Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 50 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Na sede da Al Jazeera no Catar

Encenação? Pretexto? O fato é que o caso do film e “pornô” do Canal +, transm itido em plena tarde para as fam ílias sauditas e em vários países árabes, traduziu-se im ediatam ente na expulsão do CFI do satélite ArabSat. Os sauditas se declaram indignados com o erro “técnico” francês, e apesar das pressões diplom áticas de Paris decidiram pelo banim ento do CFI. O canal, liberado, foi então concedido a um a j ovem rede que há m uito tem po tentava aum entar sua audiência nos países árabes através da transm issão pelo ArabSat, pretendendo tornar-se m ainstream : a Al Jazeera.

Na sede da Al Jazeera no Catar Precisam ente às 21h30, a im agem de

Moham ed Krichen aparece nas telas do “control room ”. Ao m eu redor, oito hom ens trabalham diante de 36 telas de televisão e cerca de vinte com putadores de últim a geração. Quatro deles usam a dishdasha, o longo e m agnífico traj e branco dos países do Golfo, trazendo na cabeça um keffieh branco. Estou em Doha, a capital do Catar, na sede da Al Jazeera. Um dos m ais fam osos talk-shows da rede, “Ma war’a al khabar” (Nas entrelinhas), acaba de com eçar. Ao vivo.

O quartel-general da Al Jazeera (“a Península”, em árabe) é um bunker superprotegido, a cerca de vinte m inutos do centro de Doha, cercado de areia. Do lado de fora, hom ens arm ados e m irantes; lá dentro, gram ados verdej antes (im portados, segundo m e dizem , em placas inteiras). Passo por dois controles de segurança antes de entrar, m as a partir dali posso circular livrem ente pelo prédio. O que logo m e im pressiona é um a grande diversidade: vej o m uitas m ulheres cobertas de véu, e outras sem véu, igualm ente num erosas. Hom ens de dishdasha e m uitos de j eans. Um am biente variado.

Na cafeteria, onde m e encontro com Moham ed Krichen, cham a-m e a atenção a pluralidade de nacionalidades e religiões. Sou apresentado a drusos, libaneses xiitas, palestinos sunitas, sauditas leigos, britânicos islam itas — tudo, exceto catarenses, m uito pouco num erosos entre os j ornalistas, e de m aneira geral tam bém .

“A força do m ovim ento islâm ico é grande no m undo árabe. E é natural que tam bém se m anifeste na Al Jazeera. É perfeitam ente possível ser islâm ico e bom j ornalista”, com enta logo de entrada Moham ed Krichen, em francês. O apresentador-estrela da Al Jazeera, que com eçou sua carreira na BBC e foi um dos fundadores da rede catarense, não é islam ita. No com itê editorial da rede, ele seria considerado antes um nacionalista pan-árabe, e se com enta que não está em m uito bons term os com o atual diretor da Al Jazeera. Krichen não quer entrar nessa discussão: “Eu defendo os valores e a integridade do j ornalism o, é m inha única m otivação, m inha única linha de conduta”. Mais diretam ente, pergunto o que ele acha de Wadah Khanfar, o atual diretor da Al Jazeera, m uito criticado por sua proxim idade com os islam itas (sabendo perfeitam ente que Krichen é um de seus principais opositores internam ente): Sua nom eação foi um a decisão política do em ir do Catar, não tenho de m e pronunciar sobre a escolha. No que diz respeito à Al Jazeera, contudo, não devem os j ulgá-la precipitadam ente. Erros são com etidos, naturalm ente, um a rede com o a nossa não tem com o ser invariavelm ente perfeita e ideal. Mas o pluralism o pode ser constatado no conj unto da grade de program ação, e o que eu posso dizer é que todas as tendências árabes estão representadas na Al Jazeera.

No início da guerra do Afeganistão, Krichen estava presente. Mais adiante, foi ele que entrevistou Shim on Peres, o presidente de Israel, durante a guerra de Gaza — um feito e tanto para um a rede árabe. Ele tam bém entrevistou Bachar al-Asad, Mahm ud Abbas e Hugo Chávez. Aonde quer que se vá na Al Jazeera, Krichen é respeitado por seu profissionalism o e sua seriedade. Apresenta regularm ente os j ornais da noite e tam bém , três vezes por sem ana, Nas entrelinhas, um dos program as políticos m ais populares do m undo árabe: “É o program a núm ero um na rede árabe núm ero um ”, resum e, algo convencido, o produtor do program a, Nazar Daw, que entrevistei no fim da transm issão ao vivo. Menos cabotino, Krichen banca o m odesto: “Nosso sucesso é explicado pelo fato de que privilegiam os a inform ação em detrim ento do com entário, tentando analisar os acontecim entos, em vez de dar nossa opinião”. O principal é que o news-show acom panha de perto as inform ações do dia. Os tem as são escolhidos na tarde anterior, e o produtor m e confirm a que tem condições de m udá-los até trinta m inutos antes do início do program a. “É certam ente o program a m ais m ainstream da Al Jazeera”, com enta Nazar Daw, “por ser transm itido em prim e tim e e estar atrelado ao noticiário im ediato. Na verdade, é um a espécie de editorial da rede”. Nesse deserto do Catar, tenho a im pressão de que vozes com o a de Krichen e o eco da liberdade dos m eios de com unicação árabes, sim bolizado pela Al Jazeera, chegam longe.

A Al Jazeera foi lançada a 1º de novem bro de 1996 por iniciativa do em ir do Catar. O Catar é um m icroestado de oitocentos m il habitantes, sendo um a grande m aioria constituída de im igrantes do Paquistão, da Índia e do Irã. Durante m uito tem po, foi um dos países m ais pobres do Oriente Médio; em m enos de vinte anos, graças à descoberta de reservas de gás (as m aiores do m undo, depois da Rússia e do Irã), tornou-se um dos m ais ricos. Foi o “boom do petróleo”, com o se diz aqui. Ainda ontem absolutam ente desconhecido, o em ir convive atualm ente com os grandes. E fala com todo m undo. Inicialm ente podendo ser considerado m ais pró-árabe, ele teria m udado desde 2001, aceitando o diálogo com os islam itas (segundo alguns, passando da órbita da Liga Árabe para a da Organização da Conferência Islâm ica, o que é m uito discutido). Sej a com o for, o Catar é um país pivô atualm ente na construção de um novo eixo forte com a Síria e o Irã, e não com o Egito e a Arábia Saudita. Essa diplom acia traduz-se às vezes por idas e vindas com plexas e indecifráveis. O Catar tem um a política diplom ática não alinhada em relação ao m undo árabe, num a linha de visibilidade internacional e independência regional: diálogo entre as culturas, m ediação entre o Oriente e o Ocidente, desconfiança em relação ao irm ão m aior saudita, pacificação do Líbano através da negociação com o Hezbolah e a todo m om ento um a verdadeira diplom acia do talão de cheques. Mas tam bém j oga com todas as possibilidades: ao se aproxim ar do Irã, ao m esm o tem po m antendo em seu território a im portante base m ilitar am ericana de Al-Udeid (a partir da qual foi lançada em 2003 a guerra contra o Iraque); prestando lealdade ao m esm o tem po a George W. Bush e a Bachar al-Assad; autorizando os israelenses a abrir um escritório “com ercial” em Doha, com estatuto diplom ático e situado não longe da residência de Khaled Meshal, o líder do Ham as, em exílio protegido no Catar.

Essa diplom acia sutil — ou incoerente, segundo o ponto de vista — traduz-se inevitavelm ente na linha editorial da Al Jazeera. A rede m ais ou m enos se alinha com as variações da política diplom ática do Catar. “A Al Jazeera é a política externa do Catar, um produto de exportação, um a em baixada do Catar”, explica Ahm ed Kam el ex-diretor da em issora. “Não se trata de um a em baixada”, corrige Atef Dalgam uni, um dos fundadores e principais dirigentes da Al Jazeera em Doha. “É o Ministério de Relações Exteriores do Catar.”

No fim de dezem bro de 1998, quando assum e o novo e poderoso sinal deixado vago pelo Canal France International, é que a Al Jazeera realm ente decola: ela é a única em condições de m ostrar im agens da operação Desert Fox, o ataque aéreo am ericano no Iraque. Essas im agens exclusivas são responsáveis pelo início de seu reconhecim ento internacional e o aum ento de sua audiência, o que seria potencializado pela segunda Intifada Palestina a partir de 2000, pelos vídeos de Osam a Bin Laden e da guerra do Afeganistão em 2001, pela guerra do Iraque em 2003 e depois a guerra em Gaza em 2008, tornando-a incontornável no m undo inteiro.

Um a região árabe, portanto, m as cuj as relações com os países m uçulm anos são incertas. A Al Jazeera é proibida na Tunísia, no Marrocos, na Argélia e no Iraque; periodicam ente, é am eaçada de proibição por certos países árabes, com o a Arábia Saudita, até 2007, e m ais recentem ente a Autoridade Palestina. É tam bém o caso da Índia. Mas o fato é que, proibida ou não, basta um a antena parabólica de m enos de cem euros para captá-la em qualquer lugar do Oriente Médio ou Próxim o.

Paradoxalm ente, a rede, am eaçada pelos talibãs e os xiitas radicais, tam bém foi criticada violentam ente e am eaçada pelo governo Bush nos Estados Unidos (um a conversa entre George W. Bush e Tony Blair, relatada num docum ento confidencial britânico, leva a pensar que Bush teria pretendido bom bardear a sede da rede em Doha, m as a autenticidade do docum ento não foi com provada). A Al Jazeera chega inclusive a acusar o governo Bush de ter pressionado os principais operadores de televisão a cabo para elim iná-la dos lares am ericanos; a alegação tam pouco foi com provada, m as é verdade que a Al Jazeera, por m otivos políticos ou com erciais, não está m uito presente nas transm issões a cabo am ericanas. De qualquer m aneira, resta um paradoxo: em relação à Al Jazeera, os Estados Unidos se com portaram , em term os de censura e lim itação da liberdade de inform ação, exatam ente com o as ditaduras árabes, quando a rede, segundo seus defensores, sim plesm ente fazia o trabalho j ornalístico de cam po que a CNN não quis ou não foi capaz de fazer.

O período entre 1996 e 2001 foi o dos grandes anos da Al Jazeera. A rede quebra então os tabus do m undo árabe, especialm ente no que diz respeito às m ulheres e à sexualidade. Abre um escritório em Israel e pela prim eira vez no m undo árabe dá a palavra aos representantes do Estado hebraico (m uitas vezes sem cortar nem desnaturar suas declarações). Assim foi que m uitos telespectadores árabes viram pela prim eira vez um israelense defender seu ponto de vista num canal árabe. Desde 2001, no entanto, a rede teria m udado de linha editorial.

Hussein Abdel Ghani dirige o escritório da Al Jazeera no Cairo. Para encontrá-lo, são necessárias doses equivalentes de persistência e senso de orientação. O escritório da Al Jazeera fica num prédio antiquado, à beira do Nilo, sem qualquer m enção aparente nem indicação. O elevador está com defeito e as escadas não são varridas há m eses. Poeira por todo lado. No quinto andar, nem cam painha, nem placa, nem recepção. Nem tam pouco quaisquer m edidas de segurança especiais. A Al Jazeera instalou um de seus principais centros nevrálgicos m undiais, no Cairo, num lugar inacessível e desconhecido de (quase) todo m undo. Lá dentro, m uitos j ornalistas e operadores de câm era m ostram -se atarefados, m ulheres sem véu e vestindo cam isetas colantes e coloridas, ao estilo Am erican Apparel, trabalham perfeitam ente descontraídas, em igualdade de condições com os hom ens. Dezenas de câm eras digitais podem ser vistas sobre as m esas, assim com o aparelhos Sony. Um copeiro traz-m e café. Em todas as paredes é bem visível o logotipo da Al Jazeera — o nom e, num a caligrafia em caracteres árabes dourados, parece um a cham a —, tendo abaixo, em árabe ou em inglês, o lem a: “O ponto de vista e o seu oposto”.

Hussein Abdel Ghani recebe-m e de j eans e tênis — à am ericana. Em decorrência das estritas regras de com unicação na rede, ele é o único autorizado a falar, o que faz, surpreendentem ente, com toda liberdade. “No Egito, nós som os m uito polêm icos. É difícil trabalhar aqui. Estam os pagando o preço de nossa liberdade e nossa independência”, afirm a, confirm ando a inform ação, lida nos j ornais, de que acaba de passar dois dias na prisão. À frente de um a equipe de 25 pessoas, ele dirige um escritório sensível num país sensível.

Hussein Abdel Ghani fala inglês com sotaque perfeito. Com o cerca de 120 j ornalistas da Al Jazeera, com eçou em Londres, no escritório da Arabic BBC News, um a rede em j oint-venture entre o BBC World Service e a em presa saudita Orbit. O fecham ento dessa rede em 1996, em decorrência de desentendim entos entre os ingleses e os sauditas, é que contribuiria para o lançam ento da Al Jazeera. Em 1997, Hussein Abdel Ghani foi encarregado de abrir o escritório egípcio da Al Jazeera, um ano depois do lançam ento da rede em Doha. Ao lado de Ram allah e Bagdá, o Cairo é um de seus principais escritórios. Com base em dois estúdios equipados da m aneira m ais sum ária possível, m as m uito bem localizados, os j ornalistas realizam seus flashes diante de um cenário natural im pressionante: j anelas envidraçadas que dão para o Nilo e a im ensa cidade do Cairo.

“Nós fazem os j ornalism o de acordo com as regras internacionais, e é exatam ente por isso que som os criticados nos países árabes... e na Am érica”, explica Hussein Abdel Ghani, m ostrando-m e as dezenas de diplom as e m edalhas internacionais que recebeu, sím bolos de independência j ornalística que ocupam quase todo o espaço de seu escritório. No Cairo, há tam bém um a equipe do canal esportivo da Al Jazeera, assim com o j ornalistas preparados para produzir docum entários culturais e talk-shows. “Nosso sucesso decorre de um a sutil m istura entre inform ação e entretenim ento. Essa com binação é m uito atraente para os m ilhões de pessoas que nos são fiéis em todo o m undo. Nós nos interessam os por tudo que afeta as pessoas, ao m aior núm ero, e não à elite. Nossos program as e nossos j ornais, e sobretudo nossos talk-shows, são essenciais: os ‘fatwa talk-shows’ apresentados por ‘satellite sheiks’, por exem plo, fazem m uito sucesso.”

*

“Fatwa talk-shows”!? Xeques por satélite!? Abdul Ham id Taufik, com quem converso alguns m eses depois na Síria, não é do tipo que faz piada. Não aprecia m uito o hum or de seu colega egípcio. Ex-editor de política da televisão oficial síria, Abdul Ham id Taufik é atualm ente chefe da sucursal da Al Jazeera em Dam asco. Bigodinho, óculos pequenos, cabelos j á algo grisalhos, ele fala depressa, sem parar, aceitando poucas perguntas. Com o não dom ina o inglês, eu sou assistido por m eu intérprete na Síria. A sucursal síria da Al Jazeera fica em cim a do Colom bus Café, em East Mazeh, subúrbio rico do oeste de Dam asco. Na rua, o logotipo da rede é pequeno m as bem visível. No prim eiro andar, em quatro ou cinco salas, encontro cerca de 15 pessoas. Câm eras estão espalhadas pelo chão. “É um a cadeia popular na Síria”, com em ora Abdul Ham id Taufik. “As pessoas m ais politizadas assistem à Al Jazeera ou à rede do Hezbolah, Al Manar, que se apresenta com o a rede da resistência. Fora isto, em m atéria de divertim ento, m uitos sírios assistem à LBC, a rede libanesa, ou aos canais sauditas da MBC.” Com o obter inform ação sobre os núm eros de audiência? “Não é possível. Não existem estatísticas sobre o audiviosual na Síria, nem por sinal nada equivalente nos países árabes”, suspira Abdul Ham id Taufik. “Nem o governo nem o setor privado sabem nada sobre o pulso das audiências. Pode-se apenas levantar hipóteses” (de acordo com diferentes fontes, a audiência da Al Jazeera superaria 50 m ilhões de lares por dia). Um copeiro nos oferece chá turco. Conversam os durante m uito tem po, sem que eu fique sabendo de grande coisa sobre o assunto: com o a Al Jazeera tornou-se um a rede m ainstream ? O escritório é cercado de cortinas verm elhas que tornam o am biente sufocante, com um a sensação de claustrofobia. Ao se despedir, Abdul Ham id Taufik m ostra-m e um esplêndido exem plar do Corão pintado à m ão, bem na entrada de seu escritório. Ao chegar à porta, com ento boatos segundo os quais a Al Jazeera estaria próxim a do regim e na Síria, e dou a entender que podem ter sido necessárias concessões para abrir um a sucursal em Dam asco. O diretor da Al Jazeera em Dam asco m e contem pla calm am ente. Nesse m om ento, faz-se ouvir, em alto-falantes m odernos e ruidosos instalados num m inarete, o cham ado para a oração do m uezim . “Nós não dependem os do governo; trabalham os de acordo com as leis sírias e a deontologia j ornalística da Al Jazeera”, explica-se habilm ente Abdul Ham id Taufik.

Dias antes, eu fora inform ado por um dos fundadores da Al Jazeera em Londres, que dirigiu igualm ente várias estações da rede, para acabar se dem itindo: “A sucursal da Al Jazeera em Dam asco está m uito ligada ao regim e sírio e transm ite inform ação oficial”, avisara ele (esse antigo diretor da rede não quis se identificar, por respeito aos colegas e para poder falar m ais livrem ente).

Cabe lem brar que durante vários anos a Síria, com o vários outros países árabes, proibiu a Al Jazeera em seu território, recusando todos os pedidos de visto para seus j ornalistas; abrir um escritório em Dam asco, portanto, parecia altam ente im provável. Pode-se levantar a hipótese de que a recente inauguração tenha sido negociada nas altas esferas, em favor de um a aproxim ação diplom ática entre o Catar e a Síria, a partir da segunda guerra do Líbano, em 2006, e das negociações para o fim do conflito conduzidas por Doha (em 2008, o em ir do Catar deu um Airbus com o presente pessoal ao presidente da Síria, Bachar al-Assad).

Mas o fato é que o fundador da Al Jazeera que entrevistei em Londres critica o tipo de j ornalism o feito pela Al Jazeera na Síria e, m ais globalm ente, a evolução da rede. Segundo ele, houve “um a clara reislam ização da Al Jazeera desde 2001”, de efeitos visíveis particularm ente na Síria e no Líbano. Meu contato entra por um a longa análise, expondo sua visão da evolução da rede: “Antes de 2001, era um a rede m ais para nacionalista, ou digam os laica, na tradição do nacionalism o árabe, do pan-arabism o e do socialism o árabe encarnado pela Liga Árabe — da qual o Catar é m em bro. A ideia por trás da rede era a m odernização dos países árabes e o espírito de abertura árabe, a ‘infitah’, com o se costum a dizer. A partir do 11 de setem bro de 2001, a rede evoluiu para um a crescente islam ização. Aos poucos, em pequenos e sucessivos passos, passa-se a optar pela Síria contra o Egito, pela Irm andade Muçulm ana de preferência à Liga Árabe, pelo Ham as em detrim ento da Al Fatah. Os vídeos de Osam a Bin Laden são divulgados, m enos a título de inform ação ou para atingir o grande público e m ais com finalidades de propaganda. As palavras tam bém têm seu peso: fala-se do ‘presidente’ Saddam Hussein, e não do ‘ditador’, com o os ocidentais; de ‘resistentes’ para se referir aos ‘rebeldes’ iraquianos; de ‘forças invasoras’ am ericanas, e não de ‘forças da coalizão’”. Em 2003, Wadah Khanfar, um palestino que havia estudado na Jordânia, assum e a direção da Al Jazeera. Tem na época 34 anos. Ele coordenava o escritório de Bagdá na época da derrubada de Saddam Hussein, o que lhe perm itira fazer nom e, m uito em bora, segundo m eu interlocutor, “tivesse experiência j ornalística lim itada”. O fundador da Al Jazeera que entrevistei em Londres retom a de onde havia parado: “Desde que Wadah Khanfar chegou a Doha, a Al Jazeera tornou-se favorável à resistência iraquiana. Passou a se posicionar contra os xiitas do Iraque, m as a favor dos xiitas do Irã, do Líbano e da Síria. Ela apoia a al-Qaida no Afeganistão, venera a m em ória de Saddam Hussein, é pró-Hezbolah, pró-Ahm adinej ad. E defende até o antiam ericano Chávez na Venezuela e o islam ita Erdogan na Turquia! É um a total reviravolta em relação à obj etividade da Al Jazeera no início e em relação a sua preocupação de neutralidade. Foi aí que eu m e dem iti”.

Eu o deixei falar. Ele conhece a história por dentro, é legítim o e confiável, m uito em bora apresente a sua leitura dos fatos. Naturalm ente, ela não é com partilhada por vários outros de m eus interlocutores, que consideram a Al Jazeera “um a rede com o outra qualquer”. Alguns observam que há m uita liberdade e m uitas diferenças no interior da rede. Afinal, com entam com igo em Doha, o fato de a rede defender valores árabes não a im pede de fazer j ornalism o, o que não é m ais problem ático que a CNN defendendo o ponto de vista dos Estados Unidos e os valores am ericanos. Observam tam bém que se certas sucursais da Al Jazeera de fato estão “atentas” ao Hezbolah e ao Ham as, em função das situações locais, o escritório de Ram allah, por exem plo, continua bastante laico e “atento” à Al Fatah. “Eu seria a prim eira a deixar a rede se a Al Jazeera se tornasse pró-iraniana e islam ita”, afirm a Dim a Khatib, a diretora do escritório da Al Jazeera na Venezuela, um a palestina entrevistada em Caracas. Em sentido inverso, o diretor de um escritório da Al Jazeera que acaba de ser dem itido confirm a que nas m anifestações da oposição iraniana em 2008 veio à tona a verdadeira natureza da Al Jazeera: “É um a rede que foi totalm ente pró-Ahm adinej ad durante os acontecim entos. Até agora, o em penho era no sentido de defender as populações e a dem ocracia; no Irã, eles acabam de defender um a ditadura”. Esse m esm o diretor sustenta que “os vínculos entre a Al Jazeera e o Ham as se fortaleceram desde que Wadah Khanfar assum iu a direção da rede”. A inform ação é confirm ada por vários de m eus contatos.

Outros explicam que os m eios audiovisuais foram privatizados em m uitos países árabes, com o a Síria, graças à Al Jazeera, e que os efeitos da existência da rede a longo prazo serão decisivos para a m odernização do m undo árabe. Acim a de tudo, Moham ed Krichen explica em Doha que “a oposição entre xiitas e sunitas não é pertinente quando se trata de entender o tratam ento da inform ação por parte da Al Jazeera”. Ahm ad Kam el, ex-diretor da sucursal da Al Jazeera em Bruxelas, explica que a evolução da rede é ao m esm o tem po ideológica e com ercial: em vista do sucesso alcançado, a Al Jazeera quis acom panhar de perto as expectativas da “rua árabe”, tornando-se por força das circunstâncias m ais islam ita, à m edida que os Estados Unidos de George W. Bush se tornavam m ais antiárabes. “A Al Jazeera é um a rede privada que busca a audiência e o lucro”, explica Labib Fahm y, seu colega e novo chefe da sucursal da Al Jazeera em Bruxelas. “O que m ove a rede é na verdade a pressão da rua”, confirm a Moham ed Krichen. “Estam os constantem ente sob pressão da opinião pública árabe. Mas eu fico m e perguntando se refletim os essa opinião ou som os levados por ela.”

Bem ao lado de um fam oso restaurante gay, não longe da rede concorrente Future, a sede da Al Jazeera na rua Ham ra, no bairro Kantari de Beirute, no Líbano, tam bém parece bastante discreta. O prédio am arelo e rosa El Mina, onde a Al Jazeera fixou dom icílio, é cercado por câm eras, e tam bém aqui são poucas as indicações visíveis, do lado de fora, de que existe um a rede de televisão no prim eiro andar. Só a dezena de antenas parabólicas no telhado poderia despertar a atenção de um observador m ais atento. Lá dentro, um a im ensa redação em open space. Vej o num a das paredes a im ensa cham a, o logotipo da Al Jazeera, m as tam bém um a foto de Tarek Ay ub, o correspondente da Al Jazeera que m orreu em abril de 2003 quando um m íssil am ericano caiu no escritório da rede em Bagdá.

O chefe do escritório da Al Jazeera em Beirute cham a-se Ghassan Ben Jeddou. Toda sem ana ele apresenta na Al Jazeera, de Beirute, o talk-show Debate aberto. Filho de pai tunisino sunita e m ãe cristã, casado com um a xiita, ele tam bém provoca polêm ica e fascínio. No m undo árabe, é conhecido sobretudo por ter sido o único j ornalista que entrevistou Hassan Nasrallah, o secretário-geral do Hezbolah, em j ulho de 2006, em pleno conflito israelense-libanês. Ghassan Ben Jeddou tam bém film ou os túneis secretos entre Gaza e o Egito, circulando com sua câm era por baixo da terra. (Não pude entrevistá-lo durante m inha investigação em Beirute, pelo m otivo oficial de que ele estava gravando seu show nessa sem ana no sul do Líbano.) Tam bém aqui divergem as opiniões a respeito da concepção do j ornalism o encarnada por Ghassan Ben Jeddou. “A Al Jazeera é contra a dem ocracia no Líbano, é pró-Hezbolah, próxim a dos iranianos e do em ir do Catar”, defende Ahm ed Kam el, antigo contratado da Al Jazeera, atualm ente chefe da sucursal da BBC em Dam asco. Outros consideram que entrevistar o líder do Hezbolah, Hassan Nasrallah, é um furo j ornalístico que até a CNN gostaria de ter dado: “Isso confirm a seu profissionalism o j ornalístico, e não algum a cum plicidade com o Hezbolah”, com enta um diretor da Al Jazeera em Doha. (Vale lem brar que Ghassan Ben Jeddou foi conduzido de olhos vendados até um lugar desconhecido, num “blind bus”, um ônibus de vidros escurecidos, para a realização dessa entrevista com Hassan Nasrallah, um dos hom ens m ais procurados por Israel, que o considera “um dos m aiores terroristas do m undo”; o m ais significativo é que, quando Ben Jeddou perguntou a Nasrallah onde se encontravam , ele respondeu que tam bém não sabia, pois tam bém fora conduzido até ali com um a venda nos olhos.) Um form ato News & Entertainm ent Para além da política, que aqui é essencial, que se pode dizer das form as j ornalísticas e dos form atos de televisão? Ainda estou tentando entender os m otivos que perm itiram à Al Jazeera tornar-se um a rede m ainstream . “O sucesso da Al Jazeera vem de seus talk-shows”, sentencia Labib Fahm y, o diretor da sucursal na Bélgica. Eu o reencontro num pequeno café do centro de Bruxelas. Ele não quer ser citado em questões políticas (não é autorizado a se expressar sobre esses tem as), m as concorda em falar sobre a m aneira com o a Al Jazeera tornou-se m ainstream .