Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
O rio da verdade
Blefe? Não tenho com o saber. Sej a com o for, aos 35 anos, Izarra j á foi duas vezes m inistro das Com unicações de Chávez, o presidente venezuelano, autoproclam ado líder do “socialism o do século XXI”. Antes, ele m e dissera ter trabalhado com o correspondente da CNN, da NBC, assim com o na televisão venezuelana. Fala fluentem ente inglês, alem ão e francês. Tam bém foi adido de im prensa na em baixada da Venezuela nos Estados Unidos. Há dois anos, foi nom eado pelo hom em forte da Venezuela para tom ar a frente de um a das redes de inform ação m ais im portantes da Am érica Latina, a Telesur. No ar 24 horas por dia, ela foi apelidada de “Tele Chávez” por seus inúm eros adversários.
A Telesur (“televisão do sul”, em espanhol) foi fundada pela Venezuela em 2005 com apoio financeiro ou logístico de seis países “irm ãos”: Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua, Uruguai e Argentina (m as não o Brasil, com o qual a Venezuela dialoga, nem o México, o Peru, o Chile, inim igos j urados, nem sobretudo a Colôm bia, considerada por Chávez, por causa de sua proxim idade com os am ericanos, a “Israel da Am érica Latina”). “Nós não som os um a rede de propaganda. Tem os um ponto de vista, o ponto de vista da esquerda. E defendem os a Am érica Latina. Durante o golpe de Estado em Honduras, a CNN Español só falava da m orte de Michael Jackson. Pois nós falam os da região. Nós nos preocupam os com a Am érica Latina. A CNN Español não está nem aí. Nós am am os a Am érica do Sul. Sinceram ente. Querem os dar voz ao Sul”, esclarece Izarra, com tato e profissionalism o. Por trás dele, um a im ensa obra de arte representando Fidel Castro; em cim a de sua m esa, um a fotografia de Castro com um boné da Telesur; e pouco m ais adiante, sobre um a m esa cheia de livros, um a foto dele com seu filho e Chávez. Fico pensando que só faltam Sim ón Bolívar e Che Guevara.
Foi o golpe de Estado em Honduras que revelou a Telesur, m ais ou m enos com o, guardadas as proporções, o ataque aéreo am ericano ao Iraque tornou a Al Jazeera conhecida no m undo inteiro. Enquanto a CNN Español, transm itindo de Atlanta, geralm ente ignora as guerrilhas de extrem a esquerda ou m arginaliza a Bolívia ou o Equador em seu noticiário, a Telesur dá notícias a respeito a todo m om ento, sem pre ao vivo. A rede dispõe tam bém de um a equipe considerável em Cuba, onde as im agens lhe são fornecidas gratuitam ente pelo escritório da Telesur em Havana, financiado por Raúl Castro.
Pergunto sobre o orçam ento ao dispor de Izarra para sua televisão neoguevarista. “Tenho 50 m ilhões de dólares por ano”, responde ele, com ar sincero. Considerando-se os quatrocentos em pregados da rede, seus 12 escritórios no exterior, transm issoras sendo instaladas em Porto Rico, Madri e Londres em 2010, para não falar dos im portantes investim entos no setor digital e na difusão por satélite, sei que esse total não é verdadeiro. E quando Izarra m e diz que Chávez nunca interfere na linha editorial da Telesur, tam bém sei que está m entindo. O presidente m ilitar é fam oso por seu program a “Aló Presidente” na televisão do regim e: todo dom ingo, um a discussão com o “povo” ao longo de quatro ou cinco horas, retransm itida em todas as redes do país a um sim ples pedido seu. “Chávez quer estar o tem po todo na Telesur, não respeita a independência dos m eios de com unicação, nem m esm o a da rede m enos independente da Venezuela”, ironiza o diretor de um a rede concorrente.
Em sua m aioria, m eus interlocutores no México, no Brasil e na Argentina frisaram o fracasso do proj eto da Telesur e sua audiência ridícula. Pergunto a Izarra sobre a questão: “Estam os m uito satisfeitos com nossa audiência. Na Venezuela, estam os na liderança em m atéria de inform ação. Em outros pontos, estam os progredindo. A Telesur ainda é um a rede j ovem , estam os no ar há apenas quatro anos. A batalha é travada nos m eios de com unicação, e na Am érica Latina todos eles são de direita. Mas a revolução bolivariana na Venezuela abriu um a porta para o futuro, um novo cam inho para a dem ocracia. Existe um novo protagonista frente às elites: os pobres. A dem ocracia cresce. Os êxitos da revolução de Chávez são consideráveis, obj etivam ente. Aqueles que haviam sido excluídos pelos ricos, pelos m onopólios, pelos conservadores, tom aram o poder. A Telesur é a rede deles”. Andrés Izarra fala depressa, m enos com o um guerrilheiro e m ais com o um m anager am ericano. É agitado, rápido, terrivelm ente eficiente, m ovim enta as m ãos, pega um de seus três telefones celulares, entre os quais um iPhone e um Blackberry, dá um a olhada no seu iMac. E retom a o fio da m eada: “Com certeza está em curso um a revolução dos m eios de com unicação neste país. A dem ocratização da inform ação é necessária. É um a guerra. Cada um deve decidir de que lado está. A oposição vai continuar nos perseguindo e nós continuarem os a proteger a revolução. Se necessário, nós os proibirem os, pois um a rede de m erda com o a Globovisión m erece ser fechada, m esm o na França ela j am ais seria autorizada. A RCTV era um a rede m onopolística. A Noticias 24 é a voz dos am ericanos na Colôm bia. Nós rom pem os o m onopólio da CNN Español. Voltam os a dar voz ao Sul. Nosso slogan é ‘Nuestro Norte es el Sur’ (Nosso Norte é o Sul). Som os o equivalente da Al Jazeera na Am érica Latina.” Izarra levanta-se de repente e dirige um olhar de ternura para as colinas próxim as do bairro de Boleíta Norte de Caracas, onde se encontra a favela Petare — um a das m aiores da Am érica Latina (na Venezuela, as favelas são cham adas de barrios).
Al Jazeera. O nom e m ágico foi pronunciado. Andrés Izarra não quer entrar em detalhes, m as eu sei que existe um im portante acordo de cooperação, pouco divulgado, entre a Telesur e a Al Jazeera. “Nós trocam os im agens”, diz ele, sim plesm ente. Mais tarde, na newsroom da Telesur, observo os j ornalistas traduzindo certos program as da Al Jazeera, facilm ente reconhecíveis pela cham a dourada. Ao se despedir, Andrés Izarra m e dá um presente: um a biografia de Sim ón Bolívar em espanhol, publicada pela editora da presidência da “República Socialista Bolivariana da Venezuela”. No corredor, agradecendo, dou com um a fotografia pendurada na parede: o célebre retrato de Che Guevara por Korda. Bolívar, Guevara, Chávez e Castro: é a quadratura do círculo do pensam ento socialista em voga em Caracas.
“Com a Telesur, querem os construir um a ponte entre a Am érica Latina e o m undo árabe”, explica-m e Dim a Khatib nessa m esm a noite, num pequeno café de um bairro chique de Caracas. Dim a dirige o escritório da Al Jazeera na Venezuela, sendo próxim a, ao que m e dizem , de Andrés Izarra e Chávez. “Chávez queria criar um a Al Jazeera na Am érica Latina e eu trabalhei com Andrés na concepção da Telesur. Chávez quer transform ar a Telesur no m aior m eio de com unicação da Am érica Latina e se inspira m uito na Al Jazeera, que conseguiu tornar-se o prim eiro m eio de com unicação do m undo árabe.”
Palestina nascida num cam po da Síria, Dim a Khatib é intérprete de form ação e fala correntem ente árabe, espanhol, inglês e francês. Ela trabalha para a rede do Catar desde sua fundação. É um a das figuras m ais conhecidas da Al Jazeera e optou por se estabelecer na Venezuela para abrir o escritório regional da rede na Am érica Latina. “De Caracas, nós cobrim os toda a Am érica do Sul. Tem os um pequeno escritório em inglês em Buenos Aires e um correspondente no Brasil, m as o grosso do trabalho é feito aqui, da Venezuela. Eu sou a única correspondente estrangeira que viaj a com Chávez. Nós nos conhecem os bem . Querem os despertar o m undo árabe e Chávez quer revolucionar a Am érica Latina. Nós nos entendem os. É o eixo Sul-Sul”, esclarece Khatib.
Com o acordo confidencial firm ado com a Al Jazeera (descrito em detalhes por dois de m eus contatos em Doha e Beirute), a Telesur tem acesso gratuito a todas as im agens que quiser dos program as da rede catarense. Segundo inform ações confidenciais, tam bém se prepara para abrir em 2010 um escritório em Doha e outro em Dam asco, com o apoio da Al Jazeera. Em troca, os correspondentes da Al Jazeera em Caracas dispõem dos estúdios da Telesur e de todos os seus recursos técnicos. As duas redes vão m ais longe? Trocam inform ações? Com certeza. Facilidades das transm issões por satélite? Provavelm ente. Dinheiro? Não, segundo m e dizem m eus inform antes (o Catar e a Venezuela são países ricos). Sej a com o for, para o deputado am ericano Connie Mack IV, o republicano eleito para o Congresso pela Flórida, “essa nova aliança entre a Telesur e a Al Jazeera tem o obj etivo de criar um a rede m undial de televisão para os terroristas e os inim igos da liberdade”.