Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 61 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Uma cultura pan-eslava na Europa central?

Ao deixar Zhabei e o Shanghai Multim edia Valley, encontro um grupo de m ulheres de idade que parecem em situação de grande privação e se m anifestam pacificam ente. Peço à intérprete que m e explique o que está escrito nos cartazes e o que elas reivindicam . Diariam ente, essas m ulheres fazem seu protesto diante das sedes m odernas das em presas pró-ocidentais. O m otivo? Essas em presas foram construídas sobre sua aldeia, sobre suas terras. Elas foram expulsas. Exigem reparação e indenização financeira. Há m eses as m ulheres idosas e pobres se m anifestam dessa m aneira, em m eio a um silêncio geral e a um frio glacial e seco. Elas são as vítim as colaterais das transferências territoriais de em presas europeias.

Um a cultura pan-eslava na Europa central?

Estej am produzindo vídeo gam es, na Ubisoft ou na Activision, publicando livros, na Random House ou no Hachette Book Group, difundindo m úsica, pela EMI (m aj or do disco que pertence a vários fundos britânicos de investim ento) ou a Universal Music (que pertence à francesa Vivendi), os europeus só raram ente produzem cultura m ainstream “europeia”. Na m elhor das hipóteses, essas m ultinacionais alem ãs, francesas ou inglesas produzem , não raro com sucesso, bens e serviços “nacionais” para seus m ercados internos, e que são poucos exportados, m esm o na Europa; no resto do tem po, elas fabricam para o m ercado internacional sim plesm ente um entretenim ento m ainstream am ericanizado. E quando viaj am os pela Am érica Latina, o Oriente Médio ou a Ásia e conversam os com os representantes locais das m aj ors europeias de m úsica EMI e Universal, ficam os surpresos ao ouvir que as questões artísticas são tratadas pelos escritórios de Nova York, Miam i ou Los Angeles — quase nunca pelos de Paris ou Londres. Por exem plo, Pascal Gaillot, diretor da m aj or inglesa EMI para o Oriente Médio e o norte da África, conversando com igo em seu escritório em Dubai, confirm a: “Eu dependo de Londres nas questões financeiras, m as de um am ericano, Billy Mann, o diretor de A& R da EMI, baseado em Nova York, nas questões artísticas”. E Gaillot explica que, à exceção da m úsica estritam ente britânica, todas as decisões artísticas da EMI são tom adas em Nova York, sej a para a Am érica Latina, a Ásia, o Oriente Médio, a África ou a Europa. Em Paris, Pascal Nègre, o poderoso diretor-presidente da Universal Music France, reconhece que a sede do grupo está em Nova York. Por quê? “É m uito sim ples: porque os Estados Unidos são o m aior m ercado para a m úsica. Ao m esm o tem po, a Universal é um a m aj or francesa, pois seu acionista é francês”, explica Nègre. Seu colega José Eboli, diretor-presidente da Universal Music Brasil, entrevistado no Rio, confirm a que as decisões artísticas para o Brasil são tom adas em Miam i e depois em Nova York. As m aj ors do disco podem ser europeias, m as as decisões artísticas são tom adas nos Estados Unidos.

Para entender essa situação e a fragilidade da cultura “com um ” dos europeus, fui investigar em Praga, Londres, Rom a, Madri, Bruxelas e Copenhague. E em toda parte encontrei m ais ou m enos a m esm a coisa: um a cultura nacional fecunda, m uitas vezes de qualidade, às vezes popular, m as que não é exportada; e, diante dela, um a cultura am ericana onipresente que constitui o “resto” da cultura. Não estou falando de arte ou da cultura histórica, m uito m enos dos valores carreados pela cultura: falo de produtos culturais, da cultura de m assa, da cultura dos j ovens. Essa cultura europeia com um não existe m ais. A única cultura m ainstream com um aos povos europeus passou a ser a cultura am ericana.

“Antes da revolução e da queda do com unism o em 1989, era proibido ver um film e am ericano aqui. Hoj e, é m ais ou m enos o contrário: é proibido não ver um film e am ericano”, explica, irônico, Martin Malík, que dirige o escritório da Warner Bros na República Tcheca.

Estou no núm ero 13 da rua Soukenická em Praga. Na sede da Warner, todo m undo é de nacionalidade tcheca, m as trabalha para os am ericanos. Martin Malík: “A bilheteria tcheca, com o em qualquer parte da Europa, é ao m esm o tem po nacional e am ericana. E se excetuarm os alguns film es especiais, m uitas vezes alem ães, com o Adeus Lenin ou A vida dos outros, o cinem a europeu quase j á não existe m ais na República Tcheca”. Frente aos blockbusters holly woodianos, o cinem a nacional até que se aguenta bem . Nos últim os anos, a produção tcheca chegou inclusive a aum entar, e os film es locais alcançam m ais de um terço do m ercado nas bilheterias (na Europa, é a segunda cinem atografia a ter resultados tão bons em seu próprio território, depois da França). Mecanicam ente, à m edida que a produção nacional tcheca aum enta, dim inui o espaço do cinem a am ericano, em bora continue acim a de 50% e não raro de 60% das bilheterias. Com o se explica esse sucesso tcheco? “Nosso cinem a é popular graças às com édias, especialm ente o que se costum a cham ar de ‘teen com edies’, que fazem enorm e sucesso entre os j ovens. Mas m uitas vezes se trata de sim ples adaptações para o cinem a de form atos am ericanos, com o se fossem American Pie ou Rent desnaturados”, explica a crítica de cinem a Irena Zem anová. “Existe tam bém todo um cinem a nacional popular que abarca com édias de fam ília, com édias rom ânticas, m uitas vezes com tem as extrem am ente provincianos e até rurais. O sucesso é grande em casa, esse cinem a agrada a nosso presidente nacionalista, m as é m uito lim itado e sobretudo im possível de exportar”, com enta, por sua vez, Steffen Silvis, crítico de cinem a no Prague Post.

O “retorno à Europa”, slogan da revolução de 1989, não se traduziu m uito no plano cultural. À exceção dos eslovacos, os tchecos não têm m uito intercâm bio com os vizinhos m ais próxim os, m uito pouco com os alem ães, nada com os poloneses e raram ente com os vizinhos m ais afastados, húngaros, eslovenos, croatas e rom enos. Quanto aos dirigentes tchecos atuais, a com eçar pelo presidente eurocético Václav Klaus, o fato é que se recusam a aceitar que a identidade nacional de certa form a sej a dissolvida no conj unto europeu. Todos tendem a preferir, à cultura europeia, a cultura nacional ou, no pior dos casos, a cultura am ericana. “Apesar de ser m uito nacionalista, o presidente Klaus aceita m uito bem a penetração do cinem a am ericano: Holly wood vende o sonho am ericano, que é feito de individualism o, e não de j ustiça social, valores fam iliares e fraternidade. É exatam ente esta a política nacionalista de Klaus”, explica-m e, em Praga, o crítico de cinem a Michal Procházka. O redator-chefe do Prague Post, Frank Kuznik, confirm a essa tendência, ao m esm o tem po que a relativiza: “Em 1989, os tchecos quiseram se reintegrar ao ‘Oeste’. Vinte anos depois, percebem que o ‘Oeste’ não corresponde a sua identidade, exatam ente com o o com unism o não correspondia. Por eurocético e protecionista que se m ostre, o presidente Klaus aspira a um a reindigenização da cultura tcheca, que podem os observar na m úsica e no cinem a: não é um a ocidentalização nem um a am ericanização nem um a revivescência do pan-eslavism o, m as sim plesm ente a volta da cultura tcheca. Mas se esse fenôm eno é m uito sensível nas pessoas que eram adultas antes de 1989, com o as que votaram em Klaus, não se verifica tanto assim entre os j ovens, literalm ente fascinados pelo cinem a am ericano”. A crítica de cinem a Irena Zem anová é ainda m ais clara: “Evidentem ente, a cultura m ainstream na República Tcheca é am ericana, e a dos j ovens é quase totalm ente am ericanizada”.

Na Europa central, é provável inclusive que a influência dos am ericanos sej a m ais forte do que se im agina. Pois m uitas vezes os estúdios investem nos film es nacionais através de um sutil sistem a de coproduções, e desde 1989 Praga é um laboratório para Holly wood. “Muitos film es tchecos são produzidos com investim entos am ericanos, o que se percebe nos roteiros”, com enta Martin Malík na sede da Warner Bros. em Praga. Com o além disso os estúdios tchecos oferecem um a boa relação qualidade-preço, as m aj ors am ericanas tam bém vêm rodar seus próprios film es. Finalm ente, não podem os deixar de ver que o cinem a tcheco pode ser forte em casa, m as não é exportável. Com o em qualquer país, existe um cinem a nacional, m as “the other cinem a” (o outro cinem a) continua sendo am ericano. “Os tchecos sabem fazer film es para os tchecos, m as só os am ericanos sabem fazer film es para o m undo e para todo m undo”, conclui Martin Malík.

Dias depois, em busca de um outro ponto de vista, visito o principal distribuidor de film es da República Tcheca, o gigante local Bonton Film Entertainm ent. Estou na avenida Nádrazní, na sede do grupo, em cim a de um enorm e shopping-m all de um subúrbio do sudoeste de Praga. A Bonton Film foi privatizada na revolução, e desde 1989 tornou-se incontornável na distribuição de film es nacionais e am ericanos. “Nos grandes m ercados, com o a Alem anha e o Reino Unido, os estúdios am ericanos entram em concorrência e portanto abriram seus próprios escritórios. Mas nos países pequenos, nos m ercados ditos secundários, com o Portugal, Rom ênia ou nosso país, eles são solidários e se apoiam m utuam ente: criaram j oint-ventures para distribuir seus film es e se associam a em presas nacionais com o a nossa para estar m ais próxim os”, explica-m e Ales Danielis, responsável pela distribuição cinem atográfica na Bonton Film Entertainm ent. Danielis distribui com exclusividade os film es da Universal, da Param ount e da Fox, enquanto seu concorrente, a Falcon Film s, distribui a Disney e a Colum bia. Mas o que Danielis não diz é que, para que essa concessão de exclusividade sej a renovada anualm ente, ele é obrigado a aceitar todos os film es produzidos pelos estúdios holly woodianos durante um ano, o que inclui naturalm ente os blockbusters, m as tam bém os film es m enos populares ou m ais m edíocres, em obediência ao princípio do “block-booking”. Esse sistem a de cartelização é proibido nos Estados Unidos desde 1948, m as continua sendo im posto pelos am ericanos na Europa central e oriental.

Com esse duplo m ovim ento de investim ento m aciço nas coproduções locais e saturação do m ercado m ediante acordos contrários à concorrência, os am ericanos pretendem m anter-se no dom ínio da bilheteria nessa que cham am estranham ente de “zona EMEA”. Num estudo sobre o “Global Entertainm ent” da em presa am ericana PricewaterhouseCoopers, que m e é m ostrado em Praga, constato, com efeito, que, vistos dos Estados Unidos, todos esses “pequenos países” são classificados, sem distinção, nesse m esm o grupo EMEA, que rem ete a nada m enos que “Europe, Middle-East & Africa”. A MPAA tam bém se vale dessa categoria.

O poderio dos Estados Unidos no cinem a m anifesta-se igualm ente no resto da cultura m ainstream na República Tcheca. Na edição de livros, 60% das traduções são feitas do am ericano (o resto, do alem ão, em 20% dos casos, do francês, em 6%, e do russo, em 2%). “Nós traduzim os essencialm ente do am ericano e quase nada m ais do russo. Grosso m odo, passam os de repente do russo para o inglês em 1989”, confirm a Denisa Novotna, um a das diretoras da editora tcheca Eurom edia, pertencente ao gigante Bertelsm ann. Visitando um a das principais livrarias da cidade, na Praça Venceslau, surpreendo-m e ao encontrar seções estrangeiras em alem ão, inglês e até em francês, aparentem ente indicando diversidade cultural, m as quando m e aproxim o m ais constato que em sua m aioria os títulos são idênticos, m uitas vezes best-sellers am ericanos traduzidos em diferentes línguas.

Na m úsica, os grupos anglo-saxões estão em situação de igualdade com o rock local, que passa por um a revivescência tanto m ais dinâm ica por ter sido proibido antes de 1989, pois os cabelos longos assustavam os com unistas. Mas as casas de shows program am pouco os grupos europeus: as principais atrações são tchecas ou anglo-saxônicas (existem alguns britânicos). Quanto aos program as de televisão, são ainda m ais am ericanizados, m uitas vezes adaptações tchecas de séries de sucesso e program as form atados. “Na época do com unism o, a televisão transm itia m uitos film es de Bolly wood e séries de Hong Kong, produtos m ais baratos e politicam ente inofensivos. Agora, esses produtos exóticos são reservados a alguns festivais, e o que se vê são sobretudo program as am ericanizados”, com enta o crítico de cinem a Michal Procházka.

Na verdade, a cultura am ericana avança à custa da cultura europeia e das “outras” culturas, m as não enfraquece m uito a cultura tcheca. “A cultura europeia existiu, e nós sonhávam os com ela antes de 1989. Mas desde a revolução descobrim os que era um a ilusão: j á não existe m uito um a cultura com um atualm ente na Europa central e oriental. Som os todos egoístas: procuram os ter um a relação específica com Berlim , com Londres ou com os Estados Unidos, e não com os vizinhos. Os tchecos, que são totalm ente ateus, olham os poloneses, que são m aj oritariam ente religiosos, com desconfiança; detestam os eslovacos; e não falam com os húngaros. Quem quer ver um film e húngaro aqui? Ninguém ! É difícil form ar um a cultura com um com os vizinhos quando não se fala com eles. E os beneficiários desse egoísm o europeu são os am ericanos”, confirm a o crítico de cinem a do Prague Post, Steffen Silvis.

Resta o fato de que o verdadeiro perdedor desde 1989, em m atéria de trocas culturais na Europa central, é antes de m ais nada a Rússia. “O que desapareceu com a queda do com unism o foi a cultura ‘pan-eslava’”, explica Tom ás Hoffm an, diretor da produtora Infinity. “Não tem os m ais nenhum a relação com eles. Pelo m enos estam os todos de acordo nesse ponto, entre os tchecos m as tam bém os eslovacos, os húngaros e os rom enos. Não querem os m ais ouvir falar dos russos. Eles não nos causam m ais m edo, sim plesm ente se tornaram inexistentes. Estam os pouco nos im portando com eles. A Rússia não representa m ais um a referência cultural para os tchecos. O vazio deixado pelos Coros do Exército Verm elho foi preenchido pela MTV Europa.”