Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
Hollywood no deserto
Holly wood no deserto
Mam duh Al-Laithy passeia os olhos pela tela de um a televisão ligada. Recebendo-m e em seu gigantesco escritório, ele ouve distraído m inhas perguntas enquanto espera sua tradução (não fala francês nem inglês). Enquanto isso, vai acom panhado tam bém as m ulheres de decotes vertiginosos de um film e em preto e branco da década de 1950, com Om ar Sharif.
Mam duh Al-Laithy acum ula funções: dirige o setor de produção cinem atográfica da Media City no Cairo, preside o Sindicato de Cineastas e o Instituto de Cinem a e Televisão egípcios, dirige a Associação dos Críticos de Cinem a e ao m esm o tem po leva adiante, aos 73 anos, um a carreira de roteirista longa e, segundo m e dizem , bem -sucedida. Cercado de m ulheres cobertas de véus, por ele tiranizadas verbalm ente, e de um a infinidade de secretárias, criados e m otoristas sem pre a suas ordens, ele é um autêntico chefão da indústria cinem atográfica egípcia. Policial na década de 1960, ele foi subindo de escalão, passando do Ministério do Interior ao setor audiovisual, para vigiar a liberdade dos artistas. Na década de 1970, foi incum bido da censura dos roteiros de film es e novelas de televisão. Em 1978, é nom eado “censor geral” dos film es de televisão, cargo m ais cobiçado pelos antigos policiais do que pelos roteiristas.
Acim a dele, um a foto do presidente Hosni Mubarak, autocrata político, assim com o ele é um autocrata cultural. O protecionism o no Egito? Mam duh Al-Laithy explica de que m aneira o país protege eficazm ente seu cinem a, graças a um a radical lim itação do núm ero de cópias de film es estrangeiros, e fala da contratação exclusiva de atores egípcios, graças ao m onopólio dos sindicatos de atores. A censura? O antigo censor-chefe egípcio não entende m inha pergunta. Encerra nossa conversa e dá ordens estritas para que eu sej a conduzido à saída. Deixo-o então em seu enorm e escritório, autocrata solitário, acabando de ver as m ulheres alegres e livres dos film es egípcios de um a época em que não eram censurados — por ele.
Para entender a regulam entação do cinem a no Egito, tentando avaliar se o cinem a árabe pode tornar-se m ainstream fora dos países árabes, com ecei batendo na porta errada. Segunda tentativa: visito o Ministério da Cultura egípcio, onde sou recebido por Anwar Ibrahim , diretor de relações internacionais. À parte um café turco, algum as frases convencionais sobre a “diversidade cultural” e a am izade franco-egípcia, não consigo extrair nada da entrevista. Meu interlocutor não sabe nada do sistem a protecionista egípcio ou não quer divulgar? De que tem m edo? Incom petência ou controle político: não sei. O fato é que em m inha segunda tentativa m ais um a vez dou com os burros n’água. Continuo sem respostas para m inhas perguntas. Terceira tentativa: a Arab Media Corporation.
No décim o andar de um prédio discreto no recife El Nile, no bairro de Maadi, sul do Cairo, está instalado o escritório de Hadil Saleh. As portas douradas de m adeiras raras, o m árm ore e as vidraças dando para o Nilo nesse andar contrastam com o abandono do prédio e os guardas dorm indo no saguão. Hadil é filha do bilionário xeque saudita Saleh Abdullah Kam el, dono da Arab Radio TV (ART), um a m ultinacional do entretenim ento. Com o a Rotana, essa m aj or tem sua sede social na Arábia Saudita, seus estúdios de cinem a e a coordenação de seus “conteúdos” no Cairo e suas redes de difusão na Jordânia. Possui cerca de vinte redes de televisão a cabo ou satélite, entre as quais a j oia principal é o Cinem a Channel (um a espécie de Canal + pan-árabe), um catálogo de film es históricos árabes im pressionante e infraestruturas de difusão extrem am ente poderosas. “Não existem condições para fazer cinem a na Arábia Saudita, e por isso é que o príncipe instalou seus estúdios aqui no Cairo”, explica Wael M. Essawy, o diretor-geral do ram o egípcio da m aj or. Proj eto com ercial, proj eto cultural, o grupo tam bém tem am bições m orais: com o dinheiro do Golfo, pretende influenciar os conteúdos do cinem a egípcio para atender às expectativas e valores do público árabe.
Khaled Abd El-Galeel, assessor especial do grupo no Cairo, confirm a, sem burocratês: “Nós tem os um a estratégia pan-árabe. Querem os criar um a indústria de A a Z, para valorizar a cultura árabe e o ponto de vista árabe. Nosso obj etivo é defender nossa cultura, nossas tradições, nossos valores, nossa religião. Nosso obj etivo não é ganhar dinheiro: o príncipe j á é m ilionário, não faria sentido. Nossos valores é que im portam . Nossa visão de m undo. Querem os fazer film es com valores, e não film es pelo dinheiro, com o os am ericanos. É um a estratégia m oral. E considero que tem os todo direito de fazer isso. E sobretudo, hoj e, tem os poder, capacidade e dinheiro para defender esse ponto de vista árabe. E vam os travar essa batalha”.
Os produtores árabes e os chefões das indústrias criativas em Riad, Beirute, Dam asco, Dubai, Doha e no Cairo estão preparados, portanto, para se engaj ar na batalha m undial de conteúdos. Segundo eles, o cinem a, a m úsica e os program as de televisão árabes podem tornar-se m ainstream e alcançar o resto do m undo. Eles j á puseram m ãos à obra. Resta conhecer o ponto de vista de seus concorrentes, especialm ente os distribuidores am ericanos.
O escritório da 20th Century Fox no Egito fica na parte velha do Cairo, na rua Al Azbakey a. “Fica ao lado do café am ericano”, foi a única indicação que m e deram . O m otorista de táxi é analfabeto e m inha indicação escrita em árabe não lhe adianta nada; ele pede aos transeuntes que leiam m eu pedaço de papel para m e levar até a rua em questão. Antigo e classudo, o prédio respira ares de outrora, am arelecido. Tam bém aqui, um guarda idoso cochila no saguão e ninguém sabe em que andar fica o escritório da Fox. Um elevador desconj untado e sem luz m e leva ao terceiro andar. E eu fico pensando que foi a partir desse prédio de um a outra época que os blockbusters Titanic e Avatar chegaram ao m undo árabe. Estranho.
Enquanto o prédio tem algo do caos egípcio, em seu interior os escritórios são m odernos, m aterialistas e “à am ericana”. Nas paredes, de um branco de giz, im ensos cartazes de Guerra nas estrelas, X-Men e dos Simpsons. No escritório principal, um relógio de pêndulo da 20th Century Fox toca de hora em hora a fam osa “Fox Fanfare”. Antoine Zeind é o presidente da United Motion Pictures, em presa que distribui com exclusividade nos países árabes os film es dos estúdios am ericanos, principalm ente a Fox e a Warner.
“Atualm ente os beij os não são m ais cortados no Egito, m as as m oças nuas ou sim plesm ente desnudadas, sim !”, suspira Antoine Zeind. Ele é cristão (m aronita) e fala fluentem ente inglês e francês. Fui ao seu encontro para entender o sistem a de regulam entação do cinem a no Egito. Dessa vez, bati na porta certa.
Antoine Zeind: “A censura afeta basicam ente os três ‘usual suspects’: religião, sexo e política. Mas é um a censura cada vez m ais hipócrita, com seus padrões duplos, e é preciso conhecer seus códigos”. Para torná-la efetiva, o governo egípcio criou um sistem a de autorização prévia dos film es, antes do lançam ento no circuito exibidor. O departam ento de censura pode proibir qualquer longa-m etragem ou im por cortes por “falta de m oderação” face ao corpo fem inino, conta-m e Zeind, por declarações hostis ao Egito, ao presidente Mubarak, ao profeta do islã e, naturalm ente, por qualquer referência explícita à sexualidade, à hom ossexualidade, m as estranham ente nem violência nem o álcool constituem realm ente problem a. Mais um a vez, é um a censura sem pre im previsível: o film e O prédio Yacubian, baseado no rom ance do fam oso escritor egípcio Alaa el-Aswany, apesar de tratar da ascensão do islam ism o no Egito, de hom ossexualidade e exploração sexual de m ulheres, não foi censurado (apenas proibido para m enores de 18 anos). E teve inclusive um belo sucesso no país. Censuras equivalentes existem em todos os países m uçulm anos e são ainda m ais rigorosas na Arábia Saudita, no Golfo, na Síria e no Irã.
O governo egípcio lim ita em seguida a difusão dos film es estrangeiros a cinco cópias por cidade no m áxim o. “Acontece que, com o só existem realm ente duas grandes cidades no Egito, Cairo e Alexandria, acabam os tendo direito a apenas dez cópias para todo o país”, lam enta Zeind. “É um m ercado fechado, ou, digam os, sem ifechado. E assim entendem os perfeitam ente com o é que o cinem a egípcio consegue ter 80% da bilheteria do país, e por que o cinem a am ericano é elim inado.” Elim inado? “Ficam os com o resto, vale dizer, 20%, m as o Egito é um m ercado de penetração difícil para a cultura am ericana. Im agine só: dez cópias num país de 74 m ilhões de habitantes! Mas existe pior ainda, pois na Líbia, onde tam bém distribuo os film es da Fox, tenho direito a apenas um a cópia!”
Cabe aqui relativizar essa “elim inação” do cinem a am ericano. Se a participação do cinem a egípcio é realm ente dom inante no Egito em geral, a concorrência dos am ericanos tornou-se significativa nas zonas urbanas. Sua participação no m ercado pode chegar a 45-50% nos m ultiplexes das grandes cidades, onde m uitas vezes se concentra o lançam ento dos blockbusters holly woodianos. Para não falar do m ercado negro, que no Cairo e em qualquer outra cidade perm ite ter acesso facilm ente a todos os film es am ericanos em DVD, por preços im batíveis.
A essa regulam entação pelo núm ero de cópias acrescenta-se um sistem a de taxação desfavorável ao cinem a estrangeiro: 5% sobre as receitas de bilheteria dos film es egípcios, 20% no caso dos film es estrangeiros. Mas Antoine Zeind dá a entender que o principal problem a da distribuição do cinem a am ericano no Egito, além desse duplo protecionism o através da legislação, é cultural. Ele aponta particularm ente o problem a das legendas, pois a quase totalidade dos film es estrangeiros, com o acontece em todos os países árabes, não é dublada. Num país em que o analfabetism o chega perto dos 30% da população, esse fator contribui para frear a difusão dos film es estrangeiros. “Na verdade, se eu tivesse 150 cópias de um film e, não teria onde exibi-las: a dem anda de cinem a am ericano é fraca, em bora estej a evoluindo”, reconhece Zeind.
Finalm ente, existe um a regulam entação indireta pelo m ercado. No Egito, existem basicam ente dois distribuidores que têm suas redes de salas e são fortem ente integrados de m aneira vertical (ou sej a, distribuem os film es que eles m esm os produzem ). Em consequência, esse duopólio funciona pelo princípio da exclusividade: os film es am ericanos são m arginalizados, especialm ente nos períodos m ais favoráveis da bilheteria, com o o verão, o fim do Ram adã ou o feriado do Sacrifício.
Decididam ente, é difícil avaliar os núm eros reais de penetração do cinem a am ericano no Egito. Segundo vários distribuidores, eles ficariam em torno de 20 a 25% da bilheteria, e o resto seria ocupado pelos film es egípcios, num a faixa de 75 a 80%, j á que as outras cinem atografias árabes, europeias ou estrangeiras praticam ente não estão m ais presentes (os funcionários egípcios confirm am essas estatísticas). “No Egito, tem os m uito poucos film es sírios, quase nenhum film e libanês, nenhum film e do Magreb”, explica Zeind. Um film e am ericano vende no m áxim o 150 m il entradas: “Mesm o no caso de Titanic, que foi um a exceção, consegui vender quatrocentas m il entradas em 28 sem anas, com seis sessões diárias e apenas cinco cópias! Chegam os a acrescentar um a sessão batizada de ‘super-m idnight’ às duas horas da m anhã, e, nos centros urbanos, um a ‘after-the-super-m idnight’, às quatro horas da m anhã, sessão que ficou conhecida com o ‘El Shabah’ (o fantasm a)”. Desse m odo, só o cinem a am ericano consegue penetrar no Egito, ainda que m oderadam ente. “Mas a dem anda de film es am ericanos vai aum entar”, prevê Zeind. “Existe um apetite cada vez m aior pelos film es de ação am ericanos. Os egípcios não sabem m ais fazer entretenim ento m ainstream , e até a j uventude egípcia tende a ignorar os film es nacionais. Se a dem anda é lim itada de m aneira autoritária nas salas, o público acabará encontrando na Internet e nas redes por satélite a oferta cultural que procura.”
Hala Hashish, a diretora do Egy pt News Channel, descarta esse tipo de argum ento. “Os árabes são perfeitam ente capazes de produzir entretenim ento m ainstream e esquecer o islã. No Egito, nós fazem os entretenim ento desde tem pos im em oriais.” À sua frente, três telas estão perm anentem ente sintonizadas na Al Jazeera, na Al Arabiy a e no Egy pt News Channel. “Todas essas redes são absolutam ente m ainstream ”, acrescenta ela, apontando para as telas. “E por sinal todas falam egípcio: ouça! Os j ornalistas, os cantores, os atores de cinem a, o pessoal do entretenim ento, todo m undo é egipcianizado.”
“Egipcianização.” Pela prim eira vez eu ouço essa expressão, soando com o “am ericanização”. Será talvez pelo m undo árabe que devem os com eçar para entender realm ente a dom inação am ericana na cultura de m assa. O sucesso planetário do entretenim ento am ericano é sem elhante ao sucesso regional do entretenim ento egípcio no m undo árabe; m uda apenas a escala. E ele tam bém provoca críticas e é denunciado por seu im perialism o.
Com o os Estados Unidos, o Egito defende há m uito tem po a cultura de m assa e o divertim ento. Essa tradição de entretenim ento popular é onipresente e não vem acom panhada de qualquer j ulgam ento crítico ou estético que contribuísse para estabelecer hierarquias culturais. Se existe de fato um cinem a de arte no Egito, do qual Yussef Chahin foi de certa form a o arquétipo, o fato é que não existe, com o na França ou no Marrocos, um discurso público que valorize a arte em vez do divertim ento, propondo-se a financiar aquela para fazer frente a este. Seria essa inclusive, aos olhos de Antoine Zeind, a explicação da dom inação egípcia nos países árabes: “No Marrocos, na Tunísia, m as tam bém no Vietnã, na Síria, na Coreia e na Bélgica de língua francesa, na Argentina, onde o m odelo francês sem pre foi forte na área cultural, privilegia-se a cultura de Estado e se subvenciona um cinem a de arte; no Egito, na Índia, no Brasil, entre os flam engos da Bélgica, em Hong Kong e atualm ente em Beij ing, com o sem pre aconteceu nos Estados Unidos, privilegia-se o divertim ento. Por isso é que estes têm sucesso e aqueles, não. Por isso é que a cultura m arroquina não tem nenhum a influência atualm ente no m undo árabe e a cultura egípcia dom ina”. Este ponto de vista corrosivo é com partilhado pelo crítico de cinem a egípcio Yussef Cherif Rizkallah, entrevistado igualm ente no Cairo: “O Marrocos tem um a produção artística, m uitas vezes apoiada pelo Estado. Esses film es podem ser vistos em algum as salas de cinem a de arte na Europa, m as sequer são exibidos na Argélia ou na Tunísia. Ao passo que nossos film es dom inam o cinem a do Magreb”.
Os países que conseguem existir nas trocas culturais internacionais e nos fluxos de conteúdos seriam , assim , os que privilegiam o entretenim ento e não a arte? Esta constatação é com partilhada, na África de língua francesa, por Charles Mensah, diretor da cinem atografia do Gabão, entrevistado em Cam arões: “As cinem atografias que deram ênfase ao ‘autor’, segundo o m odelo francês, com o o Marrocos, o Gabão e Cam arões, não conseguem difundir seus film es em m assa fora dos países de origem , ao passo que as que prom ovem o m odelo de divertim ento, à m aneira am ericana, com o o Egito, a Nigéria e sobretudo a Índia, conseguem m ais facilm ente chegar lá”.
Com o os Estados Unidos e a Índia, o Egito tam bém tem um a relação especial com as estrelas. São raros os países que têm estrelas m uito populares em casa — estrelas de verdade, capazes de provocar tum ulto e fascinar as m ultidões —, e m ais raros ainda os que souberam gerar estrelas globalizadas, conhecidas em todo o m undo. Arnold Schwarzenegger, Tom Cruise, Leonardo DiCaprio, Harrison Ford e Will Sm ith são alguns exem plos. Mas no panoram a m undial, se os europeus estão ausentes, algum as estrelas indianas e egípcias com eçam a entrar em concorrência com esses atores am ericanos. Em Mum bai, fiquei im pressionado com a reação histérica da m ultidão em qualquer aparição das estrelas de Bolly wood, com o Am itabh Bachchan ou Shah Rukh Khan, e voltei a ver a m esm a coisa nas ruas do Cairo, certa noite, quando, entrevistando em seu autom óvel de vidros escurecidos o j ovem ator de cinem a e apresentador de talk-show de televisão Khaled Abol Naga, ele foi reconhecido num sinal verm elho por dezenas de j ovens egípcios e passam os a ser perseguidos pelas ruas, obrigando a polícia a intervir para abrir passagem e perm itir a fuga do astro. E olhe que se tratava apenas de um j ovem ator iniciante.
É aonde chegam os, quase no fim de nossa longa investigação. Para se tornar m ainstream e falar a todo m undo será necessário privilegiar o entretenim ento e valorizá-lo sinceram ente? Será necessário apostar no star-sy stem , e não nos “autores”? Abandonar os próprios valores, a própria arte, a própria identidade? Para ser universal é preciso deixar de ser nacional? Eu precisava viaj ar à Europa, nesse fim de cam inho, para entender de que m aneira, no velho continente, pátria da cultura ocidental e de seus valores, deixam os de querer ser m ainstream .