Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 62 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

A libanização da cultura europeia

Várias passagens recentes pela Bélgica e a Com issão Europeia constituíram para m im nova ilustração das fragilidades da cultura europeia. Em m atéria de divertim ento, eu não estava m ais em Bruxelas, m as em Beirute.

Na capital belga, valões e flam engos sustentam um a guerra de trincheiras: aqueles têm m edo do “opressor holandês” (a expressão é um a citação exata de um de m eus interlocutores francófonos em Bruxelas), estes rej eitam um a Bélgica que nega sua cultura e sua língua. Por sinal, um dos prim eiros terrenos em que se deu a partilha com unitária foi a cultura, e não existe, naturalm ente, um Ministério da Cultura belga (federal). Em seu lugar: três m inistérios, um para os francófonos, um para os flam engos e até um para a pequena com unidade germ anófona; para não falar dos m inistros delegados no setor cultural, incum bidos da região de Bruxelas (um para os francófonos, um para os flam engos e um para os proj etos bilíngues). O que dá um total de seis m inistros!

Visitando Alain Gerlache, ex-presidente da RTBF, a rádio-televisão pública francófona, e Peter Claes, um dos diretores da VRT, a televisão belga de fala flam enga, pude ver concretam ente o que significava essa guerra de posições. As duas redes têm sede no m esm o prédio, m as cada um a tem sua entrada, seu serviço de segurança, seus estúdios e o longo corredor que as separa parece o m uro de Berlim . Ao convidar Peter Claes a m e acom panhar na “zona francófona” — aonde ele nunca fora —, esse j ovem inteligente com eçou a com parar a qualidade das poltronas, dos distribuidores de bebidas, dos estúdios. No caso dos estúdios, de acordo com nossa com paração, é a VRT que leva vantagem ; no das poltronas, a RTBF se sai m elhor; e quanto aos alim entos, houve naturalm ente debate entre nós dois. Peter Claes, é claro, estava brincando. Mas quando retornam os à VRT ele m e fez pensar nos cristãos de Beirute que se sentem seguros ao voltar para casa em Ashrafieh, a zona cristã, depois de um a visita — rara — a Haret Hreik, o bairro do Hezbolah.

“O que m e agrada no cantor Arno é que ele nos diz: ‘A Bélgica é um país pequeno, não som os pretensiosos com o os franceses nem egocêntricos com o os ingleses, e tem os de nos contentar com o que tem os’. Desse m odo, ele, que é flam engo, canta em francês e holandês”, conta Peter Claes, da VRT, num francês perfeito. “De um lado estão os flam engos, que criticam os francófonos por sua cultura pretensiosa e arrogante, com o no caso dos irm ãos Dardenne; do outro, os francófonos, que rej eitam o cinem a flam engo am ericanizado e seu pop nórdico de vikings”, suspira Alain Gerlache, ex-presidente da RTBF, um francófono que fala flam engo. Gerlache, por sinal, foi o roteirista de um belo docum entário intitulado Bye Bye Belgique: com o na Guerra dos mundos de Orson Welles, os program as da RTBF são interrom pidos de repente para o anúncio de que os flam engos fizeram secessão; transm itido ao vivo pela televisão, com entrevistas de políticos de verdade e reportagens falsas, o film e causou sensação — e talvez não fosse tanto assim um a ficção.

“Entre flam engos e francófonos, não é um a guerra, é pior que guerra”, provoca Peter Van Der Meersch, redator-chefe do Standard, o principal diário belga de língua flam enga. “Nosso problem a passou a ser a indiferença. A população de fala flam enga sequer se interessa pelo que os francófonos fazem , e vice-versa. Tem os duas culturas e duas televisões nacionais, m as o m ais grave, agora, é que tam bém tem os duas opiniões públicas. As pessoas não se falam m ais.”

Flam engo, Jan Gossens, o diretor do KVS, im portante centro cultural de fala flam enga em Bruxelas, com partilha esse ponto de vista: “O flam engos são obcecados com a ideia de construir sua nação e afirm am que a Bélgica é um a nação artificial. De m inha parte, prefiro pensar que som os todos produtos de identidades m últiplas, e não congeladas. E no m om ento é o inglês — e não o francês, nem o flam engo — que está levando a m elhor e se tornando a língua dos belgas”.

A cultura am ericana avança no terreno das divisões europeias. Aos poucos, a única cultura com um dos belgas tende a se tornar a am ericana — à exceção, claro, de Tintin, a história em quadrinhos que é lida dos dois lados da linha Maginot. Mas, j ustam ente, Steven Spielberg pretende adaptá-la para Holly wood. Tem os então a Am érica se reapropriando do sím bolo belga, com o se reapropriou do kung-fu e do panda dos chineses. Enquanto isso, alguém teve a ideia, em 2008, de pôr a Bélgica à venda no eBay.

Toda a cultura m ainstream europeia evolui atualm ente para o m odelo belga. Batalhas de línguas, de identidades culturais, um crescente desconhecim ento da cinem atografia e da m úsica dos outros países, poucas leituras com uns, um a fragm entação com unitária e a cultura am ericana que, graças a essas divisões, avança inexoravelm ente.

Em paralelo a essas fragilidades, quais são as forças e as chances dos europeus? Fiz a pergunta a m uitos interlocutores nos quatro cantos da Europa, e as respostas form am um quebra-cabeça com plicado. Em Bruxelas, um deles m e disse: “Reencontrar a cultura europeia é m ais ou m enos com o reconstituir os peixes a partir da sopa de peixes”. Em Paris, o produtor e distribuidor de cinem a Marin Karm itz é m ais otim ista: “Quais são nossos fortes? Nós som os artistas e devem os valorizar isto, valorizar a arte”. Entrevistado durante a rodagem de um film e em Cinecittà, no subúrbio de Rom a, o produtor italiano Sandro Silvestri considera, por sua vez, que “é a independência que caracteriza o cinem a europeu, e essa independência é vital, particularm ente frente à televisão, sem pre dependente, e m ais ainda na Itália, por causa de Berlusconi”. Vários diplom atas franceses da área cultural, entrevistados em diferentes países, tam bém pensam que “devem os continuar sendo artesãos, frente à indústria am ericana: é preciso assum ir o que som os, nossa força está na valorização dos independentes em relação às m aj ors, da arte em relação ao divertim ento”. Na Europa, com efeito, m uitos apostam em nichos, na especialização, recusando a cultura m ainstream . Todos brandiram a “diversidade cultural” com o se brande um a arm a: essa expressão-ônibus parece ter se transform ado no único contrapeso ao im perialism o cultural am ericano. Por outro lado, m uitos m e falaram da África, onde os am ericanos não se aventuram , disseram -m e, “porque não é rentável”, “porque não é suficientem ente rica para eles”, “porque não entendem nada dela”. Na África, aparentem ente, os europeus são os únicos a agir. Era o que eu precisava verificar.