Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

A MPAA investe sobre a América Latina.

Ao m esm o tem po, Glickm an conhece os lim ites de seu otim ism o. Os estúdios holly woodianos correm o risco de se transform ar em “ativos não estratégicos” de conglom erados m ultinacionais com o a Sony. Os m onopólios, outrora m uito bem regulam entados nos Estados Unidos, j á não sofrem m uitas lim itações; desde Reagan, os estúdios são autorizados a adquirir redes de televisão e até, apesar de um a proibição decidida pela Suprem a Corte em 1948, a possuir salas de cinem a. E além disso, claro, existe a pirataria, obsessão de Glickm an e da MPAA. Já no caso dos DVDs, certos m ercados, com o a China, chegam perto dos 95% de falsificação; a situação se deteriorou ainda m ais com a Internet, que perm ite baixar qualquer film e antes m esm o de seu lançam ento nos Estados Unidos. Finalm ente, há a escalada dos custos holly woodianos. Hoj e, só o capítulo “m aquiagem ” de um film e supera m uitas vezes a m arca dos 500.000 dólares. O que torna m uito caros os tubinhos de batom .

Dan Glickm an pesa na conversa com igo os trunfos e os lim ites de Holly wood. Mais do que qualquer outra coisa, as estrelas estão no cerne dessa com plexa equação econôm ica. Um plantel extrem am ente lim itado de atores — especialm ente Johnny Depp, Brad Pitt, Matt Dam on, Tom Cruise, Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Nicole Kidm an, Julia Roberts, Harrison Ford, George Clooney, Will Sm ith — perm ite a um film e ser lançado em qualquer lugar do m undo. O cachê dessas estrelas representa um a parte cada vez m aior no orçam ento dos film es, tanto m ais na m edida em que, geralm ente, contem pla um percentual sobre a bilheteria. É aí que está o dilem a: lançar um film e internacionalm ente sem um grande nom e representa um risco grande dem ais; m as lançá-lo com um a estrela de fam a m undial im plica custos exorbitantes.

"A MPAA investe sobre a Am érica Latina No Brasil, o hom em forte da MPA

cham a-se Steve Solot. De sua base no Rio de Janeiro, ele coordena a ação dos estúdios na Am érica Latina com o um todo. “Para a MPAA, a Am érica do Sul não conta em term os de bilheteria, m as se torna cada vez m ais im portante em term os de influência e de núm ero de entradas vendidas”, explica-m e Steve Solot no Rio. “O percentual do cinem a am ericano nas bilheterias brasileiras supera 80%, com o frequentem ente é o caso na Am érica Latina. E m esm o nos 20% restantes, não devem os esquecer que m uitos film es brasileiros são coproduzidos pelos am ericanos. Globalm ente, assim , superam os a m arca dos 85%.” O escritório da MPA no Rio analisa a evolução do m ercado cinem atográfico, da televisão e da TV a cabo, luta contra a pirataria na Internet e se em penha no sentido de evitar qualquer cota de proteção da indústria brasileira.

A partir dessa base, toda a Am érica Latina é fiscalizada: quando o México tentou estabelecer cotas para proteger sua indústria, Steve Solot instalou-se na Cidade do México para coordenar um a estratégia de contraofensiva. Com o apoio de Jack Valenti e do Congresso am ericano, em Washington, a MPA conseguiu derrubar o proj eto de lei m exicano e anular as cotas. “Os am ericanos foram m uito hábeis. Conduziram um a dupla ofensiva: prim eiro, j unto ao governo m exicano, em nom e do Nafta, o Acordo de Livre Com ércio da Am érica do Norte, e em seguida fizeram lobby ing in loco sobre os exibidores, com o eu, para nos m obilizar contra as cotas. Os m exicanos adoram os blockbusters am ericanos, é assim . Com a adoção de cotas, nosso volum e de negócios teria dim inuído. De m odo que lutam os contra as cotas”, explica o m exicano Alej ando Ram írez Magaña, diretor geral da im portante rede de salas Cinépolis, que entrevistei no México.

Durante m uito tem po, a MPA foi representada na Am érica do Sul por Harry Stone. Jack Valenti: “Era um a espécie de oficial de cavalaria britânico, alto e bigodudo, perfeitam ente fluente em espanhol e português. Quem quer que fosse o presidente do Brasil, Harry era seu am igo” (não pude entrevistar Stone, falecido no fim da década de 1980).

No Rio de Janeiro, pergunto a Steve Solot sobre seu antecessor: Durante

quarenta anos, Harry Stone fez lobby à m aneira antiga: em grande estilo,

com festas m undanas. Ele conhecia todos os presidentes de todos os países

da Am érica do Sul. Dava recepções suntuosas com cham panhe francês e

caviar nas em baixadas e consulados dos Estados Unidos. A elite brasileira ou

argentina acorria para ver em pré-estreia film es com o 2001: Uma odisseia

no espaço, O poderoso chefão ou Taxi Driver, num a época em que os film es

am ericanos levavam várias sem anas para chegar até nós.

Na época, a estratégia consistia em prom over os valores e a cultura dos Estados Unidos na Am érica Latina, para estim ular o com ércio.

Alberto Flaksm an, da agência governam ental de prom oção do cinem a brasileiro, confirm a o papel determ inante representado por Harry Stone na Am érica Latina: Harry era um notório hom ossexual, m as era casado com um a grande dam a brasileira da alta roda. Com o presidente da MPA para a Am érica Latina, convidava para grandes noitadas banqueiros, o j et-set, em presários, as boas fam ílias, m as tam bém os m ilitares da ditadura, o que conferia a essas recepções um clim a algo viscontiano. Na década de 1970, a MPA trabalhava bem sob a ditadura no Brasil, sob Pinochet no Chile, em bora encontrasse m ais dificuldade na Argentina, com Perón, que era m uito antiam ericano. Ao m esm o tem po, Harry Stone não frequentava m uito as personalidades do cinem a da Am érica Latina, considerando-as m uito esquerdistas ou nacionalistas. Era sem contar com elas, m as contando com os ditadores, que lançava os film es holly woodianos de sucesso — e o sucesso nunca falhava. A oligarquia brasileira ou chilena adorava o cinem a am ericano e sem pre se vendeu à MPA.

Essa proxim idade com os poderes locais perm itiu à MPA obter vantagens na distribuição de film es am ericanos, com o a elim inação de taxas de exportação sobre as cópias de film es, um a m elhor taxa de câm bio para a rem essa das receitas de bilheteria para os Estados Unidos e às vezes, quando existiam , a não aplicação de cotas nacionais.

No Rio de Janeiro, em Buenos Aires, na Cidade do México e até em Caracas, pude conversar com os elem entos de ligação da MPA que defendem o cinem a am ericano. Quase sem pre, são sul-am ericanos que adm inistram as redes de distribuição em favor dos blockbusters dos estúdios. E por que o fazem ? “Pelo dinheiro”, responde Alberto Flaksm an, no Rio. “É m ais ou m enos com o a Coca-Cola: onde quer que a gente vá no m undo, nas m enores aldeias da Ásia ou da África, vam os encontrar um a garrafa gelada de Coke. Em term os locais, a m aioria desses distribuidores não são am ericanos. Aqui, são brasileiros que não prom ovem o cinem a am ericano por m otivos ideológicos, m as sim plesm ente por interesse com ercial.” Esses elem entos de ligação local m uitas vezes trabalham para diferentes m aj ors holly woodianas ao m esm o tem po. Os estúdios não entram em concorrência na Am érica Latina, m as se apoiam . Existem acordos de distribuição entre a Disney e a 20th Century Fox, entre a Warner e a Colum bia e sobretudo entre a Viacom e a Universal, que chegam inclusive a adm inistrar cinem as em com um no Brasil. As leis de proteção da livre concorrência nos Estados Unidos não têm m uito valor na Am érica do Sul. Alberto Flaksm an suspira: “E diante dessa form idável m áquina de guerra, nós, sul-am ericanos, estam os m uito divididos. Não tem os nenhum a rede com um de distribuição. E nem m esm o um cinem a ‘latino’ a defender”.

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No México, Jaim e Cam pos Vásquez apresenta um percurso singular. “Eu sou peruano e durante 25 anos trabalhei para o serviço secreto do Peru. Atualm ente, luto aqui contra a pirataria para a MPA”, conta-m e ele logo de entrada, em espanhol (estranham ente, Vásquez não fala inglês). Fui ao seu encontro na sede da MPA na Cidade do México. Im pecável com sua gravata de losangos violeta estilo Vasarely, o relógio de ouro cham ativo e os cabelos im pecáveis debaixo do laquê, Jaim e Cam pos Vásquez é um personagem difícil de classificar e, contra toda expectativa, sim pático. “25 anos no serviço secreto é m uita coisa”, repete ele, rindo, satisfeito com o efeito causado, ao m esm o tem po que m ostra insistentem ente os cabelos brancos. Por trás de toda essa j ovialidade, percebo um indivíduo tem ível. “A pirataria de film es é um crim e, só que m ais light”, diz ele. “Aqui no México é um com ércio ilegal apoiado pelo crim e organizado, as redes m afiosas. Nós trabalham os com a polícia local, a alfândega, e m inha experiência no serviço secreto m e aj uda m uito em term os de análise da inform ação, investigação e inteligência tecnológica.”

Pergunto-lhe se não é contraditório trabalhar para os am ericanos. Vásquez sorri: “Não tenho o m enor problem a em trabalhar para os gringos. Eu luto contra todas as falsificações e contra a econom ia clandestina ilegal. Tudo que puder contribuir para enfraquecer o crim e organizado na Am érica Latina é positivo. Som os a favor da tolerância zero”. Ele hesita um pouco, se endireita na poltrona e volta a falar, visivelm ente em baraçado com o fato de um francês censurá-lo por trabalhar para os “gringos”: “Sabe com o é, aqui no México o cinem a deve m uito aos am ericanos. Há cerca de 15 anos, não havia m ais cinem as nem film es. Hoj e, construím os um a nova sala m ultiplex diariam ente e tem os duas vezes m ais cinem as no México que no Brasil, em bora a população sej a duas vezes m enor. Tudo isso vem dos blockbusters holly woodianos, que perm item ao cinem a novam ente ser rentável e ao público, voltar às salas. E os am ericanos tam bém estim ulam e financiam a produção local. Eles form am os cineastas hispânicos em suas universidades e lhes dão um a oportunidade em Los Angeles. Hoj e em dia está renascendo um cinem a m exicano” (Holly wood tem 90% das bilheterias no México e o cinem a m exicano, m enos de 5%).

A sede da MPA na Cidade do México é discreta, um a residência de fam ília burguesa, sem nenhum a inscrição na fachada, num bairro residencial. No interior, nenhum sinal distintivo, à exceção de um a esplêndida m áquina caça-níqueis vintage. Ali trabalham 25 pessoas, sob diferentes condições. Jaim e Cam pos Vásquez, por exem plo, não consta oficialm ente com o assalariado da MPA: ele é o diretor da APCM, Asociación Protectora de Cine y Música. Essa associação foi criada em conj unto pela MPA e a indústria do disco am ericana para lutar contra a pirataria. “A MPA é o ‘good cop’ e nós, o ‘bad cop’” (o tira gentil e o tira m alvado), diz Vásquez. “Nós os acolhem os na nossa sede m as não querem os aparecer diretam ente com o encarregados da ação repressora”, confirm a a advogada Rita Mendizaal Recasens, responsável pela MPA no México, que m e recebe no m esm o escritório. Na verdade, a APCM é o braço policial da MPA e está diretam ente vinculada a Los Angeles, estando ali subordinada a Bill Baker, antigo diretor do FBI e da CIA, que por sua vez se reporta diretam ente ao chefe da MPAA em Washington.

Jack Valenti j á tinha m ais de 75 anos quando conheceu seu pior inim igo — pior, para ele, do que a guerra do Vietnã, que no entanto pusera fim à carreira de seu m entor, Ly ndon Johnson. Esse inim igo é a Internet. Em seu escritório em Washington, Valenti logo fica agitado quando abordo o tem a, sabendo perfeitam ente que é dos m ais delicados. A Internet é um verdadeiro inim igo pessoal para ele, sua obsessão, seu pesadelo. À m inha frente, Valenti tem os olhos arregalados, levanta os braços: quase se poderia dizer que se transform ou num personagem exageradam ente anim ado da Pixar.

E eis que Jack Valenti volta às luzes da ribalta. Às vésperas de se aposentar, ele estrelou, com o essas divas que estão sem pre anunciando sua últim a turnê, um come back inesperado. Seu m elhor desem penho sem pre foi na adversidade. E ele sabe que, se Holly wood precisa ser am ada, a MPAA não deve ter m edo de ser tem ida. No início da década de 2000, ele está de novo em ação: num a palavra, volta a fazer política. Metodicam ente, organiza a luta contra a cópia ilegal de film es, entra em guerra contra as novas tecnologias, m obiliza o Congresso, todos os em baixadores dos Estados Unidos e todas as polícias, exagerando as estatísticas e transform ando a propaganda dos estúdios contra a pirataria em causa nacional am ericana. “Foi o com bate de m inha vida”, diz-m e Valenti. Nesse em penho, ele subestim a o adversário, dá as costas a um a virada histórica e, querendo com bater a Internet, repete o erro histórico da indústria do disco, que quis proibir o rádio no fim da década de 1910. Mais um a vez, a luta está perdida antes de ser com eçada.

Reviravolta estratégica histórica para Holly wood, se pensarm os bem : depois de fazer de tudo, durante décadas, para difundir o cinem a am ericano em todo o m undo, por todos os m eios, a MPAA passa brutalm ente da prom oção à repressão, da cultura à polícia. Cabe ressaltar que a cópia ilegal de videocassetes e DVD é um a indústria bem estabelecida na Ásia (90% do m ercado na China, 79% na Tailândia, 54% em Taiwan, 29% na Índia, segundo a MPAA), na África, no Oriente Médio, na Am érica Latina (61% do m ercado no México) e na Rússia (79% do m ercado). A MPAA estim a atualm ente que Holly wood perde 6,1 bilhões de dólares por ano por causa da pirataria. Esta ainda passa m aj oritariam ente pela cópia ilegal de videocassetes e sobretudo de DVD (62% do total) e, em m enor m edida, em bora venha crescendo, pela Internet (38%). Mas Valenti logo entendeu o problem a: a pirataria de produtos culturais “m ateriais” até agora não afetou as receitas de Holly wood, pois se concentrava em m ercados pouco rentáveis; entretanto, com a desm aterialização dos film es, o download ilegal se dissem ina na Europa, no Japão, no Canadá e no México e no próprio território dos Estados Unidos.

Assim foi que a MPAA transform ou a luta contra a pirataria em sua prioridade m undial, nova estratégia que rom peu os equilíbrios e provocou reviravoltas nas alianças. Ei-la portanto se aliando aos governos francês e alem ão, que no entanto se m ostravam até então reticentes em colaborar com ela, preferindo defender a produção cinem atográfica nacional. Por outro lado, vem aum entando o desentendim ento com os países em ergentes e do Terceiro Mundo que se recusam a sancionar a pirataria por m otivos econôm icos ou políticos. A China, por exem plo, não com partilha a filosofia am ericana sobre direitos autorais e a Rússia não faz a m enor questão de favorecer as exportações am ericanas.

O paradoxo é que, nessa trilha, a MPAA esqueceu sua luta contra as cotas nacionais. “A abolição das cotas não é m ais nossa prioridade global”, m e confirm a Dan Glickm an, o atual chefe da MPAA, em seu gabinete em Washington. Em vez de prom over um confronto global, a MPAA negocia parcerias caso a caso, um a hora com o México, m ais adiante com a Coreia. A nova diplom acia am ericana de cinem a: nada de política m ultilateral, e, em seu lugar, “m ultiparcerias”.

Através de sua diplom acia, do diálogo com o Congresso e as polícias, a MPAA, por m ais independente que se pretenda, é na verdade um a agência am ericana “quase governam ental”. Mas nem por isso devem os cair na teoria da conspiração. Nada disso, nem esses vínculos com o governo, a CIA ou o FBI, explica realm ente o poderio e a im portância crescente do cinem a am ericano no m undo.

Para entender o m onopólio internacional dos Estados Unidos sobre as im agens e os sonhos, devem os voltar à fonte desse poder, que não está em Washington, m as em Los Angeles. Não na MPAA, m as nos estúdios holly woodianos. E, para com eçar, tem os de lançar um olhar ao público am ericano: m ilhões de espectadores que anualm ente com pram algo em torno de 1,4 bilhão de entradas para cinem a, gastando nisso m ais de 10 bilhões de dólares. São eles, hoj e, os m aiores consum idores de film es nas salas de cinem a dos grandes subúrbios dos Estados Unidos. Foi lá que tudo com eçou: nos shopping-m alls à beira das estradas, nos drive-ins, nas exurbs e nos m ultiplexes.