Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
“Nós não demos sinal verde para o
Nessa m esm a m anhã, um pouco m ais tarde, dando prosseguim ento a m inha visita aos estúdios Sony Pictures, tenho m inha atenção atraída por um a série de prédios m enores, ocupados, segundo m e inform am , pelos “produtores independentes”. Produtores independentes no interior dos estúdios Sony ? Fico m eio perdido. “Sim , tem os todo um grupo de produtores ‘independentes’ ligados aos nossos estúdios, com o acontece em todas as outras m aj ors”, explica France Seghers. “Esses produtores são assalariados ou contratados por proj eto, o que nos dá direito ao que se costum a cham ar de ‘first look’, ou sej a, tem os prioridade quando eles apresentam um proj eto; m as se o recusam os, o produtor tem liberdade de oferecê-lo a outros estúdios.”
Na lanchonete da Sony, alm oço com a equipe de Im ageworks, a divisão de efeitos especiais da Sony Pictures. A com ida é surpreendentem ente boa, e eu obtenho m uitas inform ações sobre o digital e o avanço das tecnologias. À tarde, visito com eles a unidade especializada e sou presenteado com um a cam iseta de film agem , do tipo que é usado pelas equipes nos estúdios, com letras garrafais: “Realizador”, “Engenheiro de som ” ou “Diretor de fotografia”. Na m inha está escrito: “Writer”. Raram ente terei sido recebido com tanta gentileza num estúdio am ericano. Am ericano ou j aponês?
“A Sony Pictures pertence a um a m ultinacional j aponesa. Mas som os um estúdio autenticam ente am ericano”, confirm a France Seghers. “Os j aponeses nos com praram j ustam ente para continuarm os sendo am ericanos. Nunca quiseram que fizéssem os film es j aponeses. E aliás não saberíam os.” Em seu im enso escritório, um grande cartaz de Homem-Aranha 3 m e cham a a atenção. É m ais que um sím bolo: é a versão j aponesa do cartaz de um dos film es m ais caros da história do cinem a, produzido por um estúdio am ericano para um grupo j aponês.
“Nós não dem os sinal verde para o Homem-Aranha”
Sony City. Sem anas depois, estou na sede m undial da Sony, no bairro de Shinagawa, sudoeste de Tóquio. A m atriz do grupo, no Japão, tem três torres de vidro, e a m ais alta delas é a do conselho de adm inistração da m ultinacional. Todas as decisões estratégicas da Sony são tom adas aqui: sobre os produtos eletrônicos para o grande público, os telefones celulares Sony -Ericsson, os com putadores, os Play Stations e os PSPs, as televisões pagas por satélite da Sky Perfect JSAT no Japão, m as tam bém as decisões de “conteúdos”. Grosso m odo, a Sony é dona de duas das principais m aj ors m undiais do cinem a e da m úsica, a Sony Pictures Entertainm ent e a Sony Music, divididas em num erosas filiais am ericanas: os estúdios Colum bia, TriStar Pictures, Sony Pictures Classics e 20% da Metro-Goldwy n-May er; e tam bém a m úsica, com a CBS Music, a Colum bia Records, a Arista, a RCA e a Epic. Globalm ente, m ais de m il em presas e filiais estão ligadas à m atriz de Tóquio. Se na Europa e nos Estados Unidos a Sony é conhecida com o um a m arca de eletrônicos que se aventurou no reino do cinem a e da m úsica, no Japão ela é um a m arca nacional essencial, que fornece aos j aponeses inúm eros produtos e serviços, dos serviços bancários às pilhas elétricas, passando até pelo foie gras.
Quando chego ao escritório de Iwao Nakatani em Tóquio, ele está trabalhando num com putador Sony de últim a geração. Econom ista de grande reputação que defendeu tese em Harvard, ex-assessor econôm ico do prim eiro-m inistro j aponês, reitor de um a im portante universidade de Tóquio, Iwao Nakatani é m em bro do com itê diretor da Sony desde 1999 e foi presidente do conselho de adm inistração da em presa com o um todo de 2003 a 2005. Nessa função, foi ele que nom eou o novo diretor-presidente da Sony, o britânico sir Howard Stringer, que vinha da CBS. Depois de se entregar aos prazeres rotineiros da troca de cartões de visita, com m esuras daqui e dali, Iwao Nakatani vai direto ao assunto: “O trabalho da Sony consiste em oferecer às pessoas no m undo inteiro o m elhor divertim ento, e é por isso que fornecem os ao m esm o tem po o hardware, os aparelhos, e o software, os program as e conteúdos”, explica Nakatani em j aponês (ele não quis falar inglês, e nos com unicam os através de um a intérprete).
Por que entrar no m ercado de conteúdos, se os negócios tradicionais da Sony são a eletrônica e a inform ática para o grande público? “É um a boa pergunta”, responde Nakatani. “Aqui em Tóquio estam os m uito ligados ao hardware, ao passo que os conteúdos são m ais am ericanos, e foi por isso que com pram os os estúdios Colum bia. Nós precisávam os de conteúdos, era um a decisão puram ente econôm ica, e precisávam os organizar o grupo verticalm ente, ou sej a, com os aparelhos, os conteúdos, o cinem a, a m úsica, poder dispor de tudo ao m esm o tem po. Isso aconteceu antes de eu assum ir a direção da Sony. Mas o problem a, para a em presa, consiste j ustam ente nessa articulação entre a sede da Sony aqui em Tóquio e as m uitas filiais que pertencem à Sony, m as que tam bém precisam ter sua liberdade. Com prar um a em presa é fácil, m as adm inistrá-la, fazê-la funcionar a distância, é m ais difícil.”
Na verdade, o problem a da Sony tem a ver basicam ente com os conteúdos de cinem a e m úsica, confirm a Shuhey Yoshida, diretor-presidente da Sony Com puter Entertainm ent Worldwide Studios, dias depois, em Tóquio. Para este hom em que coordena a fabricação de inúm eros j ogos para os consoles PS 3, o problem a dos conteúdos não é o m esm o nos diferentes setores: “No cinem a, a história é essencial; nos j ogos, é o caráter interativo e funcional que im porta m ais. Isto, portanto, é o que sabem os fazer no Japão. Estam os constantem ente prom ovendo ‘focus groups’, pesquisas dirigidas, e ‘play -testings’, até a coisa funcionar. Considero que tem os m enos facilidade que os am ericanos para o cinem a e a m úsica do que para os j ogos”.
A Sony estaria preocupada em afirm ar valores j aponeses? Um im perialism o cultural? “Não creio”, corrige Iwao Nakatani. “A Sony é vista com o um a em presa apátrida, sem nacionalidade. É realm ente um a m ultinacional que por acaso tem sua sede no Japão. Nunca tivem os a pretensão de im por nossos valores ou dom inar através de nossos conteúdos. Não faz parte da nossa m entalidade. E por sinal, dam os carta branca aos am ericanos para adm inistrar os ram os cinem a e m úsica com toda liberdade.”
Para entender o funcionam ento da m atriz, pergunto a Iwao Nakatani (que na época presidia a Sony ) em que m om ento a direção da Sony no Japão foi inform ada da decisão da Sony Pictures dos Estados Unidos de fazer os três film es da série Homem-Aranha, e em que m om ento foi dado o sinal verde. Nakatani responde, com exatidão: “Não dem os sinal verde para Homem-Aranha daqui do Japão. O orçam ento do film e não foi apresentado nem aprovado aqui. Foi um a decisão exclusivam ente da Sony Pictures Entertainm ent nos Estados Unidos. Não tem os com o avaliar com critério aqui em Tóquio. Confiam os em nossas equipes nos Estados Unidos”. Este depoim ento é crucial para entender as indústrias internacionais de conteúdos.
Eu ficaria sabendo depois, através de Takashi Nishim ura, diretor da UNIJAPAN, e Junichi Shinsaka, diretor da Motion Picture Producers of Japan (Eiren), dois dos principais organism os profissionais de regulam entação do cinem a j aponês, que “nas estatísticas da indústria cinem atográfica aqui, a Sony é considerada um a em presa ‘estrangeira’, e não ‘nacional’. Para nós, trata-se de cinem a am ericano, e a Sony Pictures Entertainm ent é considerada um a em presa am ericana”. Para entender esse ponto essencial, cabe lem brar tam bém que a participação do cinem a nas rendas globais da m ultinacional Sony é pequena (19% em 2003, proporção próxim a dos outros conglom erados de m ídia: a Param ount representa 7% nos rendim entos da Viacom ; a 20th Century Fox, 19% nos da News Corp; a Warner, 18% nos da Tim e Warner; a Universal representava m enos de 2% nas rendas da General Electric, antes de ser com prada pela Com cast; e o cinem a representa um a fatia de 21% na Disney Corporation).
Pergunto então ao ex-presidente da Sony se o m esm o acontece com a m úsica na Sony Music. Nakatani: “Não tem os em Tóquio com petência em m atéria de cinem a nem de m úsica. Não tom am os decisões nem dam os sinal verde financeiro aos proj etos da Sony Music, com o não dam os aos da Sony Pictures nos Estados Unidos”.
Essas respostas confirm am então que a m atriz da Sony de fato se transform ou em pouco m ais que um banco para as filiais. Iwao Nakatani não contesta essa análise. A Sony deve então continuar nos conteúdos? No Japão, nunca se diz “não”. Nakatani hesita e acaba respondendo: É o que eu m e pergunto. Enquanto estiverm os obtendo lucro, não há urgência de m udar, m as se o grupo precisar de liquidez, talvez tenham os de pensar em vender nosso ram o cinem a ou nosso ram o m úsica. Em caráter pessoal, considero que a Sony perdeu força e singularidade ao entrar nos conteúdos. Além disso, os profissionais do hardware e os de conteúdo não conseguem trabalhar j untos, ao contrário do que esperávam os. A experiência da Sony -BMG na m úsica fracassou, pois não conseguíam os funcionar com a alem ã Bertelsm ann. Existe entre o Japão e a Europa ou os Estados Unidos um a distância m uito grande, geográfica m as tam bém cultural, o que não facilita as coisas.
No Japão, a Sony não tem estúdios de cinem a, e se existe um escritório da Sony Music, é bem m odesto: lim ita-se à m úsica j aponesa. Visitei os escritórios da Sony nos Estados Unidos, no Japão, m as tam bém em Cingapura, Hong Kong, Jacarta e Cairo, e a m aioria dos m eus interlocutores, atuassem no cinem a ou na m úsica, confirm ou essas inform ações. E por sinal todos disseram que estão subordinados aos escritórios da Sony nos Estados Unidos, e não em Tóquio. A Sony Music é de fato um a m aj or do disco nos Estados Unidos, assim com o a Sony Pictures é um estúdio am ericano.
De Culver City a Century City, dos estúdios am ericanos da Sony à torre da Metro-Goldwy n-May er, são m enos de cinco quilôm etros de distância, m as às vezes se leva m ais de um a hora de carro, tão intenso é o trânsito em Los Angeles. Em Century City, tudo parece falar de cinem a. As ruas têm nom es com o Avenue of the Stars, Fox Hills ou MGM Drive’ e os estúdios da 20th Century Fox ocupam toda a parte sul do bairro. O Fox Plaza, que vim os explodindo nos film es Clube da luta e Duro de matar, é um arranha-céu de 35 andares identificável à distância no bairro. Igualm ente visível à distância, o im enso prédio branco da Creative Artists Agency foi construído no espaço anteriorm ente ocupado pela torre da rede de televisão ABC (atualm ente instalada no “vale”, em Burbank, ao norte de Los Angeles, na sede da Disney, que a com prou).
No núm ero 1999 da Avenue of the Stars encontra-se a torre do banco J. P. Morgan. Subindo ao 26º andar, percebo que vários outros bancos tam bém têm escritórios ali: o Lazard Frères no 11º, o Morgan Stanley no 23º, a UBS no 34º. Estou no quartel-general do financiam ento de Holly wood e tenho encontro m arcado com Ken Lem berger.
Ken Lem berger é o ex-vice-presidente da Sony Pictures Entertainm ent, um dos chefões de Holly wood. Transferiu-se agora para o ram o do financiam ento de film es e dirige o departam ento “Entertainm ent” do banco J. P. Morgan. Seu cargo: “J. P. Morgan Entertainm ent Advisor”. Esfrego os olhos para ver se estou enxergando bem ...
Na conversa com ele, tento entender se os bancos investem em Holly wood ou se são sim plesm ente estabelecim entos de crédito. “Os bancos são um ator im portante no financiam ento de Holly wood, m as um ator secundário”, vai logo esclarecendo Ken Lem berger. “Os verdadeiros bancos são os estúdios, que investem seus próprios fundos no desenvolvim ento dos film es. Nosso papel se lim ita especialm ente a lhes fornecer a liquidez necessária, ou sej a, oferecer-lhes créditos, levando em conta o dinheiro que lhes foi prom etido por inúm eros parceiros, m as que ainda não puderam receber. Não se trata, portanto, de financiam ento especulativo, m as de em préstim os de tesouraria fornecidos a parceiros confiáveis. E cabe a m im aconselhar o banco J. P. Morgan nessa atividade. Todos os bancos recrutaram em Holly wood antigos dirigentes dos estúdios que conhecem bem a indústria, para se aconselhar com eles.” Sobre um a m esa de vidro, Ken Lem berger apanha um levantam ento estatístico de duzentas páginas sobre o m ercado da televisão indiana, para m e m ostrar a com plexidade do setor que deve analisar. Ao lado encontram -se o Wall Street Journal e o Financial Times. Nenhum exem plar do Los Angeles Times. Só os j ornais financeiros, não os que falam de cinem a.
Na econom ia global do cinem a am ericano e em m eio à infinidade de envolvidos que contribuem para a vitalidade de Holly wood, fico m e perguntando quem é finalm ente o verdadeiro patrão. Os bancos? Os estúdios? As agências de talentos?
A noite caiu em Holly wood. Confortavelm ente sentado num a esplêndida poltrona de couro, no centro de um gigantesco escritório, com todas as paredes cobertas de obras de arte fam osas extraídas das coleções particulares do banco e tendo por trás um a vista esplendorosa de Los Angeles ilum inada até o infinito, Ken Lem berger m e responde, categórico: Existe um único patrão em Holly wood, ao contrário do que se j ulga às vezes. Não são os bancos nem os produtores nem as agências de talentos, nem m esm o as estrelas m ultim ilionárias, m as os estúdios. A única pergunta que interessa é: quem assum e o risco financeiro? E a resposta, sem m argem para dúvidas, no caso de todos os principais film es m ainstream , é: o estúdio. Os estúdios são os “risk-takers”. Nesse sistem a, todos os dem ais envolvidos, que não são poucos, são rem unerados e estão sem pre no m esm o lugar, qualquer que sej a o resultado de bilheteria. Os únicos que realm ente assum em riscos financeiros são os estúdios. Eles podem ser criticados quando hesitam em dar sinal verde, podem ser considerados prudentes dem ais, m ainstream dem ais ou pouco inovadores. Mas a realidade é que todo m undo é pago no fim , e os estúdios são os únicos a assum ir o risco financeiro. Detêm sozinhos, portanto, o poder, e eu acho perfeitam ente norm al.
A dem onstração é eficaz, m as não m e convence totalm ente. Os bancos são um ator secundário no terreno do “cash flow” (fluxo de caixa), m as um ator de destaque no terreno “especulativo”, j ustam ente — algo de que Ken Lem berger praticam ente não m e fala. Com a financeirização da econom ia nas décadas de 1980 e 1990, os conglom erados de m ídia estão atualm ente em grande m edida subm etidos a um a lógica capitalista, particularm ente através dos fundos de pensão, dos hedge funds e dos mutual funds. A repartição do capital dentro dessas m ultinacionais é portanto um a questão decisiva, e essas com plexas operações na bolsa são efetuadas pelos bancos. Com o o J. P. Morgan. E pelos assessores, os “J. P. Morgan Entertainm ent Advisors”.