Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 34 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Hong Kong, a Hollywood da Ásia

Ao m e despedir de Ellen Eliasoph, ela parece arrasada. “Não sinto raiva dos chineses, é um povo form idável. Dediquei m inha vida a eles. Só sinto um grande ressentim ento em relação ao governo.” Um a satisfação pelo m enos ela tem : tendo sido a prim eira a construir m ultiplexes na China, a Warner lançou um a m oda que m udou para sem pre a paisagem cinem atográfica chinesa. Atualm ente, um a tela de m ultiplex é inaugurada todo dia no país. Um prêm io de consolação para a Warner?

Hong Kong, a Holly wood da Ásia

“Nós tem os um bilhão de chineses; tem os o dinheiro; tem os a econom ia m ais dinâm ica do m undo; tem os experiência: serem os capazes de conquistar os m ercados internacionais e entrar em concorrência com Holly wood. Nós serem os a Disney da China.” No 19º andar da torre de vidro AIG, em 1 Connaught Road, Hong Kong, encontro-m e em salas privadas, entre um m obiliário de grande luxo e telas de m estres em todas as paredes, diante de um a im ensa j anela envidraçada com vista para Hong Kong e o delta do rio das Pérolas. Peter Lam , um dos hom ens m ais poderosos de Hong Kong, recebe-m e com tato e profissionalism o. Ele fala com clareza, articulando cada sílaba, com o se tivesse aprendido o inglês em fitas cassetes da Berlitz.

Herdeiro de um a velha fam ília da cidade, o Sr. Lam está à frente do grupo eSun, im ensa em presa m uito ativa na indústria do cinem a e da m úsica. Em bora tenha nascido em Hong Kong, ele fala em nom e da China, e eu ficaria sabendo depois que é m em bro do CPPCC, um a das instituições políticas m ais oficiais da China com unista em Beij ing (um a espécie de Senado chinês).

Ele se sente pronto para partir em busca dos m ercados culturais ocidentais. Sua prioridade é defender os “conteúdos chineses”, para usar um a expressão sua. “Hong Kong é o porto através do qual a cultura chinesa pode conquistar o m undo”, confirm a. Conhecido por suas boas relações políticas em Beij ing, Peter Lam nutre considerável am bição para seu grupo e seu país. Ele m e leva a um a sala de cinem a interna para a proj eção de um pequeno film e institucional, com o obj etivo de m e dar um a ideia do poderio econôm ico de seu grupo (o film e é ridículo, de pura propaganda, m as eficiente). “Os am ericanos não têm m ais com o crescer. Onde poderiam encontrar um crescim ento de dois dígitos? Em lugar nenhum , exceto na China, e eles fracassaram na China. Nós vam os ter sucesso.” O que Peter Lam esquece de dizer é que, por enquanto, os cinem as chinês e de Hong Kong encontram dificuldade de transcender os m ercados chineses ditos “tradicionais”, com o Taiwan, Macau, Cingapura e os países do Sudeste asiático. Faço o com entário, e ele responde citando Internal Affairs, a trilogia produzida por seu grupo que obteve em 2002 e 2003 um belo sucesso internacional (m as ele esquece m ais um a vez de especificar que foi Martin Scorsese que assinou a refilm agem , Os infiltrados, com Leonardo DiCaprio e Matt Dam on, para a Warner, que obteve sucesso espetacular quatro anos depois).

Seria m otivo de preocupação para ele a censura chinesa, que pode atingir Hong Kong, agora que o território foi reintegrado à China? “Em qualquer lugar do m undo existe censura. Para trabalhar na China, a gente tem de aceitar as regras”, explica Lam com a m aior sim plicidade, sem a m enor hesitação nem a som bra de um sorriso. Eu observo que Beij ing conseguiu a devolução de Hong Kong à China em 1997, m as que a produção de Hong Kong continua sendo considerada “estrangeira”, com o se o território se tivesse m antido independente exclusivam ente no cinem a. Em vez da expressão “Um país, dois sistem as”, com o se costum a dizer, trata-se de um a política de “dois pesos, duas m edidas”. Peter Lam concorda sem dar im portância nem entrar na discussão do tem a.

Com estúdios de grandes proporções que produzem cerca de um a dezena de longas-m etragens por ano, um a distribuidora e, nos grandes centros com erciais, dezenas de loj as de venda de DVDs, o grupo eSun é um protagonista im portante da indústria cinem atográfica na Ásia. Mas tam bém está presente na m úsica, com quatro selos, um a agência de em presariado de artistas e um ram o de produção de com édias m usicais. “Hong Kong é a capital do entretenim ento na Ásia”, explica Gary Chan Chi Kwong, que dirige o ram o de m úsica e os quatro selos do grupo eSun. “Nosso obj etivo é fazer com que nossos artistas aconteçam aqui em Hong Kong, pois então poderão alcançar todo o Sudeste asiático. Desse m odo, eles atingem o m ercado de Taiwan, a Malásia, Cingapura e sobretudo a China continental. Mas j á é m ais difícil no caso do Japão e quase im possível no da Índia.” Gary Chan Chi Kwong prossegue: “Hong Kong é um lugar onde são lançadas m odas, um trendsetter para a Ásia: quando alguém quer fazer sucesso, sej a chinês ou m alásio, de Taiwan ou de Cingapura, vem aqui para Hong Kong. Hong Kong é a Holly wood da Ásia”.

É verdade que Hong Kong conseguiu m anter um a cinem atografia influente que produz, para 7 m ilhões de habitantes, tantos longas-m etragens quanto a China, que tem 1,3 bilhão. É um a cidade-região diversificada, pela população e as línguas nela faladas; m uitos asiáticos de todas as nacionalidades passam pelo território sem precisar de visto (a com eçar pelos taiwaneses, que precisam fazer esse trânsito para entrar na China). Em Hong Kong, a segurança bancária é real, a bolsa de valores é m ais confiável que as de Xangai ou Shenzhen, as regras j urídicas, de acordo com as norm as internacionais, os direitos alfandegários e as regulam entações, lim itados, o que quase transform a o território num a zona franca. A isso se som am um a rede de m eios de com unicação capaz de gerar um buzz pan-asiático e leis de copy right bastante rigorosas, ao passo que na China os direitos autorais são constantem ente desrespeitados. Finalm ente, segundo os m uitos profissionais que entrevistei, Hong Kong não teria sofrido um aum ento significativo da censura desde a reintegração à China em 1997 (em com pensação, a autocensura seria m aior, sobretudo quando o obj etivo é atingir o público da China continental, donde a particularidade dos film es produzidos localm ente: eles têm sem pre duas versões, a versão Hong Kong e a versão “continental”). Tudo isso contribui para transform ar essa cidade singular num a capital do entretenim ento. Hong Kong é a Ásia em m iniatura — com o Miam i é a Am érica Latina em m iniatura e o Cairo, o m undo árabe concentrado.