Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
10. Como Bollywood sai em conquista do mundo
10. Com o Bolly wood sai em conquista do
m undo
“Se eu não apareço no hotel Marriott durante um a sem ana, as pessoas acham que eu não estou m ais trabalhando”, ironiza Uday Singh, diretor da Sony India. “Quando estou no BBC, um dos cafés do Marriott, todo m undo sabe que estou preparando um film e e com quais atores e com qual cineasta vou fazê-lo”, explica por sua vez o produtor indiano Bobby Bedi.
Em Bolly wood, cada geração tem seu hotel. Depois do Juhu Hotel, hoj e decadente, na praia de Juhu, em Mum bai, capital do cinem a indiano e novo nom e de Bom baim , a “cena” transferiu-se para o Sun-n-Sand, hotel luxuoso m ais ao norte. Mas agora a m oda m udou de novo e os profissionais de cinem a, quando querem se encontrar, as estrelas de Bolly wood, para dar suas festas, e os j ornalistas, para entrevistar as estrelas, m arcam encontro no Marriott, um palácio cinco estrelas, hotel suprem o e ultrachique m as sem personalidade, tam bém situado em Juhu, entre o bairro da m oda, Santa Cruz, ao sul, e a Film City, os estúdios de Bolly wood, no norte de Mum bai. Nos sete restaurantes e cafés do Marriott, um a infinidade de produtores, distribuidores, agentes e atores se m obiliza para dar vida aos futuros blockbusters bolly woodianos. Todo m undo fala inglês contra um pano de fundo de m úsica lounge Buddha-Bar.
Desinteressado de m odas e festas, Am it Khanna m arcou encontro com igo no Sun-n-Sand, ao qual se m anteve fiel em Mum bai. O antigo tem plo bolly woodiano, cuj a vista para a praia de Juhu é m uito m ais bela que a do Marriott, está superado, caidinho, m as continua sendo um porto seguro para as velhas fam ílias da cidade. No café do hotel, onde o espero, o últim o Coldplay toca sem parar. De repente, Khanna chega, atrasado, com dois telefones celulares que atende constantem ente em 15 segundos, a cada cham ada. Com seu terno à antiga, a cabeça raspada, sério, Am it Khanna fala curto e responde rápido, com autoridade, sem sim patia nem detalhes. Suas palavras são contadas. “Tem os aqui 1,2 bilhão de habitantes. Tem os dinheiro. Tem os experiência. Juntam ente com o Sudeste asiático, representam os um quarto da população do planeta, e com a China, um terço. Querem os desem penhar um papel central, política, econôm ica, m as tam bém culturalm ente. Nós acreditam os no m ercado global, tem os valores, os valores indianos, a prom over. Vam os enfrentar Holly wood em seu próprio terreno. Não só para ganhar dinheiro, m as para afirm ar nossos valores. E estou profundam ente convencido de que terem os êxito. Vão ter de nos aguentar.”
Desde que eu cheguei à Índia, ninguém m e falou assim . Até agora, m eus interlocutores deram m ostra de extrem a cortesia, e m uitas vezes, especialm ente em casos de diferença de nível de vida, de um a espécie de deferência e de hum ildade sem pre incôm odas. Am it Khanna não tem esses cuidados. Ele tem o olhar em ergente, observando o francês que tem à sua frente com o representante de um povinho em extinção, o olhar do dom inante sobre o dom inado — o contrário, em sum a, do olhar dos condutores de riquixá, dos barbeiros, engraxates ou “chai wallahs” (os que servem chá) com que nos deparam os na Índia, e que, intim idados, estão sem pre dizendo “Yes, sir”.
Am it Khanna é o diretor-presidente da Reliance Entertainm ent, um a das m ais poderosas m ultinacionais indianas do setor das indústrias criativas e da m ídia. O grupo pertence ao m ultibilionário Anil Am bani, 50 anos, a sexta fortuna do m undo, especializado em distribuição de gás, eletricidade e telecom unicações, enquanto seu irm ão Mukesh Am ba — com o qual está em guerra — recuperou na tradição da fam ília as indústrias pesadas, a petroquím ica, as refinarias de petróleo e os superm ercados. Anil é o m ais “cultural” dos dois irm ãos, am igo da estrela Am itabh Bachchan, e casou com um a atriz de Bolly wood, com isso rom pendo os códigos de sua casta — a dos com erciantes, os bânias.
“Nossa estratégia consiste em construir um grupo pan-indiano, integrado, de nova geração”, explica Am it Khanna. “Isso significa que estarem os presentes em todas as telas ao m esm o tem po, e em todos os setores. Com a Reliance Telecom m unications, núm ero 1 indiana dos celulares, com 60 m ilhões de assinantes, tem os as telas m enores, e com nossa rede de m ultiplexes, um a das m aiores da Índia, tem os tam bém as m aiores. Podem os produzir conteúdos para todas essas telas. Além disso, fornecem os acesso à Internet em vinte m il cidades e 450 m il aldeias indianas, podendo agora levar-lhes m úsica, cinem a. Holly wood é a indústria cinem atográfica do século XX; nós estam os construindo a indústria do século XXI.”
Com um dos principais estúdios de cinem a de Bolly wood, um a rede de vinte canais de televisão e 45 estações de rádio (Big TV, Big FM), um a das duas m aiores redes de m ultiplexes da Índia (Big Cinem as), um a produtora de discos especializada em canções bolly woodianas e sites m onopolísticos, a Reliance j á é um gigante incontornável nas indústrias de conteúdos e m ídia. O grupo é conhecido na Índia pela m arca Big, e de fato tudo é “gigante” no país. Para com eçar, o PIB. A Índia tem um a das econom ias m ais dinâm icas do m undo, com um crescim ento anual entre 6% e 8%. No setor das indústrias criativas e do cinem a, o crescim ento é ainda m ais espetacular, superando 18% ao ano. “Nosso futuro está aberto, som os o segundo país m ais populoso do m undo”, insiste Am it Khanna, que quer rom per com a im agem do cinem a indiano das décadas de 1960 e 1970, apreciado pela crítica e os festivais internacionais, com o cinem a do Terceiro Mundo, m as não levado m uito a sério com o indústria e com o m ercado.
O grupo Reliance, portanto, pensa “big”: com o j á possui 240 salas de cinem a nos Estados Unidos, investiu 600 m ilhões de dólares em 2008 no estúdio Dream Works SKG de Steven Spielberg, para entrar em Holly wood pela porta da frente. Paralelam ente, o grupo botou na m esa m ais 600 m ilhões para produzir um a dezena de film es de grande orçam ento em colaboração com oito produtoras, entre elas as de Brad Pitt, Jim Carrey, Nicolas Cage, Tom Hanks e George Clooney (os acordos foram fechados pela sucursal de Beij ing da agência am ericana Creative Artists Agency ). Pela prim eira vez um país em ergente entra com tanto dinheiro em Holly wood. O investim ento foi festej ado pela im prensa am ericana e Bolly wood recebeu a notícia triunfalm ente. “Os indianos vão pagar m ilhões de dólares por um contrato que não lhes garante m uito m ais que a oportunidade de assistir à estreia com Steven Spielberg”, relativiza, contudo, um im portante produtor entrevistado em Los Angeles. Eu repito o m aldoso com entário para o m eu anfitrião.
Am it Khanna sorri.
Nós nunca fom os a nenhum a estreia. Não é o glam our que estam os
procurando, m as a oportunidade econôm ica. Nós som os sócios, com o
investidores financeiros, m as estando igualm ente associados ao proj eto
artístico. Os estúdios am ericanos envelheceram , precisam de sangue novo.
E nós tem os esse sangue novo. Vam os proporcionar-lhes um a nova
sensibilidade, investindo diretam ente em hom ens, talentos, para criar os
m aiores film es. Nossa força está no fato de serm os tão num erosos, em
nossa j uventude, nossa tradição cinem atográfica, nossa m aneira de contar
histórias.
Farão então film es indianos em Holly wood?
Na Reliance, nós acham os que o entretenim ento é etnocêntrico. Se
tentarm os exportar valores indianos, fracassarem os. Em Bolly wood, nós
defendem os nossos valores; em Holly wood, farem os um cinem a diferente
para ser m ainstream , farem os film es holly woodianos para o grande público.
Vam os entrar em concorrência com Holly wood com diferentes tipos de
conteúdos, diferentes plataform as.
Ele faz um a pausa. “Ao m esm o tem po, som os o m aior país de fala inglesa do m undo e tem os a m assa crítica necessária para nos tornar am anhã um gigante m undial. Precisam os antes de tudo seduzir pela criatividade, e só depois por nosso m odelo econôm ico.” A essa altura Khanna j á deixou de lado os celulares, da operadora Reliance, é claro, e parece m ais calm o. Concorda em falar um pouco de si m esm o, de sua traj etória. Conta então que m ora num a casa pequena perto da praia de Juhu, em Mum bai, e que não é casado. Sua paixão é a com posição m usical, além de ler e escrever. Vários indianos com quem conversei em Mum bai e Nova Déli referem -se a ele com o um a “biblioteca am bulante”, totalm ente voltado para o trabalho e a leitura. “Eu tento expandir m eu conhecim ento o m áxim o possível, e um dia talvez escreva m inhas m em órias”, diz ele. Depois de escrever sobre as m ídias num grande j ornal indiano, ele assinou dezenas de roteiros de film es, produziu m uitos longas-m etragens e dirigiu vários canais de televisão antes de fundar o braço “entertainm ent” do grupo Reliance. Tam bém é presidente da Associação Indiana de Produtores de Cinem a.
“Geralm ente m e consideram o inventor da expressão ‘Bolly wood’”, diz-m e Am it Khanna. Gerando aproxim adam ente 250 longas-m etragens por ano, o equivalente a apenas um quarto da produção cinem atográfica indiana, estim ada em m ais de m il film es anuais, Bolly wood representa apenas o cinem a produzido em hindi em Mum bai. “Mas é o cinem a que conta na bilheterias indianas e na internacional. É o cinem a m ainstream da Índia.” Quando Khanna m e fala de Bolly wood, eu sinto expressar-se o orgulho nacional. Ele sorri (é a segunda vez). Já agora não para m ais de falar, logo ele que, segundo sua assessora, teria tão pouco tem po para nosso encontro. Ele m e conta a história de Bolly wood e de suas estrelas. Aquelas m esm as que, quando aparecem num a rua de Mum bai ou na m enor aldeia indiana, geram um a identificação histérica, adoração e tum ulto: os atores Am itabh Bachchan, Abhishek Bachchan, Shah Rukh Khan, Aam ir Khan, Salm an Khan, Saif Ali Khan, Akshay Kum ar e Hrithik Roshan (os indianos fazem de tudo para vê-lo de perto e constatar que de fato tem seis dedos num a das m ãos), as atrizes Aishwary a Rai Bachchan, Kaj ol Devgan, Rani Mukerj i, Kareena Kapoor, Preity Zinta e tantas outras. “Vários desses atores são m uçulm anos”, acrescenta Khanna, insistindo na diversidade do cinem a indiano. Ele defende o que cham a de um a espécie de “Bolly wood m asala”, o contrário de Holly wood: nos Estados Unidos, tornar-se m ainstream é privilegiar o m enor dos denom inadores com uns para falar a todo m undo; em Bolly wood, o que se faz é o inverso, m isturando todos os gêneros ao m esm o tem po — dram a, com édia, ação, m usical, thriller, dança tradicional, dança contem porânea —, para falar a todos os m em bros da fam ília, aos gostos m ais variados, m as que convergem nessa m istura de ingredientes. O m ainstream pelo tutti frutti, por assim dizer.
Khanna abraça plenam ente a m itologia de Bolly wood: crianças pobres que sabem de cor as canções e as cantam nos cinem as de um a só tela da favela de Dharavi; as arrum adeiras que se levantam para dançar no cinem a; o poder do cinem a de transcender as classes sociais e as castas, unindo os indianos. “Bolly wood desem penha um im portante papel de integração nacional, unindo as regiões com a nação, vinculando a cultura popular e a arte, servindo de língua com um num país com 22 línguas oficiais.” Arrebatado por seu discurso flam ej ante — e no fundo extrem am ente bolly woodiano —, Khanna passa rapidam ente pelas zonas de som bra da indústria: os notórios vínculos do m undo do cinem a com a m áfia (que no entanto seriam confirm ados em conversa com igo, em Nova Déli, pelo próprio vice-m inistro da Cultura); ou o fato de Bolly wood ter servido para lavagem de dinheiro durante o regim e socializante das décadas de 1950 a 1990. Am it Khanna descarta esse debate com um gesto de desprezo, explicando que desde 1991 a Índia não é m ais socialista e que desde 1998 o governo reconheceu Bolly wood com o um a autêntica indústria, abrindo-lhe cam inho para o financiam ento legal, os em préstim os bancários, os seguros e todo um ecossistem a financeiro que torna obsoletos os laços com a m áfia.