Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 28 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

8. USC, a universidade do mainstream

“Reality ends here.” Num prédio na entrada da University of South California em Los Angeles, o lem a “A realidade acaba aqui” parece am bicioso. Ele assinala a passagem da realidade à ficção. E tam bém o início do cam pus da USC, a escola de cinem a m ais fam osa dos Estados Unidos.

“George Lucas, Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg, David Geffen: eles estão todos aqui conosco e são nossos conselheiros, nossos professores, m em bros de nosso conselho de adm inistração. Fazem parte da com unidade da universidade”, explica, com um a ponta de orgulho, Elizabeth Daley, que ocupa o prestigioso cargo de “dean” da USC (a decana, equivalente a reitora da universidade).

No cruzam ento da Santa Monica Freeway com a Harbor Freeway, duas rodovias ao sul de Downtown Los Angeles, o cam pus da USC se espalha por vários hectares. Misturado à cidade, aberto à circulação, ele não tem a beleza dos cam pi “fechados”, com o os de Princeton, Yale, Duke, Harvard, Dartm outh, Stanford ou m esm o de sua vizinha e principal concorrente, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). Mas a USC tem um a reputação que é invej ada por essas outras universidades: sua proxim idade com Holly wood.

“Nós som os um a escola profissional, que form ou Frank Capra e George Lucas por exem plo, entre m uitos outros, e todo ano pelo m enos um de nossos antigos alunos é indicado para o Oscar. Mas nossa filosofia não se baseia num trabalho estritam ente individual de autor. Um film e é um trabalho coletivo”, explica Elizabeth Daley. Em seu espaçoso gabinete, identificado na porta com o “Lucas 209”, no antigo prédio George Lucas, e cuj as j anelas dão para o recém -construído George Lucas Building, ela aparece em dezenas de fotografias ao lado de todos os moguls e estrelas de Holly wood. A USC não fica na periferia de Holly wood, é o seu centro.

Para entender o poderio das indústrias criativas nos Estados Unidos, sej a no cinem a ou na m úsica, na edição de livros ou na Internet, tem os de nos interessar pelas universidades am ericanas. Existem na Am érica m ais de quatro m il estabelecim entos de ensino superior, dos quais 1.400 são universidades, e o país lhes destina cerca de 3% de seu PNB, ao passo que na Europa o ensino superior é duas vezes m enos rico, em m édia, com aproxim adam ente 1,5% do PNB. Entretanto, ao contrário do que geralm ente se pensa, o sistem a universitário am ericano não está atrelado ao setor privado: 77% das universidades am ericanas são públicas, em geral financiadas por um dos cinquenta estados (é o caso da UCLA, de Berkeley, ou da Universidade do Texas, em Austin). Os outros estabelecim entos tam pouco são em presas de obj etivos com erciais, m as associações sem fins lucrativos (Harvard, Yale, Stanford, USC). Mas todas essas universidades, sej am públicas ou sem fins lucrativos, são m uito caras para os estudantes, que pagam valores exorbitantes, entre vinte e quarenta m il dólares por ano, por exem plo, na USC (sem aloj am ento nem pensão, em função do curso e do nível de estudo). Entretanto, os estudantes am ericanos têm acesso a bolsas e em pregos rem unerados (“work-studies”), o que explica o paradoxo das universidades am ericanas, ao m esm o tem po m ais caras e socialm ente m ais diversificadas que as equivalentes europeias. Oitenta e dois por cento de um a geração entram para o ensino superior nos Estados Unidos (percentual estagnado em 59% no Reino Unido, 56% na França e 40% na Alem anha). Em com pensação, se o acesso à universidade é m aior nos Estados Unidos que em outros países, o núm ero de estudantes que saem diplom ados ao fim de três anos está em declínio, especialm ente nas universidades públicas e na escolaridade curta dos “com m unity colleges” (m enos de 50% em m édia atualm ente, um dos índices m ais baixos nos países industrializados, perdendo apenas para a Itália). As graduate schools, após os prim eiros anos universitários, apresentam resultados m elhores.

Para além das estatísticas, de com paração sem pre difícil, um ponto indiscutível é a vitalidade cultural dos cam pi am ericanos, nos quais se encontram 2.300 salas profissionais de teatro e m úsica, setecentos m useus de arte ou galerias profissionais, centenas de festivais de cinem a, 3.527 bibliotecas (das quais 68 com m ais de 2,5 m ilhões de livros, um a delas sendo a de Harvard, que é a segunda no m undo, depois da biblioteca do Congresso), 110 editoras, cerca de duas m il livrarias, 345 salas de concertos de rock, m ais de trezentas estações de rádio universitárias e outros tantos selos de m úsica independentes. O que cria um am biente favorável à criação e constantes interações com as indústrias criativas, com o acontece na USC.

“Nossos professores são exclusivam ente profissionais da indústria do cinem a e da televisão”, continua Elizabeth Daley, “e os alunos são estim ulados a trabalhar constantem ente nessas indústrias. Se alguém entra para a USC, é porque am a Holly wood. É porque não tem m edo de Holly wood, não hesitaria em trabalhar para um estúdio: pelo contrário, é este o obj etivo. E aqui, são os profissionais que procuram o aluno. Às vezes, um aluno pode ser notado por um dos professores e rapidam ente conseguir um estágio ou um em prego na Disney ou na Dream Works ainda durante o curso: nesse caso, autorizam os que se ausente para trabalhar para depois voltar, passado um ano. Som os m uito flexíveis”.

A escola de cinem a da USC, com 1.500 alunos, não é um a escola de atores. As m ais fam osas encontram -se em Harvard, Yale, Colum bia. A USC especializa-se m ais no business, na realização, no digital, na m ontagem e no som . Só no departam ento “produção de film es” há 150 professores, dos quais cinquenta em tem po integral, para apenas seiscentos alunos.

Visitando o cam pus, podem os ter um a ideia dos recursos à disposição dos alunos, contando cada um com um escritório pessoal, acessível 24 horas por dia. A universidade é organizada com o um autêntico estúdio, constantem ente m isturando teoria e prática e m obilizando recursos internos para realizar film es de verdade: o estudante de produção coordena um proj eto film ado pelo aluno de realização, interpretado por atores profissionais, film ado por alunos de operação de câm era etc. Tecnicam ente, os equipam entos dos estúdios, desde as salas de m ontagem aos m ix-room s, passando pelos editing room s, são ultram odernos; foram presenteados à USC pela Sony, a Hewlett Packard ou a IBM.

À esquerda do cam pus, sucedem -se os prédios: o Steven Spielberg Music Scoring Stage (estúdio de gravação de trilhas m usicais de film es), o Carlson Television Center, o Jeffrey Katzenberg Anim ation Building (estúdio de film es de anim ação), o USC Entertainm ent Technology Center e, um pouco m ais adiante, o Stanley Kubrick Stage. No centro, perto dos prédios da direção, encontra-se a “loj a” onde os estudantes podem livrem ente pegar em prestada, sem necessidade de autorização, um a das oitenta câm aras Arriflex 16 m m , um a das cinquenta câm eras Mitchell 16 m m ou um a das trezentas câm eras digitais.

No coração do cam pus, orgulho dos alunos, está o novo prédio com o nom e de George Lucas. Ao oferecer 175 m ilhões de dólares em 2008 para construir o prédio, o Sr. Lucas, exatam ente com o Luke ao cum prir seu destino tornando-se um Jedi no fim do prim eiro Guerra nas estrelas, foi prom ovido a principal m ecenas da USC. Ao explicar essa doação filantrópica fenom enal, logo qualificada em Los Angeles de “blockbuster gift”, George Lucas disse sim plesm ente: “Descobri m inha paixão pelo cinem a na década de 1960, quando era aluno da USC, e m inhas experiências nesse cam pus determ inaram toda a m inha carreira. Sinto-m e hoj e m uito feliz por poder aj udar a USC a continuar form ando os cineastas de am anhã, tal com o fez com igo”. (Além de Lucas, os estúdios Warner Bros., Fox e Disney tam bém contribuíram para o financiam ento do prédio, com salas de aula e de m ontagem , na faixa de 50 m ilhões de dólares.) Mais adiante no cam pus, visito a Doheny Mem orial Library, a biblioteca da USC, reunindo os arquivos de vários cineastas, produtores e, por exem plo, todos os arquivos da Warner Bros. Muitos dos prédios são im pressionantes, tendo guardado um pouco da im ponência dos Jogos Olím picos de 1984, que transcorreram especialm ente no cam pus.

No departam ento de roteiros, sou recebido por Jack Epps Jr., seu diretor e um profissional do ram o (escreveu o roteiro de Top Gun). “Aqui, nós ensinam os os alunos a se tornar escritores, para só então se tornarem roteiristas. Não existem regras para escrever um bom script: nós aj udam os os alunos a desenvolver suas técnicas e ao m esm o tem po lhes dam os m uita liberdade.” Na USC, a form ação é extrem am ente interdisciplinar, e os futuros roteiristas se form am tam bém em produção e realização, para se darem conta, segundo m e explica Jack Epps, do que significa concretam ente rodar um film e por eles escrito. Seu principal trabalho consiste em produzir pitchs de televisão e pilotos de cinem a, com o na vida real. Perfeitam ente sério, m as com um a ponta de hum or, Jack Epps acrescenta: “Tem os até um curso especializado em ‘rewriting’. Os alunos reescrevem os roteiros de outros alunos que não foram considerados bons. O que pode ser útil, pois em Holly wood o ‘rewriting’ é um a profissão de pleno direito”. Os roteiristas das séries Grey’s Anatomy e Sopranos, entre outros, são antigos alunos da universidade e regularm ente voltam a ela com o professores.

São inúm eros os film es realizados no cam pus, e os exam es e provas de graduação consistem invariavelm ente na apresentação de um produto cultural profissional acabado. Os estudantes dispõem de orçam entos para rodar esses film es: em m édia, cada um recebe oitenta m il dólares para fazer um film e, financiado pelo departam ento “business” da USC, onde os alunos-produtores recolhem fundos para os alunos-realizadores. Em sua m aioria, esses film es são feitos com atores profissionais, e graças a um escritório cham ado Festival Office, dirigido no cam pus por um representante da William Morris Agency, são proj etados nos festivais profissionais, especialm ente o de Sundance, a alternativa “indie” de Holly wood. “Todo ano eu recebo centenas de film es m andados por essas escolas de cinem a, film es coletivos ou m uito pessoais, contando histórias incríveis e diferentes, m uitas vezes feitos por j ovens latinos, j ovens negros, gay s. É neles que está o sangue novo do cinem a am ericano”, confirm a Geoffrey Gilm ore, na época diretor do festival de Sundance, entrevistado em Los Angeles.

Essa intercorrência entre a universidade e o m undo cultural real é perm anente no cinem a, m as tam bém na m úsica e na edição de livros. Ao visitar a USC ou as escolas concorrentes, com o a UCLA e a Tisch School da NYU, ficam os im pressionados com a energia, a inovação constante e a criatividade dos estudantes. Um a das chaves do sistem a cultural am ericano é a proliferação de passarelas de com unicação entre essas universidades e a cultura underground de que estão cercadas: as pequenas galerias de arte das universidades, as centenas de estações de rádio e televisão livres no cam pus, os m ilhares de festivais de curtas-m etragens através dos Estados Unidos, os show-cases do teatro experim ental off-off Broadway, a infinidade de clubes e cabarés m ais ou m enos suspeitos, com suas “open m ic sessions”, ou as oficinas de “creative writing” no Arts Incubator m ais próxim o. Em toda parte, perto dos cam pi, encontrei cafés “arty ” oferecendo proj eções de film es e restaurantes vegetarianos apresentando em algum a sala m ais interna concertos alternativos de rock híbrido ou rap latino. Muitas vezes, descobri pequenas loj as que vendem DVDs am adores e livrarias que se transform aram em coffee-shops para sobreviver, apresentando leituras de roteiros ou de poesia. Toda essa vida artística é batizada de “street-level culture”, m isturando os gêneros, e fica difícil distinguir o profissional do am ador, o participante do observador, a hom ogeneidade da diversidade e a arte do com ércio. Em todos os cam pi, pude ver esse dinam ism o cultural im pressionante: nele, a cultura é “m essy ” (bagunçada), “off hand” (desenvolta), “fuzzy ” (confusa) e invariavelm ente “indie” (independente).