Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Do “suburb” à “exurb”

Na década de 1950, o agrobusiness do m ilho identifica nas salas de cinem a um desaguadouro potencial para os excedentes da produção. Um a ofensiva com ercial é lançada visando os exibidores, todos desej osos de vender m ais pipoca e que recebem em troca cam panhas publicitárias para suas salas. Cam panhas para prom over a pipoca.

Já frequente nos drive-ins, a pipoca se generaliza nos m ultiplexes. Os balcões de venda aum entam de tam anho, assim com o as porções — e os preços acom panham devidam ente. Um dos gerentes do AMC Mall of Am erica 14, com o qual converso em Minneapolis, m e explica que a rentabilidade dos cinem as depende m enos das entradas e m ais das concessões, cuj as receitas são integralm ente em bolsadas pelo exibidor. Segundo ele, cada espectador gasta em m édia 2 dólares em pipoca. “Os film es de ação vendem m ais”, diz ele. Noventa por cento da receita são apurados antes do início do film e, 10% durante o film e e nada no fim . “Os espectadores nunca consom em ao ir em bora”, lam enta o gerente.

Um a das principais redes de m ultiplexes, o gigante Cineplex-Odeon, logo com pra um a m arca de pipoca, a Kernels Popcorn Lim ited, o que lhe perm ite vender pipoca em seus cinem as com um a m argem de lucro ainda m aior. Com enta um a das atendentes do AMC Mall of Am erica 14, em tom de brincadeira: “Qualquer dono de sala cinem a precisa antes de m ais nada encontrar um bom lugar para vender pipoca, e depois construir um m ultiplex em volta.”

Do “suburb” à “exurb”

No cruzam ento das rodovias 405 e 55, o Edwards Metro Pointe 12 é um m ultiplex típico que pertence ao grupo Regal Entertainm ent. Estou em Orange County, a sudeste de Los Angeles, entre o oceano Pacífico e as m ontanhas de Santa Ana, num tipo de área hoj e conhecido nos Estados Unidos com o “exurb” (a palavra deriva de “extra-urbia”, e tam bém se fala do fenôm eno da exurbia). A exurb representa a cidade ao infinito, um a cidade que não para de crescer. É aqui que tem os de buscar hoj e em dia, entre as rodovias de 18 pistas e diferentes níveis que dão voltas no céu, as chaves da cultura de m assa am ericana.

No início era o “suburb”, o subúrbio. Entre 1950 e 1970, as cidades am ericanas ganham 10 m ilhões de habitantes, e seus subúrbios, 85 m ilhões. Folheando edições antigas da revista Life, tem os um a ideia do que representou o ideal do suburb para a classe m édia am ericana da década de 1950. Em suas páginas, encontram os m áquinas de lavar roupa de grande capacidade, geladeiras gigantes e carrinhos de bebê para gêm eos e às vezes trigêm eos. Gram ados im pecavelm ente aparados. Vem os tam bém o surgim ento do faça-você-m esm o e um a fam ília transportando um a cozinha pré-m ontada presa ao teto de um pequeno Ford, pouco antes de a Hom e Depot transform ar os subúrbios em im ensas loj as perm anentes de quinquilharias. Vem os os pais sonhando com um a fam ília de 2,5 filhos (m as eles acabariam tendo quatro ou cinco, com o baby -boom ). E tam bém m uitas experiências com unitárias, envolvendo os esportes, as escolas, as igrej as. O suburb não é nem um kolkhóz nem um kibutz, m as na época ainda tem um certo lado “socialista”. Que viria a desaparecer com a exurb.

Se o suburb foi o grande lance da década de 1950, com a proliferação dos drive-ins nos subúrbios próxim os, a exurb é o grande lance da Am érica contem porânea, com seus m ultiplexes nos subúrbios distantes. No caso do suburb, ainda se perm anecia no prim eiro anel ao redor da cidade: em geral, as pessoas continuavam a trabalhar no centro, a dem andá-lo para ir ao restaurante e ao cinem a, e só voltavam para o subúrbio à noite. O elem ento novo, aquele que por assim dizer define a exurb, é o deslocam ento do m ercado de trabalho: a exurb é fundam entalm ente diferente do suburb, pois os am ericanos vivem e trabalham nela. E, naturalm ente, tam bém nela cultivam o lazer. À m edida que as exurbs se desenvolvem , são acom panhadas pelos cinem as.

Esse fenôm eno com eçou na década de 1940, m as se acentuou na de 1970 e se generalizou nos anos 1980 e 1990 graças às novas tecnologias de aceleração e sim plificação das com unicações. É o m odelo de Los Angeles: em vez de construir cidades verticais, com o em Nova York, onde o espaço era reduzido, construíram -se cidades horizontais. Quase sem pre a exurb nasceu nos arredores distantes das cidades, no cruzam ento de duas autoestradas, um a em direção norte-sul (sem pre com um núm ero ím par nos Estados Unidos), a outra na direção leste-oeste (com núm ero par). Em todo lugar, fosse em Phoenix, Denver, Houston, Miam i, Dallas, Austin, Atlanta, pude ver cidades espalhadas por centenas de quilôm etros, com diferentes centros. Não raro, encontrava nelas uniform idade: as m esm as loj as de departam entos culturais (Barnes & Noble, Borders, HMV, Blockbuster), as m esm as m arcas (Sears, Km art, Saks, Macy ’s, Gap, Banana Republic), frequentem ente os m esm os restaurantes populares (Burger King, Popey e’s, McDonald’s, Wendy ’s, Subway, The Cheesecake Factory e as três “franquias” pertencentes à Pepsi-Cola: Kentucky Fried Chicken, Taco Bell e Pizza Hut). E praticam ente por toda parte, claro, encontrei sem pre, com o se fossem verdadeiras réplicas exatas, um café Starbucks e um superm ercado Wal-Mart. Uniform idade, autom óvel e shopping-m all: a Am érica se j ulgava diferente e descobre ser banal.

Mas o fato é que essa aparente conform idade esconde coisas surpreendentes. Nas exurbs, deparei-m e com tudo e o contrário de tudo: livrarias j aponesas, consultórios dentários de lésbicas, teatros latinos, loj as de sandálias tunisinas ou de cerâm ica africana, lavanderias chinesas que fazem publicidade em m andarim , um Trader Joe’s para vegetarianos, um fast-food brasileiro que não poderia deixar de vender o “USA n. 1 Donuts”, um a loj a de DVD especializada em Bolly wood e restaurantes kosher ou halal. Encontrei m ais diversidade do que se poderia im aginar, m enos conform ism o, m enos m ediocridade cultural e hom ogeneidade do que afirm am os intelectuais nova-iorquinos que desde a década de 1950 botam a culpa de tudo no suburb e j á agora na exurb. Atualm ente, as cidades com m ais telas de cinem a por habitante não são Nova York nem Boston, m as Grand Forks (Dakota do Norte), Killeen-Tem ple (Texas) e Des Moines (Iowa). Exurbs.

Quando entram os, por exem plo, em Atlanta, cidade da Coca-Cola e da Hom e Depot, pela autoestrada I 75, atravessam os exurbs nas quais se sucedem m ultiplexes, m alls, fast-foods e hotéis baratos ao longo de aproxim adam ente 50 quilôm etros, antes de chegar finalm ente ao centro da cidade, que é um gueto, deserto, abandonado e ocupado sobretudo pelos negros (Martin Luther King ali nasceu e foi enterrado). Na década de 1990, a cidade de Atlanta ganhou 22 m il habitantes, e sua exurb, 2,1 m ilhões.

Com a exurb, o subúrbio do subúrbio, os habitantes m udaram do prim eiro anel dos subúrbios para o segundo ou terceiro, e — o que é im portante — não transitam m ais pela cidade. Com o distanciam ento, tudo m uda. Diante da congestão autom obilística, dos problem as de estacionam ento, da falta de escolas, do preço da habitação e das baby -sitters, da poluição, às vezes tam bém da droga e da violência, os am ericanos fugiram do centro das cidades. O filósofo George Santay ana ficou conhecido por ter dito que “os am ericanos não resolvem os problem as: deixam -nos para trás”.

Nova fronteira am ericana, a exurb não precisa m ais da cidade, não é m ais um subúrbio, m as um a nova cidade. Se o suburb no fim das contas reforçava a necessidade de um a cidade, reafirm ando sua suprem acia, a exurb pura e sim plesm ente a anula. Noventa por cento dos escritórios construídos nos Estados Unidos na década de 1990 surgiram nas exurbs, quase sem pre em “office parks” ao longo das rodovias, e não m ais no centro das cidades. E a cultura tam bém se instalou nesses subúrbios distantes à m aneira de Steven Spielberg: o m ultiplex é o cinem a da exurb.

Quando a Coca-Cola com pra o estúdio Colum bia A três m il quilôm etros de

Atlanta, em direção oeste, encontra-se Mesa, Arizona. A cidade tem quinhentos m il habitantes, m ais que Atlanta, m as não é m uito conhecida. É lá que encontro Gerry Fathauer, diretora do novo centro cultural da nova cidade. Mesa é um a típica exurb. É tam bém a terceira m aior cidade do estado, depois de Phoenix e Tucson. “Daqui a dez anos, serem os a núm ero dois”, prevê Gerry Fathauer. Mesa cresce para leste, no deserto. A poucos quilôm etros, as reservas indígenas, especialm ente a dos apaches. Diz-m e Fathauer: “Mesa é um a cidade que se desenvolve à velocidade de um cavalo galopando”. Desde que a ouvi, não consigo deixar de pensar nessa expressão.