Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Frédéric Martel · Capítulo 35 de 67

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Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas

Como Murdoch perdeu milhões na China e encontrou uma mulher.

Com toda evidência, são grandes as am bições dos chineses e de Hong Kong em m atéria de produção de “conteúdos”. Conversando com m eus interlocutores no grupo eSun em Hong Kong, tive a im pressão de que se tratava de um a questão de orgulho, de nacionalism o cultural, tanto quanto de um a questão econôm ica. A guerra cultural foi declarada, m as na China ninguém sabe m uito bem quais são seus obj etivos. O foguete cultural chinês decolou sem que o regim e autoritário tenha estabelecido um a traj etória para ele. Pé no acelerador. Quanto ao destino, verem os depois.

É exatam ente o contrário da estratégia concorrente, e não m enos guerreira, de um outro turbo-capitalista: Rupert Murdoch.

Com o Murdoch perdeu m ilhões na China e encontrou um a m ulher “Just

im agine.” É quase igual ao slogan da Nike, “Just do it”. Está inscrito em letras douradas, ao estilo am ericano, num a parede de vidro no grande e luxuoso salão de recepção da sede pan-asiática do grupo Star, no 1 Harbourfront em Kowloon (Hong Kong). Com todas as luzes, as estrelas “Stars” cintilando, as escadas de vidro, quase parece um estúdio da MTV. Do oitavo andar do prédio azul espelhado, tem -se um a vista espetacular de Victoria Harbor e do m ar da China. À m inha frente, sete telas planas gigantes e um grande m apa-m úndi: fico pensando que Rupert Murdoch sem pre quis dom inar o m undo. “Just im agine.”

O novo hom em forte de Murdoch na Ásia, Paul Aiello, um banqueiro de Nova York que vive em Hong Kong há 15 anos, foi vice-presidente do banco First Boston, trabalhou para a Morgan Stanley e com o consultor para o Banco Mundial, recebe-m e no quartel-general da Star TV, de que é diretor-presidente desde 2006. Com um ar m eio preocupado diante desse francês que vem fazer um a investigação sobre sua em presa, volta e m eia envolvido com seu Blackberry Bold de últim a geração, ele tem a seu lado Laureen Ong. À prim eira vista, ela m e parece antipática, e a tom o por m ais um a fiscal de RP. Durante a longa entrevista, contudo, ela se revela encantadora e cooperativa, antiga colaboradora da National Geographic que fez o resto de sua carreira na televisão esportiva nos Estados Unidos e agora ocupa o posto de núm ero dois do grupo Star.

A Star são sessenta canais de televisão em sete línguas, capilarizados por toda a Ásia a partir de Hong Kong. “Podem os atingir potencialm ente 3 bilhões de pessoas em 53 países asiáticos, quase dois terços da população do planeta”, explica Paul Aiello, reproduzindo um a frase fam osa de Murdoch (na verdade, o grupo Star pode atingir apenas, e potencialm ente, 300 m ilhões de pessoas). Com sede em Hong Kong, a Star representa para Murdoch, chefe globalizado da m ultinacional News Corp, o equivalente asiático do grupo Sky no Reino Unido ou da Fox nos Estados Unidos. E se trata de um a das apostas audiovisuais m ais audaciosas dos vinte últim os anos.

As aventuras chinesas de Rupert Murdoch rem ontam ao início da década de 1990, e o obj etivo era sim ples: ter um a televisão hertziana na China. O bilionário australiano-am ericano apostou todos os seus recursos, todo o seu pragm atism o em m atéria de negócios e toda a sua “guanxi” (palavra crucial na China, definindo os bons contatos políticos no partido com unista). Nesse processo, perdeu m ilhões de dólares e acabou fracassando. Mas a experiência lhe rendeu um a esposa, Wendi.

*

“No fim das contas, o partido com unista chinês não seria a m aior câm ara de com ércio do m undo?” Estam os em 1997. Rupert Murdoch se orgulha da sua “j oke”, que acaba de fazer o efeito desej ado num j antar em Beij ing. Seguro de si, ele investiu na China com um plano bem traçado: apanhar no seu próprio j ogo do dinheiro os com unistas que desde Deng Xiaoping querem “enriquecer”. E dinheiro é o que não falta a Murdoch.

Não dem ora, e Murdoch está de olho no grupo Star, cuj as iniciais significam Satellite Television for the Asian Region. O grupo foi criado em Hong Kong em 1991, com cinco canais iniciais em inglês (entre eles MTV Asia e o sinal do BBC World Service). A Star logo fez um sucesso razoável, m as foi um fracasso financeiro. Já em 1993, assim , Murdoch resolve desem bolsar cerca de 525 m ilhões de dólares na com pra do grupo. As autoridades chinesas m ostram preocupação? Ele oferece garantias, aceitando em 1994 retirar o BBC World Service de sua oferta por satélite, j á que, desde os acontecim entos da Praça Tian’anm en, Beij ing considera que o canal britânico se m ostra insuficientem ente “j usto, equilibrado e positivo” na abordagem das questões políticas chinesas. Pouco depois, Murdoch vai m ais longe: exorta tam bém a Sky, seu grupo britânico, a se m ostrar m ais “equilibrada” no tratam ento das questões chinesas, dando a palavra ao governo chinês, quando for atacado, para divulgar seu “ponto de vista”. Tratava-se de parar de m ostrar no Reino Unido, por exem plo, as im agens do “Tank Man”, o hom em que enfrentou os tanques na Praça Tian’anm en, sobre o qual, precisam ente, a Sky queria notícias atualizadas; a m enos que Beij ing fosse autorizada, por um a questão de “equilíbrio”, a dar sua versão dos fatos. Não dem ora, e Murdoch, para agradar ao partido com unista, critica o Dalai Lam a num a frase que ficou célebre: “Um velho m onge m uito politizado que anda por aí com sapatos Gucci”, denunciando a sociedade tibetana com o “autoritária e m edieval”. Com isso, Murdoch revela um a faceta essencial de seu personagem : o absoluto pragm atism o, quando estão em j ogo os negócios, indo de encontro até a seus próprios ideais políticos. No fundo, ele se dispõe a aceitar as norm as chinesas e até o controle político de seus j ornais e program as, desde que possa ganhar dinheiro. Ele cultiva m enos as ideias que os dólares, m enos os conflitos que os lucros. No Reino Unido, a im prensa não se m ostra m uito sensível a tais nuances ou às hesitações e segundas intenções do bilionário: suas declarações e decisões causam enorm e indignação.

Entretanto, por prudente que sej a, Murdoch poria em risco seu im pério com um a única frase. Em 1993, num a recepção em Londres para o lançam ento de um novo serviço a cabo de seu grupo Sky, Murdoch com eça, num breve trecho de seu discurso, quase inadvertidam ente, a fazer a apologia das televisões por satélite contra os regim es totalitários: “O fax perm itiu aos dissidentes dispensar os veículos escritos controlados pelos Estados; as televisões por satélite perm itirão às populações dos países fechados, ávidas de inform ações, contornar as televisões estatais.”

A m ensagem transm itida ao pequeno círculo da elite dos m eios de com unicação britânicos inevitavelm ente dá a volta ao m undo em poucas horas, e Li Peng, o prim eiro-m inistro chinês, a recebe em seu com plexo de Beij ing, a oito m il quilôm etros de distância. Ele sabe m elhor que ninguém que o fax foi usado pelos estudantes da Praça Tian’anm en para m arcar secretam ente os pontos de encontro para as m anifestações, e se ainda tivesse algum a dúvida, j á está entendendo agora os obj etivos chineses do bilionário. Vai então cuidar pessoalm ente do caso Murdoch. Ante os colossais recursos financeiros de que ele dispõe, os chineses respondem à sua m aneira: com suas arm as pesadas. Para com eçar, o prim eiro-m inistro assina um decreto, um m ês apenas após o discurso de Murdoch sobre “o fax e os satélites”, proibindo em todo o território chinês a instalação de antenas parabólicas para captar televisões por satélite. A partir de então, o cabo, e não m ais o satélite, seria privilegiado na difusão dos canais de televisão na China. Ele incum be ainda o chefe do departam ento de propaganda em Beij ing, diretam ente subordinado ao partido com unista chinês, de preparar um dossiê “Murdoch” e acom panhar cada m ovim ento e cada proj eto do em presário em Hong Kong e na China. Obj etivo: prevenir a “spiritual pollution” (na linguagem do partido, os valores antissocialistas capazes de am eaçar a cultura chinesa). Nesse dia, segundo suas próprias palavras, Murdoch passa da “watchlist” à “blacklist”.

O dossiê Murdoch vai crescendo, pois ele dispõe dos recursos com patíveis com suas am bições. Já financiou por exem plo, a um grande custo, um “news m edia center” em Beij ing, e convidou dezenas de contatos oficiais privilegiados para visitar as infraestruturas da Fox em Nova York e da Sky em Londres, para im pressioná-los. Agora, ele com pra um influente diário em língua inglesa de Hong Kong, financia um estúdio de cinem a na cidade de Tianj in e chega a publicar nos Estados Unidos, para agradar à fam ília presidencial, as m em órias de Maom ao, a filha caçula de Deng Xiaoping (a HarperCollins, ram o editorial do grupo News Corp, é convidada a publicar o livro sem se preocupar com gastos — chegou-se a escrever que Maom ao recebera um adiantam ento de um m ilhão de dólares). A turnê prom ocional pelos Estados Unidos m ontada por Murdoch para Maom ao lem bra a que a União Soviética organizou para a visita de André Gide, m as a im prensa am ericana não se deixa im pressionar. O New York Times ridiculariza a autobiografia na época do lançam ento: “Um a obra indigesta de propaganda, de estilo literário em polado.”

Murdoch persegue m etodicam ente seu obj etivo. Vem agora a se deixar levar por um a onda de afeto pelo filho m ais velho de Deng Xiaoping, que é deficiente. Financia sua associação, a Federação Chinesa de Pessoas Deficientes, e o recebe, j untam ente com seus colaboradores, num cruzeiro em seu iate, com transporte gratuito em avião particular. Murdoch vai sem pre em frente: em 1993, decide m udar-se com a m ulher e os filhos para um dos m ais belos palacetes de Hong Kong (os Murdoch voltariam para Los Angeles m enos de seis sem anas depois). Em 1997, veta a publicação pela HarperCollins das m em órias críticas de Chris Patten, o ex-governador de Hong Kong, para não desagradar às autoridades de Beij ing após o fim do m andato britânico na ilha e sua reintegração à China continental.

Essa cam panha de sedução desenfreada funciona inicialm ente, m as quando Deng Xiaoping é afastado do poder, sendo sucedido por Jiang Zem in, Murdoch se vê sem “guanxi” (sem contatos políticos). Enquanto isso, os chineses com eçaram a confiscar m ais de quinhentas m il antenas parabólicas, tentando lim itar a influência das televisões estrangeiras em geral, e da Star TV em particular.

A resposta de Murdoch viria em três etapas. Inicialm ente, ele decide internacionalizar a Star. Com o não pode atingir os chineses do continente, vai se dirigir aos asiáticos do m undo inteiro. Assim é que abre escritórios por toda a Ásia e m esm o além . Em Dubai, por exem plo, fiquei surpreso ao m e deparar com um escritório da Star TV na Dubai Knowledge City. “A Star se im plantou aqui no Golfo tendo em vista os im igrantes chineses, indianos e paquistaneses. Nossos canais vão ao ar em hindi, m andarim e inglês, e têm bons níveis de audiência, considerando-se o grande núm ero de asiáticos que vivem no exterior. Mas não produzim os nenhum program a em Dubai, tem os apenas um ‘sale office’, para a venda de espaço publicitário. É a aposta a honrar aqui. Foi ele que quis abrir um escritório em Dubai, para cuidarm os do Golfo”, explica-m e Alis Terb, assessor do diretor da Star TV em Dubai.

A segunda estratégia é a m úsica, m enos problem ática que a inform ação. Ao lançar o Channel V no pacote da Star, Murdoch quer recriar na Ásia um equivalente da MTV. A estratégia é hábil, j ogando com conteúdos locais para atrair públicos variados. Assim , existe um a versão do Channel V voltada para a China continental, feita em Taiwan em m andarim , com program ação extrem am ente local, sob estrito controle político. Para o resto do m undo, o Channel V gera um a versão internacional, feita em inglês em Hong Kong, à base de canto-pop e m ais livre em sua expressão. As diferentes versões têm considerável sucesso.

A terceira resposta de Murdoch, em 1996, é m ais am biciosa, com um nom e significativo: Phoenix. Com a Phoenix, Murdoch espera renascer das cinzas.

Do oitavo andar do prédio de escritórios da Star em Hong Kong, pode-se subir por um a bela escada de vidro ao nono andar, onde se encontram , j ustam ente, as instalações da Phoenix. Através dessa escada sim bólica, os dois canais trocam conteúdos, com partilham estúdios e testam estratégias diferentes. A partir de Hong Kong, o grupo Phoenix transm ite atualm ente por satélite para a China três canais em m andarim , fruto de um a j oint-venture entre Murdoch e o em presário chinês Liu Changle. Seus detratores ironizam essa “j oint-adventure”.

Em 1996, o novo estratagem a de Murdoch está m ontado. Ele precisa encontrar para a Phoenix um parceiro bem relacionado em Beij ing, para aj udá-lo a conseguir as autorizações necessárias, em troca de infraestruturas de satélite e de dinheiro. Liu Changle é o hom em certo: por um lado, é filho de um apparatchik com unista e serviu no exército chinês, o fam oso People’s Liberation Arm y, passando à reserva com a patente de coronel; por outro, trata-se de um autêntico hom em de negócios, apaixonado pelos m eios de com unicação (foi j ornalista m ilitar na Rádio Central do Povo em Beij ing), e um tem ível negociador financeiro, que fez fortuna m isteriosam ente nas refinarias de petróleo de Cingapura e depois no setor im obiliário, nas rodovias, portos e hotéis na China continental. Liu Changle prova de form a caricatural que na “econom ia socialista de m ercado” chinesa é possível desfrutar de am plas possibilidades com erciais quando se tem boas relações políticas. Decidido a enfrentar esse “Far-East”, Murdoch conhece o preço dessa rede e sabe lidar com os hom ens. Rapidam ente ele percebe em Liu Changle as contradições típicas da nova elite chinesa: o fervoroso budista e o m agnata m ultim ilionário, o hom em ao m esm o tem po frustrado pelo partido e leal ao sistem a com unista, o hom em de negócios inescrupuloso e o pai que m atriculou as filhas num a universidade am ericana, o apparatchik que existe graças ao regim e e aquele que dá a m ão a um j ornalista que o m ina por dentro, dupla condição de seu próprio sucesso. Com a condição de que Murdoch se com prom eta a m anter a Phoenix “politicam ente neutra”, Liu Changle dispõe-se a m ontar com ele a rede privada Phoenix Satellite Television. Negócio fechado: Murdoch e Changle detêm cada um 45% do novo grupo, sediado em Hong Kong e cotado na bolsa de valores local, sendo os 10% restantes oferecidos, com o sinal de boa vontade, à CCTV, a televisão oficial com unista de Beij ing.

Já em 1996, a Phoenix consegue as autorizações necessárias para a transm issão na China continental, por m otivos que não ficaram com pletam ente claros, m as que provavelm ente têm a ver com o retorno antecipado da região autônom a de Hong Kong à esfera com unista chinesa em 1997. Em poucos m eses, com vários canais em m andarim , a Phoenix obtém considerável sucesso na Ásia: com seus talk-shows, seus noticiários ao vivo e seus apresentadores fazendo perguntas realm ente questionadoras a convidados “on-air”, a nova televisão deixa para trás os program as em poeirados das televisões públicas chinesas. “Good Morning China”, “Phoenix Afternoon Express” e “Newsline” são alguns dos program as de sucesso do novo canal, cópia deslavada do canal Fox de Murdoch nos Estados Unidos.

Mais um a vez, contudo, Beij ing tom a o cuidado de lim itar os riscos. A captação da Phoenix é autorizada na China continental apenas nos hotéis três estrelas (ou m ais), nas em baixadas e em certos prédios governam entais. Sobretudo, Liu Changle cuida para que Murdoch não dirij a os program as nem a redação do canal. Pela prim eira vez na vida, Murdoch se vê confinado a um a segunda posição e aceita infringir a regra por que se pautou em toda a sua carreira: j am ais adm inistrar um negócio que não estej a com pletam ente sob seu controle.

O 11 de setem bro de 2001 é que haveria de tornar a Phoenix indispensável, m ais ou m enos com o a prim eira guerra do Golfo e a (segunda) guerra do Iraque tornariam a CNN e depois a Al Jazeera incontornáveis. Enquanto as televisões oficiais chinesas lim itam -se a um breve anúncio sobre os atentados terroristas em Nova York, à espera da posição oficial do partido e do sinal verde para transm itir as im agens — que levariam m ais de 24 horas para chegar —, a Phoenix im ediatam ente retransm ite as im agens sem parar e altera toda a sua program ação para se m anter ao vivo de Nova York durante vários dias. Milhares de chineses acorrem aos hotéis para acom panhar os acontecim entos. A com pra de antenas parabólicas ilegais se potencializa, apesar da proibição, e elas vão surgindo por toda a China, tanto m ais num erosas quanto m aior a distância da capital política, Beij ing. Ao realizar m inha pesquisa na China, constatei que era possível com prar um aparelho de bom tam anho por cerca de 3.000 iuanes RMB (aproxim adam ente 300 euros). De acordo com m eus diferente contatos, m ilhões de chineses têm acesso às televisões estrangeiras por satélite. Às vezes, um a antena parabólica m aior é instalada no alto de um prédio para atender aos m oradores de todo o bairro — fenôm eno com pletam ente ilegal e visivelm ente generalizado. Não raro, tam bém na m aior ilegalidade, as redes a cabo locais, apesar de públicas, capturam o sinal da Phoenix por satélite e o oferecem em seu pacote, para se tornar m ais atraentes. Por enquanto, as autoridades de Beij ing fecham os olhos e a Phoenix tolera a pirataria sem exigir indenização, para aum entar sua audiência e sua influência.

Apostando com a Phoenix na descentralização, no com ércio ilegal de antenas parabólicas, na obsolescência da regulam entação e na fom e de lucro do “capitalism o de Estado” de Beij ing, Murdoch conseguiu m arcar pontos. Mas ainda não venceu a guerra.

“Tem os diariam ente 180 m ilhões de telespectadores na China.” O vice-presidente da Phoenix, Roger Uren, um australiano afável que m e acom panha em visita aos estúdios do canal, na sede de Hong Kong, acaba de m e revelar de passagem , m eio calculista, m eio brincalhão, um núm ero precioso. “180 m ilhões”: pela prim eira vez ouço oficialm ente um núm ero tão preciso. Seria verdadeiro? Ninguém sabe ao certo, nem Roger Uren. A direção da Phoenix certam ente teria interesse em aum entar sua audiência para bom bar seu m ercado publicitário, m as tam bém pode querer dim inuí-lo, para evitar qualquer m edida de represália da censura. Mas o fato é que esse núm ero, nesse arriscado exercício de equilibrism o, parece plausível. Oficialm ente, claro, a Phoenix Television atinge apenas algum as centenas de m ilhares de turistas, diplom atas e funcionários, j á que está lim itada à captação em hotéis. Todo m undo fica satisfeito com essa ilusão.

Conversando com j ornalistas, apresentadores e funcionários da Phoenix, todos sem pre atarefados em instalações m uito concorridas, eu entendo o sucesso do canal. A Phoenix é um a televisão m oderna e j ovem , inovadora e audaciosa, apesar dos riscos políticos que enfrenta e dos parcos recursos financeiros. Wang Ruolin, por exem plo, prepara-se para apresentar um program a quando o encontro na sala de m aquiagem em frente a um dos três estúdios da Phoenix: com apenas 25 anos, ele traj a um a cam iseta branca colante e usa um corte de cabelo que lem bra os dos apresentadores hip-hop da MTV, dizendo-m e que é especializado em “infotainm ent”; Sally Wu, por sua vez, contratada em Taiwan, é um a apresentadora de j ornal particularm ente telegênica, estilosa e sutil, tem um a voz suave que a torna incrivelm ente sedutora e m e dizem que m ilhões de estudantes chineses são apaixonados por ela; finalm ente, Dou, com quem m e encontro num escritório open-space, m e inform a que é assistente do prim eiro talk-show gay j am ais produzido na televisão na China. Estam os m uito longe dos apresentadores j urássicos e do burocratês m onótono e austero dos canais oficiais, que transform aram o “no sex, no violence, no news” em regra m áxim a. Mas a j uventude e a liberdade têm seus lim ites.

“Fizem os concessões dem ais para não bater m uito de frente com a censura”, reconhece Roger Uren, o vice-presidente da Phoenix. “Nós nos concentrarm os nos fatos. Não provocam os o regim e, som os um canal chinês. E ao passo que a Star é um canal extrem am ente ocidental, nós som os m ais locais.” Essas concessões têm um preço: às vezes é possível ver na Phoenix program as fazendo a apologia de m edidas econôm icas tom adas por governos das províncias (apesar de unanim em ente criticadas); contando a vida m aravilhosa de Deng Xiaoping; entrevistando o m inistro da Saúde dias antes de ser dem itido por ter tentado ocultar a epidem ia de síndrom e respiratória aguda severa (SRAS); criticando o Dalai Lam a; e j am ais se faz a m enor m enção dos acontecim entos da Praça Tian’anm en. Os detratores de Rupert Murdoch veem na Phoenix um canal que sim plesm ente faz propaganda m ais sutil que a dos canais oficiais chineses.

Por m ais im previsível que sej a, a estratégia de Murdoch vai ficando clara: com a Star, o m agnata da m ídia fez um a j ogada pan-asiática, tentando, do exterior, abrir o país às influências internacionais, levando os chineses ao pé da letra em sua preocupação de m odernização; com a Phoenix, ele fez um a j ogada pró-chinesa e conseguiu penetrar no m ercado interno j ogando com suas zonas de obscuridade, ao m esm o tem po em que decuplicava sua audiência nas “chinatowns” do m undo inteiro, que preferem a Phoenix aos canais oficiais da CCTV.

Na Star, em Hong Kong, o diretor-presidente do grupo não haveria, naturalm ente, de reconhecer o que o vice-presidente da Phoenix adm itiu em conversa com igo um andar acim a. Em conversa com igo, Paul Aiello, o diretor-presidente da Star, escolhe as palavras com prudência, sem dizer nem de m ais nem de m enos: “Levando-se em conta quem som os e aquilo que representam os, só podem os agir na China por vias legais [through the front door]. Não podem os atuar em terreno dúbio [the grey area]”. Na China, a zona “de som bra” é o arriscado espaço entre o legal e o ilegal, tudo aquilo que é tolerado pelas autoridades sem ser oficialm ente proibido. A Phoenix j oga com isso, tentando deslocar as fronteiras dessa “som bra”; a Star tam bém , m as sem reconhecê-lo oficialm ente (com o se as antenas parabólicas dessem acesso à Phoenix e não à Star). Nenhum a das duas estratégias é realm ente satisfatória, claro, m as ao segurar a China pelas duas pontas, por assim dizer, dos dois lados, “in” e “out”, Murdoch m arcou m ais pontos do que se dispõem a reconhecer em geral os seus detratores. E nessa m ovida conseguiu, em especial, um a nova m ulher.

Alta, atraente, entusiástica, Wendi Deng é em 1997 um a j ovem chinesa de 29 anos com um diplom a MBA por Yale, e que há alguns m eses faz um estágio na sede da Star em Hong Kong. Fala fluentem ente inglês e sua língua m aterna é o m andarim (ao passo que a m aioria dos em pregados da Star fala cantonês, a língua de Hong Kong). As circunstâncias a levam a ser m obilizada com o intérprete de Rupert Murdoch. Na época, o m agnata da m ídia está em seu segundo casam ento, que no entanto vai m al das pernas. A j ovem chinesa lhe parece sedutora e ele im ediatam ente confidencia a seu principal assessor: “Acho que quando a gente j á está com m ais idade precisa cercar-se de j ovens, pessoas com ideias novas, cheias de energia e entusiasm o. É contagiante, nos revitaliza”. Pouco depois, ele com eça um a relação com Wendi, que logo se torna sua terceira esposa.

Wendi Deng Murdoch teria um a influência decisiva em Murdoch, acom panhando-o em sua nova — e derradeira — aventura na China. A esta seria dado um nom e estranho: ChinaBy te. É com a Internet que o m agnata da m ídia ainda espera vencer sua batalha na China. Mais um a vez, Murdoch apanhou todo m undo de surpresa, a com eçar pelos chineses. Mais ainda que as televisões por satélite, a Internet logo representou um problem a considerável para as autoridades com unistas. O controle absoluto do partido podia ser posto em risco. Pensando inicialm ente poder “proibir a Web”, Beij ing deu-se conta de que as m edidas técnicas e policiais para frear seu desenvolvim ento e controlar seus conteúdos não eram m uito eficazes. Sobretudo, as autoridades se depararam com um quebra-cabeça incontornável, j á que frear a Internet era o m esm o que frear a econom ia. Sem acesso à Internet, nenhum a econom ia pode lutar em condições de igualdade com os Estados Unidos, a Europa, a Índia e o Japão. Pela prim eira vez, o controle político e o desenvolvim ento econôm ico pareciam inexoravelm ente incom patíveis. Um a década, duzentos m ilhões de internautas e cinquenta m ilhões de blogs depois, a tensão continua.

Essa contradição é que seria explorada por Murdoch com incrível habilidade. Já em 1995, ele decide investir na Web na China, e o faz à sua m aneira, blefando. Tendo aprendido a frequentá-los e lisonj eá-los, ele negocia com os dirigentes do diário oficial do partido com unista a criação de um a j oint-venture para o lançam ento de um site com um , garantindo às autoridades que será ao m esm o tem po ultram oderno no plano técnico e confiável no político. Em tais condições, o governo chinês dá o sinal verde, m as exigindo que o site de Murdoch dependa do provedor oficial chinês, Chinanet. Na época, estim a-se em m enos de 250 m il o núm ero de internautas na China. Murdoch aproveita a brecha, m as não consegue sua conexão: em j aneiro de 1996, o prim eiro-m inistro chinês anuncia a total proibição da Internet. Motivo oficial: “lutar contra a pornografia” (ao que parece, um “cam arada” do escritório de propaganda que havia instalado Windows 95 em casa deu com um site de pornografia). O controle é intensificado e as em presas de Internet são obrigadas a solicitar nova autorização especial. Depois de vários m eses de tratativas, Murdoch consegue licença para lançar o site chinaby te.com . Nova ducha fria: o m odelo econôm ico de seu proj eto baseia-se na publicidade, m as acontece que sua em presa não tem autorização para vender espaços publicitários, pois um dos dois sócios não é chinês.

Em seu prim eiro ano de funcionam ento, esse site da Web, finalm ente autorizado no papel, ainda não consegue conexão de acesso à Internet. Novas negociações, e sete m eses depois Murdoch consegue um a conexão de 28 K, m ediante assinatura de 22 m il dólares por m ês. Os críticos se regalam com seus percalços, afirm ando que, com um valor tão ridiculam ente alto, ele estava na verdade subvencionando o desenvolvim ento da Internet em toda a China.

Em j aneiro de 1997, o chinaby te.com é oficialm ente lançado, com as congratulações do governo chinês e um a extraordinária cobertura na m ídia internacional. Em poucos m eses, transform a-se no m aior site chinês. A essa altura apoiado pela nova m ulher, oficialm ente incum bida da Internet no grupo Star, Murdoch m ultiplicaria os investim entos — e os riscos.

Mais que nunca, ele acredita nas virtudes da sinergia em seu grupo, totalm ente baseado no m odelo da concentração vertical: um film e adaptado de um livro da HarperCollins é produzido pela 20th Century Fox e em seguida transm itido pela televisão aberta Fox nos Estados Unidos, pela Sky na Grã-Bretanha e a Star na Ásia, recebe cobertura am pla no Times e no Sun em Londres, no New York Post nos Estados Unidos e assim por diante, nas dezenas de m eios de com unicação e em presas sob o guarda-chuva do grupo News Corp. Com o lançam ento de Titanic, no fim de 1997, Murdoch deu um golpe de m estre internacional — na China, um golpe de gênio.

Tendo Wendi com o sua boa fada, Murdoch consegue, com efeito, convencer o presidente chinês, Jiang Zem in, a assistir a um a proj eção privada de Titanic, produzido por seus estúdios da 20th Century Fox. O líder com unista se em ociona com as aventuras do adolescente pobre que se apaixona por um a j ovem rica e m orre para salvá-la; gosta dos efeitos especiais de Titanic e m ais ainda do sucesso com ercial planetário do film e. Dias depois, num gesto raro, assina pessoalm ente um a crítica do film e no diário com unista oficial: “Convido m eus cam aradas do birô político a ver o film e, não para prom over o capitalism o, m as para nos aj udar a ter êxito. Não devem os acreditar que som os os únicos a saber com o fazer propaganda”. Em bora Murdoch tenha tom ado o texto com o um cum prim ento, trata-se na verdade do program a estabelecido por Jiang Zem in para os dirigentes “culturais” do partido: a China deve pôr m ãos à obra, reconstruir suas indústrias culturais obsoletas e vencer Holly wood em seu próprio terreno. Através de sua crítica de cinem a, com força de decreto, o presidente chinês dá ordens para enfrentar o desafio de construir um cinem a poderoso.

Aproveitando a oportunidade do artigo do presidente chinês, Murdoch prom ove um a série de proj eções para os m em bros do birô político do partido com unista chinês, sem esquecer, naturalm ente, de convidar os dirigentes da censura. Três m eses depois, obtém autorização para lançar Titanic na China com grande quantidade de cópias, o que teria sido im possível sem o artigo de Jiang Zem in. Titanic torna-se assim o m aior sucesso do cinem a estrangeiro em toda a história da China.

Eis portanto Murdoch novam ente nas graças de Beij ing. Pelo m enos é o que ele acha. E ele tam bém espera, em troca, o fim da proibição das antenas parabólicas na China e m ais liberdade para a Internet. Murdoch passa a declarar publicam ente que a Star, até há pouco um a sim ples cadeia de canais pagos, vai se transform ar na prim eira plataform a m ultim ídia da Ásia. Ele então encom enda a Wendi e a seu próprio filho, Jam es Murdoch, que tom ou a frente da Star em Hong Kong, cerca de vinte outros sites chineses e indianos na Web, com prados por cerca de 150 m ilhões de dólares.

Mais um a vez, era subestim ar os chineses em m atéria de concorrência. As autoridades com unistas de fato autorizam a transm issão na China continental da versão em m andarim da Star, m as o canal oferecido pode ser visto num a rede a cabo de um a província chinesa distante, cuj os habitantes falam sobretudo cantonês. Em troca, Murdoch se com prom ete a abrir suas redes a cabo am ericanas ao novo canal oficial de inform ação contínua em inglês, um a espécie de Voice of China. A oferta não era negociável.

Mas há pior. Murdoch constatou que em sua m aioria os program as de sucesso por ele lançados na Star e na Phoenix são literalm ente clonados e reproduzidos — às vezes sim plesm ente com um a tradução para o m andarim , e ao arrepio das leis de pirataria — pelas televisões nacionais, que os revendem , entrando em concorrência com a Star. Em caso de processo, os tribunais chineses sem pre dão razão às televisões governam entais. Um fenôm eno sem elhante se dá com o site de Murdoch, totalm ente copiado. Os sites piratas são realizados pelas próprias equipes contratadas pelo dono da News Corp e em suas próprias instalações. Com isso, o site original logo atinge um teto de algum as centenas de m ilhares de visitantes, enquanto o site clonado, m aciçam ente divulgado pelas televisões e a im prensa oficiais, rapidam ente supera m ilhões. Com o estouro da bolha da Internet e as tensões com os parceiros oficiais chineses dos outros sites que proliferam na Web, Murdoch finalm ente decide retirar-se desse m ercado. E logo tam bém da China.

“Murdoch ainda nos telefona com frequência”, diz-m e Paul Aiello, o diretor-presidente do grupo Star em Hong Kong. “Às vezes, são quatro horas da m anhã, pois lá nos Estados Unidos ele se enganou sobre os fusos horários. O que Murdoch tem de form idável é seu entusiasm o. Ele nunca fica preso ao passado, a seus erros. Pergunta-m e: ‘What’s next?’ Agora a Internet se transform ou para ele num a obsessão. Ele está sem pre pensando no futuro. Nunca aceita o status quo.”

E no entanto, é com efeito o status quo que dom ina atualm ente a Star na China. Rupert Murdoch, apresentado por Paul Aiello com o sendo tão “hands-on”, tão diretam ente envolvido no andam ento do negócio, parece ter deixado de lado seu brinquedo chinês, dando preferência a outros desafios, o Wall Street Journal ou o My Space, suas recentes aquisições nos Estados Unidos, e sobretudo à Índia, que passou a com parar favoravelm ente com a China.

Hoj e, se o grupo Star tem real influência na Índia, onde realiza 70% de seu volum e de negócios, e em Taiwan, onde seus canais dom inam o m ercado, a penetração no m ercado chinês ainda está por fazer. Com a Star, Murdoch não conseguiu ter o canal de televisão aberta com que sonhava; j á na Phoenix, não é seu o controle financeiro nem o controle editorial (e assim foi que recentem ente ele vendeu m etade de sua participação à operadora telefônica pública chinesa). “Se você quer que eu diga que nossa entrada no m ercado chinês foi um a decepção, sim , foi realm ente um a decepção”, reconhece Paul Aiello. O próprio Murdoch m anifestou num a conferência sua perplexidade quanto ao balanço de seus negócios na China: “Nós não nos saím os m uito bem na China. Devem os m ostrar-nos extrem am ente hum ildes. Posso dizer apenas que ninguém — e digo bem : ninguém —, nenhum dos grupos am ericanos ou ingleses de m ídia, conseguiu até agora ter um im pacto na China. É um m ercado m uito am plo, m as m uito sensível, realm ente m uito sensível. Um m ercado m uito difícil para forasteiros”.

Em agosto de 2009, num a decisão m uito esperada, a Organização Mundial do Com ércio (OMC), respondendo a queixa apresentada em 2007 pelos Estados Unidos, considerou em Genebra que a China violava as regras do com ércio internacional ao lim itar a im portação de livros, m eios de com unicação, discos e film es. A displicência chinesa em m atéria de pirataria e o desrespeito às leis internacionais de direitos autorais tam bém foram sancionados. Entretanto, quaisquer que sej am as consequências da decisão — da qual a China recorreu —, os am ericanos parecem por enquanto ter virado a página chinesa.

Nos últim os m eses, os escritórios da Warner em Beij ing e da Colum bia em Hong Kong foram fechados. A Disney continua esperando o sinal verde das autoridades chinesas para construir seu parque tem ático em Xangai. A Google am eaça retirar-se da China. A antiga diretora da Warner, Ellen Eliasoph, é hoj e advogada de um a grande em presa am ericana e continua vivendo em Beij ing. Barbara Robinson deixou a Colum bia e continua vivendo em Hong Kong. Peter Loehr continua contratando artistas locais, à espera de que a China se abra. Quanto a Paul Aiello, o diretor-presidente da Star, acaba de anunciar que deixará a chefia da em presa e que o grupo vai efetuar um a retirada estratégica de Hong Kong para Mum bai.

Escaldados pelos sucessivos fracassos na China, pela censura e as cotas de Beij ing, assim com o por esse capitalism o autoritário de “dois pesos, duas m edidas”, os am ericanos têm um novo plano: trocar o leste da Ásia pelo sul da Ásia com o destino de seus investim entos. Em sum a: abandonar a China para conquistar sua rival, a Índia. Em vez de um m ercado de 1,3 bilhão de chineses, os am ericanos dispõem -se a se contentar com um m ercado de 1,2 bilhão de indianos. Afinal, continua sendo, com o eles dizem , um país de população na categoria “Billion +” (m ais de um m ilhão).

Em m arço de 2009, a Motion Picture Association abriu um escritório na Índia. Os estúdios Disney, Warner Bros., 20th Century Fox e Param ount abriram escritórios em Mum bai e com eçam a produzir film es localm ente. A MTV decola na Índia. As séries produzidas pela Colors, o canal da Viacom , fazem sucesso arrasador. E por que não, no lugar de Kung Fu Panda, produzir outros Quem quer ser um milionário? Para os am ericanos, sem pre em busca de um a nova fronteira e de um novo m undo, a nova China se cham a Índia.