Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
As novelas conquistam a América (do Norte e do Sul).
Tendo participado de m uitas novelas do Ram adã, o célebre ator sírio Jihad Saad defende m ais o sistem a, m ostrando-se algo perplexo com as m udanças em andam ento: “Para que serve a abertura síria? Para se abrir aos am ericanos? Para fazer com o os am ericanos?”.
Recém -chegada ao m undo da produção audiovisual árabe, a Síria faz figura de concorrente em relação ao Egito, com suas quase cinquenta séries anuais de televisão. Aposta na ousadia, pois apesar das regras drásticas da ditadura síria sabe que só conseguirá se afirm ar através de tem as atuais, das film agens em exteriores e dos riscos que se dispõe a assum ir. O regim e finge que não vê. O sucesso econôm ico de exportação dos produtos dessa indústria criativa que vai ganhando espaço no m ercado do m undo árabe provavelm ente tem a ver com essa liberdade controlada, nada perm itindo prever do futuro. Por enquanto, à falta de um a dem ocracia política e de liberdade nos m eios de com unicação, a m odernização da Síria, concorrente do Egito, depende das séries de televisão. Até quando?
As novelas conquistam a Am érica (do Norte e do Sul) Estou num restaurante
indiano com produtos de confeitaria de plástico, um a atriz envolta num sári, um a garçonete que interpreta várias vezes seu papel a pedido de um diretor que parece m eio im paciente. Ficam os entendendo que a atriz se apaixonou por um intocável depois de a fam ília ter organizado um casam ento arranj ado. Lá fora foi construída um a rua de Jaipur, cidade do Raj astão, com lavanderias, um tem plo indiano e até um cinem a no qual é proj etado, a j ulgar pelo cartaz, Jodhaa Akbar, film e recente de Bolly wood, com a estrela Ashwary a Rai Bachchan. Para a film agem da novela televisiva Caminho das Índias, o diretor exigiu inclusive que fosse recriado um trecho do Ganges, m obilizando centenas de operários. E o Ganges está ali, no cenário. Com o se corresse em Jaipur.
Única particularidade: no set de film agem , fala-se português. Pois estou no Rio de Janeiro, Brasil, nos estúdios da TV Globo. Caminho das Índias é um a novela que, escrita conform e vai sendo realizada, j á é avidam ente acom panhada por m ilhões de brasileiros todas as noites da sem ana, à espera de um novo episódio, com o o que está sendo film ado diante de m im . E cuj o tem a é a Índia.
Situados um a hora a sudoeste do Rio, os estúdios do Proj ac (o nom e oficial é Central Globo de Produção) espraiam -se por 130 hectares e dez estúdios, quatro deles inteiram ente dedicados às novelas brasileiras. Com 2.500 horas de program as rodados todo ano, esses estúdios pertencem à gigante TV Globo, um a das quatro redes m ais poderosas do m undo. Estam os no coração da indústria brasileira de entretenim ento.
“Se quiser saber o que eram os estúdios am ericanos na época de ouro de Holly wood, vej a o que fazem os aqui”, diz com certa ironia Guel Arraes, diretor, roteirista de sucesso e atual diretor de núcleo da TV Globo. Com o a m aioria dos técnicos e atores de novelas, ele é assalariado. Trabalha-se para a Globo o ano inteiro, e não por contrato, para um a novela específica. Com o em Holly wood na década de 1930.
Durante um dia inteiro, eu percorro os estúdios da TV Globo a bordo de um “carro elétrico” (um cart de golfe brasileiro) pilotado por Edson Pim entel, diretor-executivo dos estúdios Proj ac. No local de film agem , vej o um a falsa favela, um heliporto, um a igrej a com cada lado representando um estilo diferente (gótico, barroco, rom ano), um quartel de bom beiros (verdadeiro), um cenário de Fez e outro de Miam i, e, naturalm ente, um a rua de Jaipur à beira do Ganges. Em sua m aioria, esses cenários são m ontados sobre rodas para serem deslocados, reposicionados, alinhados. Estou num a autêntica usina de sonhos sobre rodas. Mais tarde, visito a oficina de costura, onde se encontram 65 m il costum es, cada um com um código de barras, alinhados ao longo de quilôm etros.
A TV Globo transm ite seis episódios de cada novela por sem ana e até cinco novelas por dia, três delas inéditas, às 18, 19 e 21 horas, além de m inisséries por volta das 22 horas. Diariam ente, por volta das duas da tarde, são retransm itidas novelas de tem poradas anteriores. “Tem os portanto de produzir aqui cerca de vinte episódios por sem ana. É m atem ático”, diz-m e Pim entel. Que acrescenta: “E nós levam os ao ar um a sem ana depois da film agem . A novela é um produto fresco”.
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Produto fresco? Certam ente. Mas tam bém um produto sendo constantem ente adaptado, de tal m aneira o gênero foi rem endado e precisa m udar. Guel Arraes recapitula: “A novela é um a instituição no Brasil. Sej a no interior ou nas favelas, todo m undo assiste à novela da noite, a m ais popular, a das 21 horas, depois do Jornal Nacional das 20 horas, que ainda é visto pela m aioria dos brasileiros”. O tem a? “Grosso m odo, é a história de um casal que quer se beij ar m as que ao longo de quase duzentos episódios não tem autorização do roteirista. Dá para entender a im paciência do casal — e dos telespectadores. Enquanto isso, existem infinitas intrigas secundárias que m antêm o suspense — elem ento decisivo da novela.” Era este o m odelo. Que está em plena transform ação. Guel Arraes volta a explicar: “Mas os tem pos m udam . Para a exportação, passam os a reduzir o núm ero de episódios a cinquenta/sessenta, m uitas vezes elim inando as intrigas secundárias, para conservar apenas a ‘m ain story line’” (a história central, Arraes utiliza a expressão inglesa). Com ento então que sessenta episódios para conseguir um beij o ainda é bastante longo.
De um país a outro, as novelas variam m uito, no estilo e no espírito. “A novela brasileira é m enos m elodram ática que a dos outros países da Am érica Latina”, prossegue Guel Arraes. “Querem os ser m ais realistas, os atores interpretam seus papéis de m aneira m enos exagerada, sem super-representar. Não tem os necessariam ente um a m ulher de presença forte aparecendo de repente com as m ãos no ar no alto da im ensa escada na entrada da casa, sím bolo de riqueza e diferença social, gritando ‘Dios m ío!’.”
O Brasil foi o prim eiro país a program ar suas novelas em prim e tim e, num a época em que elas ainda estavam confinadas aos horários da tarde nos outros países da Am érica Latina, destinadas a um público de donas de casa. E o resultado foi espetacular, especialm ente com um a forte audiência m asculina. “No México, as telenovelas são m ais tradicionais, m ais m elodram áticas e portanto m ais conservadoras: a heroína é pura, branca, sem pre boa, sofredora, um a santa. Na Venezuela, as telenovelas são puro entretenim ento, e, paradoxalm ente, tratando-se do país de Chávez, m ais liberais. Na Colôm bia, recorre-se a fatos reais para fazer telenovelas policiais ou fantásticas. Na Argentina, a heroína tam bém sofre, m as pode revelar-se perversa, fazer j ogo duplo e no fim das contas ser m á. Ousam os abordar tem as polêm icos. Rom pem os um pouco os esquem as esperados”, resum e Victor Tevah, diretor-adj unto de um a im portante em presa de produção de telenovelas argentinas, a Pol-Ka, situada no bairro hip de Palerm o, em Buenos Aires.
No Brasil, film a-se m uito em externas, pelo m enos 40% da série, não raro no exterior, ao passo que no México, por exem plo, as telenovelas são feitas sobretudo em estúdios. O custo é m ais elevado, m as o resultado são im agens m ais coloridas e verossím eis.
A especificidade das nossas novelas está no fato de serem film adas à
m edida que vão ao ar, o que nos perm ite m odificar a história em função das
reações do público e dos níveis de audiência. Sobretudo, a história continua,
não é com o num a série de televisão am ericana, na qual cada episódio conta
um a história inteira: no Brasil, é preciso ver os 180 episódios para conhecer
a história toda, o público é m ais fiel e m ais leal —, explica Edson Pim entel,
o diretor-executivo dos estúdios da TV Globo.
As novelas brasileiras são longas, portanto, tendo geralm ente algo em torno de 170-180 episódios na TV Globo, 250 na TV Record, e quando faz sucesso a novela pode ser prolongada indefinidam ente (o m áxim o até hoj e foram 596 episódios). Sej am com édias, dram as ou sobretudo m elodram as, os tem as nelas abordados são m uito variados, não raro ligados a problem as pessoais e sociais: disfunções de fam ília, dificuldades do casal, revelação de um filho ilegítim o. Elas tam bém abordam a vida nas favelas, a droga, o alcoolism o, a corrupção. Com o se concentra nas m aiores capitais, São Paulo e Rio, o m ercado publicitário não deixa de influir no conteúdo: “Com o o público das grandes cidades é m ais aberto em questões de sociedade, de sexualidade, de hom ossexualidade, as novelas brasileiras são m ais m odernas, m ais ‘edgy ’, é sim ples assim ”, confirm a Luigi Baricelli, astro que entrevistei no restaurante da rede e que diariam ente apresenta ao vivo, na TV Globo, o program a Video Show.
A TV Globo, rede privada, não é a única produtora de novelas no Brasil, em bora dom ine o m ercado. De outra feita, encontro-m e com o célebre roteirista Tiago Santiago, que dirige as novelas da TV Record, rede concorrente da Globo, próxim a dos evangélicos e financiada sobretudo pela Televisa, a gigante m exicana. “Com o todo m undo, eu venho da TV Globo. Mas a concorrência é sadia: na nova tem porada, nós vam os apresentar três novelas por dia.” Com o roteirista, Tiago Santiago coordena um a equipe de oito coautores: Nós escrevem os j untos, obedecendo a um planej am ento diário perfeitam ente azeitado: de m anhã cedo eu escrevo um resum o da cena que vam os fazer no dia, inspirando-m e sobretudo em notícias dos j ornais; em seguida, envio o texto por e-m ail para m eus colaboradores, que trabalham em casa. Nós dividim os as tarefas, cada um escreve sua parte. No m eio do dia, toda a equipe m e envia o que foi escrito. Unificam os então a intriga, corrigim os, e no fim do dia tem os cerca de cinquenta páginas prontas, com em oções e m inissaias. A cena que estam os escrevendo esta sem ana será film ada na sem ana que vem e irá ao ar na sem ana seguinte. Com isso, podem os acom panhar de perto o noticiário e as expectativas do público.
E, por sinal, Tiago Santiago m e explica que sua renda depende da audiência da novela, aum entando o seu salário-base de acordo com o desem penho da série. “No fim do dia, o sucesso é m edido de m aneira m uito sim ples: você foi capaz de criar novelas a que as pessoas tenham vontade de assistir?”
Na entrada, um im enso m apa-m úndi com um a televisão no interior: o logotipo da TV Globo. Estou na sede histórica do grupo, m uito distante dos estúdios, perto do Jardim Botânico, no Rio. Luiz Cláudio Latgé, um dos diretores da Globo, atualm ente à frente do canal de inform ação contínua, m ostra-se entusiástico: As novelas da TV Globo contribuem para unir o país no plano linguístico e social. A fam ília inteira, todas as classes econôm icas se reúnem ao redor da novela da noite. O Brasil tem quase 200 m ilhões de habitantes, é um gigante, o único na Am érica, j untam ente com os Estados Unidos. Nossa program ação é transm itida por 120 estações em todo o Brasil, e nossas novelas são vendidas em um a centena de países. É um sucesso espetacular, levando-se em conta que falam os português, um a língua de pouca penetração no m undo.
Na realidade, o Brasil é um recém -chegado ao m ercado de trocas culturais internacionais. Trata-se de um país ainda em ergente no audiovisual, pois, se as novelas brasileiras são vendidas há m uito tem po, só há pouco são realm ente rentáveis. “Ainda som os um m ercado j ovem no entretenim ento”, confirm a Luiz Cláudio Latgé. “O público com poder aquisitivo significativo, aquele que é visado pelos publicitários, é da ordem de apenas 6 m ilhões de pessoas no Brasil. Não é, portanto, um m ercado m aduro. Mas, se tom arm os o exem plo dos telefones celulares — m ais de m etade da população os possui atualm ente —, as perspectivas de crescim ento são claras. As pessoas com poder aquisitivo significativo devem passar em breve de 6 a 100 m ilhões. Vam os nos tornar um a form idável potência econôm ica, e os recursos do entretenim ento e da m ídia vão decuplicar. Muito em breve o Brasil não será m ais um país em ergente: j á terem os em ergido”, conclui Luiz Cláudio Latgé, todo sorrisos.
Os m ercados das novelas brasileiras são m uitos. Há, para com eçar, os países hispânicos, e desde o início as séries são gravadas em duas versões: portuguesa para o Brasil, espanhola para exportar para a Am érica Latina (m as pouco para a Espanha, onde as novelas brasileiras não têm m uito público). O m ercado hispânico principal, nessa região, continua sendo o México, por seu tam anho. A Argentina é um m ercado m ais lim itado, que no entanto indica tendências, representando um bom teste para os outros países. O m ercado lusófono lim ita-se a Portugal, m as é um cliente fiel, im portante para a TV Globo do ponto de vista sim bólico, em bora econom icam ente pouco significativo. Para além dos países da Am érica Central e da Am érica do Sul, consum idores interm itentes de novelas brasileiras, em função de sua própria produção, existe o m ercado latino dos Estados Unidos. Nesse nicho, os m exicanos levam vantagem num érica e estilística; m as a TV Globo assinou um im portante contrato de parceria com o canal am ericano Telem undo, por cinco anos, para difundir seus produtos dublados em espanhol.
Há tam bém os países da Europa central e oriental, grandes consum idores de novelas. A Rom ênia, por exem plo, tem um canal, Acasa TV (“Em casa”), am plam ente dedicado às telenovelas sul-am ericanas. Os produtos brasileiros, colom bianos e venezuelanos são os que funcionam m elhor na Rom ênia. Motivo? “Na Rom ênia, as ‘telenovelas’ surgiram logo depois de 1989, com o um a espécie de exorcism o do prim eiro ‘reality show’ que foi a revolução rom ena”, explica o crítico de cinem a rom eno Alex-Léo Serban. “Essas novelas têm na Rom ênia um público m aj oritariam ente fem inino, não m uito culto. Certas m am ães ‘telenovelófilas’ chegam inclusive a batizar os filhos com o nom e dos protagonistas.” O fato de a Rom ênia ser um país latino, com um a língua próxim a do italiano, sem dúvida facilita essa identificação. Mas resta o fato de que as novelas brasileiras tam bém funcionam na Rússia, na Polônia, na Sérvia e na República Tcheca, confirm ando o alcance do fenôm eno. “Os países do Leste e a Rússia representam atualm ente 70% de nossas vendas”, confirm a, em Buenos Aires, Michelle Wasserm an, que com ercializa as telenovelas argentinas do canal Telefe.
Os russos preferem nossas telenovelas por opção ideológica, pois elas não
são am ericanas, e tam bém porque nossos atores são m ais ‘brancos’, têm
aparência m ais europeia do que os das séries m exicanas e brasileiras, e é
m ais fácil para os russos se identificar com eles. E é por sinal isso que faz
nossa força na Europa, e às vezes tam bém na Am érica Latina, pois os
hispânicos adoram atrizes louras de olhos azuis.
O sucesso das novelas brasileiras tam bém é grande no Oriente Médio e no Magreb, de m aneira bastante sem elhante à dos dram as coreanos. Algum as novelas foram gravadas no Marrocos, o que certam ente serviu de apelo para o público árabe. Muitos ingredientes estrangeiros, especialm ente árabes, foram incorporados às novelas brasileiras nos últim os anos, o que tam bém terá contribuído para sua difusão. Mas a chave do sucesso com ercial de exportação das novelas ainda é o preço. A Globo distribui suas novelas a preço cam arada; em relação às séries am ericanas, chega a ser hard discount. “Nós preferim os com prar novelas brasileiras, em vez de séries am ericanas, por causa do preço”, explica-m e Sally Messio, diretora de program ação e apresentadora principal da Televisão Nacional de Cam arões (CRTV), durante m inha visita às instalações dessa estação estatal. “Não com pram os os program as diretam ente do Brasil, m as através das distribuidoras com sede em Abidj an ou Dakar”, acrescenta. A Discop, em Dakar, é um a feira especializada na qual os países africanos se abastecem de séries de televisão, com o acontece com a Discop de Budapeste, para a Europa central e oriental, a BCWW na Coreia do Sul, a ATF em Cingapura e, naturalm ente, a MIP-TV em Cannes, no caso dos m ercados europeus clássicos. “Existem m uitos lugares exóticos, não raro feiras profissionais, onde funciona esse m ercado de séries de televisão. É realm ente um m ercado internacional. Mas a m aioria das com pras é feita anualm ente nos Estados Unidos, na LA Screenings de Los Angeles e na NATPE de Las Vegas”, explica Michelle Wasserm an, a diretora internacional de vendas da Telefe em Buenos Aires. Globalm ente, de acordo com os dados da TV Globo, 104 países com pram novelas brasileiras produzidas pela Globo. É a m aior exportação cultural do Brasil.
Ao deixar o Rio, surpreendo-m e ao constatar que o m otorista de táxi, enquanto dirige, olha com frequência para um a tela digital instalada na parte direita do console do carro. Fico m e perguntando se está de acordo com os critérios de segurança, m as os m otoristas brasileiros não têm m edo de nada. O m otorista volta-se para falar com igo ao m esm o tem po que dirige, e diz que gosta m uito da novela que está no ar. Pergunto-lhe qual é, e ele responde: “Caminho das Índias”.
Meses depois, estou no México, na sede da Televisa. Para entrar nesse im pério do entretenim ento, tem os de passar por um a portinha à beira de um a estrada. Na parte externa do prédio, o logotipo inconfundível da Televisa, um im enso sol am arelo. Lá dentro, é um a fábrica. Tudo é tão grande e tão rápido que, segundo m e relata Rodrigo Arteaga, o diretor-adj unto da Televisa, “os atores nem têm tem po de decorar o texto ou se aprofundar no papel, aqui eles usam fones de ouvido com o ponto para os diálogos”. Eu assisto à gravação da telenovela Atrévete a soñar: o ator principal, um astro m exicano adorado pelas m ultidões, está de pij am a na cam a. Um desses fones de ouvido m e é trazido e eu ouço o ponto. “Eu vou m orrer depois dessa cena?”, pergunta de repente o ator ao diretor. Ele não se lem bra m ais do script da telenovela de que está participando, de tal m aneira circula entre as cenas de diferentes novelas gravadas aleatoriam ente. Mais tarde nesse m esm o dia, estou no Centro de Educación Artística da Televisa: é a escola de atores dos próprios estúdios, na qual assisto às aulas. Durante três anos, nove horas por dia, os alunos aprendem a dançar, cantar, representar. A form ação baseia-se num a cultura física m uito desenvolvida e a seleção, partindo de sete m il candidatos, leva até o fim apenas 25 diplom ados escolhidos a dedo. Fico fascinado com o fato de a Televisa tom ar tanto cuidado com a form ação de seus atores. À noite, vendo na televisão um episódio da novela a cuj a film agem assisti, constato que ele é constantem ente interrom pido por anúncios. Fico então sabendo que a Televisa é um a rede m ainstream de publicidade, com novelas nos intervalos.
O m ercado internacional de telenovelas representa atualm ente um a guerra cultural entre a m aioria dos países da Am érica Latina, conduzida por poderosos grupos de m ídia. A concorrência é tanto m ais exacerbada na m edida em que não existe um a rede com um aos países da Am érica Latina, com o a Star TV na Ásia ou a Al Jazeera no m undo árabe. O gigante brasileiro TV Globo enfrenta o gigante m exicano do entretenim ento Televisa, m as tam bém a Telefe na Argentina, a RCN na Colôm bia e a Venevision na Venezuela (que tem a particularidade de produzir suas telenovelas em Miam i, em parceria com a am ericana Univision). Todos esses grupos tam bém estão em concorrência no m ercado m ais rentável: o dos latinos que vivem nos Estados Unidos, j á cortej ados pelas cadeias am ericanas em espanhol, a Telem undo e a Univision.
Com 45 m ilhões de hispânicos em solo am ericano, para não falar dos 10 a 15 m ilhões de im igrantes ilegais, m aj oritariam ente m exicanos, os Estados Unidos são atualm ente o segundo m aior país hispanófono do m undo, depois do México m as antes da Espanha. Esse m ercado “latino” dos Estados Unidos é essencial para os produtores de telenovelas. Trata-se de um público potencial m uito m aior que o da m aioria dos outros países da Am érica Latina, à exceção do México e do Brasil. E sobretudo um alvo publicitário ideal, de forte poder aquisitivo. Todos os protagonistas dessa indústria têm portanto os olhos voltados para Miam i e Los Angeles, capitais exógenas da Am érica Latina.
Por enquanto, o líder do m ercado é incontestavelm ente a Univision, que tem sede social em Nova York, m as estúdios em Miam i. A cadeia atrai 90% da audiência latino-am ericana, especialm ente na costa Oeste e no sul dos Estados Unidos, graças às telenovelas com pradas ao gigante m exicano Televisa, seu parceiro privilegiado para os Estados Unidos. Com três quartos de sua program ação dedicados às telenovelas, a Univision dirige-se sobretudo aos m exicanos-am ericanos, estim ados em m ais de 29 m ilhões em solo am ericano (sem incluir os ilegais, estim ados em pelo m enos 11 m ilhões, ou sej a, m ais de 40 m ilhões de telespectadores potenciais no total). A rede tem com o alvo em particular os im igrantes recentes, ainda presos à cultura do país de origem , e seus filhos, a prim eira geração de m exicanos-am ericanos, ou sej a, a com unidade num ericam ente m ais significativa. Nos estúdios da Univision em Miam i é que são gravados sem analm ente os célebres talk-shows da cubano-am ericana Cristina Saralegui, espécie de Oprah Winfrey latina, assim com o o espetáculo de variedades Sábado Gigante, program as que são retransm itidos em “sy ndication” por várias redes latinas de televisão nos Estados Unidos e na Am érica Latina.
Mas a concorrência é dura: a Telem undo, que desde 2002 pertence à NBC-Universal e atinge apenas 10% da audiência, vem avançando acentuadam ente na costa Leste. Ao contrário da concorrente, a Telem undo visa o público hispânico em toda a sua diversidade, particularm ente os j ovens latinos bilíngues de segunda e terceira gerações. Obcecada com a ideia de conquistar partes do m ercado à líder Univision, a Telem undo vem tentando de tudo há cerca de dez anos para com pensar o atraso: com eçou inicialm ente a produzir em espanhol refilm agens de séries am ericanas fam osas, com o Starsky & Hutch ou As Panteras, convencida de que os latinos j á estavam suficientem ente am ericanizados para querer séries am ericanas, m as continuando hispânicos o bastante para desej á-las em espanhol. Ledo engano. Os latinos queriam Friends em inglês e sua telenovela em espanhol: a audiência desm oronou. A segunda tentativa da Telem undo foi com prar novelas originais às redes brasileiras, com o a TV Globo, argentinas, com o a Telefe, ou colom bianas, com o a RCN, e naturalm ente tam bém ao concorrente da Televisa-Univision no México, a TV Azteca. Dessa vez, a audiência cubana, porto-riquenha e colom biana aderiu, m as não a dos m exicanos-am ericanos — o único m ercado que interessa. Estes continuaram preferindo m aciçam ente a outra rede. Segundo fracasso. Mais recentem ente, a Telem undo adotou um a outra estratégia, pesadam ente financiada pela NBC: produzir telenovelas originais em seus próprios estúdios de Miam i, com o obj etivo de privilegiar tem áticas preferidas pelos m exicanos-am ericanos, m as ao m esm o tem po adicionando um a dim ensão sobre sua própria vida nos Estados Unidos (o que as telenovelas m exicanas da Televisa transm itidas pela Univision não podem fazer). A m úsica era encom endada a grupos m exicanos-am ericanos, o sotaque latino dos atores foi de certa m aneira neutralizado e com eçaram a aparecer nos enredos tem as específicos, com o o racism o anti-hispânico ou a im igração ilegal nos Estados Unidos. O sucesso do novo form ato é relativo, m as a audiência aum enta de form a encoraj adora. Mais recentem ente ainda, num lance teatral digno de um a telenovela, a Telem undo e sua poderosa proprietária, a NBC, conseguiram rom per parcialm ente o acordo de exclusividade entre a Univision e a Televisa: agora o concorrente pode adquirir as séries m exicanas da Televisa para a audiência “latino” dos Estados Unidos, m as tam bém vender algum as de suas telenovelas rodadas em Miam i no m ercado m exicano. Com toda evidência, as perspectivas são boas para as duas redes am ericanas, levando-se em conta a dem ografia: a população latina continua aum entando naturalm ente nos Estados Unidos e o m ercado hispânico necessariam ente se consolidará.
Ninguém ignora esse potencial. E a concorrência não se lim ita a esses dois protagonistas, em guerra aberta há dez anos. Em face dessas redes am ericanas, a brasileira TV Globo consegue vender seus form atos nos Estados Unidos, assim com o a argentina Telefe. E até as m aj ors Disney, CBS, Fox e Tim e Warner com eçaram recentem ente a produzir suas telenovelas em Miam i para o público latino-am ericano. “Grosso m odo, o m ercado de televisão na Am érica Latina é constituído pelos públicos m exicano e brasileiro, por form atos im aginados no Rio e em Buenos Aires, por dinheiro m exicano, patrões em Miam i e um m ercado que dá lucro nos Estados Unidos”, resum e Mariano Kon, diretor-geral da produtora Cuatro Cabezas na Argentina.
Seu colega da produtora Pol-Ka, ainda em Buenos Aires, cuida j ustam ente da adaptação “latino” de Desperate Housewives, a série am ericana de sucesso da Disney e da ABC. “Nós não fazem os um a adaptação, m as cinco versões: um a para o Brasil em português, três para a Colôm bia, a Argentina e o Equador e um a versão ‘telem undo’ para a cadeia hom ônim a, visando ao m esm o tem po os m exicanos e, de m aneira m ais am pla, os hispânicos que vivem nos Estados Unidos”, explica Victor Tevah, diretor-adj unto da Pol-Ka em Buenos Aires. Manifesto m inha estranheza com o fato de não ser produzida nenhum a versão para a Espanha. “É natural, nós retom am os diretam ente a série dos Estados Unidos e a dublam os aqui para a cadeia Quatro, em nossos estúdios, e não utilizando um a versão sul-am ericana”, explica Pablo Rom ero Sulla, diretor de conteúdo da Sogecable, o ram o audiovisual do grupo Prisa, entrevistado em Madri. “De um a série a outra, o conteúdo não m uda m uito, o que nós m odificam os é a form a”, acrescenta Tevah.
Em cada versão latina, é m antido o m esm o contexto, o m esm o cenário,
com gravações num subúrbio do norte de Buenos Aires; em com pensação, o
interior das casas m uda de um a versão a outra. São alterados detalhes com o
as roupas dos personagens ou os pratos que consom em à m esa. Por
exem plo, certos personagens têm sua profissão m odificada: na série
argentina, o bom beiro é transform ado em dono de um a em presa de
encanam ento, pois aqui, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos,
não se poderia im aginar que um bom beiro vivesse num subúrbio chique. Na
série para a Telem undo, o im igrante m exicano por sua vez é transform ado
em im igrante venezuelano.
No fim das contas, e apesar de j á haver m uitas m ulheres à beira de um ataque de nervos na série original, as produtoras dão um j eito de transform ar a versão am ericana num a autêntica telenovela. Cuj o nom e em espanhol se torna algo alm odovariano: Esposas Desesperadas.
Na Am érica Latina, portanto, a questão da adaptação local e do sotaque é im portante. Ao contrário do que se costum a acreditar, nem todos os latino-am ericanos hispanófonos têm facilidade para se entender uns aos outros. “Geralm ente se considera que o sotaque m ais típico é o dos m exicanos”, com enta Mariano Cesar, diretor de program ação da rede argentina ISAT, entrevistado em Buenos Aires. “O sotaque colom biano tam bém é bastante típico. Mas os sotaques cubano, argentino, uruguaio e venezuelano são m uito diferentes. Para nos transform ar em um a rede com um a todos os hispânicos, nós tentam os usar um espanhol ‘neutro’, um espanhol indiferenciado e algo sim plificado, ou então legendar ao m áxim o nossas telenovelas e nossos conteúdos. Mas até a legendagem precisa ser feita em diferentes línguas: a título de exem plo, não se escreve da m esm a m aneira para os espanhóis da Espanha e para os argentinos. Caso contrário, é grande o risco de que eles não consigam acom panhar nossos program as.”
Mariano Kon, da produtora Cuatro Cabezas, em Buenos Aires, não se m ostra m uito convencido: “Em determ inada época, chegam os a achar que o espanhol ‘neutro’ era a solução: é o espanhol inventado para a dublagem , um espanhol de televisão. Mas é m uito artificial. É o espanhol com que sonhavam os estúdios holly woodianos. Era um a ilusão”. Por sua vez, Michelle Wasserm an, a diretora de vendas da Telefe, a m aior rede argentina, confirm a em Buenos Aires: “O m ercado das telenovelas é que nos im põe a dublagem . Pois m esm o quando vendem os as telenovelas a países hispânicos, é necessário dublar: ninguém im aginaria um a série francesa com sotaque do Quebec; é a m esm a coisa na Am érica Latina”.
Na sede do Canal 9, em Buenos Aires, um a das principais redes argentinas, o diretor-presidente, Carlos Gaustein, em concorrência direta com a Telefe, faz um a análise bastante próxim a. Mas cham a a atenção para o estreito vínculo entre os países produtores de telenovelas e sua econom ia e a ascensão dos países em ergentes, inclusive no audiovisual. “A produção de novelas e a im portância dos m ercados estão m uito estreitam ente ligadas ao poderio econôm ico. Atualm ente, o México avança, o Brasil explode, nós estam os estagnados e a Venezuela cai. O sucesso depende m uito do m ercado interno: os países em ergentes se saem m elhor que os outros na produção, e assim conseguem exportar. A Venezuela, por exem plo, era um a grande exportadora de telenovelas. Mas o presidente Hugo Chávez debilitou o sistem a de produção privado, e os conteúdos afundaram . Hoj e, a cadeia venezuelana, Venevision, é obrigada a produzir suas telenovelas em Miam i, em parceria com a cadeia am ericana Univision.” As indústrias criativas são indústrias do com eço ao fim .
Em Caracas, Marcel Granier, diretor-presidente da RCTV, um a rede aberta que foi proibida por Chávez m as continua transm itindo seus program as por cabo e satélite, confirm a: “A econom ia está arruinada e a censura da m ídia é total. Antes de Chávez, a Venezuela era o segundo produtor de telenovelas, depois do México. Hoj e, m al chegam os ao quinto lugar e tem os de com prar séries dos m exicanos da Televisa e dos colom bianos da RCN”. Seu principal concorrente, a Venevision, até certa altura acentuadam ente anti-Chávez m as j á agora m ais m oderada, por m edo de perder sua concessão, m ontou um a segunda linha de produção de telenovelas em Miam i “para ter m ais liberdade, unir suas forças e preparar o futuro em caso de dificuldades em Caracas” (segundo um de seus dirigentes, que prefere m anter o anonim ato). Os m otivos desse desm oronam ento? Germ án Pérez Nahím , o diretor-geral da Televen, im portante rede privada venezuelana, m ostra-se prudente, pois não pode se dar ao luxo, segundo m e diz, de ter um a relação polêm ica com o governo de Chávez: “As regras j urídicas m udam com frequência. O m ercado publicitário afundou. A recente instituição de um a dupla taxa de câm bio é arbitrária. A inflação galopa, as desvalorizações se sucedem e o desem prego aum enta. As tecnologias estão atrasadas. E a insegurança econôm ica explodiu. É o afundam ento da econom ia que acaba com o m ercado das telenovelas. Para não falar que hoj e a Venezuela é o país com o índice de crim inalidade m ais alto da Am érica Latina, o que fragiliza qualquer proj eto”. Sua fam ília vive em Miam i. E ele m esm o m antém guarda-costas sob contrato.
A vice-presidente da RCTV, Ines Bacalao de Peña, acrescenta em Caracas um outro elem ento, o da cultura e da língua. “As telenovelas venezuelanas sofrem por ficar entre dois estilos. Nossas histórias não são nem clássicas, tradicionais e históricas, com o no México — com a m enina pobre que encontra o am or e o dinheiro, representando em traj es de época —, nem contem porâneas e diretam ente ligadas à vida cotidiana das pessoas, com o no Brasil, onde as séries falam das favelas, das drogas, dos gay s. Não tem os tanta liberdade em m atéria de costum es quanto no Rio, m as tem os m ais que no México. Além disso, há o problem a do sotaque. O sotaque espanhol dos m exicanos ou dos colom bianos é m uito bem aceito na Am érica Latina. Já o dos argentinos ou o nosso não é tão bem recebido. Para difundir nossas telenovelas na Am érica do Sul, é preciso traduzir.”
O m ais fascinante nessa geopolítica das séries de televisão talvez sej a a questão da dublagem em relação à legendagem . É um ponto essencial no que diz respeito ao papel das culturas locais na globalização. Seria possível inclusive classificar os países em três categorias. Existem em prim eiro lugar países, não raro pequenos, que aceitam que as séries estrangeiras sej am transm itidas na língua original, e assim elas são legendadas para a com preensão do público local. É o caso dos países nórdicos, com o a Holanda, a Dinam arca, a Finlândia, a Bélgica de língua flam enga, m as tam bém de Portugal, Israel, Islândia, Rom ênia, Malásia e de m aneira geral os países árabes, que adotam as legendas e não optam pela dublagem . Há tam bém os países que, m uitas vezes por nacionalism o, por m otivos sindicais ou porque a população ainda é parcialm ente analfabeta, não legendam as séries, preferindo optar pela dublagem . É o caso da Hungria, da República Tcheca, do Vietnã, do Canadá (sobretudo o Quebec), da França, da Bélgica francófona, da Itália (onde os sindicatos im pedem a legendagem para proteger os em pregos dos atores dubladores) e até da Espanha, que chega a dublar as telenovelas hispânicas com sotaque castelhano. E há finalm ente um sistem a m isto, raro, utilizado pelos russos e os poloneses, cham ado de “voice-over”: um ou dois locutores descrevem o que está acontecendo na tela, m as os atores se expressam em sua língua original; é um a form a de narrativa, de conto, herdada da censura soviética.
Nos Estados Unidos, em com pensação, nenhum a das duas alternativas é apreciada. Já dizia Jean Baudrillard: “A Am érica é a versão original da m odernidade, e a Europa, a versão dublada ou legendada”. Nos Estados Unidos, a preferência é para as séries e os film es originais, em inglês, e poucas séries estrangeiras são im portadas. “É m ais repousante”, explica, com ironia, Chris Clark, diretor do Saint-Louis Film Festival, entrevistado no Missouri. “Com legendas, é m enos ‘entertaining’. Saím os da cultura m ainstream para entrar na dos nichos.”
A guerra m undial das séries e form atos de televisão está apenas com eçando. Com o num a boa telenovela, o m ercado desperta cobiça, resistência, reviravoltas nas alianças e m uitas vezes cium eira. A Coreia do Norte cuida para que os dram as sul-coreanos não atravessem a fronteira; os chineses desconfiam do sucesso dos dram as de Taiwan; os j aponeses não m edem esforços para vencer os sul-coreanos, que não têm m ãos a m edir para vencer os j aponeses; sírios e libaneses querem recuperar o m ercado das novelas do Ram adã, sequestrado pelo Egito, com os países do Golfo arm ando em boscada; o gigante brasileiro TV Globo com bate o gigante m exicano Televisa, inclusive a ponto de se aliar com os im perialistas am ericanos da Telem undo; e Hugo Chávez bem que gostaria que a Venevision, a rede venezuelana, produzisse suas telenovelas localm ente (ela passou a produzi-las em Miam i, o que o deixa exasperado). É um a verdadeira guerra cultural que tem os diante dos olhos, e tam bém nas telas.
E no entanto, ao contrário do que acontece no cinem a ou na m úsica, para não falar dos desenhos anim ados ou dos vídeo gam es, as séries de televisão não viaj am m uito — e quando o fazem m uitas vezes é em distâncias curtas, em escala continental, raram ente global. O m ercado da televisão é um m ercado m uito local, em bora os form atos possam ser m undiais. Só os am ericanos se saem bem , prodigalizando-se em program as para o grande público e conseguindo às vezes, ou pelo m enos m elhor que os outros, falar a todo m undo. Para entender esse sucesso, é preciso visitar a capital da Am érica Latina m ainstream : Miam i.