Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
“O reggaetón une as massas latinas”
“O reggaetón une as m assas latinas”
“O reggaetón é o hip-hop dos latinos”, resum e Rafael Artero. “É um a m úsica urbana, um outro nom e para o rap latino”, prossegue. Na Latino 96,3 em Los Angeles, na Mega 97,9 em Nova York, na KLOL em Houston e em várias outras estações da Univision e do Clear Channel em Miam i, o reggaetón torna-se a m úsica dom inante por volta de 2005-6. Inicialm ente, essa m úsica — um rap em espanhol com ritm os sincopados derivados das m úsicas do Caribe — vem de Porto Rico, território pertencente aos Estados Unidos. É im portada e difundida em território am ericano pela com unidade porto-riquenha de Nova York e Orlando, na Flórida, logo im itada tam bém pelos j am aicanos. O gênero se dissem ina em seguida de um a região a outra, graças aos m ilhões de latinos que vivem nos Estados Unidos, revolucionando a cartografia tradicional da m úsica latina, até então extrem am ente com partim entada em “nichos”: m úsicas inspiradas pelo Caribe na costa Leste (tropicalism o, salsa, m erengue, bachata); m úsicas influenciadas ou derivadas dos gêneros m exicanos na Califórnia e nos estados do Sul (particularm ente a regional m exican, espécie de country m exicano, e sobretudo banda, ranchera, m ariachi, norteña); e um a m úsica m uito cubana, na Flórida. Cantado em espanhol, o reggaetón vai-se tornando assim m ais m isto, à m edida que se torna m ais m ainstream , tom ando em prestadas expressões ao “spanglish”, m eio espanhol, m eio inglês.
Na verdade, o sucesso do reggaetón explica-se pelo fato de ligar pela prim eira vez a segunda e a terceira gerações de hispânicos que vivem nos Estados Unidos com suas origens, as origens dos pais: o estilo urbano do hip-hop representa o país onde eles vivem e o ritm o caribenho, suas raízes. O j ovem latino não precisa m ais escolher entre a fam ília e a pop culture am ericana, entre a tradição e o “cool”. O que é resum ido assim por Daddy Yankee, um porto-riquenho de 28 anos que se tornou a grande estrela do gênero: “A m úsica perm ite à segunda geração sentir-se latina. O reggaetón une as m assas latinas”.
A partir do m om ento em que o reggaetón decola nos Estados Unidos, as m aj ors do disco, que até então o haviam ignorado, a pretexto de que se tratava de “um hip-hop com 25 anos de atraso” (expressão de um alto dirigente de um a das m aj ors, citado pela New Yorker), apropriam -se dele. Cabe lem brar que no início da década de 2000 a com unidade hispânica torna-se a m aior m inoria am ericana, à frente dos negros. Com o o núm ero de hispânicos aum enta três vezes m ais rápido que o resto da população am ericana (atualm ente 45 m ilhões, o equivalente a 15% da população dos Estados Unidos, tendo a m etade deles m enos de 29 anos), as produtoras de discos se polarizam nesse m ercado latino potencialm ente ilim itado. Extrapolando o possível núm ero de vendas de álbuns, a partir desse percentual crescente de latinos, os chefões das m aj ors j ulgam ter encontrado ouro “brown”. De olhos grudados toda quarta-feira de m anhã nas estatísticas da Nielsen (que fornece aos assinantes os núm eros detalhados das vendas da sem ana anterior por gênero e cidade, nos Estados Unidos e no Canadá), eles com eçam a se apaixonar pela “Hurban m usic”, fusão de “Hispanic” e “Urban”, evocando o hip-hop latino e o reggaetón. O prim eiro disco de ouro seria conquistado j ustam ente com Daddy Yankee, que vende um m ilhão de álbuns de Barrio Fino em 2004 (pela Universal), graças ao hit Gasolina. O clip m ostra um a garota que gosta de paquerar os rapazes de carro, e portanto precisa de “gasolina” — o que seria sucessivam ente traduzido com o velocidade, álcool contrabandeado, esperm a e, naturalm ente, gasolina. “Tits & ass [literalm ente, tetas e rabo] são as chaves do negócio”, diria em conversa com igo, com toda seriedade, o veterano da m úsica latina, Henry Stone, 89 anos, entrevistado em sua residência de Coconut Grove, no sul de Miam i. Agressivam ente sexual, portanto, especialm ente quando dançado corpo a corpo nos dance-floors, o reggaetón é um gangsta rap latino assum ido — j á que a língua espanhola, segundo seus defensores, perm ite m ais audácia que o inglês em solo am ericano.
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O ecossistem a m uito específico de Miam i explica em grande m edida o fato de Miam i Beach ter se tornado a capital do reggaetón e, de m aneira geral, da m úsica latina. Em Downtown Miam i, do outro lado da baía, a cinco quilôm etros de Miam i Beach, estão os bancos m ais ricos de toda a Am érica Latina. É lá que as estrelas do México, os exilados cubanos, os venezuelanos anti-Chávez e os m afiosos brasileiros ou uruguaios depositam seu dinheiro, com m aior ou m enor segurança.
Em Miam i há tam bém estúdios de gravação de grande qualidade — herdados da era do Miam i Sound, o soul e o rock locais da década de 1970 —, que atraem os m úsicos, e não só no universo da m úsica “latino”. Muitos grupos am ericanos de R& B ou rap, e frequentem ente tam bém os britânicos que querem gravar com calm a, longe de Londres, têm encontro m arcado nos estúdios de Miam i. Há tam bém os ram os das m aj ors especializados na distribuição de CDs e DVDs, atualm ente em grande dificuldade, m as sem pre estruturados em Miam i.
“Além do m ais, existe todo o trabalho j urídico, que é feito de acordo com as regras am ericanas em Miam i, ao passo que na Am érica Latina é m uito pouco confiável”, explica Rafael Artero. “Por exem plo, a negociação dos direitos, a gestão do copy right, a redação de contratos internacionais extrem am ente com plexos. É aí que está a força dos Estados Unidos, o que explica o papel determ inante de Miam i para toda a Am érica Latina.” Menos conhecidas, algum as subvenções públicas tam bém são oferecidas em Miam i às indústrias do entretenim ento, especialm ente créditos fiscais, e há ainda o sistem a de “zoning”, que facilita a transferência para Miam i Beach de em presas am ericanas ou estrangeiras. Na Universal Miam i, Ivan Alvarez confirm a essas hipóteses: Na Venezuela, não existe estabilidade política ou econôm ica, e há a presença de um a forte crim inalidade; na Colôm bia, ninguém tem m uita segurança quanto aos bancos; no México, os direitos autorais não são protegidos e o CD com prado pela Am azon nunca chega; na Argentina, as taxas de câm bio são artificiais; no Brasil, existe tensão social e m uita corrupção; por toda parte, faltam redes de televisão, agências de talentos, a im prensa m usical e os sites de Internet capazes de gerar um buzz internacional. Só Miam i atende a nossas necessidades. Miam i é a Am érica Latina sem crim inalidade nem corrupção.