Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 42 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

12. Geopolítica dos dramas, novelas do Ramadã e telenovelas

12. Geopolítica dos dram as,

novelas do Ram adã e telenovelas

Em qualquer lugar da Ásia, eles são conhecidos com o “F4”. São os quatro rapazes da série de televisão Boys Over Flowers, o “F” significando “flores”, m as tam bém “bonito” na linguagem habitual dos adolescentes. Um a j ovem pobre, cuj os pais têm um a lavanderia autom ática, consegue entrar para um colégio da elite na Coreia, enfrentando a dom inação dos quatro rapazes ricos, sedutores m as arrogantes, que aterrorizam os alunos m ais frágeis. A j ovem com eça a defender as vítim as m ais fracas, inj ustam ente m altratadas pelos “F4”, m as se apaixona por um deles. Espécie de Sex and the City m asculina, a série de 24 episódios é m uito atraente, com suas m últiplas histórias ram ificadas e entrelaçadas, o texto de ritm o m uito rápido e as peripécias que deixam transparecer, por trás de um a intriga falsam ente sim plista, profundas diferenças sociais. Além disso, há a m úsica, onipresente e eficaz, que serviu, antes do início das transm issões, de pré-m arketing para a série, contribuindo após a estreia para as vendas recordes da trilha original em toda a Ásia.

A história baseia-se num célebre m angá j aponês da década de 1990, do tipo conhecido com o “shoj o m angá” por estar voltado para um público de m ocinhas de 10 a 18 anos. Inicialm ente, por sinal, em 2001, Boys Over Flowers era um a série de televisão de Taiwan, tornando-se tam bém j aponesa em 2005 e afinal coreana em 2008, antes de várias refilm agens j á anunciadas nas Filipinas, na China e talvez até de um film e e um a com édia m usical. Cada um a dessas adaptações, a partir do “form ato” taiwanês, foi um sucesso considerável em toda a Ásia, inclusive nos países onde a versão taiwanesa j á funcionava bem . Os fãs — m ilhões de adolescentes, em sua m aioria m ocinhas — analisam as versões, com param as fam ílias dos dois cam pos (estam os num a espécie de Amor, sublime amor asiático) e discutem indefinidam ente, cotej ando a beleza dos quatro rapazes (m eu preferido é Kim Hy un-Joong, m as as m oças em geral preferem Lee Min Ho ou Kim Sang Bum ). A versão coreana, apesar de j á ser um a terceira refilm agem , foi um sucesso em prim e tim e na KBS, a televisão pública coreana, inicialm ente, e depois tam bém em quase toda parte, no Japão, na Indonésia, no Vietnã, na Tailândia, em Taiwan, graças ao m ercado negro, em DVD na China — transform ando-se assim no fenôm eno asiático de 2009. E por sinal na Coreia, em vista da im portância que adquiriram , não se fala de séries de televisão: fala-se sim plesm ente de “dram as”.

A batalha dos form atos “Boys Over Flowers é um autêntico fenôm eno social

na Ásia”, explica BJ Song. Personagem cultuado na Coreia do Sul, BJ Song é um célebre produtor de m úsica e presidente do Group8, enorm e em presa de audiovisual que produz m úsica K-Pop, com édias m usicais e sobretudo célebres dram as coreanos — entre os quais, j ustam ente, Boys Over Flowers. Seu escritório é prolongado por um im enso terraço com vista para o bairro hip de Itaewon, em Seul. Ele usa óculos grandes, um a barbicha branca, fala bem o inglês. “Na versão coreana de Boys Over Flowers, nós m antivem os o ritm o original do m angá, os ‘cliffhangers’, que são a chave do suspense, e a experiência colegial foi depurada de m aneira a que até as pessoas idosas possam se identificar com os alunos, pensando em sua própria adolescência.” Pergunto-lhe o que caracteriza as soap operas coreanas. BJ Song quase engasga de tanto rir: “Não são soap operas! São dram as! Verdadeiros seriados, com um a história e um tem a. Um a soap nunca tem um verdadeiro foco, serve apenas para passar o tem po. Mas nós criam os a ‘Hal-ly u’”. Se na Europa passam os a associar a Hal-ly u (literalm ente, a “nova onda coreana”) aos film es de arte coreanos, no próprio país a expressão é usada sobretudo para se referir ao sucesso dos dram as. A nova onda coreana não foi um fenôm eno de festival e cineclubes, m as um fenôm eno de m assa, de entretenim ento para o grande público. Foi desde o início m ainstream .