Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
5. Todos “indies”, inclusive Indiana Jones
5. Todos “indies”, inclusive Indiana Jones No escritório de David
Brooks, nos estúdios da NBC-Universal em Los Angeles, há um a m esa de pingue-pongue. Um a m esa de pingue-pongue? Brooks é o diretor de m arketing da Focus Features, um dos estúdios da Universal. E a partir da Califórnia ele supervisiona a estratégia m undial de m arkenting do estúdio.
O “lot” da Universal ocupa vários hectares à beira da rodovia I 101, bem ao norte de Holly wood. Esse terreno dos estúdios é tão vasto que ganhou aqui o nom e de um a cidade: Universal City. No interior, circulo de carro com um m apa, por avenidas que se cham am Jam es Stewart Avenue, Steven Spielberg Drive e Universal Studios Boulevard. O escritório de Brooks fica no núm ero 100 da Universal City Plaza.
Na Focus Features, o clim a é descontraído. Por toda parte, “open spaces” e “cubicles” oferecendo espaços individualizados num am biente coletivo. Na parede, um pequeno painel com o slogan: “Perm anent change” (m udança perm anente).
Brooks m e recebe de calças j eans, tênis e cam iseta. Tendo vindo da costa Leste (onde dirigia o m arketing dos estúdios Miram ax em Nova York), ele se adaptou aos traj es “inform ais”, descontraídos, do sul da Califórnia. Na direção da Focus Features, o estúdio da Universal, ele coordena o m arketing e a com unicação m undial de cerca de vinte film es por ano. Todos fazem parte da categoria de film es de “orçam ento m édio”, entre os blockbusters e os film es “indies” (independentes). A Focus Features produziu por exem plo Encontros e desencontros, O pianista, Diários de motocicleta (sobre Che Guevara), Flores partidas, O segredo de Brokeback Mountain, Milk e Aconteceu em Woodstock.
A m esa de pingue-pongue serve de espaço de reunião, onde se encontram os responsáveis pelos braços de m arketing do estúdio, vários deles em videoconferência de diferentes continentes. “Lançar um a cam panha internacional de m arketing para um film e”, diz Brooks, “é um pouco com o j ogar pingue-pongue em todas as grandes cidades do m undo. Só que a gente j oga apenas um a vez: não tem os direito de errar”.
O m ais interessante, nos estúdios Universal, é que David Brooks e a Focus Features são “independentes”.
Levei um bom tem po para entender por que todo m undo em Holly wood era ao m esm o tem po um pouco “estúdio” e um pouco “independente”. Todos “indies”, inclusive Indiana Jones, de certa m aneira.
Apesar de pertencer à Universal, a Focus Features é o que se costum a cham ar de “unidade especializada” (tam bém se diz “indie studio”’ ou ram o “film e de autor” de um estúdio). Desde a década de 1990, todos os grandes estúdios holly woodianos com praram m inim aj ors externas ou criaram em seu interior estúdios “independentes”. Fala-se às vezes da “little” Holly wood, para não confundir com a “big”. É o caso da Fox Searchlight Pictures no interior da 20th Century Fox, da Sony Pictures Classics na Sony, da Param ount Vantage dentro da Param ount, da Warner, Independent Pictures e da New Line Cinem a na Warner ou ainda, na categoria dos estúdios com prados, da Miram ax e da Pixar na Disney e m esm o, em certa m edida, da Dream Works SKG, antes na Param ount e agora com o parceira da Disney.
“Todas essas unidades especializadas são diferentes, m as geralm ente estão voltadas para a produção de film es m enos caros que os blockbusters, para públicos m ais especializados, m uitas vezes m ais internacionais, donde o seu ar independente”, explica-m e sem anas depois, em Nova York, Jam es Scham us, cofundador e diretor-presidente da Focus Features (Scham us tam bém é roteirista, notadam ente de O tigre e o dragão, Desejo e perigo e Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, e m e confessa, com a condição de que eu não repita para ninguém , que tam bém é corroteirista de O segredo de Brokeback Mountain, m esm o não tendo desej ado aparecer nos créditos).
Existem outros m otivos para esse funcionam ento com subestúdios “independentes”. Para a Focus Features, é um a questão de apostar na “diferenciação”, sem tentar atrair todos os públicos ao m esm o tem po, m as privilegiando film es de tam anho m édio, voltados para adultos, para aj udar a Universal a conquistar um a im agem m enos m ainstream e, com isso, ganhar prestígio crítico e, quem sabe, conseguir Oscars. Para a Disney, o principal é evitar a deterioração da m arca Disney, associada aos film es para a fam ília e o grande público: em vez de produzir com sua m arca film es proibidos para m enores de 17 anos por causa de im agens violentas ou sexualm ente explícitas dem ais, a Disney os lança com o selo de um a de suas unidades especializadas, com o a Touchstone Pictures ou a Miram ax. Em outros casos, a questão pode ser favorecer a criatividade lisonj eando o ego de um produtor ou de um artista que queira conservar um a im agem de “independente”, m as que ao m esm o tem po precisa do dinheiro dos estúdios: “Isto fideliza os artistas”, diz-m e Jam es Scham us. Muitas vezes, a m inim aj or perm ite assum ir m ais riscos ou contratar um ator por um cachê inferior ao que ele exigiria de um grande estúdio, e segundo o caso isso pode até perm itir exim ir-se de certas norm as sindicais. Às vezes, trata-se sim plesm ente de se abrir m ais para o cam po internacional, com um selo de aparência m enos am ericana (os film es do espanhol Alm odóvar, do chinês Zhang Yim ou, do taiwanês Ang Lee ou do m exicano Alej andro González Iñárritu foram produzidos ou coproduzidos pela Focus Features, e não pela NBC-Universal). E às vezes o subterfúgio funciona: em 2005, a im prensa europeia se entusiasm ou com a com édia Flores Partidas, de Jim Jarm ush, por representar “a quintessência da independência”, o “controle artístico total com um pequeno orçam ento” e “a arte contra o dinheiro dos estúdios”, sem se dar conta de que era um film e da Focus Features, ou sej a, da Universal, vale dizer, um belo film e, m as um film e financiado por um a m aj or holly woodiana.