Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
Nashville, a outra capital musical dos Estados Unidos
“David é provavelm ente um dos raros hom ens da cultura am ericana m oderna que tiveram êxito sucessivam ente nas três indústrias-chave do entretenim ento: a m úsica pop, as com édias m usicais da Broadway e o cinem a em Holly wood. Trata-se de um caso único”, diz-m e Jeffrey Katzenberg (m as o com entário tam bém se aplica a Katzenberg, que fez ainda m elhor na Disney, na Broadway, com O Rei Leão e Elton John, e desde então na Dream Works).
Em 2008, Geffen aposentou-se pela terceira vez e revendeu sua participação na Dream Works. Mas ele continua frequentando os produtores, banqueiros e “m oguls” de hoj e, esses grandes chefões de Holly wood — que ontem se cham avam Harry Cohn, William Fox, Carl Laem m le, Louis May er, Adolph Zucker, Jack e Harry Warner — dos quais é hoj e um dos herdeiros. E por sinal, j á que estam os falando de filiação holly woodiana, ele m ora na casa de Jack Warner na praia de Malibu, com prada a preço de ouro. Um verdadeiro sím bolo.
Nashville, a outra capital m usical dos Estados Unidos “O blues é a m úsica das
classes populares negras, com o o country é a m úsica das classes populares brancas”, diz-m e Shelley Ritter, diretora do Delta Blues Museum , em Clarksdale, cidadezinha do noroeste do Mississippi. Hoj e em dia não resta grande coisa da história do blues, à parte esse m useu. Eu estou no coração do “Delta”, um a zona passível de inundações, e que portanto foi rica na época da cultura do algodão, entre o Arkansas e o Mississippi, e que tem esse nom e porque form a um a bacia, em bora estej am os longe da foz do rio, em Nova Orleans. Em Clarksdale, ainda encontram os alguns “j uke j oints”, os bares tradicionais onde se continua a cantar o blues do Delta, m as só para turistas. “O blues sem pre teve um espírito e um público rurais, ao passo que o j azz foi decididam ente urbano”, acrescenta Shelley Ritter.
Percorrendo o Delta, podem os im aginar o que foi o nascim ento da m úsica negra am ericana: o algodão, as cidadezinhas, as igrej as cristãs. Seguindo a estrada que vem de Nova Orleans, passam os por Clarksdale, Oxford, Tupelo (a cidade natal de Elvis Presley, onde sua m inúscula casa é hoj e um m useu) e Mem phis (onde Jeff Buckley se afogou), para só então chegar a Nashville. Com toda essa história ao alcance da guitarra, dá para entender por que a principal cidade do Tennessee se transform ou num a das capitais da indústria do disco nos Estados Unidos, ao lado de Los Angeles e Miam i.
Music Row é o endereço que se deve procurar em Nashville para encontrar os estúdios de gravação, a sede das m aj ors e os escritórios das televisões m usicais. É um a área pequena, entre a 16ª Avenida, conhecida com o Music Square East, e a 17ª Avenida, conhecida com o Music Square West, na convergência das autoestradas I 40 e I 65, a noroeste de Nashville, no Tennessee.
Se viaj ei a Nashville, foi para tentar entender por que os dois segm entos im portantes da indústria do disco que são produzidos aqui, o country e a m úsica “christian”, não são m uitos exportados. (O soul e o R& B foram gerados no Tennessee nas décadas de 1950, m as os respectivos selos se encontram em Los Angeles e em Nova York desde os anos 70.) Não ouvi m uita m úsica country na vida, à exceção dos discos de Hank William s e Johnny Cash. Para m im , é vagam ente um a m úsica de am ericanos “com chapéu de caubói”. John Grady, o todo-poderoso diretor-presidente da divisão country da Sony Music em Nashville, não com partilha m inha opinião: “A m úsica country é a m úsica de variedades das classes populares am ericanas e dos cam poneses do Sul”. Luke Lewis, o presidente da Universal Music em Nashville, confirm a: “O country é a m úsica tradicional am ericana, a m úsica das aldeias do Sul, um a m úsica do interior, do country, j ustam ente”. Lewis acrescenta: A m úsica country é um a m úsica m uito enraizada na vida local. Ela é ouvida no rádio, m as tam bém é tocada nos “honky tonks”, os tradicionais barezinhos de brancos, m ais ou m enos com o o blues é feito nos “j uke j oints”, os barezinhos do Sul am ericano rural e negro. Por isso é que ela não é m uito exportada, por ser dem asiado local. Ela é um pouco vendida no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, na Irlanda e nas cidades populares do norte do Reino Unido, m as praticam ente só. Não se consegue vender m úsica country em Londres, por exem plo, por ser um am biente urbano dem ais.
Passando de um a produtora de discos a outra na Music Row, em Nashville, eu constato que existem vários gêneros de m úsica country : appalachian folk m usic, bluegrass, country rock, cowboy songs, southern rock, m ountain m usic, am ericana. Todos esses estilos encarnam um am plo espectro m usical entre o “alt-country ” alternativo e um country m ainstream , criticado por sua excessiva com ercialização. “No prim eiro caso, é um country excessivam ente ‘rootsy ’, e no segundo, pelo contrário, um country dem asiado pop e ‘rootless’” (excessivam ente enraizado ou sem raízes), explica-m e Luke Lewis. “Toda a m úsica country se situa hoj e entre esses dois lim ites, e a que se apresenta com o m ais alternativa, m as que aqui é a m enos popular e m enos m ainstream , geralm ente é m elhor divulgada nos festivais independentes no exterior.” John Grady explica o paradoxo: A m úsica country m ainstream não é um a m úsica internacional. Até que se tentou fazer versões m ais “dance”, m ais rápidas, para quebrar a aparente m onotonia do country e atingir um público m aior no exterior, m as não funcionou realm ente. Tem os de reconhecer o óbvio: o country é a poesia de hoj e nos Estados Unidos, com letras m uito específicas e m uita gíria. E a poesia não pode ser exportada.
Nos Estados Unidos, o m ercado da m úsica country é estim ado em aproxim adam ente 10% das vendas de discos e digitais. É o form ato m usical m ais frequente no rádio, em num erosas estações — m ais de 1.400.
Em Nashville, passam os facilm ente do estilo country à m úsica “christian” (cristã). Todas as produtoras de discos se encontram no m esm o perím etro, ao redor da Music Row, e é possível ir de um a a outra a pé, num percurso de m enos de um quilôm etro. Mas o fato é que essas duas indústrias vizinhas são m uito com partim entadas, e ao visitar os escritórios das m aj ors que produzem m úsica christian, um a diferença notável m e cham a a atenção: não há a m enor sensualidade, nada de garotas de seios fartos na capa dos discos, nem hom ens m aduros de linguagem rude abusando da gíria, com o acontecia, a poucas dezenas de m etros dali, nos escritórios da m úsica country. No verso da capa dos CDs, surpreende-m e encontrar m uitas vezes, nos agradecim entos: Jesus.
“No fundo, fazem os parte da m úsica gospel”, explica-m e Dway ne Walker, diretor de A& R da Light Records, selo especializado na m úsica christian. “Muitas vezes se acha que a m úsica gospel é um a m úsica negra, m as se trata antes de m ais nada de um a m úsica cristã. Quanto a nós, fazem os m úsica cristã, que é sim plesm ente branca.” John Sty ll, o presidente da Gospel Music Association, lobby oficial ao m esm o tem po do gospel negro e da m úsica christian branca, confirm a: “Estatisticam ente, a m úsica gospel é 99% negra, e a m úsica christian, 99% branca. Mas na estratégia de m arketing da m úsica christian, m uitos privilegiam a utilização da palavra gospel, no lugar do term o christian, m ais conotado. E por sinal, para que todo m undo fique de acordo, fala-se atualm ente de ‘southern gospel’ e ‘black gospel’”.
Mais um a vez, em Nashville, m e são m ostrados discos de diferentes gêneros: christian rock, southern gospel, Jesus-rock (m ais antigo), God rock, gospel rock, christian rap e até rock “inspirational” (destinado a inspirar e edificar). Fico com a im pressão de que aqui existem tantos gêneros m usicais quantas são as igrej as cristãs — Nashville está entre as cidades am ericanas com m aior índice de igrej as por quilôm etro quadrado. Estou no coração do que costum a ser cham ado de “Bible Belt”, o cinturão da Bíblia.
Com o no country e na Motown, a m úsica christian baseia-se num a estrita separação entre os com positores que escrevem a letra e a m úsica e os que as interpretam . Essa dupla indústria faz a originalidade de Nashville, há m uito tem po um a cidade onde se com põe a m úsica que vai ser tocada.
“O editor é o elem ento central da indústria em Nashville e as produtoras de discos são detentoras antes de m ais nada, e acim a de tudo, do repertório. Muitas vezes, as canções são vendidas a outras produtoras”, explica Eddie de Garm o, diretor-presidente do EMI-Christian Music Group. “Nashville é um a cidade de com positores”, reforça Tony Brown, antigo pianista de Elvis Presley, que atualm ente dirige a Universal South, o braço da Universal em Nashville, congregando vários selos de m úsica country, gospel e christian rock.
Verifico que todas as m aj ors estão presentes na Music Row em Nashville, reprodução em m iniatura de sua presença em Los Angeles e Nova York.
Aqui, tem os sobretudo selos, o que significa que cuidam os dos artistas, de
seu desenvolvim ento e prom oção. Tudo que diz respeito à adm inistração, ao
setor j urídico, aos recursos hum anos, à distribuição nacional e internacional
fica aos cuidados da m aj or, a m atriz, em Nova York ou Los Angeles. Se
você é um independente, fica na dependência dos bancos e investidores; de
m inha parte, eu dependo do diretor da Sony Music Entertainm ent para a
Am érica do Norte, que conhece m úsica e gosta dos artistas. Ao contrário do
que se costum a dizer, eu prefiro isso a ser independente —, j ustifica-se John
Grady, diretor-presidente da Sony Music em Nashville.
Os selos christian teriam pretensões de exportação, a partir do Sul dos Estados Unidos? “A christian m usic e a m úsica country são gêneros que se escoram m ais na letra que na m úsica, ao contrário do pop e do rock. E isto decorre de um certo estilo de vida, de certos valores, e inevitavelm ente essas m úsicas não são m uito facilm ente exportadas”, explica Ric Pepin, vice-presidente da Com pendia Music, um a m inim aj or com diferentes selos de country, gospel e christian. Mas ele acrescenta: “Acredito que a m úsica cristã de Nashville vai se desenvolver m uito na Am érica Latina, na África, à m edida que for am adurecendo. Ainda é um gênero j ovem , ao contrário da m úsica country, que tem aqui um a história m uito antiga”.
Eddie de Garm o, o diretor-presidente do selo christian da EMI, não tem o m esm o ponto de vista: A christian existe em Nashville há pelo m enos 25 anos, em bora só se tenha tornado célebre na época de George W. Bush. É um a m úsica cristã que se parece com a religião dos am ericanos, protestante e lírica dem ais para agradar aos católicos, por exem plo. Não creio que possa ser facilm ente exportada, a não ser que m inim ize o elem ento de pregação e m ascare sua identidade. Mas em com pensação seu público ainda pode aum entar nos Estados Unidos, onde passam os, em 15 anos, de um m ercado de nicho ao m ainstream .
Entrevistando dezenas de produtores e m úsicos da m úsica christian em Nashville, m as tam bém em Mem phis, Denver e Colorado Springs, eu m e dou conta de que todos a encaram com o um a contracultura a ponto de resvalar para o m ainstream . “A cultura christian está num m om ento de virada, num passo decisivo, o que se costum a cham ar na Bíblia de efeito Gedeão: Gedeão estaria sozinho? Ou seria m ilhares? Nós som os com o Gedeão, pois hesitam os, sentim o-nos sós em nossa com unidade, m as j á som os m ilhares. Estam os a ponto de resvalar para o m ainstream , m as ainda estam os em plena contracultura. Som os com o Bob Dy lan e Joan Baez na década de 1960, contraculturais e antim ainstream , um nicho da folk m usic que está crescendo, crescendo, pouco antes do m om ento em que todo m undo acaba adotando essa m úsica”, diz-m e, m eio exaltado, Ross Parsley, o célebre pastor da New Life Church em Colorado Springs (nesse dom ingo, eu assisto ao serviço religioso em sua m egachurch: cinco grupos de christian rock se sucedem diante do altar, e ao redor de Parsley um coro de um a centena de participantes e vinte pastores oficiam , com m icrogravatas, enquanto suas im agens são reproduzidas em dezenas de telas gigantes diante de m ais de sete m il fiéis).