Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 64 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Nas fronteiras da Europa, da Ásia e do mundo árabe: a Turquia americanizada.

Eis assim os europeus, e antes de m ais nada os ingleses e os franceses, sofrendo concorrência no continente africano, onde se j ulgavam , paternalistas e ainda im pregnados de um certo sentim ento colonialista, as referências inarredáveis. O fato de a econom ia do continente negro voltar-se para África do Sul e, além dela, para o Brasil e a China não é de bom augúrio para a Europa. Mas o fenôm eno ilustra um inevitável reaj uste dos equilíbrios culturais internacionais e das trocas de fluxos de conteúdos, num a época de globalização.

Nas fronteiras da Europa, da Ásia e do m undo árabe:

a Turquia am ericanizada

Para bem avaliar os trunfos e as fragilidades da Europa e encerrar essa investigação, eu tinha de viaj ar aos confins do continente, a suas fronteiras. Entre a Ásia e o m undo m uçulm ano, entre a Europa e a Am érica, eu tinha de ir à Turquia.

Ay se Böhürler é um a intelectual m uçulm ana, coberta de véu, que se define com o islam ita. Cineasta e docum entarista, ela tam bém é produtora do Canal 7, um a rede turca próxim a do poder islâm ico, onde cuida de program as para as m ulheres e as crianças. Encontro-a em seu escritório de Istam bul, onde m e recebe com contida benevolência, aproveitando os lapsos da tradução para consultar freneticam ente seu Gm ail num com putador Apple. “Nós, os turcos, som os os únicos que fazem os a síntese das culturas da Europa e abrim os o continente para um a autêntica diversidade. Som os o extrem o oriente da Europa e o extrem o ocidente do Oriente. Diante do bom bardeio da cultura am ericana, conseguim os proteger nossa cultura. O m arxism o, até certo tem po atrás, o islam ism o atualm ente, o fem inism o das m ulheres m uçulm anas, por exem plo, são diferentes m eios de conservar essa identidade. É nossa m aneira de continuar sendo turcos frente ao Ocidente.” Ay se Böhürler se qualifica de “sem ifem inista” e considera que o véu é um sinal de m odernidade e reação frente ao “bom bardeio da cultura am ericana” (ela repete a expressão várias vezes). Critica a cultura do entretenim ento, que “avilta a m ulher e a reduz a um obj eto, a um corpo, a sua beleza”, m as ao m esm o tem po, querendo parecer m oderada, rej eita os traj es com pulsórios im postos pelos islam itas radicais. “Na Turquia, som os o sím bolo de um islam ism o m oderado. É um a contracultura, com sua m úsica islâm ica, suas televisões, seu cinem a: é o nosso ‘christian rock’.” Ay se Böhürler prossegue: “O problem a, com a cultura turca, é o fato de ser m uito diferente, m uito específica do nosso país. Nós produzim os um a cultura ‘space-specific’, que por definição não é facilm ente exportada, exceto para os países m uçulm anos”. Ela está se referindo, aqui, às fam osas séries de televisão turcas, cuj os enredos giram em torno de personagens das classes m édias urbanas, com seu sotaque, seus valores m orais e seu hum or característico, e nas quais não é raro ocorrerem crim es de honra e vendetas. Essas séries de televisão fazem grande sucesso na Turquia e passaram a ser exportadas m aciçam ente para o m undo árabe-m uçulm ano — m as não para a Europa. “Nossa cultura ‘à turca’ é genial, m as os europeus não sabem !”, conclui ela.

No dia seguinte, estou na sede da rede CNN Türk, que igualm ente reflete as tensões entre o Oriente e o Ocidente, tanto m ais que estam os na Europa, num país historicam ente pró-am ericano, m as que é m em bro da Organização da Conferência Islâm ica. “Som os um a televisão turca, em língua turca, voltada para os turcos”, esclarece logo de entrada Ferhat Boravat, presidente da CNN Türk. Para ele, a televisão é um a questão local.

Seu escritório fica num subúrbio distante de Istam bul, num im enso com plexo, sede do grupo privado de m ídia batizado Dogan TV Center. O grupo Dogan, cuj a riqueza vem do petróleo, está presente basicam ente na im prensa, na edição de livros, na m úsica e na televisão, sendo proprietário de várias redes, não raro em parceria com os am ericanos da Tim e Warner. Diante dele, o outro gigante da m ídia é o grupo de telecom unicações Çukurova, proprietário das redes Show. Em concorrência direta, os dois grupos procuram diversificar seus conteúdos, desenvolver-se no exterior, na “zona turca”, e pretendem transform ar-se em vastos grupos regionais de m ídia.

“Não som os um clone da CNN, som os um clone m utante!”, explica Ferhat Boravat, bem -hum orado, na CNN Türk. A rede que ele dirige é um a j oint-venture entre a CNN e o grupo Dogan, ao m esm o tem po am ericana e local, portanto, m as Boravat insiste m ais um a vez na dim ensão turca do em preendim ento. “O nom e CNN é m ais forte que o da Am érica. Aqui, a rede não é assim ilada aos Estados Unidos: é possível gostar da CNN Türk e odiar os am ericanos. Nós som os considerados um a rede turca.” A CNN Türk reproduz alguns program as da CNN, sobretudo program as exclusivam ente de inform ação e docum entários, m as produz localm ente a m aioria de suas im agens, j á que 90% de seus program as seriam turcos. “Nós som os bem característicos do infotainm ent: inform ação e entretenim ento”, confirm a Boravat, sem grande originalidade. Os talk-shows estão no centro da program ação da rede, especialm ente How Come?, L’Arène e +1, todos com um a grande audiência. Os program as m usicais tam bém são essenciais, com o Frequency, m isturando hits turcos, sobretudo de hip-hop, e am ericanos. “Nós querem os ser com patíveis”, insiste Boravat. Com patível? Ele repete a palavra várias vezes. Peço-lhe que sej a m ais claro: “Quero dizer, ao m esm o tem po m odernos, am ericanos, no espírito da época e dos j ovens, ao m esm o tem po perm anecendo turcos.”

Para entender o que quer dizer “com patibilidade” no m undo do entretenim ento, vou ao encontro, um andar abaixo, de Barcu Senbakar, produtor, j ustam ente, do célebre talk-show sem anal How Come? “A CNN Türk é um a rede séria dem ais, e nosso papel é rom per essa seriedade. Fazem os um program a m ais divertido, entre a inform ação e o entretenim ento. Por exem plo, convidam os pessoas fam osas e ao m esm o tem po gente com um , um m otorista de táxi ou um a garçonete. Organizam os o debate e tratam os os tem as sérios de m aneira divertida. O público, no estúdio, aplaude e reage ao vivo. É realm ente m uito divertido.” O apresentador do talk-show diário +1 na CNN Türk, Mithat Bereket, j unta-se a nós: “Você está querendo saber por que fazem os entretenim ento aqui? É m uito sim ples. É porque não querem os fazer j ornais tediosos. A im prensa deve ser crítica, polêm ica, engaj ada. Não é este o papel da televisão: ela está aí para nos perm itir escapar às lim itações, aos problem as. A televisão, que é um m eio de com unicação m ainstream , deve estar no entretenim ento”.

A chegada do divertim ento de m assa à televisão turca deu-se com a desregulam entação do audiovisual, o fim da televisão pública única e a privatização, que tem no grupo Dogan o seu arquétipo. Mais conceitual, o escritor Volkan Ay tar, da im portante fundação turca TESEF, explica o que aconteceu: “Paradoxalm ente, esses grandes grupos de m ídia se desenvolveram ao m esm o tem po que se enfraquecia a cultura kem alista, da Turquia do pré-guerra, laica m as tam bém autoritária e elitista. Essa elite legitim ava a cultura oficial, turca, nacionalista, recusando a cultura popular e a cultura das m inorias, das m ulheres e dos curdos. Aos poucos, a m úsica clássica foi substituída pela m úsica das classes populares, o que se passou a cham ar de m úsica ‘arabesk’, um a m úsica pop com instrum entos ocidentais, m as m otivos orientais tradicionais. No lugar dos concertos da elite, proliferam os rock-bars, os folk-ballad-bars, o hip-hop ‘à turca’, e a m úsica am ericana tam bém aproveita a brecha, com o fim de um certo nacionalism o turco. Nossa m úsica atualm ente se pretende ‘am ericana-arabesk’! O entretenim ento se desenvolve com o fim dessa cultura da elite, extrem am ente condescendente e paternalista. O entretenim ento acom panha o fim da cultura burguesa na Turquia”.

Orgulhosa de seu entretenim ento e de sua nova cultura m ainstream , a Turquia quer agora exportá-los. Ela se afirm a com o um poder cultural regional, difundindo seus conteúdos num a zona híbrida que vai do sul dos Bálcãs (Bulgária, Rom ênia, Albânia, Macedônia) às repúblicas asiáticas ou turcófonas da antiga URSS (Azerbaij ão, Uzbequistão, Cazaquistão, Turcm enistão), sem esquecer a Arm ênia, a Geórgia, a Ucrânia e a Moldávia, além certos países do Oriente Médio (Síria, Iraque, Irã e até Israel). É um m ercado m uito original. O grupo Dogan investe m aciçam ente nos Bálcãs, seu concorrente Show TV se im planta fortem ente na Ucrânia e todos têm claram ente os olhos voltados para o m undo persa e árabe, com suas séries de televisão cool e seu “hip-hop islâm ico”. O sucesso dessa cultura turca m ainstream aum enta em toda a região, atualm ente sob o charm e neo-otom ano, do Irã ao Egito, passando pela Síria e a Palestina. Os m uçulm anos apreciam o caráter m isto desse entretenim ento turco, ao m esm o tem po oriental e m oderno, e tam bém m uçulm ano — e gostam de ver as m oças sem véu.

Um bom exem plo desses paradoxos geográficos é o cantor Tarkan, grande sucesso com as canções Kiss Kiss e Kuzu Kuzu e m ais recentem ente com o álbum Metamorfoz. Conhecido na Turquia com o “o príncipe do pop”, sua influência no país foi com parada pelo Washington Post à de Elvis Presley nos Estados Unidos. Tarkan tem sobretudo um sucesso regional, em toda a zona de influência do entretenim ento turco, na Ásia central, na Rússia, no Leste europeu e portanto tam bém no Oriente Médio. Mas o fato é que canta em turco, raram ente em inglês, utilizando inclusive os idiom as tradicionais turcos, o que lhe valeu cum prim entos da associação nacional de preservação da língua turca. Entretanto, não se tem exim ido de provocações sexuais, chegando a beij ar na boca rapazes bigodudos, o que tem provocado constantes debates sobre sua hom ossexualidade — que ele nega categoricam ente — e exacerbado a paixão que desperta em j ovens, travestis e islam itas turcos. Com isso, tornou-se tam bém o garoto-propaganda oficial da Pepsi-Cola. “Pode parecer estranho, e no com eço eu j am ais pensei que funcionaria”, explicou Tarkan num a entrevista à CNN. “Eu canto exclusivam ente em turco, e ninguém no m undo entende um a única palavra do que eu digo. Mas eu acho que é sobretudo o ritm o [groove] que explica o m eu sucesso. Além do m ais, os beij os são universais.”

Na Turquia, na fronteira da Europa, as oportunidades e fragilidades do país são um espelho de aum ento das encontradas no continente europeu com o um todo. Entre laicidade e religião, entre am ericanização e etnocentrism o, entre cultura e entretenim ento, o país hesita, com o tantas vezes acontece na Europa. “Nós som os m uito am bivalentes, m uito hesitantes, extrem am ente esquizofrênicos”, confirm a o escritor Volkan Ay tar, na sede da fundação TESEF. “A am ericanização da Turquia é m uito paradoxal, e a defesa do entretenim ento tam bém . Nós vem os os am ericanos com o m ais m odernos e m ais fortes que nós, por causa dos avanços tecnológicos e culturais. Aqui em Istam bul, por toda parte encontram os m arcas am ericanas, Starbucks, Levi’s, McDonald’s: consum im os os produtos am ericanos porque desej am os levar um a vida m elhor, e eles são o sím bolo nesse sentido. Ao m esm o tem po, querem os continuar turcos.” Volkan Ay tar tira seu casaco m odelo Woodstock (está fazendo um frio seco nesse dia em Istam bul) e recom eça: “Com o continuar sendo turcos no m undo de hoj e? Não é tão sim ples assim . Nós querem os ser ao m esm o tem po m odernos e orientais, talvez europeus, m as certam ente não am ericanos nem árabes. E então m ostram os loukoum s em nossos film es, film am os em term as públicas e reescrevem os a história turca e suas m itologias produzindo um cinem a extrem am ente autocentrado — e ninguém m ais, senão os próprios turcos, quer ver esse cinem a de arte nacional! De repente, dam o-nos conta de que nossa j uventude prefere os film es am ericanos. Os j ovens turcos voltam -se para a Am érica, gostam de ação, de velocidade, de liberdade, de m odernidade, das m oças desses film es holly woodianos extrem am ente universais, ao contrário dos nossos. Querem m ais entretenim ento, m ais cultura m ainstream . Estão se tornando am ericanos. Até as m inorias, os curdos e os arm ênios, querem m ais film es am ericanos, para escapar à opressão da elite turca. E então a gente não entende m ais nada. E de repente os europeus, im pregnados de arte, e os islam itas, obcecados com a religião, nos perguntam por que não há cam elos nos nossos film es, o que, segundo eles, os tornaria m ais autênticos, e talvez m ais m ainstream . Cam elos! Só m esm o achando graça. Nós não som os árabes. Não existem cam elos ou drom edários aqui. Só no zoológico”.