Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 53 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Al Arabiya, ou quando os sauditas entram no jogo

Deixo Dubai m eio desorientado. Nesse pequeno em irado, não encontrei m uitos autóctones, os em iradianos, ociosos privilegiados. Encontrei sobretudo libaneses e em igrados do Paquistão, de Bangladesh e da Índia (Mum bai fica a apenas 2h50 de avião de Dubai). Levando-m e para o aeroporto, o m otorista de táxi, indiano, m eio perdido em ruas da Dubai Media City que vão dar em becos sem saída, pergunta várias vezes o cam inho, sem problem as, a trabalhadores indianos, falando em hindi. Passam os diante de um im enso centro com ercial, e ele m e diz, desta vez em inglês: “É o Dubai Mall. O m aior shopping-m all do m undo, com o m aior hotel internacional e o m aior m ultiplex do planeta”. Visivelm ente, ele está m aravilhado. De repente, m e faz um sinal: “Olhe ali, é o Burj Dubai, o prédio m ais alto do m undo. Mal dá para acreditar, quase um quilôm etro de altura”.

O rio da verdade

Hala Hashish é um a estrela no Egito. Não usa véu, ao contrário de suas assistentes, m as óculos escuros: “É a m inha m aneira de usar o véu”, diz ela, sorrindo. “Não, estou brincando, na verdade é porque não tive tem po de m e m aquiar de m anhã.” Encontro-m e com Hala Hashish várias vezes no Cairo, num grande prédio redondo da rádio-televisão nacional onde trabalham m ais de quarenta m il egípcios. Com o em Paris, com o em Yaoundé, com o em Xangai, ficam os um pouco com a im pressão de que todos os prédios oficiais das rádios e televisões públicas nacionais são redondos, com o detalhe, no Cairo, de um excesso de pessoal que não parece ter m uito o que fazer.

Hala Hashish dirige a CNN egípcia, um a rede de televisão nacional de inform ação perm anente, a Nile News TV (Egy pt News Channel). Antiga apresentadora da parada de sucessos de m úsica egípcia, At Your Request, e do Arabic Chart, um hit-parade de m úsica árabe célebre de Beirute a Túnis, do qual o público participava votando por telefone ou SMS cobrados bem caro (o que financiava o program a), ela dom ina m uito bem as técnicas populares de m ídia. E com o tam bém trabalhou para o governo egípcio, na agência oficial de inform ação, sabe igualm ente usar m uito bem o burocratês.

O slogan da rede é “The River of Truth” (O rio da verdade). Acim a de sua escrivaninha, um im enso retrato de Hosni Mubarak nos contem pla. “Eu sou um a m ulher forte”, diz ela, enquanto exige com firm eza que um garçom lhe traga café e sua bolsa. E por sinal, enquanto conversam os, um constante fluxo de garçons, assessores, j ornalistas (inclusive da detestada rede concorrente, a Al Jazeera) desfila pelo gabinete dessa m ulher realm ente forte. Contaram -m e que ela m andou instalar a m áquina de xerox da Nile News TV em seu gabinete para poder controlar pessoalm ente os que a utilizavam . E não era um m ero boato: eu próprio vej o a copiadora e todos que vêm fazer fotocópias desfilarem igualm ente pelo gabinete.

Tendo com o obj etivo não declarado entrar em concorrência com a rede Al Jazeera, a CNN egípcia funciona 24 horas por dia em árabe. A rede representa o governo egípcio e se apresenta com o um veículo “m oderado”, assim com o o Egito se pretende um “Estado m oderado”, explica Hala Hashish. E acrescenta: “A Al Jazeera é um a rede m ais negativa, m ais crítica, nós buscam os o positivo.” Seu m odelo? “Nossa receita é ao m esm o tem po inform ação e divertim ento. Nós inventam os o form ato News & Entertainm ent”, alega Hala Hashish, sem se dar conta de que é a receita da Al Jazeera e de m uitas redes de televisão am ericanas há m ais de vinte anos. É o que eu lhe digo. “Você tem razão, essa receita nos veio da Al Jazeera: um a m istura de noticiário e entretenim ento, é o que fez o sucesso deles.” Com o todo m undo, portanto, a diretora da rede pública egípcia m ultiplica os talk-shows “live”, para m isturar cultura, variedades e esporte à inform ação. Toda noite, o célebre program a Live from Cairo usa e abusa desse form ato. “A inform ação faz parte do entretenim ento”, conclui Hala Hashish.

A televisão do Sul Meses depois, estou em Caracas, na Venezuela, no escritório

de Andrés Izarra, o todo-poderoso presidente da Telesur. Jovem , m usculoso, bronzeado, de tênis e j eans, Izarra m e parece um gay de West Holly wood que acaba de sair da academ ia de ginástica. É exatam ente o que com ento com ele. “Tento praticar esportes todo dia, e m inha academ ia fica a poucos m etros do escritório. Mas sabe com o é, depois que m e transform ei no hom em de Hugo Chávez na m ídia, tenho um a vida social m uito lim itada. Não posso sair sem ser criticado e apontado. De m odo que passo m eu tem po trabalhando aqui ou com m inha m ulher e m eus dois filhos.” Andrés Izarra pega o telefone, que acaba de fazer um bip. Responde digitando algum as palavras. E m e diz: “Era um SMS de Chávez”.