Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
Quando a pipoca se transforma em modelo econômico
Diante de sem elhante gigantism o, o AMC Mall of Am erica 14, o m ultiplex local, parece incrivelm ente m odesto. Nele, Avatar só pode ser visto em 22 telas por dia (o que é pouco, com parado com as quarenta telas disponíveis no AMC Em pire 25 em Tim es Square, Nova York). Mas o fato é que esse tipo de m ultiplex pertence à nova geração desenvolvida na década de 1980 pela rede canadense Cineplex-Odeon, que com bina o núm ero de salas dos m ultiplexes da prim eira geração com o gigantism o dos palácios cinem atográficos de antes da guerra. Nele, as salas são m ais am plas, situadas nos andares superiores, e não m ais no subsolo, com o anteriorm ente; através das enorm es vidraças, é possível ver a cidade-subúrbio se estendendo ao infinito.
Ao contrário dos dirigentes dos estúdios holly woodianos, que assum em riscos e às vezes j ogam roleta-russa, os donos de salas de cinem a sabem perfeitam ente o que estão fazendo: sabem que são vendedores de pipoca.
A história da chegada da pipoca às salas de cinem a am ericanas rem onta à Grande Depressão de 1929. Muitas vezes ainda independentes, os donos de cinem as precisam de novas receitas financeiras nessa época de falência nacional. Verificando que os espectadores, antes de ver o film e, com pram balas em pequenas “delis” ou “diners” nas proxim idades dos cinem as, eles têm a ideia de com eçar por sua vez a vender bom bons ou garrafas de Coca-Cola no seu próprio caixa. E são surpreendidos pelo enorm e interesse do público.
A pipoca, produto m ágico, torna-se popular na década de 1930. Oferece a vantagem de ser fácil de fazer e de ter um custo ínfim o em relação ao preço de venda: 90% do rendim ento são puro lucro. Eis então que os drive-ins e logo tam bém os m ultiplexes constroem seu m odelo econôm ico em torno da pipoca. Os cinem as passam a com prar o m ilho de pipoca no atacado, diretam ente das indústrias agroalim entares que o refinam , e m áquinas autom áticas m ais eficazes com eçam a ser com ercializadas. Paralelam ente, a indústria do m ilho, concentrada no Midwest, m ultiplica sua produção por vinte entre 1934 em 1940. Os Estados Unidos se transform am no m aior produtor m undial de m ilho, e continuam a sê-lo. O lobby do “corn” se organiza no Congresso, em Washington, estim ulado pelos departam entos de Agricultura e da Guerra. Com isso, o “corn” invade todos os produtos, m uitas vezes apresentado em form a de “corn sy rup” e, a partir da década de 1970, de “high fructose corn sy rup” (um a espécie de xarope de açúcar de m ilho com um teor de frutose m uito m aior do que o açúcar de cana). Ele é encontrado nos iogurtes, biscoitos, cereais, no ketchup, no pão de cachorro-quente e ham búrguer e, claro, na Coca-Cola e na Pepsi. Diante desse autêntico m otivo de orgulho agrícola nacional, todas as tentativas ecológicas, sanitárias ou dietéticas de lim itar a invasão do açúcar de m ilho e dos derivados do corn na alim entação fracassaram , em vista de seu preço baixo e da eficácia do lobby. E no entanto está provado que o corn sy rup e o high fructose corn sy rup são fatores agravantes da obesidade am ericana.