a Al Manar, a rede do Hezbolah; e a Al Arabiy a, a rede de inform ação sediada na Media City de Dubai e pertencente a um grupo saudita. Visitei a m aioria dessas redes, em Dubai, Riad, Dam asco, Beirute, Londres e Cairo, para tentar entender de que m aneira elas se posicionam em relação à Al Jazeera e por que nenhum a delas — à exceção talvez da Al Arabiy a — conseguiu realm ente tornar-se um a rede globalizada tão m ainstream quanto a concorrente.

A guerra das im agens

“Bem -vindo. O senhor realm ente é bem -vindo na assessoria de im prensa do Hezbolah.” Um a j ovem coberta por um véu, a Sra. Rana, chefe da assessoria de im prensa, recebe-m e calorosam ente com um francês perfeito. Eu m e levanto, estendo-lhe a m ão. Ela m e olha, algo espantada, sorri. “Aqui, entre os xiitas, os hom ens não podem tocar a m ão das m ulheres”, inform a-m e calm am ente, ao m esm o tem po que evita m inha m ão. Eu m e desm ancho em desculpas. “Não precisa se desculpar, não é grave, os ocidentais não estão acostum ados. Está perdoado.”

Haret Hreik é o feudo do Hezbolah no sul de Beirute. Estou em Dahieh, o bairro xiita de Beirute, m ais conhecido com o “subúrbio sul”. Estam os a vinte m inutos apenas do bairro cristão de Ashrafieh, onde m e hospedo, m as o m otorista de táxi que m e levava hesitou em aceitar a corrida; m eus interlocutores libaneses tam bém m e desaconselharam da incursão por m otivos de segurança, pois nessa zona os ocidentais ou cristãos correm perigo. O Exército israelense bom bardeou essas ruas em 2006. Muitos prédios, destruídos ou danificados, até hoj e dão testem unho. Certas ruínas, inclusive, rem ontam à guerra do Líbano de 1982 e continuam esperando um a dem olição final.

A assessoria de im prensa do Hezbolah fica na principal artéria de Haret Hreik, não contando com qualquer vigilância especial, pelo m enos aparentem ente. Na entrada do prédio, o cartaz “Media Relation of Hizbollah” dá testem unho de que o Hezbolah agora pretende ser um a organização respeitável. O partido xiita pretende se “libanizar” para vencer as eleições (teve dois m inistros no governo de união nacional de novem bro de 2009). No prim eiro andar, sou recebido num pequeno escritório, onde fico esperando. Na parede, a bandeira do Hezbolah, verde sobre fundo am arelo; vê-se no centro um fuzil AK-47 tendo acim a um trecho do Corão escrito em verm elho e abaixo um a outra frase, que significa: “Resistência islâm ica no Líbano”. À m inha frente, um a televisão ligada, sintonizando a Al Manar. Sou convidado a apresentar m eu passaporte, um docum ento de im prensa, im ediatam ente xerocados num a m áquina em poeirada que funciona lentam ente. Em troca, eu recebo um a credencial de im prensa do Hezbolah, passe que m e autoriza a visitar a rede do Hezbolah, a Al Manar, sua rádio, a Al-Nour, m as não m e perm ite tirar fotos, descrever as instalações dos estúdios nem entrevistar um dirigente sem autorização específica (eu não m e iludo, sabendo perfeitam ente que não vou visitar os estúdios oficiais, que de qualquer form a existem vários estúdios, visto que a Al Manar está constantem ente sob am eaça de bom bardeios israelenses; sei tam bém , por experiência própria, que ninguém m e dirá nada sem o sinal verde do escritório onde m e encontro).

O m ais im pressionante nessa recepção calorosa é que a assessoria de im prensa do Hezbolah sej a capaz de receber em 17 línguas os j ornalistas estrangeiros, que no entanto não se m ostram m uito num erosos no interesse pela visita. A Sra. Rana, a chefe da assessoria de im prensa, esclarece-m e que o Líbano é um país livre, que posso ir aonde quiser e que sim , realm ente sou m uito bem -vindo em Haret Hreik.

A rede de televisão Al Manar (“O farol”) foi fundada em 1991. É um a rede de televisão aberta no sul do Líbano, com portando tam bém um a rede por satélite para o Oriente Próxim o e o resto do m undo. A Al Manar tem com o “acionista principal” (segundo m e dizem ) o Hezbolah, que recebe um a parte de seus fundos diretam ente do Irã, e, segundo um a investigação de referência da New Yorker, de um com plexo sistem a opaco de células autônom as de “fundraising” instaladas no Golfo, na Ásia m uçulm ana, na Am érica Latina e m esm o nos Estados Unidos. A Al Manar seria vista diariam ente por 10 m ilhões de telespectadores no Líbano e na região (sem um ibope árabe, essa inform ação, m uitas vezes citada, não pode ser confirm ada).

Em Haret Hreik, no sul de Beirute, e m ais adiante, no sul do Líbano, a Al Manar teria, segundo vários interlocutores, diferentes sucursais e estúdios, alguns instalados em áreas de segurança m áxim a, especialm ente quando Hassan Nasrallah, o chefe do Hezbolah, fala diante das câm eras. Não há com o verificar essas inform ações. Mas um dos prédios da Al Manar pode ser visitado.

Os porta-vozes da Al Manar defendem sua ética profissional. Eles rej eitam a neutralidade da Al Jazeera, que dá a palavra aos israelenses e “cobre tanto as vítim as quanto os agressores”. Ao contrário de sua irm ã pan-árabe, a Al Manar assum e seu caráter partidário, em favor dos xiitas libaneses e dos palestinos, vítim as da ocupação israelense. Citado na investigação da New Yorker, Hassan Fadlallah, o diretor da Al Manar (que não pude encontrar), explicou em 2002: “Não tem os com o obj etivo entrevistar Ariel Sharon. Se tentam os nos aproxim ar ao m áxim o dele, não é para entrevistá-lo, m as para m atá-lo”.

Com o será que a rede do Hezbolah conseguiu tal êxito no sul de Beirute, no sul do Líbano e entre os palestinos, em bora sej a proibida em m uitos países do m undo (na França, por exem plo), por suas declarações negacionistas sobre o Holocausto? Para os xiitas libaneses que entrevistei, a Al Manar é um sím bolo, o sím bolo da resistência. “A gente assiste à Al Manar, ouve a Al-Nour (a rádio do Hezbolah) e se sente orgulhoso”, diz-m e Salim , estudante com quem converso no bairro de Haret Hreik. Do que ele m ais gosta, acrescenta, são “os m ísseis ‘Qassam ’ que o Hezbolah de vez em quando atira em Israel”. Mais significativa é a posição dos palestinos do Líbano, da Cisj ordânia e de Gaza, que se orgulham do Hezbolah e de sua porta-voz, a Al Manar, apesar de ser xiita (ao passo que eles são sunitas), em razão de sua “vitória” no sul do Líbano, de onde o Hezbolah “expulsou o Exército israelense”.

Para seus detratores cristãos ou sunitas m oderados, com os quais tam bém m e encontrei no Líbano, a Al Manar tem com o principal obj etivo estim ular os palestinos a m orrer com etendo atentados suicidas, e seu sucesso portanto se explicaria por essa dim ensão de propaganda. Outros suspeitam de que a Al Manar sej a um a correia de transm issão das inform ações do Hezbolah, do Líbano em direção aos dirigentes do Ham as. Mesm o para os críticos m ais m oderados, a Al Manar, com seus patrocinadores iranianos, continua sendo um vetor im portante da radicalização islâm ica e pró-xiita na região. Desse m odo, a propaganda, a fé e a resistência é que seriam responsáveis por seu sucesso, perm itindo-lhe tornar-se m ainstream entre os palestinos, os xiitas libaneses e até entre os sunitas da Síria.

À tarde, sem pre m unido da m inha credencial do Hezbolah, saio em busca das loj as de CDs e DVDs piratas em Haret Hreik. Karam , um j ovem xiita com quem converso num cibercafé do bairro, concorda em m e acom panhar. No cruzam ento das ruas, vem os enorm es fotografias dos “m ártires”, os m ilitantes do Hezbolah m ortos durante a ofensiva israelense de 2006. De vez em quando, vej o um retrato do aiatolá Khom eini, o guia espiritual xiita da revolução iraniana. Cruzo com m ulheres cobertas de véu, algum as debaixo de um a burca, m as há outras tam bém sem véu e parecendo perfeitam ente à vontade de j eans e tênis, com o se estivessem nas ruas cristãs de Beirute. Acom panhado de Karam , entro em várias loj as de um a rua batizada de Hassan Nasrallah Street, especialm ente num a espécie de Gift Shop do Hezbolah, onde são vendidas bandeiras verde-am arelo, fotos de Hassan Nasrallah e CDs de m úsica das forças m ilitares xiitas. Um pouco m ais adiante, Karam m e leva a um a Media Store onde encontro m ilhares de CDs e DVDs piratas, em sua m aioria árabes e am ericanos. Os film es árabes são em sua m aioria egípcios, e há tam bém alguns film es de Bolly wood e de kung-fu de Hong Kong. Mas os de m aior visibilidade são os produtos am ericanos. Inúm eros film es da Disney são encontrados ali, todos os blockbusters recentes de Holly wood, os últim os álbuns de 50 Cent, Lil Way ne e Kany e West e m uitos film es de ação. “Os film es am ericanos violentos são um exem plo para nós”, diz-m e Karam , com toda seriedade (acrescentando que gosta especialm ente dos lum inosos giratórios Mag-Lite da LAPD, a polícia de Los Angeles, e que gostaria de ter um deles). Em cim a do caixa, um retrato gigante, m ais um a vez de Hassan Nasrallah, o secretário-geral do Hezbolah, um dos hom ens m ais populares do m undo árabe-m uçulm ano.

“Todos esses film es são 100% piratas”, diz-m e Karam . “Os CDs e DVDs gravados em com putador são fabricados aqui. E as capas dos DVDs são xerocadas em cores, para que o produto tenha um a boa apresentação.” A diretora da loj a, um a bela j ovem sem véu, de j eans e cam iseta, visivelm ente conhecida de Karam , assente. Mais tarde, ele m e diria que gosta m uito dessa m oça, que a tem paquerado “um pouco”, m as que é “difícil”; as m oças m ais “fáceis” estão em Beirute, e nos fins de sem ana ele vai ao bairro cristão, segundo m e diz, “para encontrar garotas”. Pergunto a Karam , que ainda não tem 25 anos, em quem votou nas últim as eleições libanesas. Ele responde: “Votei no Hezbolah”. Pergunto-lhe então por quê. Ele m e olha e, sem hesitar, diz: “Porque eles defendem nosso país”.

“Ao contrário do que frequentem ente se pensa na Europa, os xiitas não votam no Hezbolah por ser um m ovim ento violento; votam no Hezbolah porque é um m ovim ento am igo e protetor”, explica-m e dias depois, ainda no sul de Beirute, o intelectual Loqm an Slim , que dirige um im portante centro cultural independente entre os xiitas. Ele insiste nos serviços sociais e educativos m antidos pelo Hezbolah no subúrbio sul de Beirute (“com aj uda sobretudo do dinheiro iraniano”). Prossegue Loqm an Slim : “O Hezbolah investiu m uito no entretenim ento e nos m eios de com unicação. Antes, ele soube coreografar a violência, conhece a im portância da estética em política, e agora aposta na ‘resistência pop culture’.” Que quer dizer isso? Loqm an Slim : “Quer dizer que atualm ente o Hezbolah dá tanta im portância à cultura pop quanto às arm as, defendendo um a cultura do com bate, da m obilização e da resistência através das im agens, dos livros, dos discos.”

Nas ruas de Haret Hreik, pude ver dezenas de cafés e cibercafés, m as nenhum cinem a. “O Hezbolah não quer saber de salas de cinem a, e teoricam ente é contrário à m úsica, com o no Irã. Mas estam os em Beirute, e ele sabe que precisa fazer concessões. Perm ite a existência de cafés, desde que sej am frequentados só por hom ens. Em m uitas questões, os funcionários xiitas são inclusive liberais: não querem ficar parecendo censores, nem ser ortodoxos dem ais quanto aos direitos das m ulheres ou entrar em conflito com as aspirações de divertim ento da j uventude xiita libanesa. O Hezbolah não está preocupado em defender as posições m orais do Irã ou da Síria: sabe perfeitam ente que precisa se ‘libanizar’ para ter êxito. Por isso, por exem plo, é que fecha os olhos ao m ercado negro de CDs e DVDs”, explica Loqm an Slim . E acrescenta: “Os árabes tam bém estão em busca de um outro sonho, o da m odernidade. Mas querem tornar-se m odernos sozinhos, sem os ocidentais, sem os am ericanos”.

No dia seguinte, visito os cam pos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila no subúrbio oeste de Beirute. Dessa vez, estou em zona sunita, um bairro tanto m ais pobre na m edida em que o Líbano nunca quis integrar esses palestinos, que no entanto vivem ali desde 1948. Mesm o quando nasceram no Líbano, às vezes há três gerações, os palestinos não têm direito de voto, não têm passaporte, m uitas profissões liberais lhes são vedadas, eles não podem tam pouco com prar um a casa e estão portanto condenados a continuar vivendo nos cam pos.

Na grande rua de pedestres de Sabra, transform ada em m ercado, Hassan, um palestino que vende CDs de m úsica árabe num a pequena barraca im provisada — e eu reconheço os discos de Elissa, Am r Diab, Maj id, Latifa —, aceita m ostrar-m e loj as de DVD. Entregando as vendas ao irm ão m enor, ele m e leva a um a loj a num a pequena rua perpendicular que ainda apresenta traços de balas do m assacre de Sabra e Chatila em 1982. Ali, encontro DVDs de film es árabes, autênticos clássicos (egípcios e sírios, basicam ente). Depois de discutir em árabe com o vendedor, Hassan m e tom a pela m ão e m e conduz por um a portinha fechada com um enorm e cadeado, descendo em m inha com panhia ao subsolo. Lá, deparo-m e, perplexo, com quatro im ensas salas m odernas, contrastando com a pobreza da rua Sabra e contendo m ilhares de CDs e DVDs. A enorm e caverna está cheia de clientes. É possível encontrar ali toda a produção am ericana, inclusive os film es lançados na sem ana anterior. “Ali há um a estante de film es antigos”, diz-m e Hassan — eu olho, tentando entender que tipo de clássicos é vendido ali: e vej o Homem-Aranha 1.

Os film es são classificados m inuciosam ente por gênero e por ordem alfabética de atores (Tom Cruise, Matt Dam on, Leonardo DiCaprio, Harrison Ford, Brad Pitt, Arnold Schwarzenegger, Will Sm ith etc.). Estão disponíveis tam bém m uitas séries am ericanas de televisão. Com o no bairro xiita, o vendedor m e explica em inglês que os DVDs são fabricados na China, m as baixados da Internet aqui, em Sabra e Chatila (m as ele não m e diz onde fica a oficina onde se abastece). Há um a seção de program as piratas para plataform a Windows, outra de vídeo gam es, m as tam bém os discursos de Hassan Nasrallah em CD e toda um a seção de tem as islâm icos. Entre os DVDs, vej o Valsa com Bashir. Sabendo que esse notável film e de anim ação israelense sobre o m assacre de Sabra e Chatila foi censurado no Líbano, com o todos os film es israelenses, que sua difusão é totalm ente ilegal e passível de punição, pergunto ao vendedor por que o oferece. “Não é um film e j udeu, é um film e árabe, pode com prar, é m uito bom ”, afirm a o vendedor, que não com pletou ainda 16 anos (eu ouviria exatam ente a m esm a resposta dias depois no bairro de Bahsa, em Dam asco, onde m ilhares de DVDs piratas am ericanos são vendidos nas ruas e onde o film e Valsa com Bashir tam bém pode ser com prado facilm ente).

Ainda no subsolo da loj a Palestina, Hassan leva-m e em seguida a um a outra sala, que segundo ele pode m e interessar. E eu fico com pletam ente atordoado com o que vej o: um a seção m uito concorrida cheia de film es pornográficos. Film es am ericanos, asiáticos e até film es árabes. Nas capas dos DVDs, m ulheres cuj o véu se interrom pe na altura da cintura e que estão nuas por baixo, ou ainda m ocinhas cobertas de véus com roupa íntim a reluzente. Não tenho coragem de perguntar se eles tam bém têm film es pornográficos gay s.

Visitei três loj as desse tipo em Sabra e Chatila, sem dar diretam ente para a rua, m as extrem am ente fáceis de identificar e, se as autoridades quisessem , de fechar. Parece claro que todo m undo — os im ãs do cam po, os políticos sunitas, os funcionários palestinos, as autoridades libanesas — deixa rolar, com perfeito conhecim ento de causa, essa m aciça distribuição de entretenim ento holly woodiano, de soap operas am ericanos e film es pornográficos. “Você tam bém pode encontrar film es pornôs entre os xiitas de Haret Hreik”, diz-m e o vendedor palestino sunita de um a dessas loj as perto da rua Sabra. Ao ouvi-lo, entendo que ele fica m ais tranquilo com essa declaração im provisada.